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sexta-feira, 20 de maio de 2011

20 anos de “O dono do mundo”: um legítimo “Gilberto Braga”.




No dia 20 de maio de 1991, ia ao ar o primeiro capítulo de “O dono do mundo”, talvez a novela mais polêmica e controversa de Gilberto Braga. Segunda obra da trilogia sobre a corrupção, que começou com a antológica “Vale Tudo” (1988), “O dono do mundo”, no entanto, não é lembrada pelo êxito da primeira, mas por uma polêmica que prejudicou a audiência na época e até hoje é mais comentada do que as suas inúmeras qualidades.


A trama contava a saga de vingança da jovem Márcia (Malu Mader), professora virgem do subúrbio, que é seduzida em sua lua de mel pelo sedutor cirurgião plástico Felipe Barreto (Antonio Fagundes), que aposta uma caixa de champanhe com o amigo Julio (Daniel Dantas), que levaria a moça para a cama antes do próprio noivo, Walter (Tadeu Aguiar). Felipe arma todo um esquema para que isso aconteça e acaba seduzindo Márcia, que acaba se apaixonando pelo crápula. Ao descobrir toda a verdade, Walter perde o controle e acaba sofrendo um acidente de carro e morre. Tomada de amores, Márcia tem esperanças de que Felipe vai se separar da devotada e rica esposa Stela (Gloria Pires) para ficar com ela. Ao descobrir que fora enganada e que teve sua vida destruída, Marcia parte para uma implacável vingança contra Felipe.

Porém, o que o autor não esperava era que o público, ainda conservador, fosse se voltar contra Márcia, atribuindo a ela a culpa pela morte do noivo. Na verdade, o que não perdoaram foi o fato de Márcia ir bater na porta do quarto de Felipe, e não o contrário. A solução foi dar bastante destaque a outro par romântico da novela, Taís e Beija-Flor, vividos pelos estreantes em novelas globais Letícia Sabatella e Ângelo Antônio. Mesmo se prostituindo no início da novela, o público não se voltou contra Taís e torceu até o fim para que o amor deles prevalecesse. Impossível não ouvir “Codinome beija-Flor” na voz de Luiz Melodia e não se lembrar do casal, cujo maior empecilho era a ambição da moça e a falta de ambição do rapaz.

Um fator que talvez tenha afastado parte do público da novela, que migrou para o SBT, que exibia a açucarada “Carrossel”, era a acidez de sua narrativa. Ao contrário de “Vale Tudo”, que através de sua trabalhadora heroína Raquel, lançava um olhar otimista para a realidade, mesmo com um time de vilões de primeira categoria e com toda a crise por qual passava o país, “O dono do mundo” era mais sombria, mais cínica, mais pessimista, mostrava que o poder tudo podia e que os pobres não passavam de marionetes nas mãos dos mais poderosos. A abertura, com Chaplin vivendo “O grande ditador”, brincando com um mundo povoado por belas mulheres, já ditava o tom da narrativa e dava a dica do que vinha por aí.  Frases como “nunca mais pego mulher de além-túnel” eram proferidas pelo protagonista o tempo todo sem o menor resquício de culpa. Apesar de Gilberto Braga afirmar o tempo todo que o verdadeiro mocinho da novela era Rodolfo (Kadu Moliterno), que se envolveu com Stela após esta se separar de Felipe, o público, a exemplo de Márcia, também se deixou seduzir pelo cafajeste charmoso construído por Fagundes.

Entre os destaques do elenco, cito Nathalia Thimberg e Glória Pires pelo mesmo motivo. As duas viveram tipos bem marcantes em “Vale Tudo” e suas personagens na novela em nada lembram as antecessoras. Impressionante como Nathália não deixou nem rastro da doce e amável Celina ao interpretar a amarga e desagradável Constância Eugênia, assim como a digna e elegante Stela não lembra em nada a ambiciosa Maria de Fátima. Dá gosto de ver duas atrizes em cena com capacidade tão altamente transformadora. Vale ressaltar também a transformação da própria Malu no decorrer da novela, de uma Márcia ingênua e simplória para uma Márcia vingativa e charmosa. Justiça seja feita: a atuação de Malu foi louvável. Felipe Barreto está entre meus personagens favoritos de Fagundes, sempre dotado de carisma, mas aqui também com um charme arrasador. Maria Padilha, como a patética e interesseira Karen, também foi um grande destaque. Entre os destaques jovens do elenco, impossível não lembrar da saudosa Daniella Perez, que além de linda e carismática, já dava mostras de seu talento promissor. E o time de veteranos deu um show à parte: Beatriz Lyra (adorável), Claudio Correa e Castro, Ana Rosa, Hugo Carvana, Odete Lara em rara aparição televisiva, Jacqueline Laurence, Stenio Garcia, Paulo Goulart... com um timaço desses e um texto inspirado, o resultado não poderia ser menos do que alta dramaturgia.

Constância e Olga, inimigas na trama, renderam ótimos momentos.

Mas o grande destaque mesmo fica por conta de Fernanda Montenegro e sua impagável Olga Portela. Na pele da cafetina não declarada, Fernanda deu um show, deitou e rolou com um texto inspiradíssimo, mas que só renderia na boca de uma atriz de altíssima competência. Olga tinha falas maravilhosas e Fernanda soube dosar perfeitamente o cinismo e a hipocrisia da personagem que, afinal de contas, era do bem e guardava um dos maiores segredos da trama.

Quanto à polêmica com Felipe Barreto, o autor chegou a criar uma redenção para o personagem, fazendo com que o público pensasse que ele havia se regenerado. Mas ao final, Marcia consegue cumprir seu objetivo de desmascará-lo.  A cena que fecha a novela é a de Felipe se casando com uma jovem herdeira de um fazendeiro em Goiás e paquerando outra jovem durante a cerimônia. O olhar cúmplice de Felipe para o público e o comentário: “é virgem” foi a resposta perfeita do autor para o público, que também se deixou seduzir por Felipe, confirmando o tom cínico e crítico que permeou toda a trama.

Enfim, quando assisti à novela pela primeira vez, era muito jovem e nem tomei conhecimento dos comentários negativos a respeito dela. Agora, ao rever a novela, estou constatando a ótima impressão que tive na época. Um autêntico Gilberto Braga, com tudo aquilo que o universo do autor tem de delicioso: a elegante decadência do high society, alpinismo social, armações e viradas espetaculares, texto irônico, mas sem deixar de lado o bom e velho folhetim e, claro, grandes cenas para grandes atores.
Fica a torcida por uma reprise no Canal Viva no mesmo horário de “ValeTudo”  e a lembrança de duas décadas de mais essa pérola gilbertiana.



quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Temas e Trilhas: Gal Costa

                                                                                                                                                                     


Foto: Thomas Baccaro

O melão inaugura uma nova seção: meus 10 temas favoritos em novelas e séries de algum cantor, cantora ou grupo. Na estreia, uma grande estrela e aniversariante da semana: Gal Costa, uma verdadeira recordista de sucessos em novelas. Confesso que sou muito fã dessa cantora. Gal é a favorita do meu pai e Bethânia, de minha mãe. Cresci ouvindo as duas. Passei minha infância em volta aos seus LP's. E como são os temas de Gal em novela são muitos, foi difícil chegar a apenas 10. O critério, claro, é sempre afetivo: canções de novelas que gosto ou que me marcaram de alguma forma. Vamos a elas.
                                                                                                                                                                 

 10) SOLIDÃO (Tom Jobim / Alcides Fernandes) – novela “O DONO DO MUNDO” (1991)

Impossível não se lembrar das desventuras de Márcia (Malu Mader), arrasada, caminhando pelas ruas após ter sua vida destruída pelo médico Felipe Barreto (Antonio Fagundes) e não ligar a cena à bela canção de Jobim. Marcia fora enganada pelo vilão e enquanto sofria ao som da canção planejava vingança e tentava esquecer seu algoz no folhetim de Gilberto Braga. Lembro de Malu Mader andando pela rua desolada, quase sendo atropelada por um carro ao som dessa canção. Gal nos oferece uma interpretação doce, triste na medida, sensível. Vale sempre a pena ouvir de novo.


                                                                              
                                                                                                                                                                   
9) FORÇA ESTRANHA (Caetano Veloso) – novela “OS GIGANTES” (1979)


Não vi nada além do último capítulo e algumas cenas avulsas dessa novela de Lauro Cesar Muniz. Mas de posse da informação que esse era o tema de Paloma (Dina Sfat), não fica difícil imaginar o poder da interpretação da atriz aliada à sensível interpretação da cantora. Aliás, nada mais adequado, já que tanto Gal quanto Dina são duas forças da natureza. Tomara que um dia consiga conferir alguma cena da novela em que isso aconteça. Um clássico!





                                                                                                                                                                     
8) NADA MAIS (Stevie Wonder – VS. Ronaldo Bastos) – novela “CORPO A CORPO” (1984/85)

O ano era de 84. Debora Duarte e Antonio Fagundes se divorciavam na novela de Gilberto Braga. Na vida real, meus pais também, portanto me identificava totalmente com o sentimento de Selton Mello, que vivia o filho do casal. O tema era de Tereza (Gloria Menezes), pomo da discórdia do casal e me recordo remotamente de algumas cenas com essa bela versão do disco “Profana”. Mas a lembrança mais forte mesmo é que foi o tema da separação na minha própria casa e de ouvir essa canção incontáveis vezes na sala de casa quando meu pai colocava o LP no moderno 3 em 1 (risos!). Detalhe: meu pai sempre foi COM-PLE-TA-MEN-TE apaixonado por Gal e ama essa música que, de fato, foi emblemática naquele momento e perdura até hoje em minha memória.

                                                                                                                                                                        


7) ALGUÉM ME DISSE (Evaldo Gouveia / Jair Amorim) – novela “TIETA” (1989/90)


No início, impliquei um pouco com essa música na novela de Aguinaldo Silva, pois amava o tema anterior do casal Elisa e Timóteo (Tássia Camargo e Paulo Betti), “Eu e você”, na voz de José Augusto. Mas, não sei se, pela canção tocar tanto na novela, ou se pela perfeita junção de arranjo, voz e adequação à trama, hoje é uma das minhas preferidas da maravilhosa trilha sonora de “Tieta”. Até hoje quando a música toca no rádio, me vem imediatamente à memória os encontros e desencontros desse casal, que fez o maior sucesso na época. Sem contar que, tudo de “Tieta” é inesquecível pra mim. Inevitável: “Alguém me disse”, na voz de Gal também me transporta imediatamente para as dunas do Agreste.


                                                                                                                                                                    
6) FUTUROS AMANTES (Chico Buarque) – novela “HISTÓRIA DE AMOR” (1995)

A canção é indiscutivelmente deslumbrante. Na voz de Gal e no arranjo inspiradíssimo de Jacques Morelembaum do disco “Mina d’água do meu canto” é de fazer chorar. E como harmonizou perfeitamente com o bonito romance de Carlos e Helena (José Mayer e Regina Duarte) em “História de Amor”, delícia de novela de Manoel Carlos. O texto sempre inspirado do autor aliado às belíssimas paisagens do Rio e Gal, aqui doce, serena, entregue à paixão, em estado de graça. Até hoje me arrepio. Como é bonita essa gravação...



                                                                                                                                                                    

5) E DAÍ (Miguel Gustavo) – novela “CIRANDA DE PEDRA” (2008)

Quando comprei o CD “Todas as coisas e eu”, confesso que outras faixas me chamaram mais a atenção. Mas logo que assisti ao clipe de apresentação da “Ciranda de Pedra”, me arrebatei. De fato, é uma canção perfeita para a trama de Laura (Ana Paula Arósio) que, reprimida pelo marido, ainda mantinha o pensamento e o coração livres. A sequência da personagem no carro passando por um túnel de São Paulo, feliz, com a sensação de liberdade, é bonita de mais e um dos grandes momentos da novela de Alcides Nogueira que, assim como a canção, conta a história de um amor que nenhuma repressão ou proibição pode matar.


                                                                                                                                                                    

4) BABY (Caetano Veloso) – minissérie “ANOS REBELDES” (1992)

A ficção se misturava com os acontecimentos históricos nessa antológica minissérie de Gilberto Braga. João Alfredo (Cássio Gabus Mendes) presenteia Maria Lúcia (Malu Mader) com o disco de uma nova cantora chamada Gal Costa. Juntos ouvem “Baby” e reafirmam seu amor. É verdade que Caetano compôs a música para a mana Bethânia cantar, mas essa versão de 68 de Gal é definitiva e muito representativa da época. Muitos anos e muitas interpretações de Gal depois, essa permanece como uma das minhas favoritas. Continuo me identificando.




                                                                                                                                                                          
3) SÓ LOUCO (Dorival Caymmi) – novela “O CASARÃO” (1976)

Sim, a canção também foi tema do amor de D. Pedro e Domitila (Marcos Pasquim e Luana Piovani) na minissérie “O quinto dos infernos”. Mas vai ser definitivamente lembrada como tema de abertura dessa novela cultuada por muitos que a assistiram e que suscita curiosidade de quem não a assistiu. Impressionante como Caymmi conseguia sintetizar tanto sentimento, colocar tanta intensidade com tão poucas palavras. “O casarão” falava de um amor que nem o tempo foi capaz de apagar e a canção traduz perfeitamente essa loucura, inerente apenas aos que amam demais, no caso, João Maciel e Carolina, interpretados pelos inesquecíveis Paulo Gracindo e Yara Cortes. E, lógico, um dos maiores clássicos da carreira da cantora.


                                                                                                                                                                      

2) MODINHA PARA GABRIELA - (Dorival Caymmi) – novela “GABRIELA” (1975)

Quando lembramos de Sonia Braga na pele da fogosa protagonista da novela, a voz de Gal nos vem imediatamente à memória. Aliás, a própria fora convidada para viver Gabriela antes de Sonia Braga. Uma das mais famosas gravações da cantora e mais uma pérola de Dorival Caymmi, que compôs especialmente para a trama das dez. Gal, através de sua interpretação, encarna a própria Gabriela: sensual e brejeira. Inevitável: Gabriela nos remete a Sonia, mas também nos remete a Gal. Caiu como uma luva para a abertura da novela de Walter George Durst, baseada na obra de Jorge Amado.




                                                                                                                                                                      
1) BRASIL (Cazuza / George Israel / Nilo Romero) – novela “VALE TUDO” (1988/89)

Emblemática é pouco! Mais do que o tema de abertura de uma das mais célebres novelas de todos os tempos, essa canção pode figurar em qualquer lista de grandes temas de novelas. O poderoso arranjo, aliado à poesia corrosiva de Cazuza e o vigor da interpretação de Gal, fizeram de “Brasil” o clássico dos clássicos dos temas de novela da cantora. Quem assistiu à novela de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Basséres não tem como não se lembrar da canção e imediatamente remetê-la à famosa banana que Marco Aurélio (Reginaldo Faria) deu para o Brasil, a Odete Roitmann (Beatriz Segall) sendo morta por Leila (Cássia Kiss) e ao embate de Raquel (Regina Duarte) e Maria de Fátima (Glória Pires). Sei não, mas fica difícil imaginar um grande clássico como “Vale Tudo” sem essa canção como tema. E, lógico, na voz e no poder de Gal.
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E vocês, meus queridos? Quais são seus temas de novelas favoritos na voz de Gal? Compartilhem suas lembranças!

                                                                                                                                                                     

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