Mais um grandioso presente de final de ano para o melão e seus
leitores. Particularmente, fiquei muito feliz e honrado com essa entrevista, já
que se trata de um de meus autores favoritos, afinal Manoel Carlos povoa meu imaginário desde sempre. Mais precisamente, desde as
remotas lembranças que tenho de “Sol de
verão”, novela que foi ao ar quando eu tinha 5 anos de idade, mas já me
impressionava com a atuação de Tony Ramos, passando pelo LP internacional da novela
“Baila Comigo” que pertencia às
minhas primas e que eu passei praticamente toda a infância ouvindo, observando
a capa e tentando imaginar do que se tratava a trama (naquela época a internet
não era nem projeto), até assistir de fato a uma primeira trama de sua autoria,
“Felicidade”, em reprise atualmente
no “Canal Viva”. A partir daí minha admiração por ele só aumentou com as novelas
“História de amor” (1995), “Por amor” (clássico de 1997) e “Laços de Família” (2000). Nenhum autor
consegue dar tanta dimensão humana a seus personagens como Maneco, que também é
dono dos diálogos mais naturalistas de nossa teledramaturgia. Suas novelas são
deliciosas crônicas do cotidiano, mas que nunca abrem mão dos melhores
ingredientes do folhetim. Claro que, se como espectador já era fã de carteirinha,
como autor ele é uma verdadeira inspiração.
Mesmo atribulado com os preparativos para sua próxima novela, o
autor cedeu gentilmente um pouco de seu tempo para responder a algumas
perguntas sobre sua vasta carreira. Ele relembra a primeira Helena, vivida pela
saudosa e maravilhosa Lilian Lemmertz
em “Baila Comigo” e comemora o fato da filha dela, Julia, ser a próxima. Maneco
também fala de trabalhos anteriores, de processo de trabalho, das campanhas
sociais em suas novelas, de suas preferências como telespectador, revela alguns
nomes confirmados para a próxima novela e confessa o desejo de trabalhar com
uma grande atriz com quem nunca trabalhou, além de muitos outros assuntos.
Enfim, um prato cheio para todos os fãs do autor e pra todo mundo que ama e
admira teledramaturgia. Mais uma vez, o melão estende o tapete vermelho para um
grande nome de nossa tevê. Com vocês, Manoel Carlos!
Desde que você anunciou que Julia
Lemmertz seria sua última Helena, suscitou uma enorme curiosidade por parte do
público a respeito de sua próxima novela.
O que você já pode adiantar a respeito dela?
Manoel Carlos - A minha novela está prevista para estrear na segunda quinzena de janeiro
de 2014. Daqui a um ano, portanto. A sinopse, já aprovada, tem dois nomes provisórios:
FÊNIX e EM
FAMÍLIA. Ainda estou fazendo
mudanças, corrigindo algumas trajetórias da trama, etc., etc. Portanto,
qualquer coisa que eu adiante corre o risco de ser mudada. Só mesmo quando uma
novela entra na linha de produção é que se pode garantir determinados fatos que
ocorrerão no seu desenrolar.
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| A inesquecível Lilian Lemmertz, a primeira de todas as Helenas do autor; e Julia Lemmertz, filha dela, a próxima Helena. |
Falando em Julia Lemmertz ,
inevitável não lembrar que a mãe dela, Lilian, foi a primeira Helena de suas
novelas. Assistindo a “Baila Comigo” (1981) recentemente, pude comprovar a maestria
do trabalho da atriz e a naturalidade assustadora que ela imprimia em todas as
cenas, por mais simples que fossem. Você diria que a Helena de “Baila Comigo” é
a gênese de todas as outras Helenas? Qual a contribuição da atriz na construção
da identidade da personagem?
Manoel Carlos - Lilian Lemmertz foi, sem nenhuma dúvida, a criadora da Helena e, por
extensão, de todas as Helenas que vieram depois. Foi ela quem deu alma ao personagem,
ao mesmo tempo em que esculpiu nele o seu próprio gestual, sua inflexão maternal,
seu desvelo. Foi ela que deu à Helena esse comportamento dúbio, que mescla
generosidade com egoísmo, e mais tudo que a grande atriz que foi Lilian sabia emprestar
a todos os personagens que criava. Eu a “namorei” de longe, desde que a vi
sobre o palco pela primeira vez, nos anos 60, ao lado de Cacilda Becker e Walmor
Chagas, em “Quem tem medo de Virginia Woolf”, de Albee. Era uma jovem de menos
de 30 anos, que já iluminava o caminho que viria a percorrer como estrela de primeira
grandeza. Vinte anos depois desse encontro, pude dar a ela o personagem de “Baila
Comigo”. A filha Julia foi pelo mesmo caminho. Humana e sensível como poucas,
só agora terei a oportunidade de escrever para ela o papel criado por sua mãe.
Essa oportunidade me deixa muito feliz.
Ainda sobre as Helenas, todas têm em
comum o fato de carregarem um grande segredo e serem bastante abnegadas, mas ao
assistir à reprise de “Felicidade” (1991), atualmente em exibição no Canal
Viva, constatei que a Helena de Maitê Proença, a exemplo das outras, também escondeu
um grande segredo, que foi uma falsa gravidez, promovendo, inclusive, o enterro
de um tijolo, fingindo ser o bebê morto e enganando toda a cidade. Mas o que
essa Helena tem de diferente é o fato de mentir em benefício próprio, ao
contrário das outras, que mentiam pra beneficiar alguém. Isso foi de caso
pensado? O que mais você pode destacar a respeito dessa novela?
Manoel Carlos - Muitas Helenas se parecem em algumas qualidades e defeitos, mas não em
todas, já que ninguém é exatamente igual a outro alguém. Nem entre filhos da
mesma mãe e do mesmo pai. As Helenas são uma imitação de pessoas humanas e
verdadeiras, pois essa é minha maneira de ver as novelas. Nem realista ou naturalista, como querem
alguns. E nem delirantes. Apenas verossímeis. Possíveis. No caso de “Felicidade” há que se notar que
foi uma novela apresentada às 18 horas, numa época (1991-1992) em que não se
podia avançar muito. Além disso, todas as seis ou sete histórias que se
entrecruzavam eram inspiradas livremente em contos de Aníbal Machado. Portanto,
muita coisa desses contos ficou agregada ao meu trabalho. O elenco era afinadíssimo,
com Maitê e Tony formando um par que sempre tive vontade de repetir.
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| Maitê Proença e Tony Ramos em cena de "Felicidade" |
Você também tem planos de escrever uma
minissérie. Ela virá antes ou depois da
novela? Prefere esse formato por serem mais curtas?
Manoel Carlos - É verdade e não vou desistir. A minissérie MADAME, inspirada em “Madame
Bovary”. Acertei com a direção da TV Globo a produção dessa minissérie para
depois da novela. Quem sabe em 2015?
O que acha desse novo formato de novelas
com menos capítulos às 23 horas? Aceitaria continuar a escrever novelas nesse
horário, que proporciona uma liberdade maior para cenas mais ousadas como vimos
em “O astro” e “Gabriela”? Que novela sua escolheria para um remake?
Manoel Carlos - Acho excelente. O “Astro” foi muito bem realizado e acredito totalmente
no sucesso de “Saramandaia”, que vai ser reescrita pelo Ricardo Linhares, um
autor de grande sensibilidade e talento, tanto na comédia como no drama. Eu
escreveria com prazer uma novela para esse horário, mas jamais adaptaria uma
obra minha. Isso não dá certo. O próprio autor não sabe fazer esse trabalho, é
preciso que seja entregue a outra pessoa, que enxergue a tarefa como uma
empreitada totalmente nova.
Você talvez seja o autor que retrata
melhor o universo feminino. De onde vem
essa inspiração e, com exceção das Helenas, que personagens femininas destacaria
em suas obras?
Manoel Carlos - Acho a mulher mais rica do que o homem, como fonte de inspiração. Isso
certamente tem raízes na minha trajetória pessoal, pois fui criado mais pela minha
mãe do que pelo meu pai, tendo nascido depois que eles tiveram duas meninas,
que também participaram da minha criação. Não conheci nenhum dos meus dois
avôs, mas minhas duas avós tiveram papéis fundamentais na minha vida, assim
como três tias e algumas primas, sendo que foram essas, as primas, que despertaram
minhas primeiras paixões de adolescente. Vai nisso também meu amor pelas
atrizes, seres incomparáveis, donas de uma personalidade mutante, capazes de
rir e chorar com a mesma “falsa verdade”. Para mim não existe nenhuma profissão
no mundo melhor do que a de atriz. Sempre divinas e cruéis. Reconheço que todos
os meus personagens femininos têm um acabamento melhor do que os masculinos.
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| Reunião de Helenas. |
Pergunta do leitor
Rodrigo Ferraz:
apesar de paulista, você nunca criou uma Helena nascida aqui. Já pensou em
ambientar uma novela em São Paulo, talvez com uma Helena paulistana, quem sabe
de descendência judia ou italiana?
Manoel Carlos - Já pensei e ainda penso. Sempre quis, desde que escrevi a minha primeira
novela, mas nunca consegui. E acho ótima a sugestão de que fosse descendente de
italianos ou judeus. Quem sabe ainda faço?
Você sempre faz questão de incluir em
suas tramas o que a emissora costuma chamar de merchandising social, como o
caso da violência contra a mulher e o desrespeito contra os idosos em “Mulheres
apaixonadas” (2003), a leucemia em “Laços de Família” (2000), a questão da tetraplegia
em “Viver a Vida” (2009), Síndrome de Down em “Páginas da Vida” (2006) e o
alcoolismo em quase todas as novelas. Ainda assim, você acredita que o objetivo
principal de uma novela é o entretenimento ou a função social é algo
imprescindível?
Manoel Carlos - Para mim, as duas finalidades se completam. Uma não impede a outra. O
que sempre achei é que escrever uma novela, seja para que horário for, é uma
grande oportunidade que o autor tem de oferecer alguma ajuda, sem esquecer o
entretenimento. E essa disposição foi sempre muito gratificante.
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| Trama dos maus tratos aos idosos na novela "Mulheres apaixonadas" |
Que cuidados um autor deve ter ao
retratar a vida de pessoas reais como a cantora Maysa, retratada em uma
minissérie de sua autoria? Qual o limite entre o real e o ficcional?
Manoel Carlos - Escrevi “Maysa” com ampla liberdade. Sem esquecer o que era importante
em sua biografia e sem deixar de salpicar a história com cenas e fatos criados
por mim. Não sou um biógrafo, mas um ficcionista. O resultado foi muito feliz e
teve a concordância do filho da Maysa, o Jayme Monjardim, que assinou a direção
do projeto.
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| Larissa Maciel dando vida à cantora Maysa |
Como é a divisão de trabalho entre você
e seus colaboradores? Você costuma dar a liberdade a eles para criar dentro da
escaleta ou sugerir novos rumos para as tramas?
Manoel Carlos - Não tenho um regulamento para isso. Muitas vezes divido o trabalho,
outras vezes entrego o capítulo para que eles o escrevam integralmente, Não
sigo uma regra, como em quase tudo na minha vida. Minhas escaletas, quando
existem, são precárias, incompletas, com mais sugestões do que determinações.
Trabalho há muito tempo com as mesmas pessoas. Se possível serão sempre elas, ainda
que eu queira que alcem vôos solos, assinando seus próprios projetos, já que
são capazes de realizar esse trabalho.
Você, talvez, seja o autor que mais
consegue dar dimensão humana aos personagens, mas ao mesmo tempo suas histórias
são repletas dos elementos mais tradicionais do melodrama, como segredos de
família, trocas de bebês e outras coincidências do destino. Como consegue
driblar os clichês e as armadilhas do gênero para compor um painel de personagens
sempre tão rico e diverso?
Manoel Carlos - Mas eu não acho que drible os clichês. Uso todos que me pareçam necessários.
Afinal, a vida é feita de lugares-comuns. Não fazemos mais do que repeti-los. O
Millôr Fernandes escreveu uma vez que a originalidade é a coisa mais velha do
mundo. Conheço uma outra reflexão muito interessante de um autor que não me
lembro agora: “O lugar comum é obra de gênio”.
O que distingue um autor do outro é a maneira de repetir e encarar esses
estereótipos. Uma vez, numa conferência que eu assisti do genial Agripino
Grieco, ele disse que muitas pessoas o criticavam por contar, nas palestras,
sempre as mesmas histórias, repetir as mesmas piadas, etc. E ele então perguntava:
“Não temos diariamente o mesmo pôr do sol e a mesma aurora?” E concluía: “E
Deus, afinal de contas, tem mais recursos do que eu!”.
Qual sua posição pessoal a respeito da
classificação indicativa? Até que ponto ela limita o trabalho do autor?
Manoel Carlos - Perto do que já existiu de limitação ao trabalho de um autor, a classificação
é uma benção. Nem obrigatória ela é, mas apenas indicativa, como o nome
diz. E vale lembrar que em outros
países, como nos Estados Unidos, é bem pior.
Na entrevista para o livro “Autores”,
você conta que a reação do público acabou mudando os rumos da trama em “Sol de
Verão” (1983) em que o personagem do Tony Ramos se envolveria com a personagem
de Carla Camuratti e isso acabou não acontecendo. Até que ponto deve-se fazer
concessões para que a autoria não se perca de vista? Citaria algum exemplo inverso,
em que você não cedeu ao clamor popular?
Manoel Carlos - A novela de televisão sempre precisará da aprovação da audiência. E
essa aprovação, muitas vezes, exige mudanças pontuais exigidas pelo público.
Você é noveleiro? Quais são as novelas
preferidas do Manoel Carlos espectador?
Manoel Carlos - São muitas, mas cito apenas três: “Mulheres de Areia”, de Ivani Ribeiro,
“Que Rei sou eu?”, de Cassiano Gabus Mendes e “Nina”, de Jorge Andrade.
Já pensou no elenco da nova novela?
Manoel Carlos - Reservei alguns nomes, além da Julia Lemmertz. Não me lembro de todos
neste momento, mas entre eles estão: Tony Ramos, Vivianne Pasmanter, Natália do
Vale e Helena Ranaldi. Gostaria de ter a Mel Lisboa, uma atriz que a Globo, a
meu ver, não poderia ter perdido, mas quem sabe... não é?
Há alguma atriz para quem você gostaria
de escrever, mas que nunca escreveu?
Manoel Carlos - Glória
Pires, sem nenhuma dúvida. E não perdi a esperança.
Para terminar, qual o papel da
telenovela na vida do brasileiro?
Manoel Carlos - Muito presente no dia-a-dia e de ampla aceitação em todas as classes
sociais, econômicas e culturais. Nada se compara a ela, pela diversão que
proporciona e – muitas vezes – pela reflexão que provoca sobre temas comuns na
esfera humana. Falar para milhões é – afinal de contas – o sonho dourado de qualquer
escritor. E o novelista de televisão realiza esse sonho diariamente.
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| Foto: Cícero Rodrigues para o livro "Autores" |
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