Do grego "kátharsis", significa purificação, purgação. Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama. Em qualquer texto dramático, a catarse é essencial para promover a torcida e a identificação do público com os personagens.
Bruno (Thiago Lacerda) e Helena (Taís Araújo): personagens de "Viver a Vida"
Pensando nisso e me colocando no ponto de vista de espectador que assiste a novelas desde que me entendo por gente, tentei compreender e fazer alguma relação com o que falta em “Viver a Vida”, atual novela das oito global. Canso de ouvir comentários de que a novela não tem história, não tem trama alguma. Discordo. A novela tem tramas, sim. E são ótimas, cheias de ingredientes para um novelão: gêmeos que disputam mocinha, que fica tetraplégica; pai e filho que, sem saber, amam a mesma mulher... sem contar que tem personagens clássicos: mãe dominadora, mãe leoa, garota rica que vai viver na favela em nome do amor, mulherengos, esposas tradicionais tentadas a trair, enfim... em termos de sinopse, seria uma novela perfeita. E os personagens, ao contrário de muitas novelas atuais, não são meros arquétipos. Eles são riquíssimos e possuem uma psicologia muitíssimo bem definida. Esse, ao meu ver, é o ponto forte da obra de Manoel Carlos: os personagens têm vida, são de carne e osso, parecidos com qualquer um de nós. São eles que, geralmente, movem a trama, e não o contrário. Ou seja, idéias e bons personagens estão ali, mas a questão é que as expectativas são criadas e acabam sendo frustradas depois. Todo mundo é muito cool, muito civilizado. Tirando aquelas brigas chatas dos gêmeos vividos por Mateus Solano e as alfinetadas da Izabel (Adriana Birolli), aquela irmã mala que fala a verdade doa a quem doer, não há os chamados bas-fonds...e é disso que o público gosta. O BBB 10 foi o sucesso que foi porque tinha barracos diariamente.
Por exemplo, o caso da Renata (Bárbara Paz). Onde já se viu uma mulher que sofre de anorexia alcóolica com sérios problemas psicológicos aceitar numa boa que o namorado por quem é dependente afetivamente e completamente apaixonada, a abandone para ficar com uma tetraplégica? Por que ela não invadiu a casa de Luciana (Aline Moraes) para fazer o maior escândalo? Ao contrário: aceitou numa boa e até foi cumprimentar a “amiga” no dia do aniversário, contrariando a todas as expectativas criadas nos capítulos anteriores através de cenas que davam indícios de que essa revolta aconteceria a qualquer momento. Ou seja, pulou-se a parte do drama, não houve catarse, a personagem não se “purgou”. Nem Madre Teresa seria capaz de tamanha abnegação. Renata, quem diria, é um exemplo de maturidade e equilíbrio.
Outro exemplo: o encontro de Bruno (Thiago Lacerda) com o pai, Marcos (José Mayer). Era pra ser algo cheio de emoção, ressentimento, lágrimas e o que vimos foi um encontro frio, até meio constrangedor. E o que dizer dos envolvimentos amorosos de Betina e Carlos (Letícia Spiller e Carlos Casagrande) e Malu e Gustavo (Camila Morgado e Marcelo Airoldi)? Fazer um suspense e atrasar a ação faz parte do show. Mas não realizar nunca essa ação é tão frustrante quanto um coito interrompido.
Ou seja, as boas tramas existem. O que falta é realizá-las a contento. Em nenhum momento ouvi nas ruas alguém dizer: "hoje eu não posso perder a novela porque vai acontecer tal coisa". É isso que faz uma novela andar. Cadê a catarse que faz o Brasil parar? Enfim, Manoel Carlos não precisa provar nada pra ninguém. É um gênio e ainda tem estrada pra percorrer. Espero, sinceramente, que nessa reta final, Maneco empreste a “Viver a Vida” ao menos um pouquinho da emoção e de todas as viradas catárticas que conseguiu dar à fantástica “Por amor”, só pra citar uma de suas maravilhosas novelas.
Aprofundando o tema, continuei a pensar em algumas novelas antológicas e todas elas tinham esse momento de catarse, em que o público entra em comunhão com o personagem e se delicia com sua grande virada, com a expurgação de todos os seus dramas: o chamado acerto de contas. Elegi meus “momentos-catarse” favoritos:
- Vale Tudo (1988), de Gilberto Braga – Raquel (Regina Duarte), depois de tanto sofrer nas mãos da filha Maria de Fátima (Glória Pires), que vende sua casa, o que a obrigou a começar do zero vendendo sanduiche na praia e ainda por cima fingia que não a conhecia e armou para que ela se separasse do homem que amava, Ivan (Antonio Fagundes), teve seu grande momento, invadindo o atelier onde a filha experimentava seu vestido de noiva e, aos gritos de “odeio você” rasgou toda a roupa da megera. A cena é forte e causa impacto até hoje. Mas foi o momento que todos esperavam, em que a heroína deixou de ser boazinha e expurgou seu sofrimento.
- Ti Ti Ti (1985), de Cassiano Gabus Mendes – Ariclenes (Luiz Gustavo), um verdadeiro perdedor na vida, após sofrer com o triunfo do arqui-inimigo André (Reginaldo Faria), que se tornou o famoso costureiro Jacques L’eclair, dá a volta por cima e retorna em grande estilo como Victor Valentim, costureiro espanhol que rouba todo o sucesso do rival.
- Água Viva (1980) e Celebridade (2003), ambas de Gilberto Braga – Após sofrerem traições por parte das vilãs que se faziam de amigas, Lígia e Maria Clara (Betty Faria e Malu Mader, respectivamente) dão uma merecida surra em suas rivais, Selma e Laura (Tamara Taxman e Claudia Abreu). Gilberto, curiosamente, usou o mesmo cenário para os dois embates: o banheiro de uma casa de shows.
- A próxima vítima (1995), de Sílvio de Abreu. Essa era uma catarse por capítulo, mas pra citar uma, a cena em que Marcelo (José wilker) descobre a infidelidade de Isabela (Claudia Ohana) e faz um corte em seu rosto com uma faca.
- O astro (1977), de Janete Clair. Cansado do preconceito e da ambição do pai rico Salomão Ayala (Dionísio Azevedo), Marcio (Tony Ramos) sai de casa sem nem mesmo levar a roupa do corpo, completamente nu.
Isso só pra citar alguns. E vocês, o que acham? Qual seu “momento-catarse” favorito?
























