O autor Miguel Falabella (abaixo à esquerda), com o elenco principal da série.
"É mais fácil elogiar a mediocridade. Essa não ameaça.", dispara Alberta Peçanha (Claudia Jimenez) se justificando por não elogiar com freqüência os feitos de Manoela (Danielle Winits) em “A vida alheia”. Frases inquietantes como essa são ditas por personagens nada óbvios o tempo todo na série de Miguel Falabella.
O slogan da fictícia revista “A vida alheia – mais interessante que a sua” já é uma provocação ao público e já mostra que seu criador não está disposto a fazer concessões para agradar. Ao contrário: em tempos em que o nível do humor na TV busca cada vez mais atingir o fundo do poço qualitativo com piadas físicas, fáceis, gratuitas e apelativas, a série vai na contramão disso tudo e brinda o público com o que há de melhor no gênero: comédia dramática inteligente, de humor ácido, reflexivo, aparentemente fútil, mas muito denso e irônico.
O mote de uma revista especializada em celebridades disposta a tudo para conseguir o furo jornalístico e, por conseguinte, o sucesso de vendas, acaba funcionando como ponto de partida para discutir uma série de outras questões como ética, hipocrisia e o valor do afeto e do respeito nas cada vez mais confusas relações amorosas, profissionais e familiares dos dias atuais, cada vez mais marcadas pelo vazio e pelo efêmero. Já no primeiro episódio, mostrou que veio mesmo pra incomodar, já que uma famosa colunista de fofocas se sentiu ofendida com a abordagem da série. Mas talvez a trama contínua que faz o arco da temporada seja ainda mais interessante que as tramas que são apresentadas a cada episódio. E a tensão construída em torno dos personagens fixos é cada vez mais crescente e interessante.
Mas o texto (genial e cheio de subtextos o tempo todo) tão instigante de Falabella e equipe não seria nada se não fosse acompanhada por uma direção competente e ágil e, principalmente, por ótimas atuações, a começar pelo trio de atrizes que comanda a atração: Marília Pêra, emprestando cinismo e classe na dose certa à Catarina, a dona da revista; Cláudia Jimenez, deliciosamente cruel e debochada como a editora-chefe Alberta Peçanha (aliás, o trocadilho com peçonha também é genial); e Danielle Winits, como Manoela, a ambiciosa repórter, que nos remete ao melhor estilo das alpinistas sociais gilbertianas. Porém, justiça seja feita: todo o elenco está afiadíssimo e ligadíssimo na proposta da série. E as implacáveis Alberta e Catarina são humanizadas a cada episódio, o que mostra que as personagens foram construídas com profundidade.
Enfim, “A vida alheia” é um sopro de criatividade, ousadia e competência nas noites de quinta-feira da Rede Globo, que merece ser assistida e comentada. Humor que não leva às gargalhadas, mas que oferece algo mais duradouro e rico: a reflexão sobre o chamado “mundo cão”.




