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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Dossiê “Felicidade”: 3 textos sobre a novela de Manoel Carlos



Helena (Maitê Proença) entre dois amores: Mario (Herson Capri) e Álvaro (Tony Ramos)

Se tem uma novela que eu tenho assistido com assiduidade no momento, essa novela é “Felicidade” (1991), de Manoel Carlos, atualmente em reprise no Canal Viva de segunda à sexta, às 15:30 e à 01:00 da madrugada. O folhetim, livremente inspirado em contos de Aníbal Machado, ficou marcado pelo romantismo, pela simplicidade e por altas doses de lirismo e poesia em suas tramas cheias de personagens cativantes. A novela também marcou o retorno de uma personagem chamada Helena em uma trama do autor. A primeira tinha sido Lilian Lemmertz, dez anos antes em “Baila Comigo”. Para me ajudar a construir um verdadeiro Raio X da novela, convidei dois amigos que também gostam muito dela: o querido Wesley Vieira, pra falar um pouco da trilha sonora; e Raphael Ramos, que nos apresenta uma visão bem completa da novela sob vários aspectos, inclusive um relato bem emocionante de sua memória afetiva em relação a ela.
Melão apresenta três textos diferentes que falam do mesmo tema: felicidade!



Uma nova chance para “Felicidade”
Por Vitor de Oliveira


“Felicidade se acha em horinhas de descuido”, já dizia Guimarães Rosa. E foi justamente por um descuido que me vi acompanhando a reprise da novela no Canal Viva, de maneira muito descompromissada e, quando me dei conta, não conseguia perder um capítulo sequer. Confesso que a novela não me chamou a atenção em sua primeira exibição. Talvez por ser um adolescente na época e ter me ligado muito mais em “Vamp”, que passava no horário seguinte. Já era crescido demais para a trama infantil e ainda muito jovem para os complicados enlaces amorosos de Helena e cia.

Mas agora nessa nova reprise, decidi assistir a alguns capítulos para comprovar o desinteresse que tinha pela novela. Fui assistindo aos capítulos um a um e quando me dei conta já estava completamente envolvido pela história simples, poética e comovente, pelas incríveis atuações e pelo texto sempre realista do autor. “Felicidade” tem uma aura de novela mexicana: herói certinho, heroína sofredora e vilã louca. Há algumas frases ditas pela vilã Débora (Viviane Pasmanter) como “eu sou a mais infeliz das mulheres” que comprovam essa impressão. Mas a novela está longe de ser maniqueísta ou de conter personagens estereotipados. Os personagens bem que podiam ser nossos vizinhos. Os problemas e dilemas deles se parecem com os nossos. A trama não tem aquele ritmo ágil, tampouco cenas grandiloquentes, mas o texto é tão envolvente, os personagens são tão cativantes, os cenários e figurinos tão realistas que não há como não se identificar e criar um vínculo afetivo com a novela. E, assim, suavemente, sem alarde, “Felicidade” nos captura e nos conquista.

Ariclê Perez: magnífica como Ametista
São inúmeros os destaques do elenco, desde a exuberância de Sandra Bréa à maravilhosa contenção de Ariclê Perez, duas saudosas atrizes que fazem muita falta na tevê, mas gostaria de destacar o trabalho da protagonista, vivida magistralmente por Maitê Proença e defendida com garra pela atriz. O mais fascinante nessa Helena é que, ao contrário das outras, que mentiam e guardavam segredos sempre para proteger outra pessoa, essa Helena mente em benefício próprio, como quando forjou uma gravidez falsa para fazer com que o marido se mudasse com ela para o Rio. Ao ver que o plano não deu certo, Helena não hesitou em simular a perda da gravidez e realizar o funeral do bebê enterrando um tijolo no lugar dele. Mesmo assim, continuamos a torcer por Helena, uma das mais imperfeitas e humanas das Helenas do autor. E Maitê Proença não desperdiçou a oportunidade nos brindando com um brilhante trabalho. Já coloquei essa Helena no rol de minhas favoritas. Há que se destacar também o primoroso trabalho de Edney Giovenazzi e seu Chico Treva, um personagem complexo, construído sem palavras, apenas com delicadeza e minimalismo que só poderia mesmo ser interpretado por um ator de alto nível.

Edney Giovenazzi: memorável como Chico Treva
Enfim, “Felicidade” é uma autêntica novela de Manoel Carlos, o autor que mais consegue dar dimensão humana aos personagens, mas também tem um toque de Ivani Ribeiro, ao conter uma simplicidade comovente que está longe de ser simplória, que se aproveita de nosso “descuido” para nos conquistar. 22 anos depois, me rendo e coloco “Felicidade” no rol de minhas favoritas.
  
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As trilhas de FELICIDADE

Por Wesley Vieira

FELICIDADE. Aí está uma novela que me surpreendeu positivamente. Quando foi exibida, em 91, eu era criança. Assistia, claro, mas a imagem que ficou cristalizada em minha memória não foi a melhor. Quando anunciaram a reprise no Canal Viva, torci o nariz: “Mas que novela cafona, chata, blargh”. Hoje, um pouquinho (só um pouquinho) mais velho, assistindo a saga de Helena (Maitê Proença em seu melhor momento), constato que eu estava redondamente enganado. A novela é linda em todos os aspectos. Manoel Carlos, o nosso Maneco, estava inspirado.

No entanto, independente da novela, as trilhas sonoras sempre permearam as minhas lembranças, em especial o disco internacional, que, evidentemente, me marcou mais. Não deixo de citar o disco nacional, embora essa trilha não esteja entre as minhas favoritas, justamente por causa da inclusão de músicas como “Seja mais você”, do Grupo Raça, tema de Tuquinha, e “Você ainda vai voltar”, da dupla Leandro & Leonardo, tema de Helena e Mário. Estas casavam perfeitamente com os personagens em questão, mas como, particularmente, não gosto desses estilos musicais, definitivamente, FELICIDADE Nacional não me causa boa impressão. A pior, em minha opinião, é “O amigo do rei” do Pery Ribeiro - uma música enjoada para um personagem extremamente chato, neste caso, o Ataxerxes. “Casou” bem. O pior é que se trata de uma das músicas mais tocadas durante a novela. Claro, há músicas interessantes, como “Começo, meio e fim” do Roupa Nova, canção que, por sinal, apesar de ser tema do casal protagonista, se tornou o símbolo de toda a novela. Elis Regina com “Velho Arvoredo” é de uma beleza encantadora, assim como Beto Guedes com “Meu ninho”.


Já, FELICIDADE internacional contém uma seleção de músicas agradáveis. Praticamente todas as canções são boas e fizeram (e ainda fazem) muito sucesso. Algumas ficaram marcadas como temas dos personagens. Há quem diga que o jamaicano Jimmy Cliff tenha feito “Peace” especialmente para a novela. Procurei informações a respeito, mas nada foi comprovado. O certo é que a música é linda e de alguma forma, deixou a vilã Débora ainda mais interessante. "Set Adrift On Memory Bliss" do P.M. Dawn abre o disco trazendo um sample da clássica “True” do Spandau Ballet e ilustrava as paisagens cariocas. Alváro se encontrava com Helena ao som contundente de Michael Bolton com "When a Man Loves a Woman". E "Set The Night To Music" com Roberta Flack & Maxi Priest pontuava as cenas do bom moço, Mário, eternamente apaixonado por Helena. Curiosamente, a baladinha gospel da cantora Martika, “Love… Thy Will Be Done", serviu como tema do esquentado Zé Diogo.

Você, que está lendo esse texto, pode até não gostar, mas a música principal desse disco e da novela, é, sem dúvidas, "Theme From "Dying Young", do Kenny G., tema do filme homônimo lançado no mesmo ano, e aqui, na novela, tema de Helena. Há quem odeie, mas de alguma forma, o lamento saxofônico embala com exatidão os dramas da personagem.

Ainda há músicas interessantes que ainda não foram executadas na novela (até então), como a poderosa "Miles Away" da banda Winger e "Caminando Por La Calle" do Gipsy Kings, ainda que, essa última, em ritmo cigano, esteja descontextualizada da novela.

Enfim, as trilhas de FELICIDADE, como sempre, embalando os personagens e suas histórias na telinha e, também, a nossa vida e memória afetiva. 
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“ ENCONTRAMOS A FELICIDADE QUANDO TEMOS CORAGEM PARA RECOMEÇAR”
Por Raphael Ramos

Maitê Proença dando vida a uma das mais interessantes Helenas
Poucas tramas conseguem ser fiéis ao nome que elas carregam ao longo de mais de 100 ou 200 capítulos. ”Felicidade” conseguiu, não apenas ser fiel nisso como também conseguiu prender o telespectador pela qualidade de sua trama, pelos personagens bens construídos e pelo capricho do autor e colaboradores em ter a percepção que todos os personagens mereciam ter uma história do início ao fim, sem falar no desafio que é manter um ibope no horário das 18 horas sendo uma novela exibida numa época onde a internet não era uma febre.

Eu tenho tantos e inúmeros motivos para agigantar essa obra porque a vejo como excelente em vários ângulos. A cada ângulo chamarei por FELICIDADE não só pelo motivo do título da obra, mas pelos êxitos atingidos sob vários aspectos. São eles: FELICIDADE AUTORAL, FELICIDADE ARTÍSTICA, FELICIDADE CULTURAL E FELICIDADE PESSOAL (o momento crítico e pessoal que eu vivia na época com apenas 10 anos de idade).

Na minha modesta opinião, a década de 90 foi a mais inspiradora para Manoel Carlos. As melhores tramas do autor se concentram nestes anos e FELICIDADE foi a melhor no meu ponto de vista. O meu gosto geralmente não acompanha o gosto popular, quando se fala em Manoel Carlos muitos citam “Laços de Família”, “Mulheres Apaixonadas”, etc. A trama em questão não se passa no Leblon e possui uma agilidade bem peculiar de cada capítulo. Ela se divide em duas fases bem definidas, personagens que começam, se desenvolvem e terminam sua história, locações diversificadas como o bairro Peixoto em Copacabana, a fictícia Vila Duília no Engenho Novo e a primeira fase que se passava na fictícia Vila Feliz no interior de Minas Gerais. Manoel Carlos, ao lado de Elizabeth Jhin, Marcus Toledo e Eliane Garcia, prendiam a atenção de adultos e crianças cada vez que a tela congelava na última cena e o arco-íris finalizava o capítulo. As cenas na praça Peixoto, a escola das crianças, a igreja de Chico Treva, a vila do subúrbio davam ar de realidade e de cotidiano ao telespectador. Isso é uma FELICIDADE AUTORAL. Poucos autores como Maneco sabem fazer.

FELICIDADE ARTÍSTICA era ver tantos atores maravilhosos defendendo bem seus personagens. Apesar da trama estar sempre em volta dos desencontros de Álvaro (Tony Ramos) e Helena (Maitê Proença) muitas vezes provocados pelos próprios e milhares de vezes bloqueados pela mimada Débora (Vivianne Pasmanter), as tramas paralelas nunca foram sufocadas pelos protagonistas. Eu destaco alguns aspectos que me fazem admirar a trama:

- A segunda Helena de Maneco após dez anos de jejum é construída de muitos defeitos que a fazem querida e forte para o público. Sustenta mentiras, egoísmos, egocentrismos, forte no que quer e na criação da filha, mas fraca ao enfrentar os obstáculos do amor. Helena ama Álvaro, mas se ama infinitamente primeiro e isso é louvável para a mocinha de uma teledramaturgia.

- O personagem da antagonista Debora que foi brilhantemente defendido pela novata Vivianne Pasmanter que se superou em talento. Debora é uma mulher insegura, vingativa, mimada, fraca e que despertava tanta raiva que chegava a dar pena das insanidades cometidas.

Laura Cardoso em cena com Ester Goes
 - Quero destacar o carisma de Cândida (Laura Cardoso), uma avó que dava vontade de encher de beijos, suas cenas são lindas e cheias de carinho. Cândida era uma mulher rica e simples como o ser humano deveria ser, comedida em fofocas, mas sabia dizer a verdade diretamente doa a quem doer.

- Destaque para Ametista (Ariclê Perez), o melhor personagem da atriz em novelas. Uma mulher seca, amarga e que nunca é emoção, pois tem motivos pra ser só razão, religião e tradição. As cenas são ricas e densas quando nos colocamos no lugar de uma mulher que lutou com simplicidade para ter seu canto junto a terra e teve que abrir mão de tudo, segurar as loucuras do marido, teve que ver todo seu sonho em dançar e tudo que construiu se desmoronar ao ponto de dividir um cômodo de favor com amigos.

Bia (Tatiane Goulart) e Alvinho (Eduardo Caldas): sucesso na época
 - Destaque para o núcleo infantil em cenas tão singelas, leves e contagiantes. Esse foi o sucesso para a trama também conquistar o público infantil. O amor incondicional de Bia (Tatyane Goulart) e Alvinho (Eduardo Caldas) estava acima de qualquer desavença de seus pais, sem falar da música-tema e da amizade da amiga Bel (Aline Menezes) que deu um toque ainda melhor para o núcleo. 

A exuberante Sandra Brea em cena com Viviane Pasmanter, Ary Coslov e Tony Ramos
- Vale ressaltar o meu amor pela impagável Rosita (último personagem de Sandra Bréa numa novela inteira). Apesar do personagem ser escada para vilã e não ter muita trama, as cenas de Rosita são marcantes e marcadas pelo exagero da fala, da gesticulação, do alto astral. Parece que você vê a novela toda pelo mesmo tom, mas quando Rosita aparece o som aumenta, a alegria contagia o capítulo.

  A novela tem um toque muito importante chamado ANÍBAL MACHADO. O escritor é usado como fonte de inspiração pelo autor pra construir tramas e personagens. É onde entra a FELICIDADE CULTURAL. É importante dizer que os contos foram livremente baseados e adaptados. A fonte de inspiração e o autor possuem algo em comum: falar de temas densos em diálogos leves e personagens conflitantes. Confesso que o primeiro chamariz a me fazer ver a novela lá em 1991 foi ter lido para escola o conto “O piano”. Pontuarei esse conto e alguns que norteiam a novela:

- O conflito de João do Piano (Sebastião Vasconcelos) em não conseguir vender seu piano por já ser peça em péssimo estado de conservação, mas estimado por ser relíquia de família. O instrumento se torna um fardo quando a filha Selma (Ana Beatriz Nogueira) resolve se casar com Luiz (Bruno Garcia) e não tem onde deixar o piano. O dilema perdura por muitos capítulos até que João se sente um estorvo ao lado do piano e resolve dar fim a sua vida se afogando com o piano no meio da praia de Copacabana. Essa é uma das cenas fortes da novela que eu jamais esquecerei.

- O próprio protagonista Álvaro é atormentado pela acusação de matar por engano em Vila Feliz um menino chamado Zeca Ventania que ele vê em seus pesadelos ou em momentos de perigo. (No conto original chamado “O iniciado ao vento” o menino se chamava Zeca da Curva e a novela livremente promoveu algumas alterações).

Tuquinha Batista (Maria Ceiça): personagem inspirada em conto de Aníbal

- Dois contos norteiam a trama de Tuquinha Batista, personagem defendido com muito êxito pela novata atriz na época Maria Ceiça. Dona de um caráter forte e muito prestativa, Maneco reservou para a personagem o conto de Aníbal, “Monólogo de Tuquinha Batista”, quando a moça fala do amor que tinha pela zona norte e a resistência em não ir para a zona sul, mas principalmente no conto “A morte da porta estandarte” é que a personagem é traçada. Sua irmã Bel anuncia a sua morte através de um sonho. Na novela, Tuquinha era porta bandeira da G.R.E.S Estácio de Sá e é morta a facadas pelo ex namorado ciumento Tide (Maurício Gonçalves).Ótimas as cenas gravadas na quadra da escola.

- Vários outros contos são fontes de inspiração que criaram personagens: “Acontecimentos em Vila Feliz” serviu de inspiração para os personagens Mario (Herson Capri), Zé Diogo (Marcos Winter) e Chico Treva (Edney Giovenazzi), o horripilante e mudo ogro que não fazia mal a uma formiga. O conto “Tati, a garota” foi a base para o relacionamento entre mãe e filha de Helena e Bia e o conto “O telegrama de Ataxerxes” foi pano de fundo para o sonhador, falido e inconsequente Ataxerxes (Umberto Magnani).

  Gostaria de terminar essa longa avaliação pessoal declarando que além de todos esses motivos que tenho para aplaudir de pé a novela, ainda existe um motivo mais forte: a FELICIDADE PESSOAL. Minha mãe foi a responsável por me fazer gostar de TV e junto com ela eu comecei a ver novela em “Livre para Voar” – 1984. “Felicidade” foi a última novela que nós vimos juntos antes da sua partida precoce. Se em 1984 ela me convenceu a ver a primeira, eu a convenci a ver essa última comigo.

  Em meio a preparativos da festa de 15 anos da minha irmã, eu puxava a senhora Maria Aparecida para sentar-se comigo na sala e ganhar seu tempo de seis às sete. Muitas vezes eu ouvia ela dizer que a festa da minha irmã era a última coisa que ela gostaria de fazer em vida pois já sabia que andava bastante doente, muitas vezes ela relutava em ver comigo para agitar os preparativos, mas eu percebia que ela pensava duas vezes e vinha ficar ao meu lado, vejo hoje que ela agia como se tivesse me fazendo companhia pela última vez!

  Nos últimos capítulos da novela ela já se encontrava debilitada, mas fomos juntos até o fim da trama. Lembro que não conseguia ver quando sua reprise foi ao ar por lembrar dela doente ao meu lado, mas sem perder a força, a alegria e seu amor. Ela me deu a base para eu entender hoje o que é ter Felicidade. Felicidade não é um estado de espírito que conseguimos manter o tempo todo, mas é a certeza de que problemas, decepções e tristezas virão e eu serei atingido, mas não me deixarei abalar. A gente levanta e não se faz de coitado! Sorrio pra curar a dor! Termino com o trecho da música da trilha da novela “Estrela Amiga” (grupo Ping Pong), trecho esse que ela cantava pra mim: “Eu tenho tanto que sonhar, cada vez eu sonho mais, quem tem a sua estrela amiga, sonha (dorme) em paz...”
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Wesley e o melão. Rapha e eu curtindo o carnaval: será o desfile de Tuquinha Batista?



E você, o que mais curte em "Felicidade"? Deixe seu comentário! 
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Série Memória Afetiva: 12 trilhas internacionais – por Wesley Vieira






quarta-feira, 3 de abril de 2013

Blogueiro convidado: Aladim Miguel celebra a reprise de “O profeta”



 Um dos parceiros mais constantes aqui no melão, o querido amigo Aladim Miguel está de volta como blogueiro convidado, desta vez para falar de “O profeta”, novela de Ivani Ribeiro que ganhou um remake pelas mãos da incrível dupla Duca Rachid e Thelma Guedes, sob a supervisão de Walcyr Carrasco. O bem-sucedido remake marcou a estreia da dupla como autoras-titulares e agora ´pode ser visto no “Vale a pena ver de novo”. Munido de sua prodigiosa memória, Aladim nos brinda com um delicioso texto que passeia por toda as tramas de forma tão detalhada que torna essa reprise imperdível. Confira:


O MELÃO ACREDITA QUE “O PROFETA” ESTÁ ACIMA DO BEM E DO MAL



 Por Aladim Miguel
                                         
                                               
    Atual cartaz da sessão “Vale a Pena Ver de Novo”, da TV Globo, a nova versão da novela “O Profeta”, assinada por Duca Rachid, Thelma Guedes, escrita com Júlio Fischer, com a colaboração de André Ryoki, Thereza Falcão e Alessandro Marson e a supervisão de texto de Walcyr Carrasco, é um verdadeiro presente que ganhamos nas nossas tardes. Exibida pela primeira vez entre 16 de Outubro de 2006 e 11 de Maio de 2007, com 178 capítulos às 18 horas, e dirigida por Roberto Talma, Mario Márcio Bandarra, Vinícius Coimbra e Alexandre Boury, a novela foi um sucesso de público e crítica e comprovou, mais uma vez, o eterno fascínio que as obras da grande mestra Ivani Ribeiro têm sobre os admiradores da boa e clássica teledramaturgia, vale lembrar aqui que três remakes de suas obras, A Gata Comeu (1985), Mulheres de Areia (1993) e A Viagem (1994), grudaram na memória e no coração do público pra sempre.
           
Personagens centrais do remake

Mas vamos à trama de “O Profeta”, que começa em Minas Gerais nos anos 40 e depois avança 15 anos e vai parar em 1955. Marcos (um trabalho brilhante de Thiago Fragoso, perfeito em seu primeiro protagonista), um rapaz que tem o dom da premonição e fica bastante perturbado depois que não consegue salvar a vida de Lucas (Henrique Ramiro), seu irmão mais novo, que acaba morrendo afogado em um rio, sem que ele possa fazer nada, uma vez que já havia previsto esse acidente em sua infância. Frustrado com suas intuições, ele se muda para São Paulo, para tentar uma nova vida, e vai morar com Ester (Vera Zimmermann), sua irmã mais velha, lá ele conhece Sônia (Paola Oliveira, linda e totalmente inspirada na princesa Grace Kelly), o grande amor de sua vida. Mas o casal tem que enfrentar alguns obstáculos para selar seu amor, no meio do caminho, como a invejosa, interesseira e malvada Ruth (Carol Castro, que inclusive se baseou em Bette Davis para a construção da personagem), que se apaixona pelo profeta e o faz usar seus poderes para o mal. Se de um lado Ruth faz de tudo para separar o casal, do outro temos o grande vilão Clóvis (mais um trabalho inspirado de Dalton Vigh), que de tantas armadilhas e chantagens consegue se casar com Sônia, e transformar a vida dela em um inferno, usando de todas as crueldades para domar a esposa. No meio dessa confusão toda ainda está o vingativo Camilo (o ótimo Malvino Salvador), eterno apaixonado por Sônia e primo de Marcos. Mas como no final sempre o amor vence tudo, o casal acabou tendo um final feliz.

O lado cômico da trama ficou por conta das várias situações criadas por três personagens bem divertidos: Tainha (Rodrigo Faro, que soube aproveitar muito bem sua veia cômica e foi responsável pelos momentos mais engraçados da novela, um show!), um jovem feirante apaixonado por Gisele (Fernanda Rodrigues), por quem é capaz das maiores loucuras.                           

Fernanda Rodrigues e Rodrigo Faro: sucesso como o casal Gisele e Tainha

A gordinha Carola (Fernanda Souza, em um papel difícil e delicado) - filha da ambiciosa Lia (Nívea Maria) e irmã de Ruth e Tony (Daniel Ávila) – que é platonicamente apaixonada por Marcos e usa o ingênuo e atrapalhado Arnaldo (Rodrigo Phavanello) em suas armações. Ele por sua vez, também a usa para fazer ciúmes em Teresa (Paula Bulamarque, uma loura platinada a la Marilyn Monroe), namorada do mulherengo Henrique (Maurício Mattar). Mas o tiro sai pela culatra e o destino faz com que nasça uma grande paixão entre os dois.
       
Carol Castro, Nívea Maria e Fernanda Souza: destaques do elenco

O terceiro personagem marcante do núcleo de humor foi a falsa cartomante Madame Rúbia (Rosi Campos), que se aproveitava da ingenuidade das pessoas para aplicar golpes como “A Profetisa”, uma das suas vitimas foi a fútil Miriam (bom momento de Juliana Baroni, com seu visual homenageando a Diva Rita Hayworth), que traia Alceu (Nuno Leal Maia), seu marido, com Ernesto (Mário Gomes), o marido da vidente.      

Mario Gomes, Juliana Baroni, Nuno Leal Maia e Rosi Campos: responsáveis por cenas divertidas da novela
             
Os conflitos dos jovens rebeldes dos anos 50 eram representados pelo triângulo amoroso formado por Baby (Juliana Didone), Tony e Wandinha (Samara Filippo).
   
Núcleo jovem da novela

A questão do preconceito racial era discutido através da pequena Natália (Vitória Pina), que tinha muita vergonha de sua mãe negra, a humilde Dedé (Zezeh Barbosa), e a escondia de todos, fazendo inclusive que seus colegas de colégio pensasse que ela era sua empregada.    
Zezeh Barbosa excelente em cena
                                          
O núcleo espiritual, um dos mais fortes da trama era formado por, Francisco (Mauro Mendonça) - o dono do centro Kardecista e do restaurante da cidade dirigido por sua esposa Abigail (Laura Cardoso) - e a rígida Hilda (Ana Lucia Torre), a inspetora da escola onde Ester é diretora.                                

“O Profeta” só teve um CD que misturava os seus temas nacionais e internacionais. Destaque para as canções interpretadas pelos participantes do extinto Programa Fama. “Além do Olhar”, o tema de abertura com Ivo Pessoa e (They Long To Be) “Close To You”, belo tema de Marcos e Sônia, interpretado com emoção pela dupla Cídia e Dan.

Três grandes clássicos sucessos internacionais dos anos 50, “Only You”, “You Are My Destiny”, ambos interpretados pelo cantor Oséas, e “Molambo”, com The Originals, foram rebobinados para a trilha da novela.

Elis Regina com “Fascinação”, Zeca Pagodinho com “ Beija-me”, Gal Costa com “Caminhos Cruzados” e Erasmo Carlos - em dueto com Adriana Calcanhoto - com “Do Fundo do Meu Coração” também tiveram destaques na trama.

Mauricio Mattar, Paula Burlamaqui, Rodrigo Phavanello e Vera Zimmermann: quadrilátero amoroso. 
  
“O Profeta” marcou época, tanto na TV Tupi, em 1977, quanto na TV Globo, e deixou sua marca registrada em nossa teledramaturgia, um clássico que, com certeza, é uma ótima pedida para os seguidores do “Vale a Pena Ver de Novo”.

Aladim Miguel e eu
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Melão quer saber: qual novela que você gostaria de rever no "Vale a pena ver de novo? Deixe seu comentário: 

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LEIA TAMBÉM: 

Blogueiro convidado: Aladim Miguel e a trilha sonora de “Cambalacho”





sexta-feira, 6 de julho de 2012

Blogueiro convidado: Vinícius Sylvestre relembra "História de amor"



Maneco, o gênio e a vida
Por Vinícius Roberto Sylvestre


 As novelas dos anos 90 e seus enredos são o meu esteio cultural. A dramaturgia brasileira se construiu sobre uma dramaturgia maior, de origem dos grandes clássicos. O maior de todos os gênios, Manoel Carlos, criava seus textos sobre a sua observação do ser-humano, a psicologia-humana, tendo a capacidade de penetrar no subjetivo dos seus personagens que acabam se coincidindo com alguém que conhecemos, ou até mesmo nós e nossas histórias de vida.  

Se você quer ser culto e bem informado, veja novelas - dizia o subtexto de uma campanha publicitária da TV Globo. É o sinal verde para voltarmos a 17 anos atrás para relembrar o romântico e polêmico folhetim assinado por Manoel Carlos – “História de amor” (1995), que viria a tornar-se a minha novela favorita – posto que ainda não foi substituído por nenhuma outra obra na TV.


 
Minha mãe iniciou-me no universo das novelas, já que eu era péssimo no futebol e nunca acertei rodar um pião de ponteira. Ela sempre acompanhava as novelas globais, principalmente quando atores como Yoná Magalhães, Tony Ramos, Glória Pires, Antônio Fagundes, Regina Duarte e Edson Celulari estavam no elenco. Em “História de amor” não foi diferente, pois essa novela foi uma das primeiras de muitas outras que tive a oportunidade de acompanhar no seio de minha família. Na época a atriz Regina Duarte, que deu vida à batalhadora e romântica Helena Soares, fazia sua estréia em uma novela das 6, após 30 anos de carreira.
Recordo que o horário no qual a trama era exibida, minha irmã e eu já estávamos pontos para assistir, de banho tomado, barriguinha cheia, após o termino dos deveres escolares, no qual nunca fui muito fã. Apesar de ter 8 anos, o que mais me fascinava na novela era a abertura, na qual mostrava um casal feliz expressando o amor desfilando por vários pontos da Zona Sul carioca, ao som de Ivan Lins. Era uma abertura simples, boa de se ver, nada complicado. E até hoje esta gravada no meu imaginário.
 
 As personagens de Regina Duarte (Helena) e Carla Marins (Joyce), respectivamente mãe e filha. Enfrentavam juntas a gravidez prematura da rebelde Joyce, que mantinha um namoro conturbado com o inconsequente Caio, brilhantemente defendido por Ângelo Paes Leme. O maior problema era o pai da moça, Assunção, uma verdadeira fera. Ex-marido de Helena, o personagem de Nuno Leal Maia era um camarada boa praça, querido por todos, mas quando o assunto era sua filha Joyce, o esportista matinha rédeas curtas e uma forte vigilância.

Regina Duarte e Carla Marins em cena da novela: História de amor

 Lembro-me das cenas em que Assunção sempre tentava uma reaproximação amorosa com Helena, mesmo possuindo uma nova família. Helena, que não se deixava iludir, sempre recusava aprontando um tremendo escândalo, no qual rendiam muitas risadas lá em casa, principalmente do meu pai que até hoje é fã do personagem Assunção. Já minha mãe e as vizinhas xingavam o personagem até o pó!
Helena, a protagonista da novela, era um mulher única, batalhadora e romântica. Estava à espera de um novo amor, até conhecer o médico Carlos Moretti, interpretado por José Mayer, um homem refinado e bem sucedido que, apesar de já estar comprometido com a bela e mimada Paula (Carolina Ferraz), tinha uma vida solitária e não resistiu a essa nova paixão. Na época o personagem de José Mayer teve uma grande empatia com as mulheres, que se tornaram grandes aliadas do romance do casal Carlos e Helena.


O ator José Mayer em dois momentos da novela: com Regina Duarte e com Carolina Ferraz, no primeiro capítulo.  


Não posso me esquecer da magistral atuação de Lilia Cabral, com a sua inesquecível Sheila Bueno. A personagem era uma fisioterapeuta, ex-mulher de Carlos com quem viveu uma relação de 10 anos. Sheila mantinha uma paixão platônica pelo ex, sem ter superado a separação. No decorrer da novela, ela tenta de várias maneiras uma reaproximação com Carlos, que sempre a rejeita deixando-a frustrada e deprimida. Durante muitos momentos da novela, Sheila e Paula se alfinetavam até o ponto de partirem para memoráveis barracos, no quais podíamos ver a brilhante interpretação de Lilia em momentos que sua personagem se desiquilibrava e mostrava o seu lado maléfico. Sheila não era uma vilã, mais sim uma anti-heróina.

Lilia Cabral brilhou como a neurótica Sheila
Apesar de Paula ser uma personagem temperamental, seus pais Rômulo e Zuleika eram uma atração à parte. Os grãn-finos de araque interpretados por Cláudio Corrêa e Castro e Eva Wilma eram o alívio cômico da novela. Ele era o típico membro da aristocracia decadente carioca. Passava a vida jogando pôquer e fumando os seus falsos charutos cubanos, que provocavam divertidas brigas com sua esposa. Zuleika era uma mulher inteligente e requintada e considerada por muitos uma boa pessoa. Às vezes aparenta ser “louquinha”, mas se comporta dessa maneira apenas para se defender das maldades do mundo e da passagem do tempo. Rô e Zu eram os personagens que eu mais gostava, pois a relação de amor e ódio do casal veterano lembra muito a relação dos meus pais. Que brigam, brigam e brigam. Mas no fundo se amam.

Bia Nunnes: grande destaque como a sofrida Marta
Já os personagens Marta (Bia Nunnes) e Assunção deram um grande exemplo de superação. Ela lutava contra um câncer de mama. Seu drama teve um efeito de alerta. Registrou-se o aumento no número de exames preventivos feitos por mulheres durante a exibição da trama. Já o personagem de Nuno Leal Maia sofreu um terrível acidente de automóvel, ficando preso a uma cadeira de rodas. Ele conseguiu se reerguer praticando esportes. Para falar sobre este tema o autor contou com a participação especial de Pelé, na época ministro dos esportes.
Nuno Leal Maia e Ingrid Fridmann: destaques da novela

 As interpretações que deixaram saudades foram as de Yara Cortes na pela da matriarca vovó Olga Moretti. Ela era uma senhora alegre, extrovertida e cheia de amor pela família, grande conselheira e amiga do neto Carlos; a outra era a pequena Ritinha vivida pela atriz Ingrid Fridmann que, mesmo sendo uma menina, vivia à procura de um grande amor. A pequena ainda fazia uma divertida dobradinha com o ator Ricardo Petraglia que deu vida a seu papai Xavier.

A saudosa Yara Cortes
 O que emergirá do meio dessa torrente de diálogos e personagens criados para a televisão? Não esperemos um Shakespeare, nem um Goldoni, nem um Molière. Discordo com alguns críticos que analisam as novelas de Maneco como inconsistentes. “História de amor” construiu na minha vida e na vida de todos que viram a reflexão de nossas próprias vidas e suas surpresas. Podemos considerar Manoel Carlos como um mestre da criação de seres-humanos e os seus laços de vida.

"A realidade nunca faz sentido"  (Manoel Carlos)

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VINÍCIUS ROBERTO SYLVESTRE é formado em Comunicação Social, Roteirista e noveleiro apaixonado.

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