Duas
ou mais coisas sobre telenovelas
por
Robério Oliveira Silva
(Este texto é
dedicado a Vitor de Oliveira)
Nasci em 1972, ano de “Selva de Pedra”, a tal novela dos cem por cento de audiência no capítulo-clímax. Segundo minha mãe, fui para a escola já semi-alfabetizado porque assistia à “Vila Sésamo”, aquele “programinha” infantil com Armando Bógus, Aracy Balabanian e Sônia Braga – a mulher primordial da minha infância. Faço parte da segunda, senão primeira (devido ao fato de ser nordestino, podem me corrigir caso eu caia em preconceito com minha própria origem geohistórica), geração de pessoas criadas pela televisão no Brasil. Como boa parte desse grupo, foi com as telenovelas que tive meu primeiro contato com a narrativa de ficção, muito embora tenha sido alfabetizado bem cedo, tornando-me, desde então, um ávido leitor mirim. Imaginem como foi gostoso, em tenra infância, ter meus olhos e ouvidos invadidos por obras como “Estúpido Cúpido”, “Gabriela” (talvez a mais remota lembrança, devido aos serões na casa dos meus avós paternos em Salvador, onde a novela, por motivos mais do que óbvios, bombava), “Escrava Isaura”, “Saramandaia” (uma delícia para uma criança, imaginem, mesmo com medo do lobisomem de Ary Fontoura e da música-tema, que eu não ouvia sozinho), “A Sucessora” (achava linda, e ela era, a Suzana Vieira), entre outras obras marcantes do período. Nada disso me impediu de ler Monteiro Lobato, Lygia Bojunga Nunes, Maria José Dupré, ainda antes dos 10 anos. Aos 11, eu descobriria Agatha Christie; aos 14, José de Alencar (“O Tronco do Ipê”); e antes dos 18 já estava às voltas com Graciliano, García Marquez e Lygia Fagundes Telles (sim, Clarice e Machado viriam mais tarde, rs). Também antes dos 18, acho que eu já era um cinéfilo, igualmente “criado” pela televisão, já que, morando no interior, e nem sempre podendo ver filmes adultos no cinema, depois que me mudei para Vitória, acompanhava as saborosas sessões de cinema, ainda que dublado, que compunham a programação noturna das emissoras. Estavam ali nas madrugadas das minhas férias e dos finais de semana Hitchcock, David Lean, Samuel Fuller entre outros grandes. Mas esta é outra conversa.
Acostumado no convívio com as narrativas televisivas, reforçadas ainda com o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, os casos especiais, a Série Aplauso (“Vestido de Noiva” [!!!] com Suzana Vieira como Alaíde, Joana Fomm como Lúcia, e Tônia Carrero como Madame Clessi – que trio!!!), as séries e as minisséries surgidas nos anos 80, nunca entendi direito a implicância de determinados setores da classe teatral-artística e da recusa dos segmentos acadêmicos, sobretudo no campo das ciências sociais de viés esquerdista, em reconhecer o valor e a importância de nosso melhor produto cultural tipo exportação. Com a óbvia figuração questionadora de nossa sociedade de novelas como “Roque Santeiro”, “Que Rei Sou Eu?” e “Vale Tudo”, além do sucesso retumbante de nossas telenovelas ao redor do planeta, tais discursos entraram em declínio, e os intelectuais, acadêmicos e artistas tiveram que rever suas posições (como se, por exemplo, a inatacável, e já séria e positivamente reputada à época, Fernanda Montenegro não tivesse estreado em novelas no hoje distante ano de 1966...) e se render ao encanto e qualidade das ficções televisivas tupiniquins. Também ao redor do planeta, a televisão deixara de ser algo intocável pelos estudiosos e acadêmicos da arte e da cultura, e passara a ser objeto de pesquisa de teóricos importantes – fiquemos simplesmente com Umberto Eco, para não parecermos pedantes. E já nas nossas melhoes universidades (USP, Unisinos, entre outras) são consolidados os núcleos de estudos de telenovela.
Sintomaticamente, porém, no contexto latino-americano e doméstico, parece que retornamos, ou nunca saímos, a essa difícil aceitação de que fazemos boas telenovelas, com muitas demonstrando irrefutável valor artístico, seja pela pertinência, relevância e/ou engenhosidade de seus enredos, pelos recorrentes belos trabalhos dos atores, por trilhas sonoras que se tornaram históricas e (sobretudo nos anos 70) constituem verdadeiros álbuns da melhor MPB, ou ainda por alguns triunfos de direção. É certo que talvez 75% das telenovelas sejam obra de evasão e cumpram, consciente e voluntariamente ou não, uma função alienante e alienatória. E daí? Também o foram e fizeram o cinema hollywoodiano, boa parte da literatura do século XIX, alguma ópera romântica e o melodrama burguês, o que não impediu que grandes obras viessem a existir e alcançar êxito no bojo mesmo desses gêneros, continuando até hoje na história ou no cânon das artes.
É sempre difícil propor que a telenovela seja uma obra de arte, dados os seus compromissos mercadológicos, institucionais e ideológicos para que possa existir, e que interferem na estrutura mesmo da narrativa, da escolha dos atores, e da direção. Mas devemos aceitar que é, sem sombra de dúvida, um produto cultural que utiliza elementos artísticos, ainda que possamos localizar uma certa crise de criatividade no gênero, ali depois da segunda metade da década de 90 e virada do século-milênio (talvez a pior fase em termos de inventividade) sobretudo no que diz respeito à dramaturgia, recentemente inovada a partir do advento de “A Favorita”.
De todo modo, o que me fez escrever este texto foi o fato de sentir em momentos do cotidiano e nos debates das redes sociais a permanência do preconceito contra as telenovelas, seja como narrativas ficcionais, seja como algo representante de nossa cultura. Lembro com certo humor da expressão dos amigos argentinos quando me viam acompanhando a novela das 9 da noite através do youtube, quando estive em Córdoba, em 2010. O ar de incredulidade diante de um doutor em literatura que se dispunha a ficar uma hora diária acompanhando uma telenovela era flagrante – e olha que era uma novela que eu nem gostava tanto, mas cuja assistência me fazia matar um pouco as saudades de casa.
Outro fato mais recente foi uma brincadeira, ou bronca – até hoje estou em dúvida – que levei de um amigo alemão que veio aqui em casa e me pegou acompanhando “Gabriela”, ali logo pela primeira ou segunda semana. Como homem inteligente que é, e irônico, escreveu de uma forma que até agora não sei se era um chiste irônico ou um puxão de orelhas de fato, novamente diante do professor doutor em literatura comparada (bla-bla-blá) que se prestava à pachorra de ver ficção televisiva. No fundinho, brazuquinha que sou, tenho até meio vergonha, hihihihihihh, de perguntar ao nativo da terra dos grandes filósofos modernos o que ele estava de fato querendo me dizer.
Pelo Facebook, poucas semanas atrás, houve um vislumbre de polêmica entre os que assistem novelas brasileiras e os que se entopem de séries americanas nos canais a cabo (é Fox, é Sony, é Warner, é A&E, é Universal, é HBO, é Multishow, é TnT, FX, AXN, eita!!!). Mas a galera não quis aprofundar, e eu não quis dar uma de chato de plantão – porque eu sou, e muito. E aí, amigos? Que me dizem?
Semana passada, foi uma amiga amada, do fundo de dentro do coração, artista, linda, sensível, brilhante, mas que me proibiu de ver novela na casa dela... kkkkkk. Dá pra rir agora, mas na hora fiquei fulo. Como era aniversário da dita cuja... E olha que era Carminha. Mas não rolou. Te amo, Criola, mas tu vês série norte-americana. É tudo televisão, é teleficção ao fim e ao cabo, ora pois.
Penso que já ultrapassamos há pelo menos uns vinte anos as dúvidas que tínhamos a respeito da relevância e qualidade das telenovelas brasileiras, e do arraigamento (ok, recente) do hábito de assisti-las entre nós. Muitos criticaram o Harry Potter e as Spice Girls na abertura da recente Olimpíada de Londres. Eu achei ótimo. Os ingleses mostraram o que é ter noção do que o país exporta para o mundo, vendendo e perpetuando uma tradição cultural quase milenar. Se J. K Rowling não é Bram Stoker, e as garotas apimentadas não chegam aos suvacos dos rapazes de Liverpool é uma outra discussão. Mas era o que a Grã-Bretanha tinha para aquele “hoje”.
Está na hora de deixarmos de ser este bando de tabaréus e caipiras e passarmos a assumir que gostamos de novela, sim senhores, porque é uma das coisas que melhor sabemos fazer. E talvez até – por que não? – com um certo orgulho.
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ROBÉRIO SILVA
é professor universitário, Doutor em Literatura Comparada, astrólogo (dos
bons), tarólogo (dos melhores), cinéfilo (dos mais entendidos) e noveleiro (dos
mais inveterados), além de um grande amigo (dos mais fiéis). Este melão se
orgulha muito em publicar seu texto e agradece, ruborescido como uma melancia,
a carinhosa dedicatória.
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