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sábado, 8 de dezembro de 2012

Melão entrevista Ricardo Linhares: "o escritor recria a realidade a partir do seu olhar"




Ainda faltam alguns dias para o natal, mas o melão e seus leitores já ganharam um tremendo presente: uma entrevista super especial com o queridíssimo e talentoso Ricardo Linhares, que em breve vai assinar o remake de um grande sucesso de Dias Gomes, “Saramandaia”. Ele nos revela algumas novidades dessa nova versão e algumas diferenças em relação à original. Generoso, o autor nos conta toda a sua trajetória, desde o início como autor de programas educativos, o aprendizado com Doc Comparato, que o levou à Rede Globo como redator de casos especiais, passando por programas de humor como “Viva o Gordo”, as primeiras colaborações em novelas e minisséries até se tornar o autor mais jovem a assinar uma trama no horário nobre: “Tieta”, em parceria com Aguinaldo Silva e Ana Maria Moretsohn. A partir daí, foi conquistando vários êxitos em sua carreira e hoje em dia é um dos profissionais mais valorizados e respeitados de nossa teledramaturgia. Além disso, Ricardo, um noveleiro de mão cheia, relembra suas primeiras paixões televisivas, opina sobre a classificação indicativa e fala do papel da telenovela na vida do brasileiro. Tudo isso com muita simpatia e delicadeza. Além de profissional de primeira linha, Ricardo também nos encanta com sua simplicidade ao narrar uma trajetória tão vitoriosa e (por que não dizer?) inspiradora e emocionante, sobretudo para quem ama novela e trabalha no ramo. Tapete vermelho estendido, melão dá a palavra ao querido Ricardo:  



O que podemos esperar da nova versão de “Saramandaia”? Quais as novidades e o que você pretende manter em relação à versão original?

Ricardo Linhares - Os tempos são outros. De 1976 (data em que a primeira versão foi ao ar) para cá, o mundo mudou, a TV mudou e os espectadores mudaram. Hoje, há outra expectativa em relação à dramaturgia televisiva. O público era mais passivo, em parte por falta de concorrência, de conhecimento comparativo com o que era feito nas TVS de outros países. Apesar da TV não ser mais novidade, ainda tinha uma certa aura, uma certa mitificação. Era o grande veículo popular de acesso às informações. Muitas casas ainda não tinham aparelhos de televisão, a TV a cores era um luxo para poucos. Hoje, num certo sentido, a TV se banalizou. Os aparelhos estão espalhados pelos cômodos, assiste-se à TV no computador, nos ônibus, nos celulares. Eu sou espectador também, eu curto novela, assisto ao trabalho dos amigos, vibro com uma boa história. Então, me coloco no lugar do público, que está mais exigente, é ativo. É preciso acompanhar a evolução. Então, não faz sentido simplesmente reproduzir o que foi feito há quase 40 anos. É preciso recontar, recriar. A primeira versão de “Saramandaia” era uma novela atemporal, que se passava numa cidadezinha perdida no interior, ainda dominada por coronéis, como se estivessem nos anos 40. Eu trouxe a novela para o Brasil contemporâneo. Parte da história vem da novela do Dias; outra parte, eu criei especialmente para esta versão, com novos conflitos e novos personagens, alguns de realismo mágico, mas todos vivendo questões da atualidade.

Como está sendo a experiência de escrever uma novela de duração mais curta?

Ricardo Linhares - É um alívio ter 60 capítulos em vez de 185 (de “Insensato Coração”, minha novela mais recente). Por outro lado, é um desafio condensar a história em vez de espichá-la, fazer as tramas renderem por diversos meses, como habitualmente. Os escritores de telenovela não têm hábito da concisão. É estimulante. As cenas são curtas, o diálogo ágil, o ritmo intenso.

Você teve suas primeiras oportunidades como roteirista depois de fazer cursos, como o que fez na CAL ministrado por Doc Comparato e, posteriormente, na Casa de Criação Janete Clair. Considera importante iniciativas como essas para a formação do profissional como a atual oficina de teledramaturgia promovida pela Rede Globo?

Ricardo Linhares - Considero fundamental. Devo o início da minha carreira aos cursos que fiz e aos ótimos professores que tive, como Doc, Paulo José, Flávio de Campos. Além dos que você citou, eu fiz outros cursos. Entre eles, uma Oficia de Humor, na Globo. Nessa época, eu já escrevia como freelancer um programa chamado “Caso Verdade”, que ia ao ar no horário atual de “Malhação”. Havia necessidade de redatores de humor e a Globo criou esta oficina. Entre outros, estavam Alexandre Machado e Mauro Wilson, que acabou de ganhar o Emmy por “Mulher Invisível”. Éramos todos jovens... A direção gostou dos trabalhos que apresentei ao longo da oficina. E foi assim que tive o meu primeiro contrato, de 1 ano de duração, como redator do programa “Viva o Gordo”, do Jô Soares, fazendo parte da equipe do Max Nunes e do Hilton Marques. A partir daí, meus contratos foram sendo renovados. E, ao fazer a Oficina de Telenovela, na Casa de Criação, fui convidado para trabalhar como colaborador do Aguinaldo Silva em “O Outro”. Espero que a Globo faça mais Oficinas de Dramaturgia e que outras emissoras também invistam na formação de novos profissionais. Mas hoje em dia o panorama do mercado mudou, com a entrada forte das produtoras independentes na TV a cabo, com a nova legislação. E o jovem roteirista não precisa mais ter a Globo como única meta. É a maior empregadora da área no Brasil e uma empresa sólida, que valoriza seus profissionais. Tenho orgulho de trabalhar lá. Mas o leque se abriu, existem mais alternativas do que quando eu comecei. Infelizmente, Record, SBT, Band e outras emissoras não conseguem manter um investimento constante na área de teledramaturgia, o que aqueceria o mercado. Já realizaram trabalhos excelentes e de grande repercussão, gerando muitos empregos, mas avançam e recuam, não transmitem confiança a longo prazo. Por isso, considero o trabalho nas produtoras independentes o grande caminho atualmente. É difícil de entrar, ficar e conquistar um lugar na Globo. Imagino que nas produtoras também. Mas a TV fechada está iniciando uma trajetória de expansão. E um dia a TV aberta vai chegar na exaustão.

Você escreveu muitos casos especiais no início de sua carreira. Que tal o formato? O que aprendeu com eles e levou para as novelas depois?

Ricardo Linhares - O início, na Globo, quando eu tinha 21 anos, foi nos programas “Caso Verdade” e “Tele-tema”, que o sucedeu (ao mesmo tempo, eu já trabalhava como redator de programas educativos na extinta TVE, desde os 19 anos, enquanto ainda cursava faculdade de Comunicação, sou formado em Jornalismo). Ambos tinham o mesmo formato: 5 capítulos, de 30 minutos cada, com 2 intervalos comerciais, que iam ao ar de segunda à sexta-feira, no mesmo horário em que “Malhação” é exibida hoje. Era preciso ter uma história com início, meio e fim, com ganchos diários e fôlego para durar os 5 dias. Foi uma excelente escola para escrever novelas. Quando eu e Ana Maria Moretzsohn fomos convidados pelo Roberto Talma para supervisionar a primeira temporada de “Malhação”, levamos este formato para lá, com algumas adaptações, claro. Havia um núcleo central na academia de ginástica, e historinhas com personagens de participação que duravam 5 capítulos. Os 2 primeiros anos da novelinha foram um sucesso. E eu atribuo à dinâmica desse formato.

Você diria que “Tieta” representa um marco em sua carreira? Quais suas lembranças da novela?

Betty Faria na cena em que Tieta retorna ao agreste

Ricardo Linhares - Só tenho lembranças boas de “Tieta”! Há novelas especiais, em que tudo dá certo, e “Tieta” é uma delas. A parceria com o Aguinaldo e a Ana, a concepção do Paulo Ubiratan (um dos grandes diretores da nossa TV, infelizmente pouco valorizado), o elenco maravilhoso, as caracterizações, a música. Aguinaldo, Ana e eu nos reuníamos toda segunda-feira num apart-hotel, disponibilizado pela produção para os nossos encontros, e criávamos as tramas do próximo bloco. A partir da reunião, Aguinaldo fazia as escaletas, que são o resumo de cada capítulo. E cada um de nós escrevia 2 capítulos. As reuniões eram deliciosas, ríamos muito, trabalhávamos nos divertindo o tempo todo. Claro que o trabalho era puxado, embora a duração de cada capítulo fosse bem mais curta que hoje em dia. Mas o retorno foi compensador. É muito importante trabalhar com pessoas queridas, generosas e criativas. Éramos um time entrosado. É uma novela que deixou saudade no público e na equipe. Agora, a lançaram em DVD. Eu comprei a caixa, mas por conta do trabalho em “Saramandaia”, ainda não tive tempo para assistir. Vai ser o meu programa de férias!


Depois de “Tieta”, você assinou “Lua Cheia de amor” em parceria com Ana Maria Moretsohn e Maria Carmem Barbosa. Como foi essa experiência?

Francisco Cuoco e Marilia Pera em cena de "Lua cheia de amor"

Ricardo Linhares - Foi um remake de “Dona Xepa”, novela do Gilberto Braga baseada na peça homônima de Pedro Bloch. O Gilberto supervisionou os primeiros capítulos. A direção era do Talma. E o elenco era encabeçado pela Marília Pera, que fazia dona Genu, uma camelô – diferentemente da personagem original, que era feirante. Os dois filhos tinham vergonha da mãe batalhadora, mas inculta. É um tema melodramático fascinante e eterno, que recentemente fez sucesso em “Morde & Assopra” e “Fina Estampa”. Li que Gustavo Reiz vai escrever uma novela baseada na peça, para a Record. Achei uma ótima ideia e desejo sucesso a ele. Infelizmente, a minha novela não pode ser reprisada, apesar dos inúmeros pedidos dos espectadores, por uma questão jurídica envolvendo os direitos dos herdeiros de Pedro Bloch. Quem roubou a cena foi a querida Arlete Salles, que fazia a alpinista social Kika Jordão, cujo bordão “translumbrante” caiu na boca do povo. Suzana Vieira, como Laís Souto Maia, a rica chique e bom-caráter, também se destacou. A novela demorou um pouco para engrenar; por inexperiência, abrimos tramas paralelas demais no início. A partir da entrada de Francisco Cuoco, que fazia o marido malandrão da Genu, que havia a abandonado, a trama deslanchou.


Você escreveu muitas novelas em coautoria com Aguinaldo Silva e Gilberto Braga. O que destacaria de cada uma dessas parcerias?

Ricardo Linhares e Gilberto Braga: parceiros constantes

Ricardo Linhares - Eu gosto de trabalhar em parceria. Gosto de somar e compartilhar. E tive a felicidade de contar com dois companheiros como Aguinaldo e Gilberto para dividir a autoria de inúmeros trabalhos. Ambos têm muito em comum, como talento, disciplina, organização, método, criatividade e generosidade. Nunca houve qualquer tipo de desavença entre nós, nunca divergimos sobre os rumos de uma trama porque sempre houve respeito pela ideia do outro. Conversando, nós sempre chegávamos à melhor solução. Aguinaldo e Gilberto têm um universo de referência diferente e trabalhar com ambos foi enriquecedor e fundamental na minha formação. É muito bom trabalhar em dupla. É curioso que em diversas ocasiões eu havia sugerido, separadamente, ao Filipe Miguez e a Izabel de Oliveira que procurassem trabalhar em parceria, principalmente ao assinar uma trama pela primeira vez. E os dois se uniram para escrever Cheias de Charme, esse sucesso estrondoso.

Como foi ajudar a escrever “Anos Rebeldes”, uma das mais cultuadas minisséries de Gilberto Braga?

cena de "Anos Rebeldes"
Ricardo Linhares - Existem oficinas de roteiro, faculdade de Letras, mas só se aprende realmente a escrever para TV na prática. Como não existe faculdade de Teledramaturgia, cada trabalho é como um curso de formação. Colaborar com o Gilberto em “Anos Rebeldes” foi como fazer um mestrado na área. Aprendi muito com o talento dele. E tenho o maior orgulho de ter participado desse trabalho.

Em “Pedra sobre Pedra”, você retomou a parceria com Aguinaldo Silva e Ana Maria Moretsohn. O que destacaria de positivo nessa novela?

Ricardo Linhares - Continuamos grandes parceiros e grandes companheiros. Levamos mais adiante a proposta de realismo fantástico, com personagens marcantes até hoje, como Jorge Tadeu (Fabio Jr) e Sérgio Cabeleira (Osmar Prado), que era sugado pela lua cheia. Mais uma vez, Paulo Ubiratan foi o diretor responsável por altos voos de criatividade, além de saber escalar muito bem um elenco. Digo mais: esta novela mereceria um remake, com as possibilidades de efeitos especiais que temos hoje.

Sergio Cabeleira (Osmar Prado) em "Pedra sobre pedra"
“Fera Ferida” foi uma novela inspirada na obra de Lima Barreto. Em adaptações como essa, qual o limite entre seguir a obra original e a livre criação?

Ricardo Linhares - Tanto em “Fera Ferida” quanto em “Porto dos Milagres” (baseada em “Mar Morto” e “A descoberta da América pelos turcos”, de Jorge Amado) não ficou praticamente nada das obras que originaram essas tramas, além do nome de um ou outro de personagem, de uma ou outra situação. Tivemos que mudar tudo, pois não havia trama que sustentasse meses de história. Se não fosse mexido, não haveria novela. Tanto Lima Barreto quanto Jorge Amado entraram mais como uma grife, foram homenageados como os grandes escritores que são. O adaptador não pode ficar engessado na obra que serviu de ponto de partida.

Lima Duarte e Edson Celulari em "Fera Ferida"
Suas novelas-solo “Meu bem querer” e “Agora é que são elas” têm em comum o fato de serem novelas regionalistas cujas tramas se passam em cidades fictícias. Você se sente mais à vontade nesse universo?

Ricardo Linhares - Eu sou um contador de histórias. Esse é o meu ofício. Estas duas novelas foram regionais porque as ideias brotaram assim. Cada trama nasce com as suas características próprias. Eu me sinto à vontade tanto no universo urbano quanto no rural. Até hoje, não escrevi novelas de época, tirando a colaboração em “O tempo e o vento” e “Anos Rebeldes”. Gostaria muito de escrever uma trama histórica. Não gosto de ficar restrito a um estilo. Sobre cidades fictícias, a verdade é que todas as tramas se passam em locais fictícios, embora alguns pareçam reais.

Flavia Alessandra e Leonardo Brício em "Meu bem querer"

Em “Paraíso Tropical”, pudemos identificar muito do estilo de Gilberto Braga, mas também é possível identificar muitas características de suas obras como os diversos quiprocós que aconteciam no Edifício Duvivier. Até que ponto a Copacabana da novela se assemelhava com as cidades fictícias das tramas regionalistas que você escreveu?

Ricardo Linhares - Respondi acima sem ter lido esta pergunta. A Copacabana do Edifício Duvivier era tão fictícia quando o Divino de “Avenida Brasil” ou o Leblon do Manoel Carlos. O escritor recria a realidade a partir do seu olhar; senão, faria um documentário.

“Insensato Coração” foi uma novela, cuja estrutura nos primeiros 100 capítulos foi mais episódica com tramas que iniciavam e se encerravam rapidamente e personagens que entravam e saíam o tempo todo da trama. A partir da segunda metade, a novela apresentou uma narrativa mais linear seguindo o modelo clássico do formato do gênero. A que se deveu essa mudança?

"Insensato Coração": sucesso também no mercado internacional
Ricardo Linhares - Na segunda metade, pode ter diminuído um pouquinho as participações, mas a novela continuou episódica até o final. Esta era a proposta da trama, a sinopse foi criada assim. Eu sempre quis escrever uma novela em que personagens fixos contracenassem com participações. Como na vida. Quantas pessoas passam por nós, convivem algum tempo, marcam ou não nossas vidas, e depois nunca mais as reencontramos? Por que na novela temos que acompanhar todos os personagens do início ao fim? Às vezes, a trama de um núcleo já acabou, mas os atores ficam até o final, sem história. Eu e o Gilberto optamos por fazer com que eles saíssem da novela quando se esgotasse a sua função. Nos seriados americanos, esse recurso é super comum. Atores entram e participam de 2 ou 3 episódios e depois vão embora; alguns voltam 10 episódios depois e somem novamente. O público entende a dinâmica. Na novela, provocou polêmica: houve quem visse uma novidade, houve quem reclamasse que esse formato não dava tempo de gerar empatia com os personagens novos. O nosso público está cada vez mais conservador e imediatista, quer a trama mastigadinha para entender. Uma novela ousada, inteligente e sensacional como “O Casarão”, do Lauro César Muniz, que se passava em 3 épocas simultâneas, jamais poderia ser feita hoje. O espectador ficaria confuso. Enfim, eu fiquei feliz por ter podido experimentar. E considero o saldo positivo. Gilberto e eu nunca pretendemos revolucionar a telenovela. Acho que isso não existe. Mas quisemos contar aquela trama desta maneira específica. A venda da novela para outros países tem sido excelente.

Como é a divisão de trabalho entre você e seus colaboradores? Você costuma dar a liberdade a eles para criar dentro da escaleta ou sugerir novos rumos para as tramas?

Ricardo em seu escritório. Foto: Cícero Rodrigues para o livro "Autores"
Ricardo Linhares - Todos têm liberdade, claro. Somos uma equipe de amigos, de pessoas em quem se pode confiar. A opinião de cada um é importantíssima e soma no resultado final. Eu divido o trabalho por núcleos, já que cada escritor naturalmente tem mais afinidade com determinado tom: comédia, romance, ação, jovens, etc. Então, meus colaboradores costumam seguir um personagem, ou um núcleo, do início ao fim da novela. Temos sempre reuniões de criação em que conversamos sobre os rumos da trama. E hoje em dia, com a facilidade da internet, ficamos o tempo todo conectados trocando dezenas de e-mails com dúvidas e sugestões.

Você atuou como supervisor de texto em “Cheias de Charme” e, aparentemente, a novela não tinha muitas características de suas obras, ao contrário de outras supervisões em que notamos de maneira muito clara o estilo do supervisor. Até que ponto o supervisor deve intervir no trabalho do autor?

Ricardo Linhares - Cada pessoa trabalha de uma maneira diferente, não existe certo, nem errado. Na minha opinião, o supervisor não deve intervir no tom dos autores. Além de “Cheias de Charme”, da primeira temporada de “Malhação” e da penúltima temporada, já fiz outros trabalhos de supervisão, principalmente de sinopses. Como gosto de trabalhar em equipe, considero o supervisor mais um membro do time. O meu trabalho é ajudar o autor a contar a história que ele deseja contar e do jeito que ele quer. Claro que, com a experiência de 30 anos de TV que eu tenho, sei que algumas coisas devem ser bem avaliadas e dou a minha opinião e apresento alternativas. Não existe nada pior do que alguém que diz: não vai por esse caminho. E não apresenta outras soluções. Mas na TV não existem regras nem fórmulas. O que deu errado uma vez, pode dar certo em outras circunstâncias. O que faz sucesso hoje pode ser um fracasso no ano que vem, vice-versa. Então, é preciso liberdade e ousadia. Como supervisor, eu cuido, ajudo, ando de mãos dadas, tiro dúvidas, leio tudo, do início ao fim, participo das reuniões de criação, mas nunca impondo. Felipe e Izabel são dois escritores talentosíssimos, antenados, criativos e responsáveis. Ambos já tinham uma grande experiência como colaboradores com diversos autores. O sucesso que fizeram me encheu de orgulho. E fiquei muito feliz por ter feito parte da equipe deles.

"Cheias de Charme": novela de sucesso que contou com a supervisão do autor

Qual sua opinião sobre classificação indicativa?

Ricardo Linhares - Não sou contra a classificação indicativa. Acho que o espectador (principalmente os pais) tem o direito de saber a censura que o Ministério da Justiça dá a cada programa. No cinema, é assim. Sabemos se um filme tem censura livre, ou é proibido para maiores de 12, 16 anos etc. Sou radicalmente contra atrelar a classificação indicativa ao horário de exibição. É a mesma coisa que filmes com censura 18 anos só pudessem ser exibidos a partir das 22h nos cinemas. As regras da censura oficial não são claras. Programas sensacionalistas, supostamente jornalísticos, exibem nudez ao meio-dia. E em “Malhação” não podemos fazer cenas de intimidade de namorados acordando na mesma cama. É hipocrisia.

Geralmente, quando cria algum personagem, já pensa no possível ator / atriz para interpretá-lo?

Ricardo Linhares - Primeiro nasce o personagem, em função da trama. Ao elaborar a ação do personagem e suas características, já penso no ator/atriz para interpretá-lo. Ou, pelo menos, num tipo de ator, inicialmente. Por exemplo, ao começar a esboçar um perfil, posso pensar em Sophia Loren. E depois, à medida em que desenvolvo suas características, me vem à cabeça a intérprete brasileira. Na fase de sinopse, muitas vezes as escalações iniciais podem não se concretizar, por diversas razões. Mas ao escrever o diálogo dos primeiros capítulos acho importantíssimo saber o intérprete.

Você é noveleiro? Assiste a novelas desde criança ou só começou a acompanhar por força do trabalho? Quais as novelas e personagens favoritos do Ricardo Linhares espectador?

Ricardo Linhares - Sou noveleiro desde cedo. Mas na minha casa não havia o hábito de se assistir às novelas. Aliás, víamos pouca televisão em família. Tenho lembranças de novelas antigas, “Irmãos Coragem”, “Cavalo de aço”, a primeira versão de “Mulheres de Areia”, de “A Viagem”, “O semideus”, “Selva de Pedra”, “Escalada”, “Estúpido Cupido”, “Anjo Mau”, “Helena”, “Bravo”, “Corrida do ouro”. Pelo horário, eu não podia assistir às novelas das 22h porque tinha que acordar cedo para ir para o colégio. Mas sempre dava um jeitinho de acompanhar. Lembro de “O Bem-amado”, “O Espigão”, “Gabriela”, “Saramandaia”. Gostava de quando os meus pais saíam ou tinha festa em casa, porque a TV ficava liberada. Uma novela das 10 que me marcou muito foi “Os ossos do barão”. Fiquei eletrizado com “O Rebu”. Adorei “Nina”. “O grito” foi inesquecível. Enfim, são tantas... “Pecado Capital”, “Duas Vidas”, “Feijão Maravilha”, “O Astro”, “Vejo a lua no céu”, “O feijão e o sonho”, “A sucessora”, “Paraíso”, “O Casarão”, “Dancin’ Days”. Nem passava pela minha cabeça que um dia eu seria escritor e criaria novelas. Mas acho que a semente foi plantada ali.

Foto: Cícero Rodrigues para o livro "Autores"


Já pensou em escrever para outros veículos como teatro ou cinema?

Ricardo Linhares - Na verdade, comecei a escrever para teatro, aos 14 anos. As minhas primeiras leituras foram de peças teatrais, devorei os clássicos na adolescência, dos gregos a Tennessee Williams, Shakespeare, Ibsen, Arthur Miller, O’Neill, Pirandello, Nelson Rodrigues, Jorge Andrade, Dias Gomes, Ionesco, Beckett, entre dezenas de autores maravilhosos. Eu lia tudo o que podia, era rato de biblioteca. Leitura é tudo. Acho que hoje em dia as pessoas leem tão pouco... Há quem queira ser escritor e nunca tenha lido Édipo Rei, por exemplo, que é a base de toda a dramaturgia ocidental. Ganhei alguns prêmios em concursos de teatro. E pretendia seguir por aí. Nem pensava em televisão. Mas conheci uma produtora da TVE, Ana Gouveia, num curso de inglês (olha a importância dos cursos na minha vida!). É uma mulher inteligente, culta, dinâmica. Ela produzia uma série de programas educativos chamada “Qualificação Profissional”. Conversando no intervalo das aulas, eu contei que havia ganho alguns prêmios com peças de teatro. Ela me pediu para ler. E depois me convidou para escrever os roteiros da série. Eu tinha 19 anos, era estudante de Jornalismo. Foi assim que entrei para a TVE. Gostei do trabalho, soube do primeiro curso que o Doc Comparato daria na CAL, me inscrevi. Doc gostou do meu texto, me encaminhou ao “Caso Verdade”, na Globo, que era dirigido pelo Paulo José. E eu nunca mais parei, sempre emendei um trabalho no outro. Tenho 50 anos, trabalho na Globo desde 1983. Já escrevi para todas as faixas, de Malhação a minisséries e linha de show. Fui o mais novo autor de novela das 21h, aos 27 anos, ao assinar “Tieta” com Aguinaldo e Ana Moretzsohn. Entre autoria, coautoria, colaboração e supervisão, já fiz mais de 15 novelas, além de Malhação, minisséries, especiais, seriados e humor. Nesse tempo todos, várias vezes já pensei em voltar ao teatro, mas, por falta de tempo, fui adiando... e hoje não tenho mais interesse. Adoro teatro como espectador, sou assíduo. Mas guardo as minhas ideias pra TV. Anda tenho muito trabalho pela frente.

Qual o papel da telenovela na vida do brasileiro?

Ricardo Linhares - É, e acredito que sempre será, a grande fonte de emoção, risos, romances, sonhos e reflexões. É nossa querida companheira diária. Ao mesmo tempo em que entretém, a telenovela ajuda na evolução dos costumes, a diminuir o preconceito, leva informação e ilustra a vida da maioria da nossa população. É preciso sempre estar mudando para acompanhar a evolução do mundo e do comportamento, com ousadia, liberdade e responsabilidade. A novela é o espelho da vida.

Ricardo, gostaria de agradecer muitíssimo pela entrevista. É uma honra para o melão e uma alegria para os leitores. Sou muito seu fã. Te desejo muito sucesso em “Saramandaia” e fica a torcida para que possamos trabalhar juntos algum dia.

Ricardo Linhares - Valeu, querido! Eu é que agradeço a oportunidade. Um beijo grande de final de ano para os seus leitores. Feliz 2013 a todos, que seja um ano pleno de realizações! Parabéns pelo merecidíssimo Emmy de “O Astro”, e tomara que os nossos caminhos se cruzem adiante. Muito obrigado pela torcida positiva!

Eu e Ricardo em evento na PUC-Rio
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domingo, 13 de junho de 2010

Série Memória Afetiva: minhas cidades fictícias favoritas



Cidade cenográfica de "Ribeirão do Tempo"

Sempre gostei de novelas com cidades fictícias. Elas são sempre motivo pra se mostrar algo diferente, especial. Ultimamente, elas não têm aparecido nas novelas com muita freqüência, mas uma atual novela, “Ribeirão do tempo”, de Marcílio Moraes, está reeditando esse costume. A novela ainda está muito no comecinho, mas sua cidade já nos desperta uma certa nostalgia. Ribeirão do tempo é cheia de tipos pitorescos, situações inusitadas e um quê de ironia e deboche. Mesmo não sabendo ainda quais surpresas a novela nos reserva, mas já entrando no clima, vou falar um pouco de MINHAS cidades fictícias favoritas:


10) Já deixo esse espaço reservado para as lembranças de vocês das cidades que, porventura, esqueci de mencionar. Com quem fui terrivelmente injusto? Aqui vão algumas sugestões: Resplendor (PEDRA SOBRE PEDRA), Remanso (DESPEDIDA DE SOLTEIRO), Porto dos Milagres (PORTO DOS MILAGRES), Guará (CIDADÃO BRASILEIRO), TABACÓPOLIS (O fim do mundo), VENTURA (Chocolate com Pimenta), TANGARÁ (O salvador da pátria), ROSEIRAL (Alma gêmea), RIO NOVO (Fera Radical), DEUS ME LIVRE (Pé na Jaca), PONTAL D'AREIA (Mulheres de Areia), ESPLENDOR (Esplendor), SANTANA DE BOCAIÚVAS (Agora é que são elas), SÃO TOMÁS DE TRÁS (Meu bem querer).

9) Passaperto (DESEJO PROIBIDO - 2007)

Confesso que a trama central dessa novela de Walther Negrão não me interessava muito. Mas acompanhar as paripécias dos coadjuvantes moradores da deliciosa cidadezinha do interior de Minas era tão saboroso e singelo quanto um pãozinho de queijo saído do forno: a fofoqueira Guará (Jandira Martini), a sonhadora Florinha (Grazy Massafera), o verborrágco Viriato (Lima Duarte) e sua impaciente esposa Magnólia (Nívea Maria), que sempre “ataiava” seus discursos, o irreverente soldado Brasil (Nando Cunha) são apenas alguns dos tipos que faziam de Passaperto um lugar curioso e diferente.

8) Greenvile (A INDOMADA- 1997)


Uma cidade nordestina colonizada por ingleses em que todos os moradores misturavam os idiomas português e inglês só podia mesmo ter saído de uma mente inventiva como a de Aguinaldo Silva. Dessa mistura surgiram bordões impagáveis como “Oxente my god”. Não há como esquecer a diabólica Altiva (Eva Wilma), a sensual Scarlett (Luíza Thomé), os românticos Emanuel e Grampola (Selton Mello e Karla Muga), as “camélias” de Zenilda (Renata Sorrah ou os rigores da lei da Juíza Mirandinha (Betty Faria). O realismo fantástico também bateu ponto por lá quando o Delegado Motinha (José de Abreu) caiu no buraco feito na praça pelo prefeito Ipiranga Patiguari (Paulo Betti) e foi parar no Japão. Enfim, humor, ironia, deboche e crítica política, marcas registradas de Aguinaldo com sabor de um bom Five o’clock tea.

7) Saramandaia (SARAMANDAIA- 1976)

Essa não faz parte propriamente de minha memória afetiva, já que nem era nascido na época da novela, mas não há como não deixar de citar essa fantástica cidade criada por Dias Gomes em que uma mulher explode de tanto comer, um homem ganha asas e voa e outros acontecimentos inusitados. Só me resta dizer que gostaria muito de ter nascido alguns aninhos antes para ter acompanhado essa novela, que ainda povoa o imaginário de muita gente.

6) Sucupira (O BEM AMADO- 1973)


Confesso que minhas remotas lembranças são mais do seriado dos anos 80 do que da primeira novela em cores da TV brasileira. Mas seria quase impossível encontrar um brasileiro com mais de 25 anos que nunca tenha ouvido falar do prefeito Odorico Paraguaçu, vivido pelo inesquecível Paulo Gracindo; do matador Zeca Diabo, genial criação de Lima Duarte; do atrapalhado Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz) e das maravilhosas Irmãs Cajazeira (Ida Gomes, Dirce Migliaccio e Dorinha Duval). Personagens carismáticos e uma deliciosa sátira política: combinação de sucesso.

5) Albuquerque (Estúpido Cupido - 1976)


Ainda que exista de fato uma cidade com esse nome, a que ambientava a trama de Mário Prata deu o que falar. O irresistível clima do início dos anos 60 com todas aquelas canções inesquecíveis, aquele clima de namorinho no portão, amassos e picardias em geral com gostinho de coisa proibida, já que a sociedade daquela época era ainda mais conservadora. Mocinhas sapecas, velhinhas fofoqueiras e rebeldes sem causa fizeram Albuquerque cair nas graças do público.

4) Armação dos Anjos (VAMP - 1991)

Armação dos Anjos seria mais uma pacata e bucólica cidade litorânea se não fosse o fato de ter sido enfestada de vampiros que fizeram a alegria de muita gente e transformou a trama de Antonio Calmon em mania nacional. Tipos inesquecíveis como a sensual vampira Natasha (Claudia Ohana), o terrível e debochado Vlad (Ney Latorraca), a engraçadíssima família Matoso, liderada por Mary e Matoso (Patricia Travassos e Otávio Augusto), sem contar que tinha um falso padre garotão, um circo e dois adoráveis protagonistas, vividos por Reginaldo Faria e Joana Fomm, que juntaram suas já extensas famílias, aludindo a clássicos como “A noviça rebelde” e “Família Do-ré-mi”. O resultado desse “terrir” com comédia e romance foi uma das novelas mais bem sucedidas do horário das sete.


3) Tubiacanga (FERA FERIDA - 1993)

É uma de minhas cidades fictícias favoritas, pois desta vez Aguinaldo Silva acrescentou o lirismo e poesia da obra de Lima Barreto à sátira política e humor sempre presente nas cidades de suas novelas. Só em Tubiacanga, por exemplo, as lágrimas de uma sofrida mulher como Margarida Weber (Arlete Salles) inundavam a casa ou uma jovem como Camila (Claudia Ohana) dormia por meses a fio. E mais: transformação de ossos humanos em ouro em pó, casal (Demóstenes de José Wilker e Rubra Rosa de Susana Vieira), cuja transa era tão quente que pegava fogo no quarto, enfim... maravilhosas loucuras pra uma só novela.

2) Santana do Agreste (TIETA – 1989)


Além das belíssima paisagens de Mangue Seco, o público também se deleitava com os moradores pra lá de carismáticos de uma cidade nordestina parada no tempo, mas às portas do progresso trazido por uma de suas cabritas desgarradas. Impossível se esquecer das adoráveis beatas Cinira a Amorzinho (Rosane Goffman e Lília Cabral) fiéis escudeiras da terrível e engraçadíssima Perpétua (Joana Fomm), da sonhadora Carmosina (Arlete Salles) e sua esperta mãe Dona Milú (Miriam Pires), da hipocondríaca Dona Juraci (Ana Lúcia Torre), do lascivo Modesto Pires (Armando Bógus) e sua teúda e manteúda Carol (Luíza Thomé), só pra citar alguns. A galeria de tipos é extensa e marcante. Poucas cidades fictícias divertiram tanto quanto esta.


1) Asa Branca (ROQUE SANTEIRO – 1985)


Essa ganha de lavada. A trama de Dias Gomes escrita por Aguinaldo Silva, com colaboração de Marcílio Moraes e Joaquim Assis fez com que o Brasil voltasse suas atenções diariamente para a divertida e polêmica Asa Branca, que funcionava como uma espécie de metáfora e metonímia de nosso país. O Brasil parou por alguns meses para assistir a si mesmo através dessa antológica novela. Todas as nossas características estavam retratadas em Asa Branca: gaiatice, deboche, corrupção, sensualidade, hipocrisia, fanatismo, ambição.... mais humana e mais brasileira, impossível. Como esquecer da beata Pombinha (Eloísa Mafalda) às turras com as meninas da Boate Sexus? Da viúva que foi sem nunca ter sido, Porcina (Regina Duarte), a mais politicamente incorreta heroína de nossas novelas? Do poderoso Sinhozinho Malta (Lima Duarte), que mandava e desmandava, mas se transformava num dócil cãozinho diante de sua amada? Enfim, nunca uma cidade representou tão bem nosso povo como Asa Branca.
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E vocês? Concordam com minha lista? Quais as suas cidades fictícias inesquecíveis?

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