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domingo, 16 de dezembro de 2012

Melão entrevista Manoel Carlos: “Lilian Lemmertz foi, sem nenhuma dúvida, a criadora da Helena”






Mais um grandioso presente de final de ano para o melão e seus leitores. Particularmente, fiquei muito feliz e honrado com essa entrevista, já que se trata de um de meus autores favoritos, afinal Manoel Carlos povoa meu imaginário desde sempre. Mais precisamente, desde as remotas lembranças que tenho de “Sol de verão”, novela que foi ao ar quando eu tinha 5 anos de idade, mas já me impressionava com a atuação de Tony Ramos, passando pelo LP internacional da novela “Baila Comigo” que pertencia às minhas primas e que eu passei praticamente toda a infância ouvindo, observando a capa e tentando imaginar do que se tratava a trama (naquela época a internet não era nem projeto), até assistir de fato a uma primeira trama de sua autoria, “Felicidade”, em reprise atualmente no “Canal Viva”. A partir daí minha admiração por ele só aumentou com as novelas “História de amor” (1995), “Por amor” (clássico de 1997) e “Laços de Família” (2000). Nenhum autor consegue dar tanta dimensão humana a seus personagens como Maneco, que também é dono dos diálogos mais naturalistas de nossa teledramaturgia. Suas novelas são deliciosas crônicas do cotidiano, mas que nunca abrem mão dos melhores ingredientes do folhetim. Claro que, se como espectador já era fã de carteirinha, como autor ele é uma verdadeira inspiração.

Mesmo atribulado com os preparativos para sua próxima novela, o autor cedeu gentilmente um pouco de seu tempo para responder a algumas perguntas sobre sua vasta carreira. Ele relembra a primeira Helena, vivida pela saudosa e maravilhosa Lilian Lemmertz em “Baila Comigo” e comemora o fato da filha dela, Julia, ser a próxima. Maneco também fala de trabalhos anteriores, de processo de trabalho, das campanhas sociais em suas novelas, de suas preferências como telespectador, revela alguns nomes confirmados para a próxima novela e confessa o desejo de trabalhar com uma grande atriz com quem nunca trabalhou, além de muitos outros assuntos. Enfim, um prato cheio para todos os fãs do autor e pra todo mundo que ama e admira teledramaturgia. Mais uma vez, o melão estende o tapete vermelho para um grande nome de nossa tevê. Com vocês, Manoel Carlos!



Desde que você anunciou que Julia Lemmertz seria sua última Helena, suscitou uma enorme curiosidade por parte do público a respeito de sua próxima novela.  O que você já pode adiantar a respeito dela?

Manoel Carlos - A minha novela está prevista para estrear na segunda quinzena de janeiro de 2014. Daqui a um ano, portanto. A sinopse, já aprovada, tem dois nomes provisórios: FÊNIX e EM FAMÍLIA.  Ainda estou fazendo mudanças, corrigindo algumas trajetórias da trama, etc., etc. Portanto, qualquer coisa que eu adiante corre o risco de ser mudada. Só mesmo quando uma novela entra na linha de produção é que se pode garantir determinados fatos que ocorrerão no seu desenrolar.

A inesquecível Lilian Lemmertz, a primeira de todas as Helenas do autor; e Julia Lemmertz, filha dela, a próxima Helena.

Falando em Julia Lemmertz, inevitável não lembrar que a mãe dela, Lilian, foi a primeira Helena de suas novelas. Assistindo a “Baila Comigo” (1981) recentemente, pude comprovar a maestria do trabalho da atriz e a naturalidade assustadora que ela imprimia em todas as cenas, por mais simples que fossem. Você diria que a Helena de “Baila Comigo” é a gênese de todas as outras Helenas? Qual a contribuição da atriz na construção da identidade da personagem?  

Manoel Carlos - Lilian Lemmertz foi, sem nenhuma dúvida, a criadora da Helena e, por extensão, de todas as Helenas que vieram depois. Foi ela quem deu alma ao personagem, ao mesmo tempo em que esculpiu nele o seu próprio gestual, sua inflexão maternal, seu desvelo. Foi ela que deu à Helena esse comportamento dúbio, que mescla generosidade com egoísmo, e mais tudo que a grande atriz que foi Lilian sabia emprestar a todos os personagens que criava. Eu a “namorei” de longe, desde que a vi sobre o palco pela primeira vez, nos anos 60, ao lado de Cacilda Becker e Walmor Chagas, em “Quem tem medo de Virginia Woolf”, de Albee. Era uma jovem de menos de 30 anos, que já iluminava o caminho que viria a percorrer como estrela de primeira grandeza. Vinte anos depois desse encontro, pude dar a ela o personagem de “Baila Comigo”. A filha Julia foi pelo mesmo caminho. Humana e sensível como poucas, só agora terei a oportunidade de escrever para ela o papel criado por sua mãe. Essa oportunidade me deixa muito feliz.


Ainda sobre as Helenas, todas têm em comum o fato de carregarem um grande segredo e serem bastante abnegadas, mas ao assistir à reprise de “Felicidade” (1991), atualmente em exibição no Canal Viva, constatei que a Helena de Maitê Proença, a exemplo das outras, também escondeu um grande segredo, que foi uma falsa gravidez, promovendo, inclusive, o enterro de um tijolo, fingindo ser o bebê morto e enganando toda a cidade. Mas o que essa Helena tem de diferente é o fato de mentir em benefício próprio, ao contrário das outras, que mentiam pra beneficiar alguém. Isso foi de caso pensado? O que mais você pode destacar a respeito dessa novela?

Manoel Carlos - Muitas Helenas se parecem em algumas qualidades e defeitos, mas não em todas, já que ninguém é exatamente igual a outro alguém. Nem entre filhos da mesma mãe e do mesmo pai. As Helenas são uma imitação de pessoas humanas e verdadeiras, pois essa é minha maneira de ver as novelas.  Nem realista ou naturalista, como querem alguns. E nem delirantes. Apenas verossímeis. Possíveis.  No caso de “Felicidade” há que se notar que foi uma novela apresentada às 18 horas, numa época (1991-1992) em que não se podia avançar muito. Além disso, todas as seis ou sete histórias que se entrecruzavam eram inspiradas livremente em contos de Aníbal Machado. Portanto, muita coisa desses contos ficou agregada ao meu trabalho. O elenco era afinadíssimo, com Maitê e Tony formando um par que sempre tive vontade de repetir.

Maitê Proença e Tony Ramos em cena de "Felicidade"

Você também tem planos de escrever uma minissérie.  Ela virá antes ou depois da novela? Prefere esse formato por serem mais curtas?

Manoel Carlos - É verdade e não vou desistir. A minissérie MADAME, inspirada em “Madame Bovary”. Acertei com a direção da TV Globo a produção dessa minissérie para depois da novela. Quem sabe em 2015?
        
O que acha desse novo formato de novelas com menos capítulos às 23 horas? Aceitaria continuar a escrever novelas nesse horário, que proporciona uma liberdade maior para cenas mais ousadas como vimos em “O astro” e “Gabriela”? Que novela sua escolheria para um remake?

Manoel Carlos - Acho excelente. O “Astro” foi muito bem realizado e acredito totalmente no sucesso de “Saramandaia”, que vai ser reescrita pelo Ricardo Linhares, um autor de grande sensibilidade e talento, tanto na comédia como no drama. Eu escreveria com prazer uma novela para esse horário, mas jamais adaptaria uma obra minha. Isso não dá certo. O próprio autor não sabe fazer esse trabalho, é preciso que seja entregue a outra pessoa, que enxergue a tarefa como uma empreitada totalmente nova.

Você talvez seja o autor que retrata melhor o universo feminino.  De onde vem essa inspiração e, com exceção das Helenas, que personagens femininas destacaria em suas obras?

Manoel Carlos - Acho a mulher mais rica do que o homem, como fonte de inspiração. Isso certamente tem raízes na minha trajetória pessoal, pois fui criado mais pela minha mãe do que pelo meu pai, tendo nascido depois que eles tiveram duas meninas, que também participaram da minha criação. Não conheci nenhum dos meus dois avôs, mas minhas duas avós tiveram papéis fundamentais na minha vida, assim como três tias e algumas primas, sendo que foram essas, as primas, que despertaram minhas primeiras paixões de adolescente. Vai nisso também meu amor pelas atrizes, seres incomparáveis, donas de uma personalidade mutante, capazes de rir e chorar com a mesma “falsa verdade”. Para mim não existe nenhuma profissão no mundo melhor do que a de atriz. Sempre divinas e cruéis. Reconheço que todos os meus personagens femininos têm um acabamento melhor do que os masculinos.

Reunião de Helenas.
Pergunta do leitor Rodrigo Ferraz: apesar de paulista, você nunca criou uma Helena nascida aqui. Já pensou em ambientar uma novela em São Paulo, talvez com uma Helena paulistana, quem sabe de descendência judia ou italiana?

Manoel Carlos - Já pensei e ainda penso. Sempre quis, desde que escrevi a minha primeira novela, mas nunca consegui. E acho ótima a sugestão de que fosse descendente de italianos ou judeus. Quem sabe ainda faço?


Você sempre faz questão de incluir em suas tramas o que a emissora costuma chamar de merchandising social, como o caso da violência contra a mulher e o desrespeito contra os idosos em “Mulheres apaixonadas” (2003), a leucemia em “Laços de Família” (2000), a questão da tetraplegia em “Viver a Vida” (2009), Síndrome de Down em “Páginas da Vida” (2006) e o alcoolismo em quase todas as novelas. Ainda assim, você acredita que o objetivo principal de uma novela é o entretenimento ou a função social é algo imprescindível?

Manoel Carlos - Para mim, as duas finalidades se completam. Uma não impede a outra. O que sempre achei é que escrever uma novela, seja para que horário for, é uma grande oportunidade que o autor tem de oferecer alguma ajuda, sem esquecer o entretenimento. E essa disposição foi sempre muito gratificante. 

Trama dos maus tratos aos idosos na novela "Mulheres apaixonadas"

Que cuidados um autor deve ter ao retratar a vida de pessoas reais como a cantora Maysa, retratada em uma minissérie de sua autoria? Qual o limite entre o real e o ficcional?

Manoel Carlos - Escrevi “Maysa” com ampla liberdade. Sem esquecer o que era importante em sua biografia e sem deixar de salpicar a história com cenas e fatos criados por mim. Não sou um biógrafo, mas um ficcionista. O resultado foi muito feliz e teve a concordância do filho da Maysa, o Jayme Monjardim, que assinou a direção do projeto.  

Larissa Maciel dando vida à cantora Maysa

Como é a divisão de trabalho entre você e seus colaboradores? Você costuma dar a liberdade a eles para criar dentro da escaleta ou sugerir novos rumos para as tramas?

Manoel Carlos - Não tenho um regulamento para isso. Muitas vezes divido o trabalho, outras vezes entrego o capítulo para que eles o escrevam integralmente, Não sigo uma regra, como em quase tudo na minha vida. Minhas escaletas, quando existem, são precárias, incompletas, com mais sugestões do que determinações. Trabalho há muito tempo com as mesmas pessoas. Se possível serão sempre elas, ainda que eu queira que alcem vôos solos, assinando seus próprios projetos, já que são capazes de realizar esse trabalho.

Você, talvez, seja o autor que mais consegue dar dimensão humana aos personagens, mas ao mesmo tempo suas histórias são repletas dos elementos mais tradicionais do melodrama, como segredos de família, trocas de bebês e outras coincidências do destino. Como consegue driblar os clichês e as armadilhas do gênero para compor um painel de personagens sempre tão rico e diverso?

Manoel Carlos - Mas eu não acho que drible os clichês. Uso todos que me pareçam necessários. Afinal, a vida é feita de lugares-comuns. Não fazemos mais do que repeti-los. O Millôr Fernandes escreveu uma vez que a originalidade é a coisa mais velha do mundo. Conheço uma outra reflexão muito interessante de um autor que não me lembro agora: “O lugar comum é obra de gênio”.  O que distingue um autor do outro é a maneira de repetir e encarar esses estereótipos. Uma vez, numa conferência que eu assisti do genial Agripino Grieco, ele disse que muitas pessoas o criticavam por contar, nas palestras, sempre as mesmas histórias, repetir as mesmas piadas, etc. E ele então perguntava: “Não temos diariamente o mesmo pôr do sol e a mesma aurora?” E concluía: “E Deus, afinal de contas, tem mais recursos do que eu!”.

Qual sua posição pessoal a respeito da classificação indicativa? Até que ponto ela limita o trabalho do autor?

Manoel Carlos - Perto do que já existiu de limitação ao trabalho de um autor, a classificação é uma benção. Nem obrigatória ela é, mas apenas indicativa, como o nome diz.  E vale lembrar que em outros países, como nos Estados Unidos, é bem pior.

Na entrevista para o livro “Autores”, você conta que a reação do público acabou mudando os rumos da trama em “Sol de Verão” (1983) em que o personagem do Tony Ramos se envolveria com a personagem de Carla Camuratti e isso acabou não acontecendo. Até que ponto deve-se fazer concessões para que a autoria não se perca de vista? Citaria algum exemplo inverso, em que você não cedeu ao clamor popular?

Manoel Carlos - A novela de televisão sempre precisará da aprovação da audiência. E essa aprovação, muitas vezes, exige mudanças pontuais exigidas pelo público.


Você é noveleiro? Quais são as novelas preferidas do Manoel Carlos espectador?

Manoel Carlos - São muitas, mas cito apenas três: “Mulheres de Areia”, de Ivani Ribeiro, “Que Rei sou eu?”, de Cassiano Gabus Mendes e “Nina”, de Jorge Andrade.


Já pensou no elenco da nova novela?

Manoel Carlos - Reservei alguns nomes, além da Julia Lemmertz. Não me lembro de todos neste momento, mas entre eles estão: Tony Ramos, Vivianne Pasmanter, Natália do Vale e Helena Ranaldi. Gostaria de ter a Mel Lisboa, uma atriz que a Globo, a meu ver, não poderia ter perdido, mas quem sabe... não é?  


Há alguma atriz para quem você gostaria de escrever, mas que nunca escreveu?

Manoel Carlos - Glória Pires, sem nenhuma dúvida. E não perdi a esperança.

Para terminar, qual o papel da telenovela na vida do brasileiro?

Manoel Carlos - Muito presente no dia-a-dia e de ampla aceitação em todas as classes sociais, econômicas e culturais. Nada se compara a ela, pela diversão que proporciona e – muitas vezes – pela reflexão que provoca sobre temas comuns na esfera humana. Falar para milhões é – afinal de contas – o sonho dourado de qualquer escritor. E o novelista de televisão realiza esse sonho diariamente.

Foto: Cícero Rodrigues para o livro "Autores" 
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Série Memória Afetiva: 10 Trilhas Sonoras Nacionais de Novelas


Estava devendo esse post há muito tempo. Quando Wesley Vieira me propôs, logo disse que já tinha falado a respeito, mas na verdade falei de meus temas preferidos e não de trilhas sonoras inteiras. Como sei que o rapaz é aficionado por trilhas internacionais, deixei a tarefa pra ele e fiquei com as nacionais, que sempre foram minhas preferidas.
Mais do que um apanhado de hits do momento, minha seleção se baseou em trilhas que ajudam a contar a história e que mais se adequam ao estilo da trama. Lógico que também levei em conta meu gosto pelas canções. Desde os oito anos, quando adquiri meu primeiro LP, acompanho os lançamentos com frequência, mas já ouvia antes disso, através dos discos de minhas primas. Foi muito difícil escolher dez e já estou esperando pelas eventuais reclamações. Mas como sempre digo, listas são subjetivas, pessoais e intransferíveis. Cada um tem a sua e cada um sabe o que toca mais em seu coração. Vamos à minha:

10) TOP MODEL (1989)

Uma trilha sonora jovem bastante marcante, cheia de hits muito executados na época e que, principalmente, combinavam com a atmosfera leve e solar da novela, que misturava moda e surf. A princípio, todos se lembram de “Oceano” (Djavan), tema de Duda e Lucas (Malu Mader e Taumaturgo Ferreira); “À Francesa” (Marina Lima), delicioso tema de Duda nas passarelas; e “Hey Jude”, versão de Kiko Zambianchi do clássico dos Beatles, tema do surfista Gaspar (Nuno Leal Maia) e seus filhos, as três canções mais tocadas do álbum. Mas também há outros hits do momento que hoje em dia não são tão lembrados, como “Fica Comigo” (Placa Luminosa) e “Vida” (Fábio Jr.), tema da hilária doméstica Cida, interpretada pela genial Drica Moraes. Mas há canções mais obscuras que também gostava muito, como “Independência e Vida” (Rita Lee), “Babilônia Maravilhosa” (Evandro Mesquita), talvez a que mais combine com a novela; e “Bobagem”, com Léo Jaime”. Também tinha a pérola “Nega Bom Bom” (Os cascavelletes), tema do típico adolescente Ringo Starr (Henrique Farias) e seu curioso verso “punhetinha de verão”, que todo mundo adorava repetir na vitrola (risos). Mas talvez a canção que tenha envelhecido melhor e minha preferida até hoje é “Essa noite, não”, de Lobão, que vira e mexe, ouço em meu setlist. Em tempo: a trilha internacional também é incrível, mas isso já é assunto para nosso amigo Wesley.

9) CORDEL ENCANTADO (2011)
Descobri essa trilha tardiamente. Começou a me chamar a atenção na medida em que ia assistindo à novela e constatando uma incrível identificação entre as tramas e as canções. Além de canções nordestinas tradicionalíssimas e simbólicas como “Xamego”, com Luiz Gonzaga, também há o melhor da nova safra de músicos e compositores como Silvério Pessoa, Otto (com a emblemática “Carcará”) e Karina Buhr (com a deliciosa “Tum Tum”). Destaque também para a já cultuada “Maracatu Atômico”, com Chico Science e Nação Zumbi. Sem esquecer de ícones nordestinos da MPB como Caetano, Lenine, Gil (em dueto com a ótima Roberta Sá, cantando o tema de abertura), Alceu Valença (com a intensa “Na primeira manhã”), Maria Bethânia (“Estrela Miúda”, antigo sucesso do repertório de Marlene), Zé Ramalho (“Chão de Giz”) e a simplesmente arrebatadora “Melodia Sentimental”,  de Villa Lobos, com interpretação soberba de Djavan, o ponto alto da trilha. Todas casando perfeitamente com a trama. Há outras deliciosas canções interpretadas pela nova geração da MPB: “Coração”, com Monique Kessous; “Saga”, lindo arranjo e voz impressionante de Filipe Catto, “Quando assim” (Nuria Mallena) e “Beija-Flor”, com a incensada Maria Gadu, tema do par romântico central. Um acerto do começo ao fim.


8) FERA FERIDA (1993)

Lembro que minha primeira aquisição dessa trilha foi em fita k-7. Colocava à noite em meu moderno micro-system e ouvia até dormir. Tirando esse atestado de idade avançada que acabei de passar, fala muito em minha memória afetiva.  A começar pela canção-título interpretada com belíssimo arranjo e interpretada com vigor por Maria Bethânia. Um dos temas de abertura que mais combinou com a novela. Gosto de “Rio de Janeiro”, com João Bosco e “Sangue Latino”, com Renata Arruda, mas são as canções mais lentas e doces que me tocam mais nessa trilha como a magistral “Rosa”, de Pixinguinha, na voz de Marisa Monte; a arrebatadora “Corpo e Luz”, com Itamara Koorax, tema da sofrida Margarida Weber; a doce “Noites com sol”, com Flavio Venturini, tema de Áureo e Frida (Claudio Fontana e Deborah Evelyn) e a belíssima “Flor de Ir embora”, com Fátima Guedes, tema de Clara dos Anjos (Érica Rosa), canção que merecia uma personagem melhor. Mas o ponto alto da trilha é um clássico das canções de amor: “Al di la”, com Emilio Pericolli, tema do filme “Candelabro Italiano”, que aqui na novela foi belissimamente aproveitado como tema da romântica e atrapalhada Ilka Tibiriçá, em mais uma interpretação inesquecível de Cássia Kiss. A novela ainda teve um bom segundo volume de trilha nacional, mas o primeiro foi imbatível.


7) BAILA COMIGO (1981)



Curiosamente, uma das mais antigas da lista, mas que só me cativou recentemente. Na verdade, sempre fui apaixonado pela trilha internacional dessa novela que pertencia à minhas primas. Passei a infância ouvindo aquelas canções e morrendo de curiosidade pela novela. Recentemente, pude assistir e comprovar o feliz casamento das canções, todas solares, com a trama, a cara do verão da zona sul carioca do início dos anos 80.  A canção que abre o álbum, “O lado quente do ser”, com Maria Bethânia, é o tema da médica Lúcia (Natália do Vale), mas sempre achei que combinava mais com a professora de dança Joana (Betty Faria), que também tinha seu tema, “Deixa Chover”, sucesso de Guilherme Arantes e “Lua e estrela”, com Caetano Veloso, tema de Mira (Lídia Brondi). Nessa linha verão e alto astral, Marina comparecia com “Corações a mil”. Mas minhas favoritas são as mais dramáticas como “Viajante”, em visceral interpretação de Ney Matogrosso, tema do sofrido João Victor (Tony Ramos). A trilha incidental também ilustrava o drama da anti-heroína Helena, vivida pela inesquecível Lilian Lemmertz. Uma das mais curiosas é “Vida”, interpretada por Beth Goulart, uma das atrizes da novela. E também tinha a simpática “Vira Virou”, com Kleiton e Kledir, que tocava nas cenas gravadas em Lisboa, no início da novela. E pra coroar meu amor pela trilha, a capa com Betty Faria é a cereja desse delicioso bolo.


6) MANDALA (1987)

 Uma das mais comentadas e mais ouvidas em minha antiga vitrolinha. Claro que a referência maior é “O amor e o poder”, clássica, cult e tudo o mais na voz de Rosana, tema da “deusa” Jocasta (Vera Fisher). Essa, juntamente com “A paz”, com Zizi Possi, foram as faixas que arranharam de tanto que eu ouvia. Nessa linha “hit”, também há a bela e sofrida “Um dia, um adeus”, tema de Vera (Imara Reis), uma das minhas favoritas de Guilherme Arantes. Outros destaques são: a soturna “Mitos”, tema de abertura com César Camargo Mariano, talvez a que carregue maior identidade com a novela; “Bobo da Corte”, com Alceu Valença, tema do Vovô Pepê (Paulo Gracindo), que a TV Pirata pegou emprestada para ser tema do lendário Barbosa (Ney Latorraca), de “Fogo no Rabo”. Aliás, várias músicas dessa trilha também tocavam em “Fogo no Rabo”. Antes de “Celebridade” (2003), “Tema de Don Don” aparecia aqui na voz de Zeca Pagodinho. Outras faixas bastante lembradas são “Eu já tirei a tua roupa”, que só podia ser interpretada por Wando; e “Personagem”, mais uma daquelas baladas oitentistas de Fafá de Belém. Mas uma de minhas faixas favoritas é “Preconceito”, com Via Negromonte, que continua atualíssima e é uma ode contra todos os hipócritas e moralistas de plantão. Uma curiosidade totalmente pessoal e afetiva é que, na época, usava várias dessas músicas, como temas dos personagens das novelinhas que já criava naquela época. Não tem como não amar e como não lembrar.

5) LAÇOS DE FAMÍLIA (2000)


Tudo nessa trilha remetia à novela: desde as ensolaradas bossas-novas, passando pelos hits ensolarados até as baladas mais românticas. Tudo tinha cara de sol, mar e Leblon. E particularmente, também uma de minhas favoritas porque coincidiu com a época em que vim morar no Rio. Portanto, todas as músicas também ecoavam em minha fase de descoberta e encantamento pela Cidade Maravilhosa. O tema da protagonista Helena, “Como vai você”, antiga balada de Antonio Marcos, ganhou um belíssimo arranjo e uma interpretação tocante de Daniela Mercury e é uma de minhas favoritas. Impossível ouvir a canção sem se lembrar dos beijos de Vera Fischer e Reynaldo Gianecchini e o posterior sofrimento de Helena, ao abrir mão de Edu em favor da filha. Como já disse, a trilha exalava bossa-nova, desde a tradicional “Corcovado”, tema de abertura, aqui em uma versão híbrida de português e inglês na voz de João e Astrud Gilberto, com participação de Tom Jobim e Stan Getz; a adorável “Samba de Verão”, que ficou linda  e romântica na voz doce de Caetano Veloso; e “Baby”, na cultuada versão em inglês dos Mutantes, tema de Camila (Carolina Dieckmann). Outra canção que também ficou “bossanovada” foi o hit oitentista de Léo Jaime, “Mensagem de amor”, aqui na voz de Lucas Santana, num arranjo lindo demais, que foi tema da garota de programa Capitu, personagem que alçou Giovanna Antonelli ao primeiro time de atrizes globais. Fora do estilo bossa nova, tínhamos Deborah Blando, com “Próprias Mentiras”, que caiu como uma luva para a endiabrada Íris (Deborah Secco); “Solamente uma vez”, bolerão clássico na voz de Nana Caymmi, tema de Alma (Marieta Severo); “Perdendo dentes”, com Pato Fu, que também combinou perfeitamente com a personalidade de Cissa (Julia Feldens); a bonitinha “Balada do amor inabalável”, do Skank; e o pagode “O pai da alegria”, com Martinho da Vila, tema do casal popular Ivete e Viriato (Soraya Ravenle e Zé Victor Castiel). A trilha ainda trazia alguns temas internacionais como “Man, I feel like a woman”, delicioso country de Shania Twain, tema de Cíntia (Helena Ranaldi) e o clássico dos clássicos “My way”, pouquíssimo aproveitado na novela. Enfim, uma trilha pra se ouvir do início ao fim.


4) ESTÚPIDO CUPIDO (1976)


O que dizer dessa maravilha? Cresci ouvindo e até hoje morro de curiosidade pela novela, a qual só assisti aos dois primeiros capítulos, em relação às músicas. Bateu todos os recordes em seu lançamento, vendendo mais de 1 milhão de cópias e trouxe de volta todas aquelas canções memoráveis, relançando a carreira de Celly Campello, que emplacou dois de seus maiores sucessos: a canção-título e a deliciosa “Banho de Lua”, que abre o disco. Impossível ouvir e não sair dançando. Lembro que embalou várias festinhas de aniversário em minha casa. Embora o LP seja de minhas primas, acho que ouvi muito mais do que elas e talvez tenha sido o grande responsável pela minha paixão pelos anos 50 e 60. Tem opções para todos os gostos, desde as lendárias divas Maysa (“Meu mundo caiu”) e Sylvinha Telles (“Tetê”), passando pelas divertidas “Neurastênico” (Betinho e seu conjunto) e “Boogie do bebê” (Tony Campello) até os clássicos rocks da época como “Broto Legal” (Sérgio Murilo). Mas minha favorita é “Ritmo da Chuva”. A canção é tão ingênua, tão doce e, talvez por isso, sempre permaneceu em minha memória afetiva. Adoro cantarolar até hoje. Enfim, um álbum pra se ouvir sempre.


3) VALE TUDO (1988)

Outro do tipo em que as canções remetem absolutamente à trama. O tema de abertura, talvez o mais emblemático de todos os tempos, “Brasil”, na voz de Gal Costa, resume toda a novela e nos remete à clássica cena da banana de Marco Aurélio (Reginaldo Faria) para nosso país. Mas os sambas “Isto aqui o que é”, com Caetano veloso e “É”, com Gonzaguinha, também possuem uma fortíssima identidade com a novela. Outro destaque é a deliciosa “Pense e dance”, com Barão Vermelho, que nos faz recordar imediatamente às armações de Maria de Fátima (Gloria Pires), assim como “Terra dourada”, mais conhecida como “Cenário de cor”, com João Bosco, nos transporta imediatamente à Búzios, um dos cenários da novela. As baladas são um capítulo á parte: “Besame”, com Jane Duboc, que embalava o amor bandido de Fátima e César (Gloria Pires e Carlos A. Ricelli); “Todo o sentimento”, com Verônica Sabino, que inevitavelmente nos faz lembrar do sofrimento de Heleninha (Renata Sorrah); “Tá combinado”, na voz de Bethânia, tema do par romântico Raquel e Ivan (Regina Duarte e Antonio Fagundes); e a inesquecível “Faz parte do meu show”, tema de Solange e Afonso (Lidia Brondi e Cassio Gabus Mendes), a mais emocionante das canções de Cazuza. Uma trilha representativa, não só da novela, quanto da época em que foi lançada.


2) ROQUE SANTEIRO – VOLS 1 E 2 (1985/86)

Considerada por muitos a trilha sonora mais perfeita de todos os tempos. E nesse caso, elegi os dois volumes nacionais. Não consegui dissociar um do outro, tamanha a unidade entre eles. Além disso, bate forte em minha memória afetiva por ser os primeiros discos realmente meus (os anteriores a essa data eram das minhas primas ou da minha mãe), por isso, claro, ouvia sem parar na vitrolinha...(risos). E também coincidiu quando eu comecei a escrever minhas novelinhas aos oito anos de idade. Criava tramas usando minha família e meuas amigos como personagens e me apropriei dessa trilha pra ser a canção-tema deles. São tantas canções memoráveis que fica até difícil falar de todas. O volume 1 é absolutamente irrepreensível, com as mais do que clássicas “Dona” , com Roupa Nova (tem como ouvir essa música e não se lembrar da Viúva Porcina?) e “De volta pro aconchego” (Elba Ramalho), que dispensam quaisquer comentários. “Roque Santeiro” (Sá & Guarabira) e “Santa Fé” (Moraes Moreira) são completamente indissociáveis da novela. Só essas canções já bastariam para que a trilha fosse perfeita, mas também tem “Sem pecado e sem juízo” (Baby Consuelo), “Chora Coração” (Wando), “Coração Aprendiz” (Fafá de Belém) e “A outra” (Simone), que também tocavam sem parar. “Isso aqui tá bom demais”, com Dominguinhos e Chico Buarque, também é daquelas em que não imaginamos fora da novela. Como se não bastasse, o segundo volume também é sensacional e também foi um campeão de vendas à reboque de “Vitoriosa”, com Ivan Lins. Mas há outras ótimas canções super adequadas à trama como “Mil e uma noites de amor” (Pepeu Gomes), “Fruta Mulher” (Nana Caymmi) e “Entra e sai de amor” (Altay Velloso), que também foi executada maciçamente nas rádios e era o tema de amor do polêmico casal Tânia e Padre Albano (Lídia Brondi e Cláudio Cavalcanti). “Verdades e Mentiras” seguia a mesma linha da canção de Sá & Guarabira do primeiro volume, mas agora já dialogava com o segredo em torno do mito de Roque (José Wilker). Mas a minha favorita nem é das mais lembradas. Trata-se de “A hora e a vez”, com Claudio Nucci e Zé Renato que, pra ser sincero, me remete mais às lembranças de minha vida na época do que à própria novela. Até hoje quando ouço me emociono e passa um filme em minha cabeça. Inesquecível e obrigatória na coleção de qualquer noveleiro.



1) TIETA (1989)

É uma das grandes razões dessa seção ser intitulada “Memória Afetiva”. Não é necessariamente a favorita geral, mas é a minha favorita. Acho que tem grande contribuição no fato de eu ter eleito “Tieta” minha novela favorita. Todas as canções exalam nostalgia e ecoam boas lembranças em minha mente, tanto da novela, quanto de minha vida pessoal. Vou começar de cara com minha favorita, que não podia ser outra: “Coração do Agreste”, com Fafá de Belém, tema da protagonista e, ao meu ver, o mais perfeito que já existiu, pois além de contar a história da novela com perfeição, consegue descrever com maestria o sentimento de Tieta (Betty faria) com relação ao seu retorno à terra natal.  A cena da volta de Tieta à Santana do Agreste é absolutamente antológica por vários motivos, mas não teria o mesmo impacto se a canção não fosse perfeita. Além disso, a trilha também embalou a despedida da cabrita e todas as suas visitas a Mangue Seco. Impossível não ouvir essa canção e não visualizar as dunas de Mangue Seco em nossa mente. A trilha é toda perfeita, desde o tema instrumental “Segredos da Noite (Ary Sperling), que anunciava que a assustadora Mulher de Branco estava por perto, até os divertidos forrós “Paixão de beata” (Pinto do Acordeom), tema do divertidíssimo trio de beatas Perpétua, Amorzinho e Cinira (Joana Fomm, Lilia Cabral e Rosane Gofman) e “Cadê o meu amor?” (Quinteto Violado), tema da sonhadora e solteirona Carmosina (Arlette Salles). “Meia Lua Inteira” (Caetano Veloso) e “Tieta” (Luiz Caldas)   são a materialização da própria trama. E as canções românticas são um arraso: “Paixão Antiga” (Tim Maia), tema de Helena (Françoise Fourton); “Eu e você” (José Augusto), tema de Elisa e Timóteo (Tássia Camargo e Paulo Betti), “Paixão Escondida” (Fagner), tema de Carol (Luisa Tomé) e duas de minhas favoritas: “Tenha calma”, (Maria Bethânia em interpretação visceral), que embalava o romance proibido de Tieta (Betty Faria) com seu sobrinho seminarista Ricardo (Cassio Gabus Mendes) e “Tudo o que se quer”, lindo dueto de Emilio Santiago e Verônica Sabino, que embalava o romance dos pombinhos Ascânio e Leonora (Reginaldo Faria e Lídia Brondi). A trilha contou com um ótimo segundo volume, mas esse primeiro é imbatível.  Minha trilha favorita para todo o sempre. Amém!



E vocês? O melão sempre quer saber? Quais são suas trilhas nacionais favoritas?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Blogueiro convidado: Thiago Henrick relembra "Baila Comigo"


                                                                                                                                                                   

 E o melão acaba de ganhar mais um correspondente especialíssimo. Diretamente da sucursal de Alagoas, Thiago Henrick que, além de um queridão, é um talento de rara sensibilidade, sobretudo musical. O rapaz mantém um ótimo blog chamado “EnTHulho” (www.enthulho.blogspot.com ) onde podemos encontrar os textos mais sensíveis e inspirados sobre música. Recomendo.

Além disso, Thiago também é telemaníaco de carteirinha e admirador das novelas de Maneco, dentre as quais, ele elegeu “Baila Comigo” (1981), novela de enorme sucesso que, mesmo depois de quase 30 anos, ainda permanece no imaginário popular. Mesmo quem não era nascido na época já assistiu pelos “Videos Shows” da vida a emocionante cena em que os gêmeo Quinzinho e João Victor (Tony Ramos em mais um magistral trabalho) se encontram. Estreia o autor no horário nobre como autor titular, foi nessa novela que surgiu a primeira Helena (a saudosíssima Lilian Lemmertz), liderando um elenco estelar que contava com nomes como Fernanda Montenegro, Reginaldo Faria, Raul Cortez, Betty Faria, Fernando Torres, Tereza Rachel, Christiane Torloni, Lidia Brondi, Beth Goulart, Natália do Vale, Arlete Salles, Fernanda Torres, Lauro Corona, Milton Gonçalves, Suzana Vieira, enfim, um timaço!

Sem mais delongas, curtam o maravilhoso texto de Thiago e deixem suas impressões!


A NOVELA DO MANECO É UMA VERDADEIRA TERAPIA

Por Thiago Henrick


Como grande fã do novelista Manoel Carlos, sempre tive curiosidade de saber mais sobre a novela Baila Comigo. Graças a um grande amigo, consegui terminar de assistir e, encantado, gostaria de compartilhar minhas impressões sobre a trama com os leitores do Melão.

 Na época, Manoel Carlos já havia realizado trabalhos que chamaram atenção em outras faixas de horários. Baila não foi seu maior sucesso, mas chamou muita atenção naquele ano de 1981, além de ter conseguido alguns grandes méritos: era a estreia do autor no horário nobre (antes, apenas uma colaboração um ano antes em “Agua Viva”, de Gilberto Braga); trazia Tony Ramos num papel duplo – grande feito, pois Tony era um dos mais talentosos de sua geração e desenvolveu uma perfeita composição em suas interpretações; e, por fim, iniciava então a primeira de uma série de heroínas humanas, cheias de virtudes, defeitos e conflitos, de nome Helena.

A trama era bem simples e folhetinesca: a história de gêmeos que não sabiam da existência um do outro, causando inúmeras confusões devido a essa semelhança. O diferencial, contudo, estava justamente na característica que mais marcou a grande carreira do escritor: a presença de um rico texto, com diálogos poderosos intercalados com cenas bem banais, envolvendo-nos numa maneira bem peculiar de contar sua história. Além, claro, da capacidade de criar personagens bem críveis, tão próximos e identificáveis com a nossa realidade. O estilo perdurou em trabalhos posteriores do autor

 Helena (Lilian Lemmertz) era uma personagem de classe média de vida difícil que, ao descobrir que teria gêmeos, não pôde criá-los, deixando um deles com o pai verdadeiro, Quim (Raul Cortez), e criando o outro com seu marido, Plínio (Fernando Torres). Sente-se culpada e angustiada por mentir e omitir bastante sobre o fato para todos, sobretudo pro gêmeo que ficou com ela, Quinzinho (Tony Ramos), jovem extrovertido e que adorava curtir a vida. Já o outro filho, João Vitor (Tony Ramos), foi criado com o pai em Portugal e se tornou um garoto sério e dedicado a advocacia. O destino faz com que a Quim e sua esposa Marta (Tereza Rachel, já naquela época demonstrando ser perfeita para interpretar mulheres rudes e poderosas) voltem com seus filhos João Vitor e Débora (Beth Goulart) para o Brasil, cenário onde acontecerão as peripécias causadas pela semelhança dos irmãos. O esqueleto da novela era esse. O recheio, contudo, foi o talento de Maneco de nos emocionar junto com os personagens. As brigas oriundas da crise de consciência de Helena com o bastante humano Plínio fizeram do casal um dos grandes destaques da novela: sensibilidade e riqueza para as magistrais interpretações dos atores, sobretudo a de Lilian, que criou um olhar melancólico único, sem deixar a rigidez da personagem creditá-la como mera coitadinha. Saudosa atriz...

 Nas tramas periféricas, tivemos Lúcia (Natália do Valle, no auge da beleza), jovem e competente médica, que tinha uma maravilhosa relação com a mãe (Sílvia, uma atriz, interpretada por Fernanda Montenegro), mas também vivia com o pai, o semi-inescrupuloso Caio (Carlos Zara), separado de Silvia e interessadíssimo na bela professora de dança Joana (Betty Faria). Joana, aliás, foi uma personagem que muito prometeu assim que apareceu, mas se limitou, no desenrolar da trama, a servir de alvo da disputa entre Caio, Quim e João Vitor. Pouco pra grande atriz que é Betty, mas sua beleza enfeitou a novela e estampou a capa do disco nacional. Curiosidade adicional é trazer Susana Vieira, atriz que hoje só se dedica a chamar atenção dentro e fora das tramas, num papel de coadjuvante, Paula, que tem que aturar as bebedeiras do marido Mauro (Otávio Mesquita). Mauro foi protagonista, contudo, de uma das cenas mais impactantes: enfurecido, ele joga seu avião em cima de Caio, colidindo e fazendo ambos morrerem.

No núcleo jovem, Lauro Corona interpretou Caê, amigo de Quinzinho e típico malandrinho carioca, que negociava pegar o carro da irmã para poder curtir as gatas e adorava uma baladinha. Lauro encontrou o tom certo e fez de seu namoro com a rica e sensível Débora um dos grandes trunfos da trama, sempre pontuados com “Corações a mil”, música da novata Marina estourando nas cenas de paixão dos dois. Além deles, tivemos a chatice de Mira (Lídia Brondi), obcecada por Quinzinho, mas que depois “troca de gêmeo”, passando a se interessar por João Vitor. Não foi a Lídia quem causou ojeriza na interpretação: a personagem era mimada mesmo e isso era comentado por todo o seu núcleo.

A cena mais comentada e lembrada, que foi o reencontro dos gêmeos, alcançou todos os níveis positivos possíveis graças ao talento de Tony Ramos. O ator é detentor de vários personagens de destaque em toda sua carreira, e acredito que nesse rol estejam João Vitor e Quinzinho, pois ele soube como poucos diferenciar os nuances, sobretudo nessa cena, em que o contexto pedia. Imagino que, na época, tenha mesmo parado o Brasil diante da telinha. Mateus Solano, que interpretou os gêmeos de Viver a Vida (última novela do autor) não comprometeu, mas deveria ter assistido Baila Comigo pra se aperfeiçoar mais em suas composições.


 Assistir essa novela tão rica e cheia de discursos de pessoas de tantas classes e níveis me fez perceber que, desde cedo, as novelas de Manoel Carlos são uma verdadeira terapia. Há quem não goste, que prefira uma trama repleta de cenas de ação, ou com guinadas fantásticas, sem ter oportunidade de respirar um pouco diante da telinha, mas eu admiro muito o estilo do autor de nos fazer parar e refletir sobre nossas próprias naturezas, medos, fragilidades, alegrias e aleluias. Eu vejo que Maneco escreve muito de acordo com o seu humor o dia – assim como na vida da gente, há capítulos mais alegrinhos e mais entediantes ou mal humorados. Isso faz com que conquiste mais ainda seu público, que se identifica com o cotidiano descrito em suas tramas. Por mais que suas últimas novelas não tenham agradado como deveriam, o autor tem uma grande bagagem televisiva e, acredito sim, ainda tem muito a nos oferecer. E nos emocionar.

                                                                                                                                                                                                                                            

quinta-feira, 18 de março de 2010

Série Memória Afetiva: meus casais favoritos da TV!

10) Caê e Débora (Lauro Corona e Beth Goulart) de “Baila comigo” (1981)
Edu e Helena (Reynaldo Gianecchini e Vera Fischer) de “Laços de Família (2000)

Sim, não consegui eliminar nenhum dos dois e resolvi agrupar dois casais de novelas do Maneco na mesma colocação. Os primeiros são uma espécie de pré-Nando e Milena, de “Por amor”. Rapaz pobre se apaixona por moça rica e precisa enfrentar a mãe megera. No caso, não era qualquer megera. Ninguém menos que Tereza Rachel que vivia a Marta da vez...rs! E as sequências dos dois namorando na praia ao som de “Living Inside myself” são tão numerosas quanto as de Nando e Milena ao som de “Palpite” em 97.

Já Edu e Helena, mesmo não ficando juntos no final, encantaram muita gente e esse romance fez com que muitos se antipatizassem com Camila (Carolina Dieckmann), fazendo coro com Iris (Debora Secco) ao chamá-la de “Judas” por ter “roubado” o namorado da mãe. Particularmente, adorava as tórridas cenas de beijos dos dois. Línguas não faltavam e o sofrimento de Helena ao som de “Como vai você” me comoveu e fez com que os dois entrassem pra essa lista de meus favoritos.


9) Xica e João Fernandes (Taís Araújo e Victor Wagner) de “Xica da Silva” (1996)
Seguindo uma linha totalmente anti-convencional, a escrava Xica não deixava de ser uma espécie de Cinderela ao conquistar o poderoso contratador do Arraial do Tijuco e se tornar uma espécie de rainha de lá.. A novela como um todo era maravilhosa e deixou muitas saudades. Fidelidade não era o ponto forte do fogoso contratador, mas o modo como Xica se livrava das amantes do marido era maravilhoso. Até Adriane Galisteu teve suas orelhas cortadas. Mas do amor de João Fernandes por Xica ninguém duvidava. Ele a enchia de jóias, mimos, satisfazia todos os seus caprichos e mandou fazer nada menos do que um “mar” para sua rainha. As cenas de sexo do casal falavam por si. Amor e poder total!!!


8) Olavo e Bebel (Wagner Moura e Camila Pitanga) de “Paraíso Tropical” (2007)

O último grande casal coqueluche da TV. Desses casos em que ninguém espera tamanho sucesso. O vilão e a prostituta roubaram a cena dos insossos mocinhos e protagonizaram grandes cenas: algumas cômicas e outras pra lá de sensuais. Camila Pitanga foi alçada definitivamente para o posto de grande estrela. Entre tapas e beijos, esse amor bandido pegava fogo e conquistou o Brasil.



7) Clara e Rafaela (Aline Moraes e Paula Picarelli) de “Mulheres Apaixonadas” (2003)

Quem disse que casal precisa ser necessariamente homem e mulher? Muito pelo contrário. O amor proibido das duas adolescentes conquistou a todos, passando longe de qualquer tipo de preconceito. As duas atrizes ótimas em cena, aliadas ao texto pra lá de sensível de Manoel Carlos conseguiram fazer com que suas personagens rompessem paradigmas em nossa TV e o assunto foi discutido amplamente na trama. Tudo bem que a sequência do beijo foi pra lá de frustrante, mas as meninas abriram mais espaço para a aceitação popular desse tipo de relacionamento.


6) Marcos e Lurdinha (Felipe Camargo e Malu Mader) de “Anos dourados” (1986)
Talvez o mais romântico e tradicional da lista. Gilberto Braga conseguiu construir de forma adorável e longe de ser chata, a bela história do casal de jovens que fazem de tudo para ficar juntos numa década marcada pelo preconceito e pela hipocrisia como foi a década de 50. Tudo era apaixonante, desde o primeiro encontro dos dois, na pista de dança ao som de Nat King Cole, desde o envolvimento, a descoberta da sexualidade, as idas e vindas...enfim... um deslumbre!




5) Juba, Zelda e Lula (Kadu Moliterno, Andréa Beltrão e André di Biase) de “Armação Ilimitada” (1985)
Rui e Vani (Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres) de “Os normais” (2001)

Mais uma vez não consegui me decidir entre um ou outro. Então dediquei a quinta colocação em homenagem ao humor. Os primeiros também fogem completamente à configuração tradicional de casal. Em uma história totalmente moderna, transgressora e ousada, os surfistas Juba e Lula dividiam o amor da atrapalhada jornalista Zelda Scott numa boa. Aliás, Andréa Beltrão é mestre em relações a três ou mais. Suas personagens em “Rainha da Sucata”, “Pedra sobre Pedra” e “A grande família” também eram adeptas do “poli-amor”...rs! Mas a naturalidade, a leveza de “Armação Ilimitada” é imbatível.

Rui e Vani dispensam comentários. De longe o casal mais louco da TV, protagonizaram cenas hilárias e inesquecíveis, com destaque para a conversinha no final de cada episódio da série, que de tão hilária e natural, mais parecia improviso. Química perfeita e talento à toda prova.




4) Jô Penteado e Prof. Fábio (Cristiane Torloni e Nuno Leal Maia) de “A gata comeu” (1985)

Já nos primeiros capítulos da novela, em que os personagens trocaram tapas e protagonizaram altas brigas, já se notava que não se tratava de um casal tradicional. Ivani Ribeiro, inspirada pela “megera domada” já havia colocado no ar esse casal na primeira versão da novela chamada “A barba azul”, em 75, na Tupi. Mas é inegável que “A gata comeu” marcou toda uma geração e as desventuras de Jô e Fábio pelo bairro da Urca até hoje têm uma legião de fãs saudosos e apaixonados. A maravilhosa inocência de Ivani cativava e fez o Brasil inteiro torcer por esse par que vivia às turras, mas não deixava de ser adorável.



3) João Maciel e Carolina (Paulo Gracindo e Yara Cortes) de “O casarão” (1976)

Quem nunca assistiu à emocionante sequência final da novela no Video Show em que Carolina chega afobada ao encontro com o amado e pergunta se o fez esperar muito. A resposta dele é fulminante: “40 anos”. Nem é preciso ter assistido ao restante da novela para se arrepiar com a cena. Os olhares dos dois atores, a belíssima “Fascinação” e o brilhante texto de Lauro César Muniz são componentes de um momento único na TV.


2) Lucinha e Carlão (Betty Faria e Francisco Cuoco) de “Pecado Capital” (1975)
Basta assistir a algumas cenas disponíveis da novela na rede para nos darmos conta do primoroso trabalho dos dois atores, que deram vida a um perfeito casal suburbano. O final dos dois não foi feliz, mas poucos casais na TV tiveram tanta química quanto esse. Cuoco, um machão à moda antiga; Betty, uma cinderela ambiciosa. Longe de serem perfeitinhos. O sucesso de Lucinha e Carlão se deu, sobretudo, porque eram extremamente humanos. E o precioso texto de Janete Clair dispensa comentários...


1) Sinhozinho Malta e Viúva Porcina (Lima Duarte e Regina Duarte) de “Roque Santeiro” (1985)
Para uma pessoa afeita a casais não-convencionais como eu, não podia eleger outro casal como primeiro do ranking. Deliciosamente incorretíssimos, irreverentes, safados, impostores e muito engraçados. Exuberante da cabeça aos pés, Porcina era a única capaz de fazer o poderoso coronel ficar de quatro e lamber literalmente sua mão tal qual um odediente cachorrinho. Os caricatos anti-heróis conquistaram a simpatia do público e são vencedores absolutos no quesito “grandes casais”.




MENÇÕES HONROSAS:

  • Afonso e Solange (Cássio Gabus Mendes e Lídia Brondi) de "Vale Tudo" (1988)
  • Rosália e Adriano (Glória Pires e Lauro Corona) de "Direito de amar" (1987)
  • Raí e Babalú (Marcelo Novaes e Letícia Spiller) de "Quatro por quatro" (1994)
  • Otávio e Charlô (Paulo Autran e Fernanda Montenegro) de "Guerra dos Sexos" (1983)
  • André e Carina (Tony Ramos e Elizabeth Savalla) de "Pai herói" (1979)
  • Catarina e Petrucchio (Adriana Esteves e Eduardo Moscovis) de "O cravo e a rosa" (2000)
  • Riobaldo e Diadorim (Tony Ramos e Bruna Lombardi) de "Grande sertão: veredas" (1985)
  • Luca e Silvana (Mario Gomes e Lucélia Santos) de "Vereda Tropical" (1984)

CASAIS FAVORITOS CATEGORIA HORS-CONCOURS:

  • Simone e Cristiano (Regina Duarte e Francisco Cuoco) de "Selva de Pedra (1972)
  • João Coragem e Lara/Diana/Márcia (Tarcísio Meira e Glória Menezes) de "Irmãos Coragem" (1970)
E então? De quem esqueci? E quais são os seus casais favoritos? Ansioso pelos comentários....

Prefira também: