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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Melão Entrevista o mestre MARCÍLIO MORAES!




Pra começar o ano em grande estilo, nada melhor do que um entrevistado mais do que especial. Sim, pois esse blog se dá ao luxo de entrevistar apenas os profissionais que admira. E Marcílio Moraes, certamente, é um deles. Da qualidade indiscutível de autor-roteirista, escritor e dramaturgo nem preciso falar, mas também tive o privilégio de ter sido aluno desse grande mestre e de privar de sua companhia, sempre simpática e agradável. De uma forma muito franca e honesta, Marcilio discute a questão da classificação indicativa no audiovisual, bem como a inevitável interferência das emissoras no trabalho autoral, faz um balanço de sua gestão como presidente da Associação dos Roteiristas, aborda a questão da quase inexistência de crítica televisiva em nosso país e do papel dos blogues independentes, nos conta de sua relação com seu grande mestre Dias Gomes e, claro, de seus principais trabalhos na televisão como as novelas “Essas Mulheres”, “Ribeirão do Tempo” e “Vidas Opostas” e as minisséries “Chiquinha Gonzaga” e “As noivas de Copacabana”, entre outras. Delícia de papo. Espero que curtam e feliz 2012 a todos!


Melão - Que avaliação que você faz de seu trabalho à frente da presidência da AR – Associação dos Roteiristas? Quais foram as maiores conquistas de sua gestão e quais são os maiores desafios do novo presidente, Newton Cannito?

Marcílio - Eu já escrevi um relatório da minha participação na presidência da AR, que pode ser visto no meu site pessoal, www.marciliomoraes.com.br . Em termos de avaliação, creio que a razão fundamental pela qual a AR existe foi alcançada ao longo desses dez anos: dar ao autor-roteirista brasileiro uma identidade própria, independente da empresa ou do produtor para o qual trabalhe. Graças à AR, hoje há a consciência profissional de que não basta encher o peito e dizer que é da Globo ou da Record, ou que trabalha com tal ou qual diretor.

Em termos de realizações, temos o nosso Código de Ética, fundamento da associação; a própria estruturação administrativa e legal da entidade; a presença independente e firme no panorama da política audiovisual; o respeito que obtivemos das outras entidades e das burocracias governamentais; a luta pela plena liberdade individual de expressão; a luta pelos direitos autorais, etc.

Melão -  Qual sua posição pessoal sobre a classificação indicativa?

Marcílio - Enquanto artista, enquanto autor, eu não posso admitir que alguém, seja diretor de empresa ou burocrata do governo, conheça melhor o meu público do que eu mesmo. Em função disso, sou, por princípio, contra qualquer interferência na minha obra, e por conseqüência na dos meus colegas.
Assim sendo, não posso aceitar que uma entidade que me represente assuma compromissos, seja em nome do que for, com instâncias que têm o poder real de se imiscuir no que escrevo. No caso, órgãos governamentais ou empresariais.
Na vida profissional, muitas vezes sou obrigado a aceitar interferências. Tudo bem, faz parte do jogo. Mas a entidade que me representa não pode, de nenhuma forma, legitimar essa interferência. Tem que se manter como referência de princípio, não só para os autores-roteiristas como para produtores, diretores, emissoras e governos.

Melão -Independente das limitações criativas impostas pela classificação indicativa, parte do público, surpreendentemente jovem, tem se mostrado bastante conservador com relação a cenas mais sensuais e ousadas, algo que não acontecia com tanta frequência na década passada. Pude perceber isso como colaborador de “O astro” quando lia tais declarações através do twitter. A que você atribui esse fenômeno? Acha que o público “encaretou”?

Marcílio - A televisão aberta atinge muita gente para você tomar algumas manifestações individuais como tendência. Certamente há muita caretice por aí, inclusive de jovens. Na verdade, ser jovem nunca foi sinônimo de mente aberta.
Quem costuma jogar com uma pretensa reação do público a temas e cenas mais ousadas são as direções das emissoras. Se você ler o Código de Ética que a Globo segue, que é o Código da ABERT, verá que ele é tão ou mais rígido que aquele manual de classificação indicativa usado pelo Ministério da Justiça.

Melão - “Essas Mulheres” é uma de minhas novelas favoritas de todos os tempos. Acompanhei do início ao fim e considero um trabalho primoroso, sobretudo pelo texto. Você acredita que o fato dela ter tido apenas 140 capítulos contribuiu para esse bom resultado? Novelas de menor duração possibilitam um trabalho de maior qualidade?


Marcílio - Novelas, pela sua própria natureza, são longas, o que não significa que quanto mais longa melhor é uma novela; nem o contrário, que sendo mais curta adquire mais qualidade. “Essas Mulheres” foi uma excelente novela por várias razões, pela inspiração em José de Alencar, pelo nível das pessoas que escreveram, pela produção bem cuidada, embora simples, pela direção do Colatrello, etc. A duração não determinou esta excelência. Tinha fôlego para chegar aos 180 ou mesmo 200 capítulos, sem perda de qualidade.
Mas concordo que tramas menores são mais confortáveis, não só para o autor como para toda a equipe. Permitem um maior apuro. O problema é que as emissoras faturam muito mais com os prolongamentos. É difícil se contrapor a este argumento.

Melão - Como surgiu a ideia de “Vidas Opostas”? Com o novo seriado “Chapa Quente” você pretende concluir uma trilogia abordando essa temática de violência urbana, que também contou com a série “A lei e o crime” ou ainda tem fôlego para mais histórias do gênero?

Marcílio - Em 2006, a Record me pediu uma novela. Apresentei algumas opções, que iam de uma trama de época a uma bem atual, ousada, abordando corrupção policial, tráfico de drogas, com metade dos personagens vivendo na favela, etc. A direção da emissora, acertadamente, escolheu esta última. E daí surgiu “Vidas Opostas”. O assunto não era novo para mim. Eu tinha escrito poucos anos antes uma peça, “A Demanda”, que nunca consegui montar, só fiz leituras públicas, e o romance “O Crime da Gávea”, que tratam do mesmo universo.
A idéia de que pode ser uma trilogia não tinha me ocorrido. Interessante você ter pensado nisso. Mas não vejo “Chapa Quente” fechando um ciclo. Na nova série vou trabalhar sobre o mesmo universo, mas de uma perspectiva diferente. O gênero policial tem fôlego praticamente infinito. Veja a literatura, o cinema americano e europeu, as séries americanas. É um gênero popular e pode ser muito sofisticado. Ainda tenho fôlego para escrever muitas outras séries sobre o assunto.

Jacson (Heitor Martinez) em "Vidas Opostas"
Melão -  Jacson (Heitor Martinez), antagonista de “Vidas Opostas”, foi aos poucos ganhando a simpatia e torcida de parte do público. A que você atribui esse fato? Como dar dimensão humana ao antagonista fugindo do maniqueísmo, mas ao mesmo tempo manter a torcida do público pelo herói?

Marcílio - Eu sempre procuro evitar que a função dramática dos personagens se sobreponha a sua dimensão humana. Construí o Jacson não como um vilão malvado, mas como alguém que se posiciona na vida de uma forma não acomodada. Ele viveu uma circunstância social perversa e reagiu a isso se revoltando, assumindo a violência como postura de vida. Não parti de um julgamento moral ou político sobre ele, nem sobre nenhum outro personagem. O fato dele ter ganhado a simpatia do público prova que fui bem sucedido. O espectador foi levado, pelo menos em parte, a ver o mundo do ponto de vista dele.
Claro que numa novela, você, em algum momento, tem que decidir a direção para onde quer levar o público. Eu não podia levar a identificação do espectador ao ponto da novela terminar com a vitória do marginal. Daí incluí algumas ações em que o Jacson se mostrou de fato perverso, mau, arrogante. Cortei, por assim dizer, a empatia dele com o público, para não correr o risco de me acusarem de apologia às drogas... rs. Mesmo assim, mantive a ambigüidade até o fim. Quando Jacson morre, ele cai nos braços de Joana, que o ampara ao mesmo tempo em que dá a mão a mão ao namorado mauricinho, que acabou de ser espancado por ele.

Melão - “Ribeirão do Tempo” foi uma novela que inaugurou um novo estilo dentro da Record, uma crônica de costumes repleta de crítica social e política em que uma pequena cidade fictícia serve de metáfora e metonímia do nosso país. Seu trabalho como colaborador em “Roque Santeiro” serviu de inspiração para criar essa história?

Bianca Rinaldi e Jacqueline Laurence em cena de "Ribeirão do Tempo"
Marcílio - “Inspiração” propriamente não. Foi uma influência, claro. O Dias Gomes foi um mestre para mim. Ele criou um plot inigualável e insuperável em “Roque Santeiro”. Eu nem me atreveria a tentar alguma coisa semelhante.
Minha intenção em “Ribeirão do Tempo” era outra. Queria, antes de tudo, brincar com os mitos da geração anos sessenta, a minha geração, especialmente a revolução socialista. Mas a turma, especialmente a imprensa, parece que não curtiu muito, porque ninguém falou no assunto. Daí não ter dado para desenvolver o tema como eu havia imaginado. Pena. Mais uma vez se comprova que questionamentos políticos, no Brasil, são difíceis de emplacar.

Melão - Dias Gomes foi um de seus parceiros mais constantes. Como era trabalhar com ele e que lições aprendeu com esse grande mestre?

Marcílio - Como já disse, o Dias foi meu grande mestre na televisão. Aprendi o que era de fato uma novela, não uma novela qualquer, mas uma novela crítica, naqueles primeiros 50 capítulos iniciais escritos pelo Dias.
Mas o fato de ter sido um mestre e um amigo não significa que não tivéssemos divergências. Em “Mandala” chegamos mesmo a ficar estremecidos, porque eu achei que ele tinha largado uma bomba de cem megatons na minha mão. Eu também era muito arrogante naquela época. E a novela provocou uma celeuma tal que, para qualquer pessoa envolvida, era difícil manter a cabeça fria.  Mas depois fizemos as pazes e voltamos a trabalhar juntos em “Noivas de Copacabana” e outras obras.

Vera Fischer e Nuno Leal Maia em cena de "Mandala"

Melão - “Mico Preto”, novela que escreveu em coautoria com Euclydes Marinho e Leonor Bassères, tinha um texto bastante ousado em que uma relação homossexual era discutida abertamente em pleno horário das 19 horas. Na época vocês sofreram algum tipo de censura ou resistência com relação à abordagem dessa temática?

Marcílio - “Mico Preto” foi a novela mais conflituosa que escrevi, em termos de bastidores. Não quero entrar em detalhes porque isso mexe com muita gente que ainda está por aí e não vale a pena.
A sinopse foi criada por mim. De fato, era bastante ousada, irônica, corrosiva. E engraçada. Entre outras, havia a história de um deputado, gay enrustido, que se casa com uma moça para tentar disfarçar sua condição. Mas não dá certo e ele acaba se juntando a outro gay, que era feito pelo Falabella, que se passa por mulher. Para complicar, um político machão, o Osvaldo Loureiro,  se apaixona pela pretensa mulher. E por ai ia.
A novela foi massacrada, não pelo público, mas internamente na Globo. Alguns figurões tinham forte interesse em derrubar a iniciativa. Naquela época a censura tinha acabado e ainda não havia a tal classificação indicativa, de forma que o governo não meteu o bedelho. O problema foi interno.



Melão - “Chiquinha Gonzaga”, minissérie que escreveu em co-autoria com Lauro César Muniz é, até hoje, um de seus trabalhos mais elogiados e foi a grande responsável por revelar aos mais jovens a vida e obra de uma de nossas figuras históricas mais importantes. Quais os cuidados que se deve ter em contar uma a história de uma personagem que existiu de fato? Qual o limite entre o ficcional e o biográfico?

Regina e Gabriela Duarte em dois momentos de "Chiquinha Gonzaga"

Marcílio - Foi uma honra ter sido convidado pelo Lauro para escrever junto com ele essa minissérie. No entanto, minha participação não foi grande. O mérito do trabalho é do Lauro.
Creio que “Chiquinha Gonzaga” é bem o exemplo de como adaptar a vida de uma personagem real às necessidades de uma obra dramática, sem trair os dados  biográficos e criando os conflitos e desenvolvimentos fictícios necessários para despertar e manter o interesse do telespectador.  O limite entre o ficcional e o biográfico se encontra na fronteira entre a chatice fiel e o interesse do público.

Melão -  Como é a divisão de trabalho entre você e seus colaboradores? Você costuma dar a liberdade a eles para criar dentro da escaleta ou sugerir novos rumos para as tramas?

Marcílio - Eu costumo escrever sozinho a sinopse e os 30 primeiros capítulos, quando se trata de uma novela. A partir daí, aos poucos, vou passando cenas para os colaboradores dialogarem, até que se familiarizem com os personagens, sua maneira de falar, etc.
A partir daí, foi cada vez mais me restringindo a fazer uma escaleta detalhada, deixando para eles a tarefa de dialogar. E faço uma revisão final do capítulo. Também costumo promover reuniões periódicas para discutir as tramas e os rumos da história.
De um modo geral, sou bastante centralizador. Dentro da escaleta, não dou margem para nenhum vôo do colaborador. Nas reuniões, ouço todas as sugestões e críticas e absorvo as que me parecem procedentes.

Melão -  Que conselho daria a alguém que pretende seguir a carreira de roteirista de televisão?

Marcílio - Se ele quer escrever novelas, aconselho a ler os clássicos da literatura, especialmente do século XIX.  

Melão - Você considera o gênero “telenovela” como algo menor se comparado ao cinema ou teatro? Qual o papel da telenovela na vida do brasileiro?

Marcílio - Geralmente não se atribui o status de obra de arte a uma telenovela, enquanto um filme ou uma peça de teatro podem aspirar a essa dignidade. Mas eu creio que também uma telenovela pode se tornar arte, ou pelo menos ter momentos de pura arte.
O que restringe o escritor, neste caso, são as exigências empresariais, comerciais  e da própria audiência.  É difícil escapar do sensacionalismo apelativo e se ater ao desenvolvimento dramático. Mas como disse, é possível.
A audiência brasileira está viciada em telenovelas. Creio que em nenhuma outra parte do mundo se tem todo o horário nobre da TV coberto por telenovelas. Isso só é bom para as empresas, que faturam mais com poucos riscos. Para os artistas e para o público, embora este muitas vezes não perceba, é uma prática muito restritiva. A TV brasileira precisa de novos formatos, novos desafios, mais polêmica. Só assim vamos  ampliar o mercado de trabalho e ter uma programação mais instigante e inteligente.

Melão -  Como você avalia a crítica televisiva em nosso país e qual a importância dos blogs e sites que fazem um trabalho paralelo, mas sem o vínculo institucional que possuem os críticos “oficiais”?

Marcílio - A crítica televisiva praticamente não existe no Brasil. De um modo geral, se confunde com o “colunismo”. A tradição monopolista, que ainda sobrevive, leva a isso. Raramente vejo análises pertinentes e um pouco mais profundas da dramaturgia de televisão. Na universidade surgem, de vez em quando, um ou outro trabalho mais aprofundado, mas que não chega ao público.  Neste sentido, o trabalho dos sites e blogs independentes é muito valioso. Dificilmente, por exemplo,  me pediriam uma entrevista como esta que estou dando num órgão da grande imprensa. É sempre tudo muito ligeiro, os jornalistas de modo geral são mal informados, não sabem o que você já fez, etc.

Melão - Pra terminar, que novela ou série você mais gostou de escrever e qual novela de outro autor que gostaria de ter escrito?

Marcílio - “Vidas Opostas” foi uma novela que gostei muito de escrever, porque rompi com alguns tabus da telenovela, porque falei de uma porção de assuntos e personagens que tinha vontade, etc. “A Lei e o Crime” também foi muito gratificante. Dos tempos da Globo, “Roda de Fogo” foi um desafio muito grande. Ali eu provei que era capaz de escrever uma novela. Também tenho ótimas recordações de “Noivas de Copacabana”.

Patricia Pillar e Miguel Falabella em "As noivas de Copacabana"
Mestre Marcílio, É uma grande honra poder contar com sua participação no melão e um privilégio ter tido você entre meus professores. Obrigado por tudo e sucesso sempre!



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Tide, só tinha de ser com você!!! - Entrevista especial com ALCIDES NOGUEIRA!!!





sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Série Memória Afetiva: 10 Trilhas Sonoras Nacionais de Novelas


Estava devendo esse post há muito tempo. Quando Wesley Vieira me propôs, logo disse que já tinha falado a respeito, mas na verdade falei de meus temas preferidos e não de trilhas sonoras inteiras. Como sei que o rapaz é aficionado por trilhas internacionais, deixei a tarefa pra ele e fiquei com as nacionais, que sempre foram minhas preferidas.
Mais do que um apanhado de hits do momento, minha seleção se baseou em trilhas que ajudam a contar a história e que mais se adequam ao estilo da trama. Lógico que também levei em conta meu gosto pelas canções. Desde os oito anos, quando adquiri meu primeiro LP, acompanho os lançamentos com frequência, mas já ouvia antes disso, através dos discos de minhas primas. Foi muito difícil escolher dez e já estou esperando pelas eventuais reclamações. Mas como sempre digo, listas são subjetivas, pessoais e intransferíveis. Cada um tem a sua e cada um sabe o que toca mais em seu coração. Vamos à minha:

10) TOP MODEL (1989)

Uma trilha sonora jovem bastante marcante, cheia de hits muito executados na época e que, principalmente, combinavam com a atmosfera leve e solar da novela, que misturava moda e surf. A princípio, todos se lembram de “Oceano” (Djavan), tema de Duda e Lucas (Malu Mader e Taumaturgo Ferreira); “À Francesa” (Marina Lima), delicioso tema de Duda nas passarelas; e “Hey Jude”, versão de Kiko Zambianchi do clássico dos Beatles, tema do surfista Gaspar (Nuno Leal Maia) e seus filhos, as três canções mais tocadas do álbum. Mas também há outros hits do momento que hoje em dia não são tão lembrados, como “Fica Comigo” (Placa Luminosa) e “Vida” (Fábio Jr.), tema da hilária doméstica Cida, interpretada pela genial Drica Moraes. Mas há canções mais obscuras que também gostava muito, como “Independência e Vida” (Rita Lee), “Babilônia Maravilhosa” (Evandro Mesquita), talvez a que mais combine com a novela; e “Bobagem”, com Léo Jaime”. Também tinha a pérola “Nega Bom Bom” (Os cascavelletes), tema do típico adolescente Ringo Starr (Henrique Farias) e seu curioso verso “punhetinha de verão”, que todo mundo adorava repetir na vitrola (risos). Mas talvez a canção que tenha envelhecido melhor e minha preferida até hoje é “Essa noite, não”, de Lobão, que vira e mexe, ouço em meu setlist. Em tempo: a trilha internacional também é incrível, mas isso já é assunto para nosso amigo Wesley.

9) CORDEL ENCANTADO (2011)
Descobri essa trilha tardiamente. Começou a me chamar a atenção na medida em que ia assistindo à novela e constatando uma incrível identificação entre as tramas e as canções. Além de canções nordestinas tradicionalíssimas e simbólicas como “Xamego”, com Luiz Gonzaga, também há o melhor da nova safra de músicos e compositores como Silvério Pessoa, Otto (com a emblemática “Carcará”) e Karina Buhr (com a deliciosa “Tum Tum”). Destaque também para a já cultuada “Maracatu Atômico”, com Chico Science e Nação Zumbi. Sem esquecer de ícones nordestinos da MPB como Caetano, Lenine, Gil (em dueto com a ótima Roberta Sá, cantando o tema de abertura), Alceu Valença (com a intensa “Na primeira manhã”), Maria Bethânia (“Estrela Miúda”, antigo sucesso do repertório de Marlene), Zé Ramalho (“Chão de Giz”) e a simplesmente arrebatadora “Melodia Sentimental”,  de Villa Lobos, com interpretação soberba de Djavan, o ponto alto da trilha. Todas casando perfeitamente com a trama. Há outras deliciosas canções interpretadas pela nova geração da MPB: “Coração”, com Monique Kessous; “Saga”, lindo arranjo e voz impressionante de Filipe Catto, “Quando assim” (Nuria Mallena) e “Beija-Flor”, com a incensada Maria Gadu, tema do par romântico central. Um acerto do começo ao fim.


8) FERA FERIDA (1993)

Lembro que minha primeira aquisição dessa trilha foi em fita k-7. Colocava à noite em meu moderno micro-system e ouvia até dormir. Tirando esse atestado de idade avançada que acabei de passar, fala muito em minha memória afetiva.  A começar pela canção-título interpretada com belíssimo arranjo e interpretada com vigor por Maria Bethânia. Um dos temas de abertura que mais combinou com a novela. Gosto de “Rio de Janeiro”, com João Bosco e “Sangue Latino”, com Renata Arruda, mas são as canções mais lentas e doces que me tocam mais nessa trilha como a magistral “Rosa”, de Pixinguinha, na voz de Marisa Monte; a arrebatadora “Corpo e Luz”, com Itamara Koorax, tema da sofrida Margarida Weber; a doce “Noites com sol”, com Flavio Venturini, tema de Áureo e Frida (Claudio Fontana e Deborah Evelyn) e a belíssima “Flor de Ir embora”, com Fátima Guedes, tema de Clara dos Anjos (Érica Rosa), canção que merecia uma personagem melhor. Mas o ponto alto da trilha é um clássico das canções de amor: “Al di la”, com Emilio Pericolli, tema do filme “Candelabro Italiano”, que aqui na novela foi belissimamente aproveitado como tema da romântica e atrapalhada Ilka Tibiriçá, em mais uma interpretação inesquecível de Cássia Kiss. A novela ainda teve um bom segundo volume de trilha nacional, mas o primeiro foi imbatível.


7) BAILA COMIGO (1981)



Curiosamente, uma das mais antigas da lista, mas que só me cativou recentemente. Na verdade, sempre fui apaixonado pela trilha internacional dessa novela que pertencia à minhas primas. Passei a infância ouvindo aquelas canções e morrendo de curiosidade pela novela. Recentemente, pude assistir e comprovar o feliz casamento das canções, todas solares, com a trama, a cara do verão da zona sul carioca do início dos anos 80.  A canção que abre o álbum, “O lado quente do ser”, com Maria Bethânia, é o tema da médica Lúcia (Natália do Vale), mas sempre achei que combinava mais com a professora de dança Joana (Betty Faria), que também tinha seu tema, “Deixa Chover”, sucesso de Guilherme Arantes e “Lua e estrela”, com Caetano Veloso, tema de Mira (Lídia Brondi). Nessa linha verão e alto astral, Marina comparecia com “Corações a mil”. Mas minhas favoritas são as mais dramáticas como “Viajante”, em visceral interpretação de Ney Matogrosso, tema do sofrido João Victor (Tony Ramos). A trilha incidental também ilustrava o drama da anti-heroína Helena, vivida pela inesquecível Lilian Lemmertz. Uma das mais curiosas é “Vida”, interpretada por Beth Goulart, uma das atrizes da novela. E também tinha a simpática “Vira Virou”, com Kleiton e Kledir, que tocava nas cenas gravadas em Lisboa, no início da novela. E pra coroar meu amor pela trilha, a capa com Betty Faria é a cereja desse delicioso bolo.


6) MANDALA (1987)

 Uma das mais comentadas e mais ouvidas em minha antiga vitrolinha. Claro que a referência maior é “O amor e o poder”, clássica, cult e tudo o mais na voz de Rosana, tema da “deusa” Jocasta (Vera Fisher). Essa, juntamente com “A paz”, com Zizi Possi, foram as faixas que arranharam de tanto que eu ouvia. Nessa linha “hit”, também há a bela e sofrida “Um dia, um adeus”, tema de Vera (Imara Reis), uma das minhas favoritas de Guilherme Arantes. Outros destaques são: a soturna “Mitos”, tema de abertura com César Camargo Mariano, talvez a que carregue maior identidade com a novela; “Bobo da Corte”, com Alceu Valença, tema do Vovô Pepê (Paulo Gracindo), que a TV Pirata pegou emprestada para ser tema do lendário Barbosa (Ney Latorraca), de “Fogo no Rabo”. Aliás, várias músicas dessa trilha também tocavam em “Fogo no Rabo”. Antes de “Celebridade” (2003), “Tema de Don Don” aparecia aqui na voz de Zeca Pagodinho. Outras faixas bastante lembradas são “Eu já tirei a tua roupa”, que só podia ser interpretada por Wando; e “Personagem”, mais uma daquelas baladas oitentistas de Fafá de Belém. Mas uma de minhas faixas favoritas é “Preconceito”, com Via Negromonte, que continua atualíssima e é uma ode contra todos os hipócritas e moralistas de plantão. Uma curiosidade totalmente pessoal e afetiva é que, na época, usava várias dessas músicas, como temas dos personagens das novelinhas que já criava naquela época. Não tem como não amar e como não lembrar.

5) LAÇOS DE FAMÍLIA (2000)


Tudo nessa trilha remetia à novela: desde as ensolaradas bossas-novas, passando pelos hits ensolarados até as baladas mais românticas. Tudo tinha cara de sol, mar e Leblon. E particularmente, também uma de minhas favoritas porque coincidiu com a época em que vim morar no Rio. Portanto, todas as músicas também ecoavam em minha fase de descoberta e encantamento pela Cidade Maravilhosa. O tema da protagonista Helena, “Como vai você”, antiga balada de Antonio Marcos, ganhou um belíssimo arranjo e uma interpretação tocante de Daniela Mercury e é uma de minhas favoritas. Impossível ouvir a canção sem se lembrar dos beijos de Vera Fischer e Reynaldo Gianecchini e o posterior sofrimento de Helena, ao abrir mão de Edu em favor da filha. Como já disse, a trilha exalava bossa-nova, desde a tradicional “Corcovado”, tema de abertura, aqui em uma versão híbrida de português e inglês na voz de João e Astrud Gilberto, com participação de Tom Jobim e Stan Getz; a adorável “Samba de Verão”, que ficou linda  e romântica na voz doce de Caetano Veloso; e “Baby”, na cultuada versão em inglês dos Mutantes, tema de Camila (Carolina Dieckmann). Outra canção que também ficou “bossanovada” foi o hit oitentista de Léo Jaime, “Mensagem de amor”, aqui na voz de Lucas Santana, num arranjo lindo demais, que foi tema da garota de programa Capitu, personagem que alçou Giovanna Antonelli ao primeiro time de atrizes globais. Fora do estilo bossa nova, tínhamos Deborah Blando, com “Próprias Mentiras”, que caiu como uma luva para a endiabrada Íris (Deborah Secco); “Solamente uma vez”, bolerão clássico na voz de Nana Caymmi, tema de Alma (Marieta Severo); “Perdendo dentes”, com Pato Fu, que também combinou perfeitamente com a personalidade de Cissa (Julia Feldens); a bonitinha “Balada do amor inabalável”, do Skank; e o pagode “O pai da alegria”, com Martinho da Vila, tema do casal popular Ivete e Viriato (Soraya Ravenle e Zé Victor Castiel). A trilha ainda trazia alguns temas internacionais como “Man, I feel like a woman”, delicioso country de Shania Twain, tema de Cíntia (Helena Ranaldi) e o clássico dos clássicos “My way”, pouquíssimo aproveitado na novela. Enfim, uma trilha pra se ouvir do início ao fim.


4) ESTÚPIDO CUPIDO (1976)


O que dizer dessa maravilha? Cresci ouvindo e até hoje morro de curiosidade pela novela, a qual só assisti aos dois primeiros capítulos, em relação às músicas. Bateu todos os recordes em seu lançamento, vendendo mais de 1 milhão de cópias e trouxe de volta todas aquelas canções memoráveis, relançando a carreira de Celly Campello, que emplacou dois de seus maiores sucessos: a canção-título e a deliciosa “Banho de Lua”, que abre o disco. Impossível ouvir e não sair dançando. Lembro que embalou várias festinhas de aniversário em minha casa. Embora o LP seja de minhas primas, acho que ouvi muito mais do que elas e talvez tenha sido o grande responsável pela minha paixão pelos anos 50 e 60. Tem opções para todos os gostos, desde as lendárias divas Maysa (“Meu mundo caiu”) e Sylvinha Telles (“Tetê”), passando pelas divertidas “Neurastênico” (Betinho e seu conjunto) e “Boogie do bebê” (Tony Campello) até os clássicos rocks da época como “Broto Legal” (Sérgio Murilo). Mas minha favorita é “Ritmo da Chuva”. A canção é tão ingênua, tão doce e, talvez por isso, sempre permaneceu em minha memória afetiva. Adoro cantarolar até hoje. Enfim, um álbum pra se ouvir sempre.


3) VALE TUDO (1988)

Outro do tipo em que as canções remetem absolutamente à trama. O tema de abertura, talvez o mais emblemático de todos os tempos, “Brasil”, na voz de Gal Costa, resume toda a novela e nos remete à clássica cena da banana de Marco Aurélio (Reginaldo Faria) para nosso país. Mas os sambas “Isto aqui o que é”, com Caetano veloso e “É”, com Gonzaguinha, também possuem uma fortíssima identidade com a novela. Outro destaque é a deliciosa “Pense e dance”, com Barão Vermelho, que nos faz recordar imediatamente às armações de Maria de Fátima (Gloria Pires), assim como “Terra dourada”, mais conhecida como “Cenário de cor”, com João Bosco, nos transporta imediatamente à Búzios, um dos cenários da novela. As baladas são um capítulo á parte: “Besame”, com Jane Duboc, que embalava o amor bandido de Fátima e César (Gloria Pires e Carlos A. Ricelli); “Todo o sentimento”, com Verônica Sabino, que inevitavelmente nos faz lembrar do sofrimento de Heleninha (Renata Sorrah); “Tá combinado”, na voz de Bethânia, tema do par romântico Raquel e Ivan (Regina Duarte e Antonio Fagundes); e a inesquecível “Faz parte do meu show”, tema de Solange e Afonso (Lidia Brondi e Cassio Gabus Mendes), a mais emocionante das canções de Cazuza. Uma trilha representativa, não só da novela, quanto da época em que foi lançada.


2) ROQUE SANTEIRO – VOLS 1 E 2 (1985/86)

Considerada por muitos a trilha sonora mais perfeita de todos os tempos. E nesse caso, elegi os dois volumes nacionais. Não consegui dissociar um do outro, tamanha a unidade entre eles. Além disso, bate forte em minha memória afetiva por ser os primeiros discos realmente meus (os anteriores a essa data eram das minhas primas ou da minha mãe), por isso, claro, ouvia sem parar na vitrolinha...(risos). E também coincidiu quando eu comecei a escrever minhas novelinhas aos oito anos de idade. Criava tramas usando minha família e meuas amigos como personagens e me apropriei dessa trilha pra ser a canção-tema deles. São tantas canções memoráveis que fica até difícil falar de todas. O volume 1 é absolutamente irrepreensível, com as mais do que clássicas “Dona” , com Roupa Nova (tem como ouvir essa música e não se lembrar da Viúva Porcina?) e “De volta pro aconchego” (Elba Ramalho), que dispensam quaisquer comentários. “Roque Santeiro” (Sá & Guarabira) e “Santa Fé” (Moraes Moreira) são completamente indissociáveis da novela. Só essas canções já bastariam para que a trilha fosse perfeita, mas também tem “Sem pecado e sem juízo” (Baby Consuelo), “Chora Coração” (Wando), “Coração Aprendiz” (Fafá de Belém) e “A outra” (Simone), que também tocavam sem parar. “Isso aqui tá bom demais”, com Dominguinhos e Chico Buarque, também é daquelas em que não imaginamos fora da novela. Como se não bastasse, o segundo volume também é sensacional e também foi um campeão de vendas à reboque de “Vitoriosa”, com Ivan Lins. Mas há outras ótimas canções super adequadas à trama como “Mil e uma noites de amor” (Pepeu Gomes), “Fruta Mulher” (Nana Caymmi) e “Entra e sai de amor” (Altay Velloso), que também foi executada maciçamente nas rádios e era o tema de amor do polêmico casal Tânia e Padre Albano (Lídia Brondi e Cláudio Cavalcanti). “Verdades e Mentiras” seguia a mesma linha da canção de Sá & Guarabira do primeiro volume, mas agora já dialogava com o segredo em torno do mito de Roque (José Wilker). Mas a minha favorita nem é das mais lembradas. Trata-se de “A hora e a vez”, com Claudio Nucci e Zé Renato que, pra ser sincero, me remete mais às lembranças de minha vida na época do que à própria novela. Até hoje quando ouço me emociono e passa um filme em minha cabeça. Inesquecível e obrigatória na coleção de qualquer noveleiro.



1) TIETA (1989)

É uma das grandes razões dessa seção ser intitulada “Memória Afetiva”. Não é necessariamente a favorita geral, mas é a minha favorita. Acho que tem grande contribuição no fato de eu ter eleito “Tieta” minha novela favorita. Todas as canções exalam nostalgia e ecoam boas lembranças em minha mente, tanto da novela, quanto de minha vida pessoal. Vou começar de cara com minha favorita, que não podia ser outra: “Coração do Agreste”, com Fafá de Belém, tema da protagonista e, ao meu ver, o mais perfeito que já existiu, pois além de contar a história da novela com perfeição, consegue descrever com maestria o sentimento de Tieta (Betty faria) com relação ao seu retorno à terra natal.  A cena da volta de Tieta à Santana do Agreste é absolutamente antológica por vários motivos, mas não teria o mesmo impacto se a canção não fosse perfeita. Além disso, a trilha também embalou a despedida da cabrita e todas as suas visitas a Mangue Seco. Impossível não ouvir essa canção e não visualizar as dunas de Mangue Seco em nossa mente. A trilha é toda perfeita, desde o tema instrumental “Segredos da Noite (Ary Sperling), que anunciava que a assustadora Mulher de Branco estava por perto, até os divertidos forrós “Paixão de beata” (Pinto do Acordeom), tema do divertidíssimo trio de beatas Perpétua, Amorzinho e Cinira (Joana Fomm, Lilia Cabral e Rosane Gofman) e “Cadê o meu amor?” (Quinteto Violado), tema da sonhadora e solteirona Carmosina (Arlette Salles). “Meia Lua Inteira” (Caetano Veloso) e “Tieta” (Luiz Caldas)   são a materialização da própria trama. E as canções românticas são um arraso: “Paixão Antiga” (Tim Maia), tema de Helena (Françoise Fourton); “Eu e você” (José Augusto), tema de Elisa e Timóteo (Tássia Camargo e Paulo Betti), “Paixão Escondida” (Fagner), tema de Carol (Luisa Tomé) e duas de minhas favoritas: “Tenha calma”, (Maria Bethânia em interpretação visceral), que embalava o romance proibido de Tieta (Betty Faria) com seu sobrinho seminarista Ricardo (Cassio Gabus Mendes) e “Tudo o que se quer”, lindo dueto de Emilio Santiago e Verônica Sabino, que embalava o romance dos pombinhos Ascânio e Leonora (Reginaldo Faria e Lídia Brondi). A trilha contou com um ótimo segundo volume, mas esse primeiro é imbatível.  Minha trilha favorita para todo o sempre. Amém!



E vocês? O melão sempre quer saber? Quais são suas trilhas nacionais favoritas?

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