Mostrando postagens com marcador Novela. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Novela. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Blogueiro convidado: Walter de Azevedo relembra o remake de Selva de Pedra.


Mais um querido amigo dá a sua contribuição ao melão. E esse não é um amigo qualquer: um verdadeiro queridão, que transcendeu a amizade virtual de listas e comunidades de discussões sobre teledramaturgia e se tornou um grande amigo, uma pessoa doce, amiga e generosa. Talentoso, engraçado, divertido, com um senso de humor inteligente e apuradíssimo (basta comprovar seguindo-o pelo twitter @WalterdeAzevedo ou visitando seu blog Histórias de Tatu), esse santista ainda vai longe, já que é um roteirista em potencial, cheio de talento. Para o melão, Walter escreveu sobre uma das novelas que povoam sua memória afetiva e suscita muita curiosidade entre os mais jovens: o remake de “Selva de Pedra”, de 1986. Walter contextualizou perfeitamente a novela à época em que foi exibida. Obrigado, queridão, pela contribuição de luxo. Confiram:

Na selva do remake...ou no remake da Selva.
Por Walter de Azevedo

Todos nós costumamos reclamar de dor de cabeça, mas não dá pra negar que algumas delas são ótimas. No final de 1985, a Rede Globo tinha uma dessas dores. O sucesso de Roque Santeiro deixava a emissora líder com um tremendo abacaxi nas mãos: Que novela poderia substituir a trama de Dias Gomes e Aguinaldo Silva e manter, ou pelo menos não perder tanto, os impressionantes números de audiência? Barriga de Aluguel de Glória Perez e até mesmo Cambalacho de Sílvio de Abreu, que acabou sendo exibida às 19h, foram cogitadas, mas a diretoria da Globo estava reticente. Finalmente chegaram à conclusão de que, pra substituir um sucesso arrebatador, apenas outro sucesso arrebatador. Foi assim que surgiu a idéia do remake de Selva de Pedra, sucesso de Janete Clair exibido originalmente entre 1972 e 1973.
  Refazer um clássico é um trabalho hercúleo e muitas vezes, ingrato. As comparações com o original sempre são feitas e, na maioria das vezes, a nova versão acaba perdendo. Isso pode acontecer porque realmente era melhor, porque as pessoas têm uma memória emotiva ligada ao original ou até mesmo porque o público já conhece aquela história e é ávido por coisas novas.
  Com um elenco recheado de estrelas como Tony Ramos, Christiane Torloni, Walmor Chagas, Maria Zilda, Stênio Garcia, Sebastião Vasconcelos e Nicete Bruno, além de rostos pouco conhecidos do público como Miguel Falabella e Fernanda Torres, esta já vencedora do prêmio de melhor atriz em Cannes pelo filme Eu Sei Que Vou Te Amar, o remake de Selva de Pedra estreou às 20h do dia 24 de fevereiro de 1986, e foi massacrado pela crítica e pelo público.
  Walter Avancini, um dos mais talentosos diretores que a televisão brasileira já teve, dessa vez pesou um pouco a mão na tentativa de atualizar a história. Um possível romance entre as personagens Fernanda (Christiane Torloni) e Cíntia (Beth Goulart), chocou o grande público, contribuindo ainda mais para a rejeição. Outro fator importante era a falta que o público sentia de Roque Santeiro, criando uma má vontade para com Selva de Pedra. A Globo tinha um barco afundando no horário nobre.



  Mas talento é algo imbatível e Janete Clair tinha de sobra. Após alguns ajustes na direção, que passou por várias mãos, a carpintaria da “maga das oito” começou a fazer diferença. Como resistir aos ganchos e entrechos melodramáticos que Janete Clair sabia criar com maestria? Como não torcer pela mocinha que, achando que o marido queria matá-la, escapa de um acidente e, tida como morta, assume outra identidade? Como não se deixar envolver pela moça rica que, abandonada no altar pelo homem que ama, enlouquece e passa a persegui-lo buscando vingança? Janete tinha o dom de criar as situações mais rocambolescas e inverossímeis e, mesmo assim, nos fazer acreditar que aquilo tudo era possível. Essa era a marca de Janete Clair.
  Aos poucos, Selva de Pedra conseguiu se firmar, conquistando uma boa audiência para o horário. Nada comparado ao fenômeno de Roque Santeiro ou aos ditos 100% conseguidos no capítulo 152 da primeira versão, mas o suficiente para que a Rede Globo pudesse respirar aliviada. Ao final da trama, a adaptadora Regina Braga, que havia trabalhado ao lado de Ellóy Araújo, disse saber desde o início, que enfrentariam uma batalha. Se ganhassem, os louros iriam para Janete, mas se perdessem, ela e Ellóy seriam os responsáveis. Talvez poucos saibam quem escreveu o remake de Selva, e isso já é uma reposta pra colocação de Regina.
  Muita gente ainda torce o nariz pra versão 1986 de Selva de Pedra. Confesso que, até hoje, é minha novela preferida. Falo isso como telespectador e não como alguém que pesquisa sobre o gênero. Sei que existem muitos títulos melhores, mas essa é a que me toca de uma forma especial. Talvez pelo talento de Janete, pelo brilho de Christiane Torloni (de quem me tornei fã), pela visceral interpretação de Miguel Falabella, ou pela cena, deliciosamente novelesca, de Fernanda Torres levantando de sua cadeira de rodas para abraçar Tony Ramos. Não sei. O fato é que Selva de Pedra é o meu clássico de Janete e que vai estar sempre na minha memória e na minha emoção.
____________________________________

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

“TELL ME MORE, TELL ME MORE...” – Pombinhos se reencontram


 Quem acompanha o blog de longa data, já deve ter lido alguns posts sobre “Só Você”, minha novela-fetiche dos anos 50. Já postei uma cena em que a mãe do protagonista confessa um segredo para sua confidente. Também já publiquei uma cena de um elegante chá de senhoras com torradas e hipocrisia. Agora me toquei que ainda não apresentei os protagonistas: Roberta e Gustavo. Os dois se conhecem logo no início do capítulo 1 em que ele a salva de um afogamento na praia. Essa última cena do capítulo marca o reencontro dos dois e é descaradamente inspirada na cena de “Grease” em que John Travolta e Olivia Newton-John, através da música “Summer Nights” falam um do outro para os amigos sem saberem que estão no mesmo colégio. Escrevi em 2007. Talvez escrevesse de outro jeito hoje. Mas para o post, preferi preservar as características originais. Espero que gostem.

CENA 44. COLÉGIO. QUADRA. Exterior. Dia/ COLÉGIO. PÁTIO. EXTERIOR. DIA.
QUADRA. GUSTAVO, DENIS E VINNY CHEGAM E ENCONTRAM CAMELO E ALEX. CUMPRIMENTAM-SE COM APERTOS DE MÃO TÍPICOS DE JOVENS DA ÉPOCA.
CAMELO             — Como é que foi ontem na praia?
DENIS                  — O Gustavo pescou uma sereia.
ALEX                   — Sério? Conta aí, Gustavo!
CORTA PARA PÁTIO. ROBERTA, ÉRICA E TATY CONTAM AS NOVIDADES PARA CAMILA E VIRGÍNIA.
CAMILA              — Érica, você não me engana. Tá com cara de quem aprontou na praia ontem.
TATY                    — Pra variar.
ÉRICA                  — Que nada! Quem tirou a sorte grande foi a Roberta.
VIRGÍNIA           — Roberta! Logo você?
ROBERTA           — (ENVERGONHADA) Érica, pra quê falar nisso?
CAMILA              — Ah, não! Começou, agora conta!
ÉRICA                  — Ela conheceu um rapaz na praia.
CAMILA              — Jura? E era bonito?
CORTA P/ QUADRA:
GUSTAVO           — A garota mais linda que eu já vi.
CAMELO             — Ela era boa mesmo?
GUSTAVO           — Sai fora, Camelo. Não é disso que eu tô falando.
ALEX                   — Ué, e não é isso que interessa?
GUSTAVO           — Vocês tão por fora! Tô falando que ela era diferente de todas as garotas que eu já conheci.
ALEX                   — E o que é que ela tinha de tão especial assim?
CORTA P/ PÁTIO:
ROBERTA           — Parecia um príncipe encantado. Lembro que eu tava me afogando e depois não lembro de mais nada. Quando abri os olhos, ele tava lá olhando pra mim.
VIRGÍNIA SUSPIRA. CAMILA E ÉRICA DÃO GRITINHOS. TATY OLHA COM DESDÉM.
TATY                    — Grande coisa! Uma cara de pobre...
ÉRICA                  — Inveja mata, hein Taty?
CAMILA              — Conta mais, conta. Vocês se beijaram?
CORTA P/ QUADRA:
GUSTAVO           — Não foi bem beijar. Tive que fazer respiração boca-a-boca pra ela acordar. Mas aquela boca era tão macia que eu até esqueci que era um salvamento.
CAMELO             — Parece coisa de cinema!
ALEX                   — Ela tem alguma amiga pra apresentar?
DENIS                  — O que? Só tinha brotinho! Uma mais bonita que a outra.
VINNY                 —Teve uma até que não resistiu ao charme do papai aqui. Tive que dar o que ela tava querendo.
RAPAZES GRITAM, ENCARNAM, DÃO CASCUDOS E DESCABELAM VINNY
DENIS                  — A sua sorte que o primo dela era gente boa, senão você tinha criado a maior confusão, isso sim.
CAMELO             — E aí, Guga? Pegou o telefone dela?
CORTA P/ PÁTIO:
ROBERTA           — Não. Vitor pegou a Érica de agarramento com um dos rapazes e ficou uma fera. Quis ir embora na hora. Nem consegui me despedir direito.
VIRGÍNIA           — Que pena. E agora?
CORTA P/ QUADRA:
GUSTAVO           — Agora eu não sei. (TRISTE) Nem sei onde ela está.
CORTA P/ PÁTIO:
ROBERTA           — Será que a gente vai se ver algum dia?
TOCA O SINAL. OS ALUNOS ENTRAM APRESSADOS. ROBERTA PERDE AS MENINAS DE VISTA E CAMINHA UM POUCO PERDIDA. ESBARRA NA MULTIDÃO DE ALUNOS. CADERNOS CAEM. ROBERTA SE ABAIXA PARA PEGAR O MATERIAL QUE CAIU NO CHÃO. QUANDO VAI PEGAR O ÚLTIMO CADERNO, VEMOS QUE UMA MÃO O PEGA ANTES. ROBERTA PERCEBE QUE FOI GUSTAVO QUEM PEGOU. OS DOIS SE OLHAM SURPRESOS.

FIM DO CAPÍTULO

Leia também:

UMA CENA CHAVE DE "SÓ VOCÊ": http://euprefiromelao.blogspot.com/2010/07/uma-cena-chave-de-so-voce.html

ELEGANTE CHÁ DE SENHORAS DOS ANOS 50: http://euprefiromelao.blogspot.com/2010/01/elegante-cha-de-senhoras-nos-anos-50.html

FLOR DE LÓTUS: http://euprefiromelao.blogspot.com/2010/05/flor-de-lotus.html 

                                                                                                                                            

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Melão Express: Rapidinhas, mas saborosas – Ed. 11

                                                                                                                                                                                  
Ø AS CARIOCAS: UM GRANDE ACERTO



      Está sendo uma grata surpresa na grade de programação da Globo a série “As cariocas”. Anunciada desde o início do ano, ninguém deu muita atenção, mas foi só ir ao ar o episódio “A noiva do Catete” com Alinne Moraes, para termos a certeza de que se tratava de um biscoito finíssimo, de algo que, ao mesmo tempo, nos remetesse a um passado delicioso, mas com um quê de moderno. O produto é muitíssimo bem acabado do ponto de vista estético. A fotografia é moderna e deslumbrante, exala beleza, bom gosto e destaca as “belezas naturais” do programa, como sugere o narrador ao falar das protagonistas. O texto, baseado na obra de Sérgio Porto, às vezes, parece um pouco datado, tanto em alguns termos como “mulher honesta”, tanto em situações como assédio do patrão (hoje em dia um processo resolveria a questão). Mas é um porém muito pequeno se comparado às qualidades: agilidade, leveza, bom humor e sensualidade na dose certa. Cada episódio é diferente, mas ao mesmo tempo preserva a unidade da série. A narração de Daniel Filho é outro acerto. Aliás, que falta faz Daniel Filho à TV! O fato de gravar em locações da cidade maravilhosa lembra os antigos programas da Globo dos tempos pré-Projac. A série ainda não chegou nem em sua metade e já estou ansioso pelo DVD.


   Ø “POR UM FIO” É SÉRIO DEMAIS!

Quem acompanha “Por um fio”, versão brasileira do reality “Share Genious”, em que cabeleireiros disputam um prêmio, detecta as mesmas diferenças da versão original da versão brasileira de “America’s Next Top Model”. Não que o programa seja ruim, mas os brasileiros levam a sério demais esse tipo de competição. Nas versões americanas, os jurados são mais espirituosos, parecem se divertir e também divertem o público com seus comentários irônicos e engraçados. Já os brasileiros parecem sempre carrancudos e sempre fazem críticas muito severas e aborrecidas ao desempenho dos participantes, que saem tão arrasados e culpados como se tivessem cometido algum crime, tornando o programa pesado e tenso, no mau sentido. Talvez essa decepção dos jurados com relação aos participantes tenha a ver com a seleção: na versão americana, mesmo os piores cabeleireiros arrasam no visual. Aqui parece que todos só sabem fazer o mesmo tipo de cabelo. Não há ousadia. Não se sabe se a falta de criatividade vem do temor que os jurados causam. Só a apresentadora, Juliana Paes, é amistosa e transmite carisma e bom humor. Enfim, “Por um fio” é um bom programa, mas em relação ao original americano, ainda tem muito a caminhar.


Ø VILÃS COM TUDO NO “VIVA” ESSA SEMANA


Como já disse antes, o verdadeiro “Vale a pena ver de novo” está no canal Viva. E essa semana, especialmente, será um deleite, pois duas de nossas maiores vilãs vão estar com a corda toda. Enquanto em “Vale Tudo” a temida Odete Roitman (Beatriz Segall) está finalmente chegando e vai começar a aprontar das suas, à tarde em “Por amor”, a não menos terrível Branca Letícia de Barros Mota (Susana Vieira em estado de graça) vai acertar as contas com a dissimulada Isabel (a sempre ótima Cássia Kiss), com direito a luta corporal no solo e tesourada pra tudo o que é lado. E, claro, um texto fantástico e desempenho memorável das atrizes. Preparem seus gravadores e divirtam-se!

Ø AGUINALDO EM VERSÃO DIGITAL




E o intrépido Aguinaldo Silva não para de surpreender. Depois do sucesso do blogão e de ser presença constante em sites de relacionamento como Twitter e Facebook, o autor agora amplia seus domínios com um site: o “Aguinaldo Silva Digital”, um espaço super completo onde, além dos sempre inspirados textos do blog, também abriga entrevistas, enquetes, cenas de suas novelas e minisséries, dicas de livros, sites e links para outros blogs, dentre os quais, meu humilde melão está incluído. Estamos chiques, né? Enfim, mais um espaço para quem curte teledramaturgia, bom papo, diversão, cultura e o estilo único de Aguinaldo Silva. O melão deseja boa sorte, sucesso e vida longa para o “Aguinaldo Silva Digital”.

_____________________________________________________________________

Abraços a todos e até mais!!!

domingo, 31 de outubro de 2010

Blogueiro convidado: Fábio Leonardo Brito – memória cultural e telenovelas


 Mais um queridão entra para o rol dos colaboradores do melão, que já se espalham de norte a sul do país: este vem do Piauí.  Estudante de História e telemaníaco convicto, o jovem Fábio Leonardo Brito já deu provas de sua competência na escrita e de sua capacidade analítica em comunidades e listas de discussão das quais fazemos parte. Agora, esse futuro historiador nos dá a honra de publicar um belo texto aqui no melão em que ressalta a colaboração de nossas telenovelas para a memória cultural brasileira. Excelente e esclarecedor texto. Aproveitem!

TEIAS, TRAMAS E LEMBRANÇAS:
AS TELENOVELAS COMO LUGARES DE MEMÓRIA

Fábio Leonardo Brito

Odorico Paraguaçu cercado pelas inesquecíveis Irmãs Cajazeiras em "O bem amado"

“Eu lembro dessa novela!” Quantas vezes já não ouvimos ou falamos essa frase? Talvez uma das mais comuns em todo o Brasil. A grande verdade é que a televisão, e a telenovela em especial, é, desde seu surgimento, objeto das maiores paixões nacionais. Paixões, sim: e manifestas em suas duas formas, o amor e o ódio. Mesmo aqueles que não gostam de novelas admitem tê-las assistido, ou mesmo acompanhado assiduamente pelo menos uma vez. As novelas no Brasil, muito mais do que o cinema ou os livros, tornaram-se um veículo de comunicação eficiente. Ditaram moda, modos de falar, incitaram a participação política... As novelas construíram o Brasil, pois moldaram a maneira de pensar dos brasileiros.

Sou graduando em História e, como tal, sempre quis (e pretendo) trabalhar a teledramaturgia como um elemento de análise a partir dos novos conceitos da minha ciência. Nos meus estudos, dei de cara com Pierre Nora, um de nossos teóricos, que trabalha a memória como ponto de partida para o estudo da história. Segundo ele, os monumentos (sejam eles materiais ou imateriais) são “lugares de memória”, elementos que incitam a lembrança. São monturos para serem queimados pelo historiador, que problematiza o monumento.

E pensei: porque não fazer isso com a dramaturgia? Se a Ilíada pode ser usada para analisar os usos e costumes da Grécia Antiga, e Lancelot os a França medieval, por que não Pecado Capital e Vale Tudo os do Brasil contemporâneo? Como historiador, é minha obrigação problematizar sobre esse tema, ainda carente de pesquisas que lhe façam justiça.

Luiz Gustavo, no papel título de "Beto Rockfeller" (1968) e Bete Mendes.
As novelas, como espaço de memória, permeiam a vida dos brasileiros e são espaços de identificação com este desde a estreia de Beto Rockfeller, em 1968, na Tupi. Até então, as novelas eram histórias no bom e velho estilo capa-e-espada, passadas em países distantes. O estilo, marcado pela direção de dramaturgia de Glória Magadan na Globo, perdurou até o fenômeno causado pela trama. Depois dela, nunca mais a dramaturgia seria a mesma.

A novela serve como um espaço para que as pessoas se identifiquem. Para Carlo Ginzburg, historiador italiano, autor de O fio e os rastros, “um escritor que inventa uma história, uma narração imaginária que tem como protagonistas seres humanos, deve representar personagens baseados nos usos e costumes da época em que viveram: do contrário eles não serão críveis” (p. 82). Lembro de uma entrevista em que Janete Clair surpreendeu-se quando descobriu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek assistia à sua novela no ar, Selva de Pedra, que dera, dias antes de tal revelação, 100% de Ibope na Grande São Paulo.

Do porteiro ao presidente da República, as novelas representam o dia-a-dia da população. Não, não falo apenas das cotidianas crônicas de classe média de Manoel Carlos. Qualquer história sobre humanos representa o que poderia ter acontecido: nisso são reais. Do Brasil que não perde a oportunidade de se dar bem, mesmo que, para isso, tenha que passar por cima dos outros, ao extremo símbolo da honestidade, do batalhador tupiniquim que mata um leão por dia ao político que dá uma banana pro Brasil, e foge do país após roubar milhões. Todos estivemos representados em Vale Tudo. Dos pudicos nordestinos, que escondem debaixo do tapete suas taras, àqueles que revelam seu fogo e seus desejos interiores: também todos estávamos nos tipos marcantes de Tieta. E quem não viu sua aldeia representada nos múltiplos Brasis contidos em Sucupira ou Asa Branca?

A memória nacional permanece viva nas novelas. A partir delas, lembramos de momentos marcantes de nosso país, do cotidiano de várias épocas, de seus hábitos, vestimentas e falares. E é pela televisão que o homem, através da fantasia, se olha no espelho: conclui que sua vida reflete-se e é refletida na arte que cria. Nas teias ilusórias propostas pelos autores, nas tramas que se interligam com escandalosas coincidências, ganchos e viradas, nos vemos, melhorados ou piorados, de forma clara ou estigmatizada. Mas somos nós, nossas qualidades e nossos defeitos. Traduzimos nossa sociedade e mostramos nossa cara.
_____________________________________________

Fábio Leonardo Brito é autor do interesantíssimo blog Super CultVale muito a pena a visita!
                                                                                                                                                         

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Entrevista: Nilson Xavier – enciclopédia televisiva.

                                                                                                                                                                   
            


"Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina". A frase de Cora Coralina me parece adequada para apresentar o novo entrevistado do melão: Nilson Xavier, criador do site “Teledramaturgia” e autor do “Almanaque da Telenovela Brasileira”, dois veículos que são verdadeiras fontes de conhecimento pra todo mundo que ama novelas e afins.
Noveleiro desde pequeno, Nilson anotava em um caderno todas as informações referentes a cada novela no ar. Anos mais tarde, tornou-se analista de sistemas e uniu o agradável ao útil e criou o site “Teledramaturgia”, que contém informações sobre todas, eu disse TODAS as produções teledramatúrgicas de nossa tevê desde os primórdios. Quer saber quem fez parte do elenco de “O sheik de Agadir”? Ou quer conhecer curiosidades sobre a minissérie “Quem ama não mata”? Seja o que for o que você deseja saber, está tudo no site, que atualmente passa por um processo de modernização em seu layout. Realmente um luxo!  Aos poucos, o trabalho hercúleo e importante de Nilson começou a ser reconhecido em várias instâncias e hoje em dia é muito mais do que um mero guia de consulta para telemaníacos. Além de ser procurado por vários estudantes e pesquisadores do gênero, o site também serviu de base para várias publicações importantes, dentre as quais, o projeto Memória Globo. Não satisfeito, Nilson também publicou o “Almanaque da telenovela”, que além de informativo, traz várias curiosidades sobre inúmeras novelas e séries. Feliz de nossa teledramaturgia que pode contar com pessoas como Nilson, que preservam com tanto capricho e carinho a sua memória, trabalho que deveria ser feito pelas instâncias institucionais, pois já está mais do que na hora de reconhecerem que a telenovela está para o Brasil assim como o cinema está para os States.

“Eu prefiro melão” orgulhosamente apresenta: Nilson Xavier!


            Eu prefiro melão - Quais são suas primeiras lembranças televisivas?
Nilson Xavier - Lembro, muito remotamente, de cenas da novela O Semideus (1974): de Tarcísio Meira de cabelos crespos e um casacão escuro, da personagem de Mirian Pires, uma mulher meio enlouquecida. Depois lembro de Fogo Sobre Terra, principalmente do último capítulo, pois me marcou muito a cena em que Nara, personagem de Neuza Amaral, é tragada pelas águas da represa pois se negava a deixar a sua casa. Na seqüência veio Escalada, e já lembro de mais coisas.

Eu prefiro melão - Você tinha a real noção do enorme sucesso e repercussão quando decidiu criar o site Teledramaturgia? Imaginou que ele se tornaria referência, fonte de consulta para estudiosos, acadêmicos e amantes do gênero? Sei que você já respondeu isso milhões de vezes, mas como tudo começou?
Nilson Xavier - Nunca imaginei, juro! E devo tudo isso ao meu amigo Hugo Pitada, que na época mantinha o site “Gilberto Braga On-Line” que me serviu de referência e foi a base para meu site. Na verdade, minha primeira intenção foi migrar para a rede as minhas anotações de mais de 20 anos. Somado a isso, fiz um bom trabalho de pesquisa com a bibliografia que tinha em mãos na época (1999/2000). Claro que o livro de Ismael Fernandes (“Memória da Telenovela Brasileira”) foi minha principal fonte. Mas o site foi crescendo, crescendo, num trabalho incansável.  “De formiguinha” mesmo! E, aos poucos, tornou-se o que é hoje: uma base de dados, com mais de 900 títulos catalogados, de produções teledramatúrgicas nacionais.

Eu prefiro melão - Do site você partiu para o Almanaque da Telenovela. Como surgiu a ideia do livro?


Nilson Xavier - Em 2004 a Ediouro lançou o “Almanaque dos Anos 80”, livro que gostei muito, pela identificação com a época retratada. Então imaginei que seria bastante interessante um livro nos mesmos moldes (tópicos de curiosidades e fartamente ilustrado), mas apenas com informações sobre o universo novelístico. A maioria das curiosidades sobre novelas eu já tinha, através do site. Bastava compilar de uma forma diferente (por temas), colher mais pesquisa, juntar material ilustrativo e pronto! O livro não poderia ser igual ao site, pois não faria sentido publicar algo que já se encontra na Internet. Então eu diria que o livro complementa o site: tem informações que existem no livro mas não existem no site, e vice-versa.

Eu prefiro melão - Você acha que a novela ainda é considerada pela elite cultural como gênero descartável e de segunda linha? Ou o preconceito já diminuiu?
Nilson Xavier - Acho que o preconceito tenha diminuído um pouco de vinte anos para cá, por tanto que se “bateu nesta tecla”! Mas convenhamos que as produções atuais não têm ajudado para melhorar este cenário. Como bem disse o novelista Lauro César Muniz numa entrevista, hoje em dia se nivela por baixo, e a qualidade fica aquém do esperado.

Eu prefiro melão - A que você atribui o sucesso permanente da telenovela em nosso país? Qual a relação do brasileiro com o gênero?
Nilson Xavier - A telenovela é quase uma “instituição nacional”. Muitos a comparam com o futebol e o Carnaval na preferência popular. E eu concordo. E isso se deve ao fato de as emissoras terem criado no brasileiro médio o hábito de ficar ligado na TV diariamente, em horário nobre, através de uma boa história seriada. Somado a isso, ótimos profissionais em excelentes produções.


Eu prefiro melão - Que novelas e autores você considera emblemáticos e primordiais para a história da nossa TV?
Nilson Xavier - Ah, são tantos! Tantos exemplos de novelas marcantes, que ficaram no subconsciente coletivo. Todos – inclusive quem não é fã do gênero - já ouviram falar de O Bem Amado, Roque Santeiro, Vale Tudo, Dancin´Days, Pecado Capital, Selva de Pedra, Irmãos Coragem (foto), Mulheres de Areia, Beto Rockfeller. E neste histórico, os nomes de Janete Clair, Dias Gomes, Ivani Ribeiro, Gilberto Braga, Benedito Ruy Barbosa, Lauro César Muniz, Manoel Carlos e tantos outros serão sempre lembrados!


Eu prefiro melão - De que forma você analisa o atual panorama da produção teledramatúrgica?  Você ainda assiste a novelas com o mesmo entusiasmo do passado? Falta a criatividade e ousadia de outros tempos?
Nilson Xavier  - Acho que o que falta é o público aceitar o novo, o moderno... ou até o revolucionário. Muita coisa mudou de 30 anos para cá. A sociedade, como um todo, por conta dos avanços tecnológicos. Mas - e conseqüentemente - o público de televisão aberta também mudou. Está menos exigente, menos aberto às novidades e menos tolerante às mudanças. Enquanto isso, a classe formadora de opinião está cada vez mais deixando de lado a TV aberta. E isso se reflete nas ótimas produções de teledramaturgia vistas hoje na TV a cabo, e até mesmo na Internet, onde, me parece, é menos nocivo arriscar-se e criar mais.

Eu prefiro melão - Classificação indicativa é uma forma de censura?
Nilson Xavier - Acho que enquanto funcionar como um “alerta” aos pais, não é censura e não atrapalha. Mas a partir do momento que extrapola, faz-se necessário revisar as regras do que “pode ou não pode”. Na minha opinião, a classificação indicativa não deveria podar horários, por exemplo. Acho que cabe aos pais, baseados na classificação indicativa, permitirem ou não o programa a seus filhos. Acho que classificação indicativa é censura quando limita a criatividade por causa de uma grade de programação.

Eu prefiro melão - Em tempos de novas mídias como internet e TV digital, para onde caminha a teledramaturgia?
Nilson Xavier - Acho que a teledramaturgia não deve ignorar as novas mídias. Pelo contrário, deve fazer uso delas, senão, vai ficar para trás, com certeza. Como a Internet é um “mundo sem fim, sem fronteiras”, aumenta-se a possibilidade de novos dramaturgos, novas cabeças pensantes, novas tendências e possibilidades que a TV aberta não consegue abraçar. E isso já está acontecendo. E , apesar destes tempos modernos, continua valendo uma das máximas do showbiz: se estabelece quem tem competência!

Nilson prefere...

Novela favorita: Elas por Elas (memória afetiva) / Roque    Santeiro (melhor novela que já acompanhei)
Minissérie: Os Maias (digno de filme hollywoodiano)
Autor: Ivani Ribeiro e Cassiano Gabus Mendes
Ator: Lima Duarte e Tony Ramos
Atriz: Eva Wilma (foto) e Dina Sfat
Cena marcante: a morte de Juliana (Marília Pêra) na minissérie O Primo Basílio
Tema de novela inesquecível:  Melo do Piripipi” (Gretchen), tema de Mário Fofoca (Luiz Gustavo) em Elas por Elas.

Eu prefiro melão - Obrigadíssimo pela gentileza, querido! E não canso de repetir. Você realizou um trabalho que o Ministério da Cultura deveria desenvolver, afinal preserva a memória cultural de nosso país. Vida longa para o Teledramaturgia!
Nilson Xavier - Obrigado! ;)

                                                                                                      

Prefira também: