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sábado, 15 de outubro de 2011

Série Memória Afetiva: as melhores amigas da ficção




Dedico “prazamiga”

Estava eu um dia em casa com meus grandes amigos Ivan Gomes, Walter de Azevedo e Wesley Vieira, quando surgiu a ideia. Nem lembro quem comentou primeiro, mas começamos a fazer um brainstorm procurando lembrar daquelas personagens que estão sempre ali pro que der e vier: as melhores amigas das telenovelas. Elas são geralmente chamadas de "personagens-orelha" no jargão técnico. Mas algumas delas são muito mais que isso. A lista é infindável, pois elas estão praticamente em todas as novelas e séries. Por isso, mais uma vez, meu critério vai ser subjetivo. Elas não representam as melhores ou mais inesquecíveis, mas sim aquelas que falam mais alto em minha memória afetiva.



Claro que, quando pensei nesse post, não consegui tirar de minha cabeça duas autênticas representantes desse tipo de personagem, ambas de “O astro”: a funkeira Tânia (vivida brilhantemente por Carolina Chalita), a batalhadora e esfuziante melhor amiga de Lili (Alinne Moraes); e a sensual executiva Beatriz (a linda Guilhermina Guinle), a melhor amiga de Amanda (Carolina Ferraz). Claro que ambas possuem trama própria na novela: Tânia acabou se enrabichando pelo tímido Olavo (Rafael Losso) formando um dos casais mais fofos da novela, enquanto Beatriz, depois de se envolver com Samir (Marco Ricca) e arrastar a asinha pra cima de Herculano (Rodrigo Lombardi), acabou engatando um romance pra lá de caliente com seu “namorado bandido”, Neco. A partir das duas, pra quem também dedico meu post, comecei a me lembrar de outras melhores amigas favoritas. São elas:


10) Jandira (Cristina Galvão em “Insensato Coração - 2011)


Cristina Galvão já tinha vivido uma grande amiga em “Tieta” (1989), quando ajudava Imaculada (Luciana Braga) a se livrar das garras do Coronel Artur da Tapitanga (Ary Fontoura). Anos depois em “Paraíso Tropical”, viveu uma enfermeira camarada que ajudou Paula (Alessandra Negrini) a se livrar das armações de Taís. Mas foi com a companheira de cela de Norma (Gloria Pires) que ela conquistou definitivamente o Brasil e entrou para o rol das amigas mais queridas da ficção, afinal ela esteve com Norma até o fim em suas armações, se mostrando não só uma amiga fiel, mas como a mais confiável das cúmplices. Ótima dobradinha das atrizes e mérito da atriz, sempre doce e carismática. Quando cometer um crime, quero uma Jandira só pra mim.

9) Lenir (Guida Vianna em “Duas Caras” – 2008)


Guida Vianna é outra atriz que está cada vez mais se especializando em ser a melhor amiga, como Isolina, sua atual personagem em “Fina Estampa”, em que é uma das melhores amigas de Griselda (Lilia Cabral) e Wilma (Arlette Salles). Junto com Celeste (Dira Paes), parecem uma versão, digamos, diferenciada de “Sex and the City”. Minha primeira lembrança de Guida Vianna vem do cinema e já nesse papel de melhor amiga: era uma das empregadas amigas de Fausta (Betty Faria) em “Romance da Empregada”, de Bruno Barreto. Tanto que Aguinaldo batizou sua personagem com o mesmo nome da personagem de Betty no filme em “Senhora do Destino”, em que fazia a empregada de Nazaré (Renata Sorrah). Mas a “melhor amiga” mais divertida de sua carreira é a Lenir de “Duas Caras”, que não saía da casa da perua Gioconda (Marília Pêra). De nada adiantava colocar vassoura atrás da porta. Lenir tomava café da manhã, almoçava e jantava na casa da amiga, para o desespero do dono da casa Barreto (Stenio Garcia). Apesar de usar e abusar da hospitalidade da amiga e de não ter o menor semancol, Lenir era uma companhia divertidíssima, sempre com ótimas tiradas e dona dos comentários mais inconvenientes nas piores horas, o que garantiu uns dos melhores momentos da novela. 


8) Eliete (Isabela Garcia em “Celebridade” – 2003)


Era o tipo da amiga que dizia sempre o que pensava, doa a quem doer. Inspirada na camareira ranzinza de Margo Channing (Bette Davis em “A malvada”), Eliete era o anjo da guarda de Maria Clara Diniz (Malu Mader). Mesmo de classes sociais diferentes, as duas tinham muita cumplicidade. Eliete era sacoleira e fazia questão de não aproveitar as vantagens financeiras que poderia ter em ser amiga de Maria Clara. A exemplo do filme, foi a única a perceber que o jeito doce de Laura (Claudia Abreu) escondia uma terrível vilã capaz de tudo para prejudicar Maria Clara. Mas Laura era tão sonsa e dissimulada que conseguiu fazer com que todos pensassem que Eliete estava com ciúmes da amiga. A grande (e impagável) vingança da sacoleira foi quando foi visitar Laura no hospital após esta levar uma surra de Maria Clara. Eliete debochou do fato de Laura ter perdido um dente após a surra e tripudiou o quanto pôde na vilá. Claro que a plateia vibrou e se sentiu vingada também. Curiosidade: Malu Mader e Isabela Garcia também são grandes amigas na vida real.


7) Leopoldina (Beth Goulart em “O primo Basílio” – 1988)

Essa é uma melhor amiga clássica, não só na teledramaturgia, como também na literatura. A “pão e queijo”, como era conhecida por toda a Lisboa, Leopoldina era uma mulher de péssima reputação por trair o marido constantemente com todo tipo de homem. Por isso, a amizade dela com Luisa (Giulia Gam) não era vista com bons olhos pelo marido desta Jorge (Tony Ramos). Mesmo assim, Leopoldina era a mais fiel das amigas e foi cúmplice da traição de Luisa com Basilio (Marcos Paulo) e fez de tudo para tentar livrar a amiga da chantagem de Juliana (Marilia Pera). Mesmo quando Luísa jogou em sua cara a má fama que ela tinha e mesmo rejeitada pela amiga no final de sua vida, Leopoldina foi companheira até o fim. Uma grande personagem de Eça, transposta brilhantemente para a telinha por Gilberto Braga e muitíssimo bem interpretada por Beth Goulart. Uma de minhas personagens favoritas do livro / minissérie.


6) Rosinha (Betty Faria em “Incidente em Antares” – 1994)


Foi uma pequena participação de minha diva, mas um dos melhores momentos da minissérie. Betty brilhou na pele da singela e sofrida prostituta Rosinha, melhor amiga da também prostituta e recém-falecida Erotildes (Marília Pêra) e única a não sentir medo da amiga após sua morte. Betty fez pouquíssimas cenas na minissérie, mas uma bastante tocante foi quando ela maquiou a amiga depois de morta para que ela se juntasse aos outros defuntos que não foram enterrados devido a greve dos coveiros. Em uma cena quase felliniana, Rosinha, após lamentar por todo o seu sofrimento de uma noite em que foi violentada por vários rapazes, faz um pedido final à amiga ao se despedir: “Pede a Deus que me dê uma boa morte, já que ele não me deu uma boa vida”. Um momento breve, mas extremamente sensível e emocionante que contou com uma interpretação visceral de Betty Faria, que soube empregar singeleza, melancolia e intensidade na dose certa. Confesso: uma de minhas cenas favoritas de toda a carreira da atriz.

5) Guiomar (Louise Cardoso em “Força de um desejo” – 1999)


Cortesãs costumam ter amigas fiéis. E no caso da esplendorosa Ester Delamare (Malu Mader), ela tinha mais que uma amiga: um verdadeiro cão de guarda. Com seu jeito irreverente e despachado, Guiomar comprava todas as brigas da amiga, não só na capital, mas também quando se mudaram para o interior. Esperta, gaiata e descolada, Guiomar sempre tinha uma carta na manga para salvar Ester dos apuros e sem papas na língua, sempre dizia os desaforos que o espectador queria ouvir. Vivia às turras com Bartolomeu, mas no fundo era amor recolhido. Protagonizou momentos hilariantes da luxuosa trama de Gilberto Braga e Alcides Nogueira ao dar aulas de boas maneiras para a aspirante a baronesa Bárbara Ventura, brilhantemente interpretada por Denise del Vecchio. Além do grande alívio cômico da trama, Guiomar cumpriu com louvor sua missão de melhor amiga até o fim.

4) Marta (Bia Nunnes em “História de amor” – 1995)

Todas as Helenas de Maneco sempre puderam contar com grandes amigas, mas Marta é minha favorita de todas. Mais que amiga: comadre, cúmplice e grande ombro de Helena (Regina Duarte). Marta gostava tanto da amiga que acabou revelando à mimada Joyce (Carla Marins) que Helena não era sua mãe biológica, pois não suportava mais os maus tratos da filha ingrata. Marta perdeu a amizade de Helena, mas pelo mais nobre dos motivos. Fora isso, também foi um dos grandes destaques da novela ao superar um câncer de mama. A trama foi contada com muita delicadeza e Bia Nunnes conseguiu uma interpretação sensível e marcante. Confira a cena em que Marta, após revelar a Joyce que Helena é, na verdade sua tia, a esbofeteia e lhe diz muitas verdades para defender a amiga Helena. Catarse total!



3) Solineuza (Dira Paes em “A diarista”- 2003/2009)


A “poia”, como era “carinhosamente” chamada pela amiga diarista Marinete (Claudia Rodrigues) foi, aos poucos, crescendo até se tornar o destaque absoluto da série. Burra de dar dó, mas com um grande coração, Solineuza sempre tinha a melhor das intenções e, ao tentar ajudar a amiga, sempre a colocava em grandes enrascadas. Dira Paes deitou e rolou no papel e suas tiradas proporcionavam as maiores risadas da história. Com um jeito atrapalhado e ingênuo, Solineuza nos despertava compaixão, graças à interpretação genial de Dira Paes, que conseguiu um precioso equilíbrio entre o humano e o caricatural. Mesmo aprontando as mais inacreditáveis loucuras, Dira nos fazia acreditar que a personagem estava levando sempre tudo muito a sério. Sem sombra de dúvidas, a singela Soli era o grande motivo de se assistir “A diarista”.


2) Carmosina (Arlette Salles em “Tieta” – 1989)


A sonhadora funcionária dos correios foi um dos melhores papéis da Arlete Salles e entrou para a galeria dos personagens inesquecíveis da novela. Carmosina abria as cartas no bico da chaleira (costume herdado de sua mãe Dona Milu, vivida pela inesquecível Miriam Pires) e, desta forma, conhecia todos os segredos dos moradores da cidade, algo impensável de se colocar em uma novela nos dias de hoje por conta da onda politicamente correta que assola nossa tevê. Solteirona, ou “no caritó”, como se dizia na novela, Carmosina foi a única a oferecer ajuda para Tieta (Claudia Ohana / Betty Faria) quando esta foi expulsa de Santana do Agreste. Quando a cabrita volta à terra natal, as duas retomam a amizade e Carmô se torna sua grande confidente, inclusive sabia dos planos de vingança da amiga e do romance dela com seu sobrinho Ricardo (Cassio Gabus Mendes) e também seu grande segredo: Tieta não era viúva de um comendador, mas sim dona de um famoso bordel. A amizade das duas chegou a ficar abalada quando ela descobriu que Tieta pagou Gladstone para “inaugurá-la”. Mas o amor  e amizade prevaleceram e a ex-invicta terminou feliz ao lado de seu amor e fez as pazes com a grande amiga. Carmosina é uma das personagens que mais me comove. Me fez rir e me fez chorar com cenas magníficas. Essa bate fundo na memória afetiva.

1) Ronalda Cristina (Catarina Abdalla em “Armação Ilimitada” – 1985/88)

Essa é uma das mais autênticas representantes do gênero. Com um apetite voraz, tanto para sanduíches, quanto para homens, Ronalda Cristina era a grande amiga e confidente de Zelda Scott (Andréa Beltrão) e segurava todas as barras e dores de cotovelo da amiga, sempre as voltas com seus amores Juba e Lula (Kadu Moliterno e André di Biase). Ronalda era tão amiga que até batizou com o nome da amiga a filha que teve com um extraterrestre (!): Zeldinha Cristina, um bebê com poderes sobrenaturais. Dentro da proposta deliciosa e revolucionária que era a série, Ronalda funcionava como a cereja do bolo, sempre irreverente e sempre levantando o astral da amiga. Uma gostosura inesquecível. Confesso: formou meu caráter.


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Menção honrosa: ZÉ MARIA (Guilherme Piva em "Xica Da Silva" - 1996)
Tá, não foi propriamente uma "melhor amiga", mas teve essa função na deliciosa trama de Adamo Angel, pseudônimo de Walcyr Carrasco na extinta TV Manchete. Zé Maria aguentava todos os desaforos de sua amiga sinhá e foi responsável pelos momentos mais engraçados da novela. 
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Agora é a sua vez! O melão quer saber: quais suas amigas favoritas da ficção?


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Betty Faria: estrela de primeira grandeza - Entrevista mais que especial!

                                                                                                                                                                   


2010 é mesmo um ano de realização de sonhos. Não bastasse todas as conquistas do melão, todas as pessoas bacanas que cederam entrevista, agora, além de ser uma honra para o blog, é a verdadeira glória para o blogueiro. Sinceramente, nesse momento, jogo a técnica para o alto e me deixo levar puramente pela emoção, pois nunca pensei que um dia fosse ter o privilégio de entrevistar simplesmente minha atriz favorita de todos os tempos.

Musa do melão de qualquer estação, uma das maiores estrelas da TV com mais de 30 novelas e sinônimo de talento, beleza e alto astral, Betty Faria, muito carinhosamente, nos fala sobre sua vida, sua carreira, sua vida de blogueira e muitos outros assuntos. A atriz se incomoda com a onda politicamente correta e declara que o Brasil encaretou, revela quais são os autores que gostaria de trabalhar, rejeita a tese de que faltam bons papéis para veteranos e relembra personagens inesquecíveis como Tieta, Lucinha e muitas outras.

Enfim, além dos autores, o melão agora abre um novo ciclo: entrevistas com atores e atrizes. E a primeira delas não poderia ser outra senão a maravilhosa BETTY FARIA! Estrela de primeiríssima grandeza e ser humano ímpar!




Inevitável não começar pelo início (risos!). Você já deve ter respondido isso muitas vezes e, inclusive, já contou em sua biografia “Rebelde por natureza” lançada pela Imprensa Oficial, mas conte-nos como tudo começou. Como aquela filha única de militar que estava destinada a ser uma bailarina enveredou pela carreira de atriz?
BETTY- O ballet foi a porta que abri no show business, mas não me realizava. Eu queria ser uma atriz que cantava e dançava. Batalhei muito fazendo cursos de teatro, conhecendo pessoas, pedindo oportunidades e chance para fazer testes, que foram muitos, até que consegui um papel na comédia “As Inocentes do Leblon” e passei no teste para o filme “Amor e Desamor”.


 Você esteve no elenco de muitas novelas de Janete Clair e até contou no espetáculo “Betty.doc” que ela foi sua fada madrinha, sobretudo lhe deu muitas chances em seu início de carreira e lhe presenteou com personagens inesquecíveis como a Lucinha de “Pecado Capital”. Quais são suas melhores lembranças da autora e das novelas dela em que esteve? Chegaram a ser amigas?
BETTY - Fiz algumas novelas de Janete, acho que cinco, e comecei com pequenos papéis que foram crescendo até chegar em “Pecado Capital”. Durante esse tempo, tive a sorte de ser reconhecida por ela, e nos tornamos amigas. Janete sempre foi muito carinhosa comigo. Um amor de pessoa, amiga e solidária.

Betty como Lucinha em "Pecado Capital" (1975). Na foto à dir. com a saudosa Elza Gomes

Tieta” foi um marco indiscutível em sua carreira. Você a compôs com uma propriedade tão grande e arrebatou o Brasil de tal forma que fica impossível imaginar a personagem na pele de outra atriz que não seja você. Além de utilizar as características da personagem escrita por Jorge Amado e adaptada para a TV por Aguinaldo Silva, quanto de Betty você emprestou a Tieta?
BETTY - Tieta tem a característica da pessoa que quer ser feliz, com talento pra isso. Acho que isso nós duas temos em comum, pois eu me esforço sempre para viver positivamente. Quando estudo um personagem e começo a fazer, empresto meu corpo e emoções pra ele. Então é o personagem, entende? Mas sou eu lá, “fazendo de conta”.





 
Uma cena marcante de Água Viva” (1980) foi a surra que sua personagem Lígia deu em Selma (Tamara Taxman) no banheiro de uma famosa casa de shows. Tanto que o autor Gilberto Braga repetiu a mesma situação anos depois em “Celebridade” (2003). A cena impressiona pelo realismo. Parece que você está batendo de verdade em Tamara. Foi difícil fazer a cena?
BETTY - Esse tipo de cena sempre preocupa, pois eu quero fazer com verdade, pra valer, e, ao mesmo tempo não machucar quem esta contracenando comigo. É o jeito de bater, a técnica, sem perder a concentração, motivação e emoção.





 “Incidente em Antares” é uma minissérie pouco lembrada, mas que contém atuações primorosas, dentre as quais destaco sua pequena, mas muito marcante participação. A cena em que sua personagem Rosinha pede que a personagem de Marília Pêra leve um recado pra Deus é das mais belas, singelas e líricas que já vi na TV. Como surgiu o convite para fazer a minissérie e que lembranças você tem dela?
BETTY - Paulo José me convidou. Em todos os trabalhos passamos por situações, às vezes, engraçadas, outras chatas, outras difíceis, mas nessa cena que você gosta, aconteceu uma coisa que todos da equipe que estavam lá, lembram até hoje. Estávamos nos preparando pra gravar , quando no fundo do cenário passou uma cadeira de rodas vazia. Não tinha ninguém sentado nem empurrando a cadeira. Ela simplesmente passou pelo cenário vazia andando, aliás, rodando. E ficamos estatelados, pois gravávamos num antigo leprosário desativado. Deu um medo! Nunca mais esqueci. Saímos de lá depois de concluído o trabalho, achando tudo que você pode imaginar. Foi forte!


Seu personagem mais recente na TV, a Amália Petroni de “Uma rosa com amor” mostrou uma Betty diferente do que o grande público está acostumado a ver pela TV, pois te deu a oportunidade de fugir do estigma de mulher sexy. Você acha que ela representou um divisor de águas em sua carreira?
BETTY - Mulher sexy nessa idade? É engraçado isso e lisonjeador, mas nem me passa pela cabeça. Fui compondo Amália com a idade dela (60anos) com a realidade que ela vivia com aquele marido, filhos, dureza de vida, e condição social. Gostei de fazer Amália, me diverti também muito com ela.

Betty como Amália Petroni em "Uma rosa com amor" (2010)


Você emprestou a Amália características de Shirley Valentine, personagem de sua atual peça que lhe rendeu uma indicação ao Shell?
BETTY - Shirley Valentine é totalmente diferente de Amália. Shirley estudou, Amália não. Shirley fala com as paredes de tanta solidão a dois, Amália sempre conformada e feliz com sua vidinha no cortiço, nunca questionou os rumos de seu casamento, fazendo doces pra fora e preocupada com a família. Shirley consegue dar a volta e sair da vida que lhe fazia tanto infeliz.

Betty em cena no espetáculo "Shirley Valentine"

Que autores de TV você nunca trabalhou e que deseja trabalhar algum dia? E dos que você já trabalhou, com quem gostaria de trabalhar novamente?
BETTY - Dos autores que ainda não trabalhei e quero algum dia fazer um trabalho posso citar João Emanuel Carneiro, Silvio de Abreu e Maria Adelaide Amaral. Eles são maravilhosos! Dos que trabalhei, posso citar Gilberto Braga, Gloria Perez e Aguinaldo Silva, claro, pois fiz muitos personagens lindos que ele escreveu.


Betty com Gilberto Braga, com quem trabalhou diversas vezes; e Sílvio de Abreu, com quem ainda não trabalhou

Tieta, Lucinha, Marina Cintra, Lazinha Chave de Cadeia, Mirandinha, Lígia, Jussara, Glória, Maria Maravilha, Lili Carabina, Walkiria... você costuma interpretar mulheres diferentes entre si, mas com uma característica em comum: são sempre mulheres fortes e batalhadoras que juntas podem formar um painel do imaginário feminino brasileiro. A que você atribui essa recorrência de personagens?
BETTY - Aconteceu. Não sei responder a essa pergunta direito.


Betty em cenas de "O espigão" (1974), "Partido Alto" (1984) e "A indomada" (1997).

Você é uma das poucas atrizes brasileiras que cantam, dançam e representam, ou seja, uma artista completa. Atrizes desse tipo são pouco valorizadas em nosso país? Por que?
BETTY - Hoje, com a frequência de grandes musicais no teatro, as atrizes que cantam e dançam já estão bem mais valorizadas.

Em sua premiada carreira no cinema, você teve oportunidade de encarnar personagens que explorassem mais sua versatilidade como nos filmes “Bye, bye Brasil”, “Romance da empregada”, “A estrela sobe”, “Chega de saudade”, entre tantos outros. Gostaria de trabalhar no cinema com maior freqüência? Quais são suas personagens favoritas?
BETTY - Gostaria sim de fazer mais cinema, mas isso não tem acontecido. É difícil dizer as personagens favoritas mas vamos lá: “A Estrela Sobe” (Leniza Mayer), “O Cortiço” (Rita Baiana), “Anjos do Arrabalde” (Dália), “Bye Bye Brasil” (Salomé) , “Romance da Empregada” (Fausta) e “Chega de Saudade” (Elza). Às vezes esqueço o nome dos personagens, por isso escrevi os títulos dos filmes.


Dois momentos de Betty no cinema: "Bye, Bye, Brasil" (1979) e "Chega de saudade" (2007)


E graças à sua carreira em cinema, você foi a representante brasileira do 38th AFI Life Achievement Award, na Califórnia em junho deste ano e teve a oportunidade de conhecer Meryl Streep. Como foi seu encontro com a atriz e o que você achou do evento?
BETTY - Foi um encontro muito agradável, simpático, conversamos muito e ela, Meryl ,me deixou a impressão de que é da “turma”. Uma atriz como todas nós. Foi uma delicia conhecê-la. O evento foi lindo, com homenagem a Mike Nichols, um grande cineasta e um cara agradabilíssimo, simples, inteligente e humilde. Ganhei 10 filmes dele e fiquei babando de felicidade. Todos que trabalharam com ele estavam lá, e foi uma noite de superstars. Um luxo! Momento inesquecível em minha vida. Valeu.


Betty Faria e Meryl Streep


 Na novela “O salvador da Pátria” (1989), sua personagem, Marina Cintra, protagonizou cenas ousadas como as que ela admitia não ter sentido prazer após uma transa ou falando sobre sexo abertamente com as filhas e outras situações inimagináveis hoje em dia em uma novela. Acha que a TV encaretou?
BETTY - O Brasil encaretou. É tudo muito politicamente correto. O que a mídia valoriza é o que vale, tipo celebridades que vão a todos os lugares, etc e tal, mas ninguém ousa transgredir ou dar uma opinião contrária ao comportamento padrão. ACHO UM SACO.

Em evento recente no CCBB, Regina Duarte declarou que não é mais chamada para atuar na TV com a mesma freqüência de antes e que, provavelmente, nunca mais fará uma protagonista. Você acha que a oferta de bons papéis diminui para os veteranos e por quê?
BETTY - O grande perigo e tentação dos contratos longos é esse: Virar móveis e utensílios de um lugar e se sentir desprestigiada. Faz mal à autoestima. Eu não posso me queixar, pois tenho feito nos últimos anos bons papéis. Então é sorte também, sei lá. Fernanda Montenegro está fazendo um papel maravilhoso

Você foi uma das celebridades que aderiu ao blog, que acabou servindo pra reunir num só espaço alguns de seus fãs, inclusive os que participam de sua comunidade no Orkut, carinhosamente chamados de “Família Betty”. O que te levou a criar um blog e que tal a experiência de blogueira?
BETTY - Fui convidada logo que começou o Bloglog e aceitei. Nunca me passou pela cabeça, mas fiquei tão feliz quando senti pessoas bacanas, carinhosas, trocando figurinhas comigo que agora não paro mais. Adoro a família Betty e me sinto orgulhosíssima por ter isso. Só acho que meu blog não bomba. Quando escrevi alguns assuntos polêmicos teve mais gente, mas também não estou a fim de escândalo, nem tomar porrada na rua. Então faço um blog light, bem comportado.


Betty com alguns de seus blogueiros ao final do espetáculo Shirley Valentine, no CCBB-SP.

 
 Em sua biografia “Rebelde por natureza”, você fala de sua vida com uma sinceridade e uma verdade poucas vezes vista em um livro, admitindo inclusive que cometeu muitos erros no passado e melhorou muito como pessoa. Isso é de uma humildade admirável. Foi o budismo que te trouxe essa serenidade?
BETTY - É um pacote. Uma pessoa que tenta se melhorar, tem que reconhecer seus erros, caso contrário fica velha chata, arrogante e burra. Claro que a filosofia budista, baseada na Causa e Efeito, tem o grande peso e valor.

Ainda explorando o título de sua biografia, quais as dores e delícias de ser “rebelde por natureza”?
BETTY - O preço altíssimo que se paga. Por isso que está todo mundo tão caretinha, arrumadinho e politicamente correto. Em 2010, ninguém mais ousa contestar. A minha rebeldia diz: Quanta hipocrisia!

Você é noveleira? Quais as novelas e personagens favoritos da Betty telespectadora?
BETTY - Sou noveleira e vejo tudo sempre que posso. Agora “Passione”, é minha favorita. Estou apaixonada por essa novela, mas estou gostando de “Ti Ti Ti”. Tem muita gente boa também.

Você recentemente comprou os direitos do musical da Broadway “Applause”. O que pode adiantar sobre o projeto?
BETTY - Ainda não da pra falar de Applause, pois tenho que resolver primeiro quem vai produzir, dirigir e traduzir. Acredito que mais um tempinho já terei uma posição a respeito.


No quadro “Arquivo confidencial” do Domingão do Faustão, seus filhos revelaram, de maneira muito emocionante, seu lado mãezona e você é frequentemente vista passeando com a neta por todos os lugares. Como é a Betty mãe, avó e mulher? O que gosta de fazer quando não está trabalhando?
BETTY - Gosto de ficar em casa, ir à praia, ao cinema, teatro e conversar com os amigos. Como mãe, avó e mulher, dou o meu melhor, mas não sei dizer como sou, pois corro o risco de ficar me elogiando e dizendo que sou bacana feito boba. Às vezes nem to agradando tanto assim, né?

Aliás, o público sente saudades de Alexandra. Ela tem planos de retomar a carreira?
BETTY - Tenho muito cuidado para não responder pelos meus filhos. Mas Alexandra hoje é uma astróloga ótima, adora e estuda com seriedade Astrologia, e acho que ela não gosta muito do meio artístico (que é competitivo, duro, com muita falsidade, lobbys, etc.). A sensibilidade dela nunca aceitou esse tipo de coisa. Talvez uma vocação maior aceitasse. Talento e estudo ela teve, mas, hoje ela está mais feliz com Astrologia. Quem sabe muda? A gente nunca sabe, né?

Querida, quero agradecer muitíssimo por seu carinho, paciência, disponibilidade e generosidade. Você está realizando, não só o sonho deste fã que vos fala, mas de muita gente que acompanha o blog que admira você e o seu trabalho. Agora mais do que nunca, é a MUSA DO BLOG!!! Parabéns, não só pela carreira vitoriosa, mas por ser essa pessoa com um talento enorme, não só na arte, mas também, como você menciona sempre, com um talento pra felicidade. Deixo sse espaço livre pra você falar o que quiser! O que não perguntei que você gostaria de dizer?
BETTY - Beijos muitos de Boa Sorte!

 
 
No vídeo abaixo, Betty canta "Esses Moços" para alguns de seus fãs:
 
 

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