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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Melão Entrevista o mestre MARCÍLIO MORAES!




Pra começar o ano em grande estilo, nada melhor do que um entrevistado mais do que especial. Sim, pois esse blog se dá ao luxo de entrevistar apenas os profissionais que admira. E Marcílio Moraes, certamente, é um deles. Da qualidade indiscutível de autor-roteirista, escritor e dramaturgo nem preciso falar, mas também tive o privilégio de ter sido aluno desse grande mestre e de privar de sua companhia, sempre simpática e agradável. De uma forma muito franca e honesta, Marcilio discute a questão da classificação indicativa no audiovisual, bem como a inevitável interferência das emissoras no trabalho autoral, faz um balanço de sua gestão como presidente da Associação dos Roteiristas, aborda a questão da quase inexistência de crítica televisiva em nosso país e do papel dos blogues independentes, nos conta de sua relação com seu grande mestre Dias Gomes e, claro, de seus principais trabalhos na televisão como as novelas “Essas Mulheres”, “Ribeirão do Tempo” e “Vidas Opostas” e as minisséries “Chiquinha Gonzaga” e “As noivas de Copacabana”, entre outras. Delícia de papo. Espero que curtam e feliz 2012 a todos!


Melão - Que avaliação que você faz de seu trabalho à frente da presidência da AR – Associação dos Roteiristas? Quais foram as maiores conquistas de sua gestão e quais são os maiores desafios do novo presidente, Newton Cannito?

Marcílio - Eu já escrevi um relatório da minha participação na presidência da AR, que pode ser visto no meu site pessoal, www.marciliomoraes.com.br . Em termos de avaliação, creio que a razão fundamental pela qual a AR existe foi alcançada ao longo desses dez anos: dar ao autor-roteirista brasileiro uma identidade própria, independente da empresa ou do produtor para o qual trabalhe. Graças à AR, hoje há a consciência profissional de que não basta encher o peito e dizer que é da Globo ou da Record, ou que trabalha com tal ou qual diretor.

Em termos de realizações, temos o nosso Código de Ética, fundamento da associação; a própria estruturação administrativa e legal da entidade; a presença independente e firme no panorama da política audiovisual; o respeito que obtivemos das outras entidades e das burocracias governamentais; a luta pela plena liberdade individual de expressão; a luta pelos direitos autorais, etc.

Melão -  Qual sua posição pessoal sobre a classificação indicativa?

Marcílio - Enquanto artista, enquanto autor, eu não posso admitir que alguém, seja diretor de empresa ou burocrata do governo, conheça melhor o meu público do que eu mesmo. Em função disso, sou, por princípio, contra qualquer interferência na minha obra, e por conseqüência na dos meus colegas.
Assim sendo, não posso aceitar que uma entidade que me represente assuma compromissos, seja em nome do que for, com instâncias que têm o poder real de se imiscuir no que escrevo. No caso, órgãos governamentais ou empresariais.
Na vida profissional, muitas vezes sou obrigado a aceitar interferências. Tudo bem, faz parte do jogo. Mas a entidade que me representa não pode, de nenhuma forma, legitimar essa interferência. Tem que se manter como referência de princípio, não só para os autores-roteiristas como para produtores, diretores, emissoras e governos.

Melão -Independente das limitações criativas impostas pela classificação indicativa, parte do público, surpreendentemente jovem, tem se mostrado bastante conservador com relação a cenas mais sensuais e ousadas, algo que não acontecia com tanta frequência na década passada. Pude perceber isso como colaborador de “O astro” quando lia tais declarações através do twitter. A que você atribui esse fenômeno? Acha que o público “encaretou”?

Marcílio - A televisão aberta atinge muita gente para você tomar algumas manifestações individuais como tendência. Certamente há muita caretice por aí, inclusive de jovens. Na verdade, ser jovem nunca foi sinônimo de mente aberta.
Quem costuma jogar com uma pretensa reação do público a temas e cenas mais ousadas são as direções das emissoras. Se você ler o Código de Ética que a Globo segue, que é o Código da ABERT, verá que ele é tão ou mais rígido que aquele manual de classificação indicativa usado pelo Ministério da Justiça.

Melão - “Essas Mulheres” é uma de minhas novelas favoritas de todos os tempos. Acompanhei do início ao fim e considero um trabalho primoroso, sobretudo pelo texto. Você acredita que o fato dela ter tido apenas 140 capítulos contribuiu para esse bom resultado? Novelas de menor duração possibilitam um trabalho de maior qualidade?


Marcílio - Novelas, pela sua própria natureza, são longas, o que não significa que quanto mais longa melhor é uma novela; nem o contrário, que sendo mais curta adquire mais qualidade. “Essas Mulheres” foi uma excelente novela por várias razões, pela inspiração em José de Alencar, pelo nível das pessoas que escreveram, pela produção bem cuidada, embora simples, pela direção do Colatrello, etc. A duração não determinou esta excelência. Tinha fôlego para chegar aos 180 ou mesmo 200 capítulos, sem perda de qualidade.
Mas concordo que tramas menores são mais confortáveis, não só para o autor como para toda a equipe. Permitem um maior apuro. O problema é que as emissoras faturam muito mais com os prolongamentos. É difícil se contrapor a este argumento.

Melão - Como surgiu a ideia de “Vidas Opostas”? Com o novo seriado “Chapa Quente” você pretende concluir uma trilogia abordando essa temática de violência urbana, que também contou com a série “A lei e o crime” ou ainda tem fôlego para mais histórias do gênero?

Marcílio - Em 2006, a Record me pediu uma novela. Apresentei algumas opções, que iam de uma trama de época a uma bem atual, ousada, abordando corrupção policial, tráfico de drogas, com metade dos personagens vivendo na favela, etc. A direção da emissora, acertadamente, escolheu esta última. E daí surgiu “Vidas Opostas”. O assunto não era novo para mim. Eu tinha escrito poucos anos antes uma peça, “A Demanda”, que nunca consegui montar, só fiz leituras públicas, e o romance “O Crime da Gávea”, que tratam do mesmo universo.
A idéia de que pode ser uma trilogia não tinha me ocorrido. Interessante você ter pensado nisso. Mas não vejo “Chapa Quente” fechando um ciclo. Na nova série vou trabalhar sobre o mesmo universo, mas de uma perspectiva diferente. O gênero policial tem fôlego praticamente infinito. Veja a literatura, o cinema americano e europeu, as séries americanas. É um gênero popular e pode ser muito sofisticado. Ainda tenho fôlego para escrever muitas outras séries sobre o assunto.

Jacson (Heitor Martinez) em "Vidas Opostas"
Melão -  Jacson (Heitor Martinez), antagonista de “Vidas Opostas”, foi aos poucos ganhando a simpatia e torcida de parte do público. A que você atribui esse fato? Como dar dimensão humana ao antagonista fugindo do maniqueísmo, mas ao mesmo tempo manter a torcida do público pelo herói?

Marcílio - Eu sempre procuro evitar que a função dramática dos personagens se sobreponha a sua dimensão humana. Construí o Jacson não como um vilão malvado, mas como alguém que se posiciona na vida de uma forma não acomodada. Ele viveu uma circunstância social perversa e reagiu a isso se revoltando, assumindo a violência como postura de vida. Não parti de um julgamento moral ou político sobre ele, nem sobre nenhum outro personagem. O fato dele ter ganhado a simpatia do público prova que fui bem sucedido. O espectador foi levado, pelo menos em parte, a ver o mundo do ponto de vista dele.
Claro que numa novela, você, em algum momento, tem que decidir a direção para onde quer levar o público. Eu não podia levar a identificação do espectador ao ponto da novela terminar com a vitória do marginal. Daí incluí algumas ações em que o Jacson se mostrou de fato perverso, mau, arrogante. Cortei, por assim dizer, a empatia dele com o público, para não correr o risco de me acusarem de apologia às drogas... rs. Mesmo assim, mantive a ambigüidade até o fim. Quando Jacson morre, ele cai nos braços de Joana, que o ampara ao mesmo tempo em que dá a mão a mão ao namorado mauricinho, que acabou de ser espancado por ele.

Melão - “Ribeirão do Tempo” foi uma novela que inaugurou um novo estilo dentro da Record, uma crônica de costumes repleta de crítica social e política em que uma pequena cidade fictícia serve de metáfora e metonímia do nosso país. Seu trabalho como colaborador em “Roque Santeiro” serviu de inspiração para criar essa história?

Bianca Rinaldi e Jacqueline Laurence em cena de "Ribeirão do Tempo"
Marcílio - “Inspiração” propriamente não. Foi uma influência, claro. O Dias Gomes foi um mestre para mim. Ele criou um plot inigualável e insuperável em “Roque Santeiro”. Eu nem me atreveria a tentar alguma coisa semelhante.
Minha intenção em “Ribeirão do Tempo” era outra. Queria, antes de tudo, brincar com os mitos da geração anos sessenta, a minha geração, especialmente a revolução socialista. Mas a turma, especialmente a imprensa, parece que não curtiu muito, porque ninguém falou no assunto. Daí não ter dado para desenvolver o tema como eu havia imaginado. Pena. Mais uma vez se comprova que questionamentos políticos, no Brasil, são difíceis de emplacar.

Melão - Dias Gomes foi um de seus parceiros mais constantes. Como era trabalhar com ele e que lições aprendeu com esse grande mestre?

Marcílio - Como já disse, o Dias foi meu grande mestre na televisão. Aprendi o que era de fato uma novela, não uma novela qualquer, mas uma novela crítica, naqueles primeiros 50 capítulos iniciais escritos pelo Dias.
Mas o fato de ter sido um mestre e um amigo não significa que não tivéssemos divergências. Em “Mandala” chegamos mesmo a ficar estremecidos, porque eu achei que ele tinha largado uma bomba de cem megatons na minha mão. Eu também era muito arrogante naquela época. E a novela provocou uma celeuma tal que, para qualquer pessoa envolvida, era difícil manter a cabeça fria.  Mas depois fizemos as pazes e voltamos a trabalhar juntos em “Noivas de Copacabana” e outras obras.

Vera Fischer e Nuno Leal Maia em cena de "Mandala"

Melão - “Mico Preto”, novela que escreveu em coautoria com Euclydes Marinho e Leonor Bassères, tinha um texto bastante ousado em que uma relação homossexual era discutida abertamente em pleno horário das 19 horas. Na época vocês sofreram algum tipo de censura ou resistência com relação à abordagem dessa temática?

Marcílio - “Mico Preto” foi a novela mais conflituosa que escrevi, em termos de bastidores. Não quero entrar em detalhes porque isso mexe com muita gente que ainda está por aí e não vale a pena.
A sinopse foi criada por mim. De fato, era bastante ousada, irônica, corrosiva. E engraçada. Entre outras, havia a história de um deputado, gay enrustido, que se casa com uma moça para tentar disfarçar sua condição. Mas não dá certo e ele acaba se juntando a outro gay, que era feito pelo Falabella, que se passa por mulher. Para complicar, um político machão, o Osvaldo Loureiro,  se apaixona pela pretensa mulher. E por ai ia.
A novela foi massacrada, não pelo público, mas internamente na Globo. Alguns figurões tinham forte interesse em derrubar a iniciativa. Naquela época a censura tinha acabado e ainda não havia a tal classificação indicativa, de forma que o governo não meteu o bedelho. O problema foi interno.



Melão - “Chiquinha Gonzaga”, minissérie que escreveu em co-autoria com Lauro César Muniz é, até hoje, um de seus trabalhos mais elogiados e foi a grande responsável por revelar aos mais jovens a vida e obra de uma de nossas figuras históricas mais importantes. Quais os cuidados que se deve ter em contar uma a história de uma personagem que existiu de fato? Qual o limite entre o ficcional e o biográfico?

Regina e Gabriela Duarte em dois momentos de "Chiquinha Gonzaga"

Marcílio - Foi uma honra ter sido convidado pelo Lauro para escrever junto com ele essa minissérie. No entanto, minha participação não foi grande. O mérito do trabalho é do Lauro.
Creio que “Chiquinha Gonzaga” é bem o exemplo de como adaptar a vida de uma personagem real às necessidades de uma obra dramática, sem trair os dados  biográficos e criando os conflitos e desenvolvimentos fictícios necessários para despertar e manter o interesse do telespectador.  O limite entre o ficcional e o biográfico se encontra na fronteira entre a chatice fiel e o interesse do público.

Melão -  Como é a divisão de trabalho entre você e seus colaboradores? Você costuma dar a liberdade a eles para criar dentro da escaleta ou sugerir novos rumos para as tramas?

Marcílio - Eu costumo escrever sozinho a sinopse e os 30 primeiros capítulos, quando se trata de uma novela. A partir daí, aos poucos, vou passando cenas para os colaboradores dialogarem, até que se familiarizem com os personagens, sua maneira de falar, etc.
A partir daí, foi cada vez mais me restringindo a fazer uma escaleta detalhada, deixando para eles a tarefa de dialogar. E faço uma revisão final do capítulo. Também costumo promover reuniões periódicas para discutir as tramas e os rumos da história.
De um modo geral, sou bastante centralizador. Dentro da escaleta, não dou margem para nenhum vôo do colaborador. Nas reuniões, ouço todas as sugestões e críticas e absorvo as que me parecem procedentes.

Melão -  Que conselho daria a alguém que pretende seguir a carreira de roteirista de televisão?

Marcílio - Se ele quer escrever novelas, aconselho a ler os clássicos da literatura, especialmente do século XIX.  

Melão - Você considera o gênero “telenovela” como algo menor se comparado ao cinema ou teatro? Qual o papel da telenovela na vida do brasileiro?

Marcílio - Geralmente não se atribui o status de obra de arte a uma telenovela, enquanto um filme ou uma peça de teatro podem aspirar a essa dignidade. Mas eu creio que também uma telenovela pode se tornar arte, ou pelo menos ter momentos de pura arte.
O que restringe o escritor, neste caso, são as exigências empresariais, comerciais  e da própria audiência.  É difícil escapar do sensacionalismo apelativo e se ater ao desenvolvimento dramático. Mas como disse, é possível.
A audiência brasileira está viciada em telenovelas. Creio que em nenhuma outra parte do mundo se tem todo o horário nobre da TV coberto por telenovelas. Isso só é bom para as empresas, que faturam mais com poucos riscos. Para os artistas e para o público, embora este muitas vezes não perceba, é uma prática muito restritiva. A TV brasileira precisa de novos formatos, novos desafios, mais polêmica. Só assim vamos  ampliar o mercado de trabalho e ter uma programação mais instigante e inteligente.

Melão -  Como você avalia a crítica televisiva em nosso país e qual a importância dos blogs e sites que fazem um trabalho paralelo, mas sem o vínculo institucional que possuem os críticos “oficiais”?

Marcílio - A crítica televisiva praticamente não existe no Brasil. De um modo geral, se confunde com o “colunismo”. A tradição monopolista, que ainda sobrevive, leva a isso. Raramente vejo análises pertinentes e um pouco mais profundas da dramaturgia de televisão. Na universidade surgem, de vez em quando, um ou outro trabalho mais aprofundado, mas que não chega ao público.  Neste sentido, o trabalho dos sites e blogs independentes é muito valioso. Dificilmente, por exemplo,  me pediriam uma entrevista como esta que estou dando num órgão da grande imprensa. É sempre tudo muito ligeiro, os jornalistas de modo geral são mal informados, não sabem o que você já fez, etc.

Melão - Pra terminar, que novela ou série você mais gostou de escrever e qual novela de outro autor que gostaria de ter escrito?

Marcílio - “Vidas Opostas” foi uma novela que gostei muito de escrever, porque rompi com alguns tabus da telenovela, porque falei de uma porção de assuntos e personagens que tinha vontade, etc. “A Lei e o Crime” também foi muito gratificante. Dos tempos da Globo, “Roda de Fogo” foi um desafio muito grande. Ali eu provei que era capaz de escrever uma novela. Também tenho ótimas recordações de “Noivas de Copacabana”.

Patricia Pillar e Miguel Falabella em "As noivas de Copacabana"
Mestre Marcílio, É uma grande honra poder contar com sua participação no melão e um privilégio ter tido você entre meus professores. Obrigado por tudo e sucesso sempre!



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Tide, só tinha de ser com você!!! - Entrevista especial com ALCIDES NOGUEIRA!!!





sábado, 10 de julho de 2010

Entrevista especial: DUCA RACHID E THELMA GUEDES


Entrevistadas por Wesley Vieira e Vitor de Oliveira


Para a difícil, mas prazerosa função de entrevistar uma dupla de sucesso, nada melhor do que convocar um amigo de talento com as mesmas pretensões e que sempre está na mesma sintonia que eu: Wesley Vieira. O rapaz se diz um aspirante a roteirista, mas quem leu seus textos comprova que ele já está pronto para que alguma emissora invista em seu potencial. Nossa sintonia foi perfeita e harmônica desde o início de nossa amizade virtual, que já se tornou real.

Ninguém melhor que Wesley, com sua simpatia, inteligência e perspicácia para ser meu parceiro nessa tarefa de entrevistar as duas meninas, Duca e Thelma, que responderam às nossas perguntas juntas e separadas.


Autoras de dois grandes sucessos do horário das seis, “O profeta” (2006) e “Cama de Gato” (2009), as duas contam que a dupla foi unida por Walcyr Carrasco, além de relatarem suas experiências conjuntas e individuais, bem como o processo criativo, o futuro da telenovela, entre outros assuntos. Um tricô delicioso e envolvente. Confiram:

 
DUCA RACHID


Conte como foi o início de sua carreira? Você sempre quis trabalhar como roteirista de televisão? Encontrou dificuldades para entrar nesse mercado que é tão disputado e fechado? (Wesley)

DUCA - Eu sempre fui noveleira, desde criança. A minha geração cresceu vendo novela. Pra mim, uma jovem que vivia na periferia de São Paulo, onde não havia cinema nem teatro, a TV e os livros eram a minha janela para o mundo. Mas lembro de ter manifestado o desejo de fazer TV, vendo “Gabriela” do Walther Durst. Já tinha lido o livro e ver aquilo na TV foi quase que uma epifania! Fiz um caminho bastante tortuoso para chegar aqui. Durante a faculdade de jornalismo, montei uma produtora de vídeo com colegas, fiz institucionais e gravei até casamentos! Mas só comecei a trabalhar mesmo como roteirista em Portugal, onde morei por seis anos. Lá conheci um roteirista brasileiro, o Jayme Camargo, que estava montando uma produtora com um sócio português. Ele tinha projetos para a RTP e precisava de alguém que o ajudasse. Foi assim que eu comecei. O Jayme me ensinou os rudimentos do roteiro, e me permitiu errar muito e aprender com os erros. Com ele, escrevi séries infantis, juvenis, uma série gravada na África e até um sitcom, com a Tônia Carreiro e o Zé de Abreu, dirigido pelo Cecil Thiré. Infelizmente, nunca cheguei a ver nenhum desses dois programas.

Em 1993, você foi uma das autoras da novela portuguesa “A Banqueira do Povo”, baseada em fatos reais ocorridos na década de 80 e até hoje considerada uma das melhores novelas de Portugal. Como foi esse trabalho que teve Walter Avancini como um dos produtores? (Wesley)

DUCA - Pois então, de posse desses programas que tinha feito com o Jayme, fui procurar o Avancini que, na época, estava também montando uma produtora. Ele gostou do meu trabalho e me chamou para integrar a equipe da “Banqueira”, que era encabeçada pela escritora Patrícia Melo. Foi minha primeira novela e aprendi muito com a Patrícia e com o Maurício Arruda, que também fazia parte da equipe e já tinha feito muita coisa como colaborador do Carlos Lombardi. A “Banqueira” não era um folhetim tradicional. Mais parecia uma minissérie. Era uma história forte, sensacional! Representativa de como foi a passagem de Portugal, do socialismo ao capitalismo. Foi um trabalho duro, o Avancini era muito exigente. Mas era fascinante vê-lo trabalhar. Ele tinha sacadas geniais! Aprendi muito com ele. Sou muito agradecida ao Avancini, que sempre me chamava para participar dos seus projetos. Senti muito quando ele se foi.

Você foi uma das responsáveis pela adaptação do livro “Tocaia Grande” para a TV. Como foi contar com a supervisão de Walter George Durst? Houve dificuldades na realização desse trabalho num momento em que a Manchete passava por dificuldades financeiras e retomava a produção de telenovelas? (Wesley)

DUCA - Eu tive sorte, muita sorte, comecei pelas mãos de grandes mestres da teledramaturgia. O Dürst foi um deles. E o que mais me marcou. Não há um dia sequer na minha vida que eu não me lembre, que eu não recorra aos ensinamentos do Dürst. “Tocaia Grande” foi uma novela formadora pra mim. Aí sim, acho que entendi o que é fazer novela. E, além do Dürst, tive oportunidade de trabalhar também com o Marcos Lazarini e o Mário Teixeira, grandes autores e amigos. Quanto a trabalhar na TV Manchete, era ótimo! A família Bloch tinha um apreço muito grande pelas artes, pela literatura. Valorizava muito o nosso trabalho. E as dificuldades não foram maiores do que as que existem em qualquer produção. “Tocaia Grande” reinaugurou a teledramaturgia da Manchete e abriu espaço para grandes sucesso como, por exemplo, Xica da Silva.


Ao escrever remakes de obras de sucesso como “Os ossos do barão” e “O profeta”, qual o limite entre preservar o estilo da trama original e imprimir um diferencial em relação a ela? (Vitor)


DUCA - O Dürst sempre dizia que adaptar “é trair por amor”. É claro que você tem que manter minimamente a história, mas sempre há mudanças que precisam ser feitas para estar de acordo com o contexto histórico em que a trama se passa, e também para “dialogar” com o público de hoje. “O Profeta” (foto) foi um exemplo claro disso. Originalmente a novela se passou na década de 70 e tivemos que adaptá-la para a década de 50. Por isso o protagonista (que teve o nome alterado para Marcos, pois já havia um Daniel no ar) teve que mudar. O Daniel da década de 70 era muito mais irreverente do que o Marcos, pois a irreverência estava em pauta, naquela época de grandes revoluções no comportamento. Outra coisa: o impedimento amoroso da história original, que era o fato do mocinho vender seus poderes, não era mais considerado como tal, pelo público atual. Ninguém entendia porque a Sônia não queria que o Marcos vendesse seus poderes. Desde que ele não prejudicasse ninguém, achavam que não havia nenhum mal nisso. Ou seja, o que era uma questão ética, moral, na década de 70, em 2000, deixou de ser. Então tivemos que criar um impedimento concreto para o amor de Marcos e Sônia; o Clóvis, um psicopata, que prendia a mocinha no sótão. Impedia o contato físico mesmo entre ele e ela.


Você esteve ao lado de Walcyr Carrasco na estreia dele na Globo com “O cravo e a rosa”. Como se deu esse encontro e que tal a experiência? (Vitor)

Adriana Esteves e Eduardo Moscóvis em "O cravo e a rosa" (2000)



DUCA - Pois é, quem me recomendou ao Walcyr, quando ele foi para a Globo, foi o Avancini. Mais uma que devo a ele. Na verdade, eu já conhecia o Walcyr, da minha passagem pelo SBT. Quando ele foi para a Globo, me chamou. E foi outro grande aprendizado trabalhar com o Walcyr. Um autor de um talento enorme, que conhece seu público como ninguém. E tem uma capacidade de trabalho invejável! Tudo isso sem perder o bom humor. Com o Walcyr aprendi, por exemplo, que, mesmo que a novela seja de época, ela tem que falar ao público de hoje.

Como é a sua rotina quando está trabalhando? A Duca como mãe e esposa é diferente da Duca autora de novelas? (Wesley)

DUCA - Não dá pra separar não. Tem quem ser mãe, esposa e autora de novelas, tudo ao mesmo tempo. É exasperante às vezes. Mas a vida não pára quando você faz novela. Os filhos crescem, os pais envelhecem, os amigos e parentes continuam sentindo a sua falta e solicitando você. Não tem jeito: quando a novela acaba, você se depara com milhões de coisas que ficaram pra trás e têm que ser feitas. Desde ir ao dentista, ao médico, ao cartório, ajudar a sua mãe na mudança, até reencontrar os amigos. A gente leva pelo menos uns seis meses botando a agenda em dia. Só então pode descansar e carregar as baterias para pensar na próxima.
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THELMA GUEDES

Você acredita que a sua formação acadêmica em Letras e o mestrado em Literatura Brasileira foram fundamentais para a sua entrada na televisão? Sempre pensou em escrever roteiros? (Wesley)

THELMA - Posso dizer que o tempo em que estive na universidade, tanto na graduação, quanto na pós, foi um dos momentos mais felizes e importantes da minha vida. Fundamental pra minha relação com a literatura. Desde criança, eu sempre li muito, mas indiscriminadamente e sem um olhar crítico. Na universidade, eu deixei de ser uma leitora ingênua. Isso é de grande valia para quem deseja se tornar escritor (seja qual for a natureza da sua obra). Quem quer ser escritor tem que ler muito mesmo. Mas não acho que seja imprescindível passar pela universidade. No meu caso, foi importantíssimo. A universidade me deu muita segurança. Eu adoro aprender, estudar. E escrever pra mim é como respirar! Mas nunca imaginei que escreveria roteiros e trabalharia em televisão, até que a oportunidade apareceu. Eu não deixei escapar. Meu grande sonho sempre foi, desde muito pequena, ser escritora, viver disso. Mas o meu primeiro roteiro foi o que enviei para a seleção da Oficina da Globo. E logo percebi que eu me sentia muito à vontade como roteirista.

Você entrou na TV Globo através da Oficina de Roteiristas que a emissora promove esporadicamente. Conte como foi o seu ingresso e a sua trajetória durante o tempo em que participou dos projetos até ser convocada como colaboradora na novela “Vila Madalena”. (Wesley)

THELMA - Eu estava terminando o mestrado em Literatura Brasileira, trabalhando na Editora da USP e prestes a lançar meu primeiro livro de contos, quando deparei com um aviso sobre a Oficina da Globo, no mural da universidade. A princípio, achei que era uma oficina comum, apenas para ensinar a técnica de roteiro. Não sabia que haveria uma seleção e que alguns seriam contratados. Eu me inscrevi para aprender a escrever roteiros e ponto. Sem ansiedade e pretensão. Participei de um processo seletivo pesado, em que de 700 inscritos, apenas três foram contratados. Me entreguei de corpo e alma a esse aprendizado, tendo que continuar a trabalhar e a terminar a pós. Foi uma loucura, mas quanto mais eu aprendia a técnica de roteiro, quanto mais eu escrevia, mas me apaixonava por esse jeito de escrever e me expressar. Nessa oficina, coordenada pelo Flavio de Campos, eu aprendi a base de tudo o que eu sei de roteiro de televisão. Eu devo muito a ele. Assim, em 1997, no mesmo dia em que recebi a notícia de que seria contratada, eu lancei o meu primeiro livro. No mesmo dia! Foi demais! Depois que eu entrei na Globo, fiquei um tempinho esperando um chamado para trabalhar. Foi ótimo, porque nesses quatro meses em que não trabalhei, eu consegui terminar de escrever a minha dissertação, entregar e defender. Depois fui chamada pra trabalhar no programa matutino da Angélica. E não parei mais, fui emendando um trabalho no outro. Um colega me indicou pra colaborar na novela do Negrão. Quando a novela acabou, eu corri atrás de um colega de oficina, que estava fazendo o texto final do programa do Renato Aragão, A Turma do Didi. Depois, trabalhei lendo livros e dando pareceres. Imagina que delícia ganhar para ler! Aí, eu conheci o Walcyr quando eu organizei umas palestras. Ele me chamou pra colaborar com ele no Sítio do Picapau Amarelo. Aí, eu colaborei direto com ele: Esperança, Chocolate com Pimenta e Alma Gêmea. Até ele me indicar com a Duca pro Profeta.


Sua incursão na literatura, já rendeu diversos livros, além de participação em coletâneas, como “Novelas, Espelhos e um Pouco de Choro” (Ateliê Editorial/ 1999). Você se considera uma escritora que virou roteirista ou uma roteirista que virou escritora? Algumas vezes, as idéias que você tem para um livro interferem na criação para uma novela? (Wesley)

THELMA - Eu me considero uma escritora. Escritores podem escrever livros, novelas de tv, roteiros de cinema, peças de teatro, etc. Roteirista é escritor. É como eu vejo. Na verdade, acho que o imaginário de um escritor, suas ideias, seus ideais, sua ideologia, seu modo de ver a vida, o que ele quer dizer pro mundo está em tudo que ele escreve: livro, roteiro, crônica de jornal, peça de teatro, qualquer coisa. Não acho que seja “interferência”, acho que é a “essência” da escrita de cada escritor, que passeia ente um ou outro gênero. Mas o que eu quero sempre é comunicar a minha visão de mundo. Ela está em todas as histórias que eu quero contar, seja nos livros ou na televisão.

Você faz parte da AR – Associação dos Roteiristas. Na sua opinião, qual a importância de entidades desse tipo para a valorização da classe? (Vitor)

Assembléia da AR - Associação dos roteiristas

THELMA - Em primeiro lugar, a associação tem um papel super importante, de permitir que a gente se conheça. Porque escritor é um sujeito que, até por força da profissão, acaba ficando muito isolado, solitário, fechado entre quatro paredes, sem contato com outros que fazem a mesma coisa que ele. A troca de experiências e o debate com os colegas é fundamental, mesmo no plano puramente artístico, estético. E claro que a união nos fortalece como classe! No começo da AR, eu tinha tempo para trabalhar muito pela associação, na sua divulgação, promovendo cursos, workshops, palestras, debates. Foi um momento muito interessante e feliz. Conheci muita gente e fiz grandes amigos.

Você foi colaboradora de Walcyr Carrasco em grandes sucessos do autor como “Alma gêmea” e “Chocolate com pimenta” (foto). Como é trabalhar com o autor e o que há de Thelma Guedes nessas novelas? (Vitor)

THELMA - Eu tenho uma tese sobre colaborar em novela: o melhor colaborador é aquele que, quando escreve, tenta escrever como o próprio autor escreveria. Colaborador é alguém que deve deixar o autor livre o máximo possível para escrever melhor e melhor. Acho essencial que se entenda esse limite entre escrever a própria novela e colaborar na novela de outro autor. Posso dizer com orgulho que nessas novelas do Walcyr o que tem de Thelma Guedes é o empenho de fazer o Walcyr ser o melhor Walcyr possível. Pra mim, o colaborador é um rede de segurança para que o autor possa se soltar. Eu era aquela colaboradora que me preocupava com a memória da novela, com a coerência das personagens, com a continuidade estrutural dela. Eu enchia o saco do Walcyr às vezes, quando achava que um capítulo não tinha o brilho que é próprio do Walcyr. Eu ajudava nos problemas de produção, na edição, quando o capítulo ficava grande. Tomando conta para que os ganchos não se perdessem, ou para que falas importantes não fossem cortadas. Eu era uma colaboradora que realmente colaborava. Porque eu não queria escrever a novela que não era a minha novela. Eu queria deixar o caminho livre pro Walcyr escrever melhor novela . Hoje eu estou do outro lado e espero dos nossos colaboradores exatamente isso. E temos muita sorte. Nossos colaboradores são os melhores que existem!!!


Como é a Thelma quando está trabalhando? Sua rotina muda em relação à família? (Wesley)

THELMA - Eu tenho a felicidade de ter total apoio do meu marido e das minhas enteadas (que são como filhas). Quando estamos no ar com alguma novela, a rotina é bem dura, eu fico 24 horas ligada no trabalho. Até dormindo eu sonho com a novela. Fico pendurada no computador, telefone, televisão. Quando trabalho em casa, o ambiente fica tomado pelo meu trabalho. Por isso mesmo, Duca e eu fazemos reuniões diárias num escritório fora de nossas casas, num escritório, num flat. Mas o que é bacana é que a minha familia compreende, respeita, incentiva, torce. E todos assistem religiosamente a novela que estou escrevendo. Meu marido, que é um intelectual e não assistia televisão antes, assiste tudo que eu faço, desde o primeiro programa infantil que eu escrevi.

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THELMA E DUCA

Como surgiu a dupla Duca e Thelma? (Vitor)

Thelma: O Walcyr Carrasco foi chamado para supervisionar o remake da novela O Profeta. E ele nos juntou para escrevê-la. O Walcyr é o culpado! RS

Duca: Coitado do Walcyr! Vai ter que espiar essa culpa pro resto da vida...


Vocês acham que esse esquema de parceria entre autores titulares pode ser uma nova forma de escrever novela num futuro próximo? Quais as maiores vantagens e desvantagens? (Wesley)

Thelma: Na criação não pode haver fórmula. A escrita em dupla, no mesmo pé de igualdade, com duas pessoas decidindo tudo, depende de uma sintonia muito grande, que não pode ser forjada. Ela existe ou não.

Duca: É isso aí. Podemos falar pela nossa experiência. No nosso caso, a gente tem se dado bem escrevendo juntas. Tem dado certo. Assim temos conseguido uma dinâmica que não sei se conseguiríamos sozinhas. Talvez sim, não sei... Mas acho que não é uma fórmula pra todo mundo não. E isso também não significa que a gente não possa trabalhar em separado, por um tempo. Pra depois se juntar de novo, rapidinho... (rsrsrsrs)


Até que ponto a supervisão de texto influencia no trabalho do autor? (Vitor)

Thelma: Se a supervisão influenciar, ela deixa de ser supervisão e passa a ser intromissão na obra alheia. O supervisor deve ser um apoiador, questionador, “alertador” para possíveis riscos que o autor está correndo. Pode e deve sugerir, mas sempre respeitando o universo e estilo do autor.

Duca: Pois é, o trabalho do supervisor é difícil porque tá nesse fio de navalha. O supervisor tem que se valer da experiência para te apontar falhas e dar dicas do que pode ser a melhor maneira de conduzir o trabalho. Mas tem que deixar que você escreva a sua novela. Não dá pro supervisor querer que você escreva a novela “dele”.


Como é a divisão de trabalho entre vocês e seus colaboradores? (Vitor)

Thelma: Nós duas costumamos nos reunir diariamente para bolar os acontecimentos da história e escaletar os capítulos. Os colaboradores escrevem as cenas. Depois uma de nós junta as cenas e faz uma edição (mudando, acrescentando, cortando). Em seguida, a outra lê e faz o texto final. Aí a gente manda pros colaboradores lerem, verem erros, fazerem criticas e darem ideias. Estamos sempre abertas para ouvir o que eles têm a dizer. Aproveitamos ideias. Às vezes, chegamos a reescrever, mudando o rumo das coisas por causa de uma sugestão ou crítica. Porque o que nos interessa é sempre o melhor produto.

Houve tentativas de emplacar sinopses de suas autorias antes de entrar para o hall de autores titulares da Globo? Receberam muitos “não”? (Wesley)

Thelma: Antes de O Profeta , a Duca era autora do Sítio do Picapau Amarelo. Já estava se aproximando dessa entrada no time de autores de novela. Mas eu confesso que não imaginava que isso pudesse acontecer tão logo pra mim. Por isso, apesar de ter escrito algumas sinopses pra minha gaveta, eu não as enviava para a direção, porque eu sabia que ninguém ia se interessar por elas ainda. A minha intenção era consolidar a carreira de colaboradora, para dar o próximo passo, no momento certo. O momento certo veio antes, naturalmente.

Duca: Eu já tinha sim, arriscado mandar algumas sinopses. Hoje posso avaliar melhor e saber que algumas precisavam ser retrabalhadas, talvez por isso não tenham sido aceitas. Mas valeu pelo exercício. E muitas das idéias daquelas sinopses podem ser reaproveitadas no futuro.

Como vocês, autoras dessa nova geração, veem a novela do futuro? Como seria a novela perfeita? (Wesley)

Thelma: Acho que a novela do futuro vai ter que se adequar às novas mídias que estão surgindo. Talvez mais curta, ágil e interativa. Mas acredito que esse gênero resistirá a todas as mudanças tecnológicas e comportamentais que estão por vir. Porque desde que o mundo é mundo, o homem adora e precisa de uma boa narrativa ficcional. Quanto à novela perfeita, ela não existe, porque não existe perfeição. Mas a “quase perfeita” é aquela que consegue se comunicar com o público, que entretém, emociona e, ao mesmo tempo, consegue introduzir o espectador no universo sublime da arte.

Duca: Acho sim que a novela vai ter que ser mais curta, mais ágil, interativa, com personagens menos maniqueístas. Mas a essência do folhetim deve permanecer. Quando a novela perfeita, eu só consigo me lembrar daquela música do Gil: “...a perfeição é uma meta, defendida pelo goleiro , que joga na seleção, e eu não sou Pelé nem nada, se muito for, eu sou um Tostão. Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão...” Emocionando e entretendo já tá muito bom!

“Cama de Gato” pode ser considerada como uma “prova de fogo” no intuito de avaliar a carreira de vocês duas na Globo? Tiveram algum receio de que o projeto não tivesse os resultados desejados pela empresa? (Wesley)



Thelma: Claro que, como nosso primeiro projeto original, a “Cama” acabou sendo um aval pra gente. Mas eu sempre confiei muito nessa história, porque ela estava calcado numa base humana, existencial forte e verdadeira. Nós duas tínhamos o que dizer e acreditávamos nisso. E eu não ficava pensando nos resultados, mas no processo. Quando eu trabalho, procuro me concentrar no que estou fazendo. Se vc faz o melhor que pode, vc precisa confiar e ir em frente, com entusiasmo e sem medo. Senão, melhor nem se meter a escrever a sinopse.

Duca: Claro que sempre dá um friozinho na barriga. Novela é um jogo. Por mais que você confie no projeto, há sempre o imponderável. E se você ficar pensando muito no que pode não dar certo, não consegue seguir adiante. Tem que ter uma história boa na mão, que tenha força, fôlego, verdade, e tocar o barco, com coragem, da maneira mais honesta possível, dando o seu melhor.

Vocês têm projetos para escrever em outros formatos como minisséries, especiais e seriados? (Wesley)

Thelma: Aos montes... rs

Vocês são noveleiras? Se, sim, quais as suas favoritas? Na opinião de vocês o que o gênero “Telenovela” representa em nosso país? (Vitor)

Thelma: Sou noveleira de carteirinha, desde que me entendo por gente. As favoritas são Beto Rockfeller, Roque Santeiro, Saramandaia, Irmãos Coragem, Pecado Capital, Dancing Days, Vale Tudo, Guerra dos Sexos... Ai, as minhas favoritas são tantas, que eu ficaria aqui o dia todo elencando... A novela de televisão é um gênero que está tão incorporado ao nosso universo, que é quase um patrimônio nacional. É um importante meio de informação e entretenimento para a população. E é uma expressão do imaginário popular brasileiro.

Duca: É isso aí! A Thelma disse tudo. Eu só acrescentaria que a telenovela brasileira é um gênero único no mundo. Ninguém faz telenovela como a gente. Eu também sou muito noveleira. Minhas favoritas são todas essas que a Thelma citou mais Gabriela, O Feijão e o Sonho, Top Model, Rainha da sucata, Nina, Bebê a Bordo, Uga-Uga.... Ah! São tantas...! Não dá pra falar de todas aqui.

Que dicas e conselhos dariam a jovens que aspiram a trabalhar na TV?(Vitor)

Thelma: Acho que a primeira coisa é ler muito, estudar e se preparar. E buscar uma avaliação imparcial de outros sobre sua real capacidade e talento. Não adianta a pessoa se achar um gênio. É necessário que haja o reconhecimento dos outros. A melhor maneira é fazer oficinas, cursos.

Duca: Ler, ver, ouvir, viver. Estar antenado às oportunidades de cursos e oficinas. Perseverança e uma boa dose de sorte também ajudam. No mais, é saber deixar o ego em casa na hora de ouvir as críticas. Televisão é um trabalhado de equipe. Todo mundo contribui, o diretor, o colaborador, o ator, o produtor... É importante saber ouvir e incorporar as boas idéias.
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Thelma Guedes por Duca Rachid (Vitor) 
 
DUCA - Ah, a Thelma é minha melhor amiga. Minha parceira e agora minha comadre também, pois acabou de batizar minha filha. Eu tenho a maior admiração por ela, pelo talento, pela capacidade de trabalho e também pela sua conduta ética e moral. A Thelma é muito melhor do que eu como escritora. Eu tenho que quebrar muita pedra pra chegar lá. A Thelma não, ela é uma artista de verdade. Ela tem o chamado da arte dentro dela. Tem livros maravilhosos, que deviam ser mais conhecidos.


Duca Rachid por Thelma Guedes (Vitor)

Thelma- Uma irmã gêmea univitelina que caiu do céu (rs). A melhor parceira de trabalho que eu poderia ter (aliás, a única possível, porque eu sou uma chata de galocha e só ela pra me agüentar...). A Duca é um escritora com E maiúsculo: talentosa, iluminada, brilhante, entusiasmada, incansável. Eu tenho uma imensa admiração por ela. E o que a faz ser maior e melhor é justamente a simplicidade, a humildade, o desapego. Confesso que eu tenho muito o que aprender com ela. Mas um dia eu chego lá!
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Meninas, obrigado pela simpatia e disponibilidade. Mais sucesso ainda na carreira das duas!


Agradecimento mais que especial: Wesley Vieira
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