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sábado, 12 de maio de 2012

Roteirista convidada: Evana Ribeiro e o “desgoverno” nos bastidores do poder.





 Evana Ribeiro, mais conhecida como Evinha para os íntimos, é uma talentosíssima jovem recifense que, além de noveleira inveterada, também é roteirista de mão cheia. Já eleita em seu texto anterior para o melão “Editora-Chefe da sucursal Recife”, Evinha, apesar da pouca idade, demonstra grande maturidade artística com uma cena muitíssimo bem escrita de sua instigante história chamada “Desgoverno”. É daqueles fragmentos de texto que nos desperta o desejo de ler a obra inteira e torcer para que a autora alcance grandes vôos para que possa nos brindar com sua criatividade.
Evinha, obrigadíssimo pela confiança e mil desculpas pela demora em publicar. Volte sempre. “Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim!”.
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Desgoverno é uma sinopse na qual estou trabalhando há algum tempo, coisa de dois anos, e gira em torno dos entreveros políticos e amorosos que abalam a presidência de Drava, um país fictício. No momento, o chefe de Estado é Roland Gehrard, cuja popularidade só faz cair a cada dia. Ele só é amado por três pessoas naquele lugar: sua esposa, Marie; sua única filha, Reny (que vem sendo preparada para suceder o pai na Presidência) e sua amante, a garçonete Isabelle.
No primeiro capítulo, enquanto o grupo de extrema oposição planeja um grande golpe para destituí-lo do poder, Roland fica viúvo e Isabelle sente que chegou o momento de ela se tornar a primeira dama, depois de anos sendo a outra. Nestas cenas, ela conversa com sua melhor amiga, a também garçonete Laura; que é mãe de Pedro, o jovem líder do grupo que quer acabar com o Presidente.

Enfim, sem mais delongas, vamos às cenas!

11. CASA DE ISABELLE. SALA. INT. DIA
Isabelle está sozinha, vendo TV. O aparelho está sintonizado no canal de notícias que exibe o velório de Marie. Roland aparece em primeiro plano na imagem mostrada pela TV, falando com os jornalistas. Enquanto assiste, Isabelle chora copiosamente e enxuga as lágrimas com um lencinho. A campainha toca; ela cruza a sala sem muita pressa, vai até a porta e respira fundo, contendo o choro. Abre a porta, encontrando Laura. Ao ver a amiga, começa a chorar outra vez e a abraça.

LAURA - O que foi, criatura?

Isabelle não responde, está soluçando. Laura entra com ela e a faz sentar no sofá. Então se vira e vê a TV ligada no velório.

LAURA - Nem sabia que você era chegada a ver esses negócios na TV.

ISABELLE - É ela, Laura. Ela. A Marie morreu...

LAURA - Sim, eu sinto muito pelo presidente, mas...

ISABELLE - Queria tanto ver o Roland nessa hora!

LAURA - Pode parar por aí que eu já sei onde é que a conversa acaba!

ISABELLE - Você não acredita, mas eu amo aquele homem mais que a minha própria vida. Aliás, a minha vida se resume a ele, a quando eu estou com ele, quando a gente se ama... E até hoje eu me espelhei na Marie porque sabia que um dia eu ia chegar a ocupar aquele posto.

LAURA - Isa, por favor/

ISABELLE - E graças a Deus, eu não precisei mover um dedo pra isso, eu só esperei! Quando tudo isso passar, quando o país sair do luto, você vai ver o que vai acontecer.

Laura se ajoelha diante de Isabelle e segura suas mãos.

LAURA - Minha amiga, tudo o que eu não quero é te visitar num manicômio.

Em Laura,

CORTE PARA

12. CASA DE ISABELLE. COZINHA. INT. DIA

Laura e Isabelle terminam de tomar sopa. Conversa a meio.

ISABELLE - Muito obrigada por cozinhar pra mim dessa vez!

LAURA - Que é isso, não foi nada. Agora que você está mais tranquila e devidamente alimentada, era bom ir pra cama e descansar um pouco.

ISABELLE - É, eu vou tomar um banho e deitar.

LAURA - E assim que puder, procura um psicólogo. Essa sua paixão pelo presidente não pode ser normal.

ISABELLE - Eu tava quieta e você vem puxar o assunto?

LAURA - Tá bom, esquece. Mas mesmo assim, faz isso que eu disse. Vai ser bom pra você. Agora vou pra minha casinha que a uma hora dessas o Pedrinho já deve ’tar se contorcendo de fome!

ISABELLE - Teu filho tá sozinho em casa?

LAURA - Sozinho, um homem que mal sabe ferver água; mas fala de política perto dele!

Laura suspira, resignada, e levanta da mesa.

ISABELLE - Qual o partido dele?

LAURA - Depois a gente conversa sobre isso.

Ela dá um beijo na cabeça de Isabelle e sai apressada. A outra ainda fica sentada, pensativa.

Evana, diva, sendo reverenciada por um fã enlouquecido


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Blogueiro convidado: Evana Ribeiro avalia "O astro"







sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Roteirista convidado: Eddy Fernandes, um talento promissor!


 A cada blogueiro convidado, esse melão fica ainda mais orgulhoso de poder contar com tantos talentos nessa seção. Muitíssimo jovem, mas com um texto já super maduro, Eddy Fernandes, ou meu “sobrinho” como carinhosamente chamo, me chamou a atenção desde seu primeiro texto que li. Dono de um humor inteligente e perspicaz, esse jovem e promissor talento de Manaus, já saca tudo de roteiro. Mordaz e irônico, mas ao mesmo tempo simpático e gentil, além de um ser humano adorável do primeiro time dos queridões, Eddy possui sensibilidade, conhecimento e um talento nato para a escrita. Com certeza, irá trilhar um caminho brilhante. Tudo isso que falei a respeito dele se comprova na cena a seguir, de uma comédia romântica (sua especialidade, mas também arrasa no drama) em que nosso querido Eddy mostra todo seu potencial. Guardem bem esse nome: um dia ouviremoa falar muito dele e vou ficar feliz por ter publicado um texto de sua autoria. Orgulho do titio...rs! Com a palavra... Eddy!

EDDY FERNANDES APRESENTA “MORTA VIVA”

"A cena abaixo foi escrita há alguns meses por mim e é parte de uma sinopse que desenvolvo há pouco mais de dois anos. A história chama-se "Morta Viva" e trata-se de uma comédia dramática. O título, à primeira vista, um tanto esdrúxulo (rs), traduz completamente a história central, que está na figura de uma mulher que precisa forjar a própria morte para se proteger. A sequência que vocês lerão, no entanto, não é protagonizada pela nossa heroína e sim por Chico, o (anti?) herói. 35 anos, pai solteiro de três filhos, que é abandonado pela esposa ambiciosa logo no começo da narrativa. Especialmente para o Melão, um dos momentos-chave da história, o confronto do mocinho com sua ex". 

CENA 1/ telhado/ ambiente. Exterior/ Noite.

As meninas empurram Maria, fazendo algazarra. Ela, muito contrariada, ainda tenta segurar a porta, mas as garotas são mais rápidas e trancam por fora. Caio entra em quadro, de costas, assoprando a mão, para ver se está com mau hálito. Maria cutuca o ombro dele, impaciente.
MARIA                 — Vamo logo com isso!
Caio se volta, assustado.
CAIO                    — Mas já?
MARIA                 — Não foi pra isso que a gente veio?
E espicha os lábios. Caio recua.
CAIO                    — Espera.
MARIA                 — Já sei. Vai pôr uma bala de menta na boca.
CAIO                    — Eu não! (T) Devia?
MARIA                 — Peraí, deixa eu ver...
Maria chega perto, faz sinal para Caio tossir, ele obedece. Ela determina:
MARIA                 — Até que não. (tom) As meninas que disseram que você tinha um esgoto aí dentro...
CAIO                    — Isso é conversa da Tininha porque eu não quis enfrentar aquele aparelho.
MARIA                 — Se tiver problema, eu tiro. O meu é móvel.
CAIO                    — (bobo) Em você, fica lind... quer dizer, legal.
MARIA                 — Então, tá. Abre a boca aí.
CAIO                    — Vai ser de boca aberta?
MARIA                 — É como a gente vê no cinema.
CAIO                    — (inseguro) Eu preciso te contar uma coisa.
MARIA                 — Nunca beijou antes?
CAIO                    — Eu não sabia que era transparente.
MARIA                 — Tá suando mais que o meu pai em ônibus da Central. Eu deduzi. (T) Tá com medo?
CAIO                    — Um pouco. Eu sei que você não queria me beijar.
MARIA                 — Eu vim em busca do Jefferson, mas nem tudo é perfeito.
CAIO                    — Assim, como se fosse um favor, eu também não quero.
MARIA                 — E eu vou contar o quê, pra elas lá fora?
CAIO                    — Não precisa contar. Quer apostar quanto que elas tão ouvindo?
Corta rápido para o corredor: as meninas amontoadas na porta, de repente, retrocedem. Corte de volta para o telhado. Maria e Caio lado a lado, de costas para a câmera, recortados contra a lua. Imagem linda. Silêncio constrangedor entre eles. Caio tira um pacote de bala do bolso. Oferece.
CAIO                    — Tem de laranja e tutti-frutti.
MARIA                 — (pegando) Tutti-frutti.
CAIO                    — (mascando) Cê já quer sair?
MARIA                 — (faz que não) Tá bom aqui. Batendo um ventinho...
CAIO                    — (aponta pro céu) Aquela estrela ali, ó. Chama cassiopéia.
MARIA                 — (no deboche) Cê jura? Esse filme eu também vi.
CAIO                    — (irritado) Mas será que eu não dou uma dentro!?
MARIA                 — Desculpa, eu que tô sendo grossa. Implicância minha, vai ver a boca do Jefferson nem é lá essas coisas.
CAIO                    — Isso eu te garanto.
MARIA                 — (provoca) Já beijou ele, por acaso?
CAIO                    — Não. Mas tô com muita vontade de beijar você.
MARIA                 — E o que te leva a crer que isso vai acontecer? A aposta?
CAIO                    — A aposta eu já entreguei pra Deus. Mas tem essa sinergia...
MARIA                 — Eu topo.
CAIO                    — (engole em seco) Oi?
MARIA                 — Não precisa gastar saliva, muito menos texto decorado de filme B de ficção científica... eu topo.
CAIO                    — E não vai sair falando mal de mim se eu te decepcionar?
MARIA                 — (beija os dedos) Não.
E eles vão se aproximando, devagarzinho... de repente, Maria se ergue.
CAIO                    — Que foi?
MARIA                 — O aparelho. Eu não quero te machucar. (pede) Vira pra lá.
Caio fica de costas. Maria tira o aparelho, não sabe onde pôr, enfia no bolso. Chega nele.
MARIA                 — Onde é que a gente parou?
Caio olha para ela, sorrindo. Trêmulo, toca no rosto, deslizando lentamente pelos cabelos. Uma espécie de carícia, muito tímida. Maria sorri, meio bobinha. A sonoplastia sublinha e já podemos ouvir o piano de Leoni. No que as bocas se juntam, no beijo casto, mas avassalador, entra o refrão: “Noite e dia se completam, no nosso amor e ódio eterno...”. E nisso, a câmera vai se afastando, se afastando...

FIM

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Blogueiro convidado: Eddy Fernandes fala de “Separação?!”




quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ROTEIRISTA CONVIDADO: WALTER AZEVEDO E UMA CENA PRA LÁ DE SOMBRIA


Depois da feliz estreia com meu querido Wesley Vieira e seu impagável “Pega Rapaz” (leia aqui), melão bate a claquete para o segundo ato da seção “Roteirista convidado” e abre alas para outro queridão: Walter de Azevedo. Quem o acompanha pelo Twitter (@walterdeazevedo) já conhece o humor delicioso, o raciocínio sagaz e a inteligência do moço. Sim, Walter tem conteúdo, que também podemos comprovar por meio de seus dois blogs, “Histórias de Tatu” e “Tocou na novela”.

Agora, convido a todos a conhecer o lado criativo e autoral de Walter, que é um roteirista nato. Pude comprovar isso quando li pela primeira vez um capítulo do remake de “Fogo sobre Terra” que ele criou. Fiquei impressionado pela qualidade e pela capacidade de nos envolver e nos transportar diretamente para a história. Além do talento para a escrita, Walter possui outro ponto a seu favor: é apaixonado por teledramaturgia. É disso que a televisão precisa: apostar em profissionais apaixonados por ela. Alô, emissoras! Enquanto sua oportunidade não vem, vamos nos deleitar com uma prévia de “Sombra”, em que Walter nos apresenta uma protagonista atormentada em um cenário pra lá de suspeito. Garanro que, quem ler vai ter aquele gostinho de quero mais. Walter, querido, obrigado pela confiança e... luz, câmera, ação!

SOMBRA cap.01

Primeiro capítulo da história. praticamente a apresentação da personagem central, valéria, jovem de aproximadamente dezessete anos. entrou no bar corrida, fugindo de alguma coisa. foi ao banheiro, teve a impressão de que havia alguém a espionando lá dentro e voltou rápido para o bar. o lugar é decadente, no centro de são paulo, próximo à cracolândia.

CENA 05. BAR. INT. NOITE

VALÉRIA volta do banheiro e se senta em um dos bancos do balcão.
VALÉRIA             — Tequila.
BALCONISTA     — Tem idade pra isso?
VALÉRIA             — Tá de zoação comigo, né? Vai dizer que nesse muquifo aqui vocês pedem identidade?
BALCONISTA     — Calma, moça. Tô fazendo o meu trabalho.
VALÉRIA             — Então me serve.
Enquanto o BALCONISTA vai apanhar a bebida, VALÉRIA fica olhando em torno e, principalmente, para a porta. BALCONISTA coloca a tequila no balcão.
BALCONISTA     — Tá fugindo de alguém?
VALÉRIA             — Cara, tu é muito chato. E se estiver?
BALCONISTA     — Falou!
O BALCONISTA volta a fazer seu trabalho. VALÉRIA bebe a tequila. Olha para o BALCONISTA e se arrepende por ter sido grossa.
VALÉRIA               — Colega.
O BALCONISTA olha para VALÉRIA.
VALÉRIA               — Desculpa. O dia não tá fácil.
BALCONISTA       — Relaxa. Tô acostumado.
VALÉRIA               — Me vê mais uma.
O BALCONISTA enche o copo de VALÉRIA.
BALCONISTA       — Como você disse, não tenho nada com a sua vida, mas esse lugar não é meio barra pesada? Uma menina assim com a sua cara devia estar nos Jardins.
VALÉRIA sorri nervosa.
VALÉRIA               — Cara, se eu tivesse opção, garanto que não estaria aqui. (p) Mas pode acreditar que, nesse momento, isso é o paraíso pra mim.
BALCONISTA       — Então a coisa tá feia.
VALÉRIA               — Você não imagina o quanto.
BALCONISTA       — Posso ajudar? (p) Tô falando de boa mesmo. Você parece ser uma menina legal e... que tá precisando de uma força.
VALÉRIA               — Eu agradeço, mas nem tem como. (p) Sabe quando você nem sabe como se mete numa história e depois não consegue sair?
BALCONISTA       — Tem polícia no meio? Droga? Pode falar porque você já reparou que isso não é novidade aqui na vizinhança.
VALÉRIA               — Não, não tem polícia. Pelo menos não até agora. Droga? Às vezes eu acho que sim, outras eu acho que não.
BALCONISTA       — Meio confuso.
VALÉRIA tira o frasco de remédio da bolsa e coloca sobre o balcão.
VALÉRIA               — Entra no quesito droga?
O BALCONISTA apanha o frasco e lê.
BALCONISTA       — Haloperidol? Pra que serve essa porra?
VALÉRIA               — Pra gente doida.
VALÉRIA apanha o frasco e torna a guardar na bolsa.
BALCONISTA       — E você é doida?
VALÉRIA               — Olha pra minha cara, olha o lugar que eu tô e me responde.
BALCONISTA       — Você é doida.
VALÉRIA               — Cara esperto.
A CAM mostra VALÉRIA com a porta do bar aos fundos. Uma figura não muito bem definida está parada lá. Parece um homem, mas a imagem desfocada não revela. VALÉRIA percebe alguém atrás dela e se volta bruscamente. Quando olha, a pessoa não está mais lá. Os poucos frequentadores do bar se voltam assustados para ela.
BALCONISTA       — O que foi?
VALÉRIA               — (Assustada) Ele tava ali na porta, não tava?
BALCONISTA       — Ele quem?
VALÉRIA               — Ele!! O... o cara. Tinha um cara ali, não tinha?
O BALCONISTA e os frequentadores se olham.
VALÉRIA               — (Nervosa) Vocês viram um homem ali, não viram??!!
BALCONISTA       — Menina, não tinha ninguém ali.
VALÉRIA               — Tinha! Claro que tinha!
VALÉRIA olha para os outros frequentadores, como se pedisse ajuda.
VALÉRIA               — Vocês...viram.
Todos em silêncio, constrangidos.
VALÉRIA               — (Assustada) Eu preciso ir embora!
VALÉRIA apanha a bolsa e se levanta para sair.
BALCONISTA       — Espera! Você não pode sair assim!
VALÉRIA               — Eu tenho que ir.
VALÉRIA apanha algum dinheiro na bolsa, coloca no balcão e sai. O BALCONISTA apanha e depois vai até o telefone.

CORTA PARA
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Walter e eu sassaricando na porta da Colombo. 

LEIA TAMBÉM: 

Blogueiro convidado: Walter de Azevedo relembra o remake de Selva de Pedra.



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Roteirista convidado: Wesley Vieira apresenta “Pega Rapaz”



Com muita honra, o melão apresenta mais uma novidade: a seção ROTEIRISTA CONVIDADO, afinal a teledramaturgia que tanto amamos nasce no texto. Por isso, a seção vai apresentar sempre um trecho de um texto de algum talentoso aspirante a autor televisivo. E não poderia começar da melhor maneira, com o amigo-irmão, e sócio-editor da sucursal Minas do Melão, Wesley Vieira, conhecido por alguns como “mocinho da Janete”. O rapaz é extremamente talentoso. Participamos juntos das etapas seletivas da oficina de autores da Globo no ano passado e acho que sua hora está prestes a chegar. Por isso, o melão se antecipa e apresenta o talento do para para que um dia possa encher a boca e dizer: eu já sabia. Sobre o texto, o próprio Wesley nos apresenta. Por essa pequena amostra, já se conclui que o rapaz nasceu pra isso. É só uma questão de tempo para que se torne mais um campeão de audiência. A televisão precisa de roteiristas como Wesley que, além do talento e da capacidade criativa, possuem conhecimento e paixão pelo gênero. Autor de novela tem que gostar de novela. Comentem, participem, interajam. O melão é nosso.


Meu parceiro e mais que amigo, Vitor, o Melão (ou seria Melão, o Vitor?) fez o convite para colaborar mais uma vez com o blog e como chefe da sucursal de Minas, não me fiz de rogado e aceitei.
Quem me conhece, sabe que brinco de roteirista e no ano passado quase cheguei lá: tive a sorte de entrar numa grande Fábrica de Sonhos participando de uma seleção das brabas. Vitor e eu passamos juntos por essas emoções e angústias. Resultados diferentes, mas sensação de vitória. O certo é que ele conhece as minhas histórias e pediu para compartilhá-las aqui no Melão.
Uma das minhas sinopses para novela se chama “Pega Rapaz” - uma fábula sobre ego e cobiça. A história, uma comédia, vem sendo desenvolvida desde 2004, quando parti da seguinte premissa: “Mulher não precisa ter bunda e nem precisa ser bonita, mas, sim, um cabelo bonito.” Centralizei a história em um rapaz de caráter duvidoso num estilo janetiano e, claro, tudo isso tendo BH, a capital do meu estado, como cenário. Pesquei três cenas do primeiro capítulo onde Alexia Zambianck, ou melhor, “O Cabelo”, é humilhada pela grande Chica Joaquina Leão. É a partir dessa humilhação que Alexia tem a idéia de usar, Gil Cantuária, o tal rapaz, que chegou a BH e se meteu numa encrenca...
Espero que curtam esse aperitivo: cenas de um primeiro capítulo cheio de acontecimentos, porque aqui, trabalhamos com ganchos e muita emoção.


CENA 21. studio leoa - salão principal. Interior. dia.

CAM passeia pelo moderno e luxuoso ambiente mostrando a movimentação. Vários cabeleireiros, maquiadores, manicures, clientes passeando, clientes tratadas como deusas, muita perua, a loja com os produtos da marca “Leoa”, etc. Em vários pontos, homens trocam banners e pôsteres de propaganda que estão com o rosto de Alexia. Num outro ponto estão Orlanda e Pepita, arrumando cabelo e unha com Renatão, a anã, e outra manicure.

PEPITA      — Ai... Cuidado mocinha. Se me arrancar mais um bife, eu mando a minha filha te demitir.
ORLANDA     — Pepita, dificilmente essa moça come carne em casa. É claro que ela vai arrancar todos os bifes que estiverem disponíveis nessa sua mão, ressecadíssima por sinal. Carne de quinta, mas pra ela deve dar pro gasto. (T) Tadinha, tão pequenininha.
PEPITA      — Pequenininha não, Orlanda. Quer tomar um processo nessa cara? A moça é verticalmente prejudicada. Aprenda.
Renatão olha com nojo para a cara de Orlanda e Pepita que começam a rir de deboche.
Corta para Alcemirando que analisa o cabelo de uma cliente que reclama: queria algo moderno. Chica chega perto, pega a tesoura, analisa e dá um corte com maestria.
CHICA       — Assim é bem melhor. Veja!
CLIENTE     — Uau. Adorei. Ficou sensacional.
Corta para Pepita e Orlanda que secam Chica com inveja.
PEPITA        — Olha que terninho maravilhoso...
ORLANDA     — Combinava mais comigo.
Romilda, muito nervosa, chega interrompendo as duas.
ROMILDA     — Bomba. As senhoras viram o que estão fazendo com as propagandas da Alexia?
Corta rápido para a porta lateral onde Alexia adentra o Studio com todo o glamour e antipatia que lhe é peculiar.
SULA        — Ixi. Chegou a jacaroa.
ALCEMIRANDO — Bem feito. Quem mandou falar mal da patroa na televisão e nas revistas. Se fu..., perua.
Alexia observa os banners e pôsteres com o rosto de Marol. Ela fica apavorada e aborda rapazes que levam seu outdoor para fora do Studio.
ALEXIA      — O que está acontecendo aqui? Por que estão tirando meus banners e meus pôsteres? É ordem de quem?
RAPAZ       — Ordem da chefia. É pra tirar tudo, inclusive da cidade.
ALEXIA      — Que ousadia é essa?
RAPAZ       — A senhora ainda bate um bolão, mas tá velha pra ser garota propaganda né dona?
Alexia fica desesperada.
ALEXIA      — (Grita) Parem já com isso.
Todos se calam enquanto Alexia empurra o rapaz e se coloca na frente de outro que ia levando um enorme pôster com o seu rosto. Ela faz um espetáculo.
ALEXIA      — (Enlouquecida) Ninguém pode fazer isso.
Todos começam a rir de Alexia. Pepita vem acalmá-la.
Letreiro com o nome da personagem: ALEXIA.
ALEXIA      — (Grita) Vocês só estão aqui por causa desse meu cabelo lindo e maravilhoso.
Chica surge por entre as pessoas que estão na parte superior. Ela e Alexia se encaram.
CHICA       — Então a Leoa é isso tudo por sua causa? É isso mesmo? Você se acha no direito de falar que a Leoa só faz sucesso por conta desse seu cabelinho?
ALEXIA      — Cabelinho, não. Alto lá. A Leoa tem um contrato com a minha imagem e eu não posso ser descartada assim como uma lixa de unha. São 25 anos/
CHICA       — 25 anos? Meu Deus! Eu achei que fosse 40. Eu fiquei velha e você também. Acorda Alexia.
ALEXIA      — Eu sempre fui referência e ainda faço sucesso. Eu sou a garota propaganda dessa joça. Sou o símbolo da Leoa.
CHICA       — (Rindo) Garota propaganda? Só se for de tintura pra cabelo branco. E mais: a Marol é a nossa nova garota e garanto que ela vai triplicar as vendas dos shampoos Leoa.
ALEXIA      — (OFF) Mas a Marol não é modelo. Ela não é bonita e muito menos tem um cabelo lindo como o meu.
CORTA RÁPIDO PARA:

CENA 22. SOBREVOO DE HELICOP./ heliporto. EXTERIOr. dia.
Já cortou antes. Sobre as falas em OFF, um helicóptero sobrevoa a cidade ao entardecer. Aos poucos a CAM revela que Marol é o piloto. O helicóptero vai cortando os prédios da cidade até descer num heliporto. Corte descontínuo. Marol sai do heliporto a bordo de seu carro.

CHICA       — (OFF) Despeitada, não fala bobagem. Marol é linda, simples, sofisticada, tem brilho próprio, é forte e tem o perfil da mulher que é a cara da Leoa. Você está com raiva porque ela é filha de seu ex-marido e principalmente porque ela é jovem, coisa que você não é desde... em que ano a Marol nasceu? 
CORTA RÁPIDO PARA:

CENA 23. studio leoa - salão principal. Interior. dia.

Todos riem do comentário. Chica desce as escadas rolantes e para perto de Alexia.

CHICA       — Eu passo um mês vivendo como índio na Amazônia e descubro que você torrou a verba da publicidade com a sua bela imagem em revistas de quinta categoria. E você teve a coragem de ir num desses programas de mulherzinha e bradar aos sete ventos que a Leoa só faz sucesso porque você existe. Eu cansei desse seu ar de superior e dessa futilidade. Além disso, você já está bem passadinha. A Leoa precisa renovar.
ALEXIA      — Mas e o meu cabelo?
CHICA       — Pinte de azul ou raspe essa cabeleira e faça um leilão. Certamente esse embuzeiro deve valer algum dinheiro.
Chica vai andando, deixando Alexia furiosa. Os homens que carregam os banners passam perto e ela tenta segura-los. Ela sobe em cima e eles a carregam para fora. Ela cai.
     CHICA         - Você está no lugar que merece: no chão!
Todos começam a rir debochadamente. Efeito das risadas ecoando na cabeça de Alexia. Corta para parte superior onde Pepita faz menção em ajudar a filha. Orlanda também ri e Pepita a empurra em cima dos aparelhos.
PEPITA      — Sua leitoa, você também ri?
ALEXIA      — (Com ódio) Bando de idiotas. Eu vou detonar essa Leoa.

CORTA PARA:

No mês que vem, mais um roteirista convidado. Não percam!
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Leia também:

“TELL ME MORE, TELL ME MORE...” – Pombinhos se reencontram



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