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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Nós sempre teremos melão...




Queridos, neste último dia de julho de 2013, mês em que o blog completou 4 anos de uma trajetória tanto surpreendente quanto vitoriosa, e com total sensação de missão cumprida, que anuncio que este é o último post do melão. Mas nada de tristeza ou melancolia! É tempo de comemorar, celebrar, valorizar as conquistas e olhar para frente! Nós sempre teremos melão!

Sim, o melão só me deu alegrias, desde seu nascimento, completamente descompromissado e com a pretensão apenas de dividir minhas memórias televisivas com outros noveleiros que, assim como eu, amam teledramaturgia até o vulto gigante que ele tomou, sempre com grande repercussão e elogios. Mas é preciso fechar ciclos para que outros possam vir. Nós sempre teremos melão!

Nesses quatro anos, vividos tão intensamente que mais parecem dez, tive a honra e o grande privilégio de contar com a participação de blogueiros convidados, queridíssimos amigos que tanto abrilhantaram e abasteceram o melão com suas análises e lembranças de valor inestimável; também preciso agradecer muitíssimo a todos os profissionais que concederam brilhantes entrevistas e dividiram suas histórias e sua trajetória artística com nossos leitores. O melão, acima de tudo, foi um espaço de generosidade, de compartilhar ideias, lembranças e memórias. Também não posso deixar de agradecer a Felipe Ribeiro, por todos os lindos banners e pelo belo layout que deu identidade ao melão! A TODOS VOCÊS, o meu muito obrigado. Nós sempre teremos melão!

Gostaria de deixar bem claro que o blog não será apagado, portanto todo o seu conteúdo, todos os artigos, todas as sessões, tudo será preservado e estará disponível para consulta a qualquer tempo. Não posso deixar de agradecer a todos os leitores. Não importa se vocês acompanharam o melão todo esse tempo em silêncio ou se sempre me prestigiavam com comentários. Vocês fizeram o sucesso do melão! E exatamente por respeito a vocês é que tomei essa decisão. O melão conquistou muita coisa e não seria justo mantê-lo apenas por uma questão de vaidade ou capricho. O fato é que a vida nos leva para novos caminhos e novas conquistas e nem sempre tenho tido tempo ou disponibilidade para me dedicar ao blog da maneira ele merece. Por isso, prefiro que as pessoas se lembrem do blog como o espaço dinâmico, pulsante e movimentado como sempre foi e que serviu de inspiração para tantos outros blogs que vieram depois. Nós sempre teremos melão!

Por fim, quero informar que apenas as atividades do melão nesse formato atual é que estão sendo encerradas hoje. Mas como ser inquieto que sou, já penso em um novo projeto a caminho e, é CLARO que, onde quer que esteja, o melão sempre estará presente. Aguardem!!!

Além disso, o melão de papel continua à venda e a todo vapor. Vocês podem adquirir um exemplar e obter informações sobre outros sites de venda através do site da Navilouca Livros, onde o melão também está disponível na versão e-book. Não falei? Sim, nós sempre teremos melão!

Um beijo carinhoso a todos vocês, meu muito obrigado e minha eterna gratidão a cada um que acessou esse blog.

Segue abaixo um presente carinhoso que recebi de meu amigo Gilberto Zangrande: um caprichado vídeo-montagem das fotos do lançamento do melão. Obrigado, querido, por juntar as lembranças desse dia inesquecível!




E como presente final, segue abaixo o luxuosíssimo prefácio do livro do melão, escrito pelo Alcides Nogueira, muso absoluto do melão! Tide, querido, não posso deixar de te agradecer por tudo, pela sua parceria constante, pela generosidade ímpar e pela imensa capacidade de dizer SIM! Claro que a palavra final do melão não poderia pertencer a ninguém melhor que você!

Com a palavra, Tide! Beijos e até breve!!!

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UM SUCULENTO MELÃO

Entre as muitas conquistas que a internet nos proporcionou, desde que passou a fazer parte do nosso quotidiano, está o de ter se tornado um campo de debate e exposição de ideias com uma (quase)total liberdade de expressão.

Com isso, jornais e revistas, até então os principais detentores (e manipuladores) das opiniões, hoje são obrigados a conviver com sítios e blogs que repercutem os fatos de maneira muito mais avassaladora, e em velocidade infinitamente maior que suas manchetes, reportagens, editoriais etc.

“A voz do dono e o dono da voz” é um bordão que já não tem o peso de antes. Os publishers sabem que, nestes dias, os debates acontecem no cyber space. Como um ser totêmico, a internet possui muitas faces e vozes e nenhum dono.

Discussões fundamentais para o avanço e/ou solidificação das conquistas da sociedade civil são dissecadas e discutidas por pessoas de todo o mundo e em tempo real, com maior liberdade e sem a tesoura dos editores.

Claro que, mesmo assim ou por causa disso, a internet não é nenhum mar de rosas! Se, por um lado, não há (quase) mordaças, por outro ela é um canteiro fértil para qualquer veiculação de pensamentos. Ao lado de blogs que tratam com seriedade a política, a economia, a cultura, os direitos humanos... a rede serve também como esgoto para os péssimos humores, frustrações, idiotices, e pregações perigosas de muitos internautas. Eu nem imagino como é que isso será administrado no futuro. Só espero que, jamais, o caráter libertário e informativo da internet seja prejudicado ou abalado.

Há um outro dado importante: exatamente por ser tão veloz e aberta, a internet acaba se tornando fugaz. Quantas vezes eu procurei um artigo ou um comentário postado em um blog e não encontrei mais. Sei que há os arquivos... mas eles se tornam um labirinto tão grande, que o cansaço da pesquisa acaba vencendo. Ou, então, muita coisa some mesmo!
Conjugar o suporte físico de um livro, por exemplo, com o conteúdo dos blogs é uma excelente maneira para que o registro se torne mais duradouro.

Até há pouquíssimo tempo, o interesse pela teledramaturgia estava restrito a publicações mais interessadas na vida das celebridades e fofocas de corredores ou aos sérios trabalhos acadêmicos, raramente acessíveis. Hoje, a produção televisiva desperta o interesse de muita gente. Principalmente da geração mais nova, crítica e menos benevolente do que a que viu a televisão surgir no Brasil. A teledramaturgia não é mais “uma produção intelectual menor”, como foi considerada durante muito tempo. Ainda mais no Brasil, onde a produção para a telinha é, quase sempre, de alta qualidade. Fora ser o principal entretenimento do brasileiro.

Em consonância com a própria rede, há todo tipo de blogs teledramatúrgicos: os que não passam de uma repaginação das revistas de fuxicos; os que postam gratuitos e infundados comentários ferinos e irônicos; os que não expressam nada de novo, servindo apenas para lustrar o ego de seus blogueiros e amigos... e os realmente interessantes. Um deles é o “Eu Prefiro Melão”, de Vitor de Oliveira.

Vitor, jovem e talentoso autor começando uma promissora carreira, tem um profundo conhecimento da história da teledramaturgia brasileira, uma memória incrível, faz questão de pesquisar e “desenterrar” pérolas... e posta comentários certeiros, críticos, argutos, além de entrevistas com autores, atores e atrizes, diretores. A seriedade do seu blog não tira, em momento algum, a sensação agradabilíssima de se comer um melão suculento (o título, muito sugestivo, vem do bordão usado por uma personagem criada pelo mestre Cassiano Gabus Mendes). É um puro deleite acessar o “Eu Prefiro Melão” e conhecer muito da história da nossa sessentona (e cada vez mais jovem) teledramaturgia.

Juntando os alhos com os bugalhos, temos agora um registro em livro dos comentários de Vitor de Oliveira, para que o conteúdo de seu blog não se perca no virtual. Bela iniciativa! Se Chacrinha ainda estivesse comandando o seu cassino, ou a sua discoteca, com certeza deixaria o bacalhau de lado e berraria, acompanhado de cornetadas: “Quem quer melão?” “Quem quer melão?”

Eu quero. E aposto que vocês também!
ALCIDES NOGUEIRA

São Paulo, 2011


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Tide, só tinha de ser com você!!! - Entrevista especial com ALCIDES NOGUEIRA!!!





sexta-feira, 12 de abril de 2013

De “Glee” a “Pé na Cova”, o melão também prefere séries



Elenco de "Pé na Cova" reunido

Não é novidade que, em se tratando de teledramaturgia, as telenovelas estão no topo de minha preferência. Mas também adoro séries e acompanho a sua evolução desde os tempos em que as tramas tinham início, meio e fim em cada episódio, até as mais atuais, que ganham cada vez mais ares de telenovela, com seus ganchos e tramas folhetinescas que se estendem por toda a temporada. Enquanto as séries, com seus episódios semanais e por seu formato compacto, permitem um trabalho de escrita mais cuidadoso e um tempo maior em sua elaboração, as novelas, geralmente, têm um processo diário, mais industrial, com prazos mais rígidos e envolvendo um número bem maior de ideias, tramas e profissionais. Por outro lado, as novelas, mesmo as com audiência insatisfatória nunca ficam sem desfecho. Novelas podem ser encurtadas pelo fracasso ou esticadas pelo sucesso, mas a legenda “fim” jamais aparece enquanto todas as tramas não estiverem concluídas ao passo que as séries, caso não correspondam ao sucesso esperado, são canceladas sem dó nem piedade deixando as tramas em aberto e espectadores órfãos, como foi o caso de “Pan Am”, cuja primeira temporada terminou sem desfecho algum, deixando todas as tramas no meio do caminho e o espectador a ver navios, digo, aviões. Por essas e outras razões, as telenovelas ainda são meu porto seguro, o que não me impede de ter minhas séries favoritas e vibrar com cada uma delas.

 Minha favorita de todos os tempos para sempre será “Sex and the City”, pela capacidade de, no decorrer da série, escapar dos quatro arquétipos femininos propostos e criar personagens tão ricos e multifacetados em episódios tão engraçados quanto envolventes. Sim, as quatro meninas de Manhattan habitarão para sempre em meu coração. Mas minhas preferências também passam por “Downton Abbey”, um verdadeiro novelão, e por “Mad Men”, pela perfeita reconstituição de uma época que adoro, pelo subtexto sempre presente e pela total quebra de expectativa a cada episódio. Mas no momento, tenho apreciado as séries mais transgressoras, que rompem com paradigmas ou ousam de alguma forma como “Girls”, “Pé na Cova” e (acredite!), “Glee”.

Lena Dunham em cena de "Girls"
Confesso que gostei mais da primeira temporada de “Girls”, que já ganhou um post aqui no blog. Nessa segunda, a decadence das meninas ficou um pouco mais deselegante. O texto continua genial e as atuações idem. Admiro a coragem e a ousadia de Lena Dunham (criadora, autora, produtora, diretora e atriz da série) ao expor seu corpo fora dos padrões de beleza impostos pela sociedade em cenas fortes, mas nem por isso apelativas. Mas não consigo mais torcer pela sua personagem, Hannah (uma escritora que não escreve nunca), cujas atitudes beiram à infantilidade. O que seria uma série sobre a difícil inserção dos jovens na vida adulta foi se transformando aos poucos na saga de personagens neuróticos com complexo de Peter Pan que se recusam a crescer. Amor mesmo só por Adam, espécie de “Mr. Big” de Hannah, bem mais amoroso do que o eterno objeto de desejo de Carrie Bradshaw em “Sex and the City”. Ainda sim, considero “Girls” uma boa série com fôlego suficiente para muitas temporadas.

Elenco da terceira temporada de "Glee"
Enquanto isso, “Glee” continua no topo de minhas preferências. Como não amar essa série? E antes que os mais “cults” me apedrejem, considero sim uma série pra lá de transgressora sem parecer ser. Mais transgressora que “Modern Family”, por exemplo, que até acho simpática, mas esconde todos os estereótipos por trás de uma embalagem moderna: a típica família americana, o pai trapalhão, a filha periguete, a filha nerd, o filho lesado e a mãe tentando controlar tudo, o coroa que se casa com a latina sexy e o casal gay assexuado. “Glee”, ao contrário, tem uma embalagem careta: jovens estudantes cantando um punhado de hits de todos os tempos da música pop americana. Mas é justamente essa embalagem, digamos, comercial que fisga o grande público, que embarca pra valer na saga do coral estudantil com todos os seus dilemas típicos da idade. O mais bacana em “Glee” é que as lindinhas são meras coadjuvantes, enquanto as consideradas minorias são o centro das atenções, a começar pela obstinada Rachel Berry, uma força da natureza defendida com brilho e garra por Lea Michele, uma mocinha completamente fora dos padrões convencionais, tanto na aparência quanto nas atitudes, nem sempre éticas. Além dela, há o gay, o cadeirante, a negra obesa, a latina gostosa, a portadora de Síndrome de Down, todos extremamente cativantes e nunca na posição de coitadinhos. “Glee” explora o lado bom do politicamente correto e dá voz a personagens que nunca tiveram vez em outras produções. E verdade seja dita: que outro programa da tevê aberta e voltado para jovens tem a ousadia de, não só mostrar o tão cobrado beijo gay, mas tratar as relações homoafetivas em pé de igualdade com outros romances da série? Os gays de “Modern Family” não chegam nem perto em matéria de ousadia se comparados aos de “Glee”. Acreditem, “Glee” é mais transgressor do que parece ser.

Velório Drive Thru: uma das loucas cenas de "Pé na Cova"
Por fim, outra série que não perco por nada é a nossa, muito nossa “Pé na Cova”. A série de Miguel Falabella é simplesmente deliciosa. Não tem o humor hilariante e escancarado de “Toma lá, dá cá”, nem a crítica tão abertamente corrosiva de “A vida alheia”, criações anteriores do autor. “Pé na Cova” possui esses dois elementos, só que de maneira mais sutil. O humor não é gratuito, todas as piadas têm um objetivo. O programa faz rir, mas também possui uma melancolia que nos leva à reflexão sobre a vida daquelas pessoas carentes de tudo, como diria Milton Nascimento, “uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta”. Os personagens são deliciosos, a começar pelos nomes: Adenoide, Soninja, Luz Divina, Alessanderson, Odete Roitman, Tamanco... O elenco afiadíssimo brilha intensamente, comandados pelos veteranos Marilia Pêra e Miguel Falabella, em atuação comovente, diferente de tudo o que ele já fez como ator. E aquela estética “kitsch”, colorida, mesclada com muitas doses de bizarrice nos remete aos impagáveis e geniais filmes oitentistas de Almodóvar. “Pé na Cova” é um verdadeiro tapa na cara da sociedade, um grito contra a caretice estabelecida em nosso país. Consegue divertir e comover ao mesmo tempo. Sem dúvida, uma das melhores produções de nossa teledramaturgia dos últimos tempos. Absolutamente necessária nos dias de hoje. Que venham outras temporadas.

E enquanto as novas temporadas de “Downton Abbey” e “Mad Men” não chegam, no momento estou conferindo “Smash”, espécie de “Glee” para adultos e achando interessante. Enfim, mesmo que ocupando o segundo lugar no pódio (as novelas, pra mim, são imbatíveis), melão também adora e prefere séries.

Mad Men: genial após seis temporadas
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E vocês? Quais seriados estão assistindo no momento? Melão quer saber. Deixe seu comentário!

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O sexo, a cidade e nenhum glamour 


“A vida alheia”: humor inteligente e ousado na TV.





sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Avenida Brasil: fábrica de catarses





Costumo dizer que todo brasileiro é um pouco técnico de futebol e autor de novela, duas paixões que, definitivamente, já fazem parte de nosso patrimônio cultural e por isso mesmo nos sentimos um pouco donos e queremos “zelar” pela qualidade de ambos, exaltando quando tudo vai bem e também reclamando com a mesma paixão quando não estamos satisfeitos com o desempenho de uma novela ou de um time de futebol. No caso das novelas, sobretudo as do horário nobre, os ânimos se exaltam, para o bem ou para o mal. Mas há muito tempo uma novela não causa tanta comoção e mobilização popular quanto “Avenida Brasil”, que poderia perfeitamente se equivaler à final de uma Copa do Mundo. E hoje, no dia de exibição do último capítulo, além do buxixo de telespectadores por toda a parte, chovem análises de especialistas tentando explicar o fenômeno causado pela novela.

O fato é que ninguém sabe ao certo o porquê de uma novela fazer sucesso. Se existisse uma fórmula, não haveria mais fracassos e tudo seria muito mais sem graça. Perderíamos a apreensão, o frio na barriga, a surpresa e tudo seria automático e chato. Podemos, sim, apontar aspectos que podem ter levado a esse sucesso. Os números de audiência não foram dos mais expressivos e se equivalem às suas antecessoras, o que nos faz crer que audiência não é repercussão. É algo mais efêmero e interessa mais do ponto de vista comercial, mas, necessariamente, não torna uma novela memorável.

Dizem que o sucesso se deve ao fato de a novela ser pioneira na abordagem do universo da classe média em detrimento da classe hegemônica, mas “Rainha da Sucata” já mostrava, há mais de 20 anos atrás e com muito sucesso, a ascensão da classe média frente à falência da aristocracia paulistana. Claro que em “Avenida Brasil” essa abordagem se ampliou e esteve presente na maioria absoluta dos núcleos da novela e gerou um forte sentimento de identificação junto ao público. Mas acredito que a composição dos personagens foi tão boa que ultrapassou essas barreiras sociais, gerando uma identificação geral, não só em relação aos moradores do Divino, como também no núcleo de Cadinho (Alexandre Borges) e suas mulheres. Aliás, os novos e diversos modelos de família mostrados pela novela também são apontados como fator de sucesso, mas isso não é novidade: é tendência.

E há os que dizem que a novela não tenha inovado em nada e foi apenas uma boa novela, mas como negar a estética cinematográfica, a câmera nervosa, a direção inspirada e a agilidade da trama? Se, na essência, “Avenida Brasil” foi um autêntico folhetim, com direito a trama de vingança já contada e recontada em tantos clássicos, por outro lado, subverteu e brincou com muitos símbolos da dicotomia bem X mal, como por exemplo, a mocinha ter características sombrias e usar roupas sempre escuras, enquanto a vilã era feliz, alto astral e usava roupas claras o tempo todo. Outra subversão de linguagem foi o fato dos atores falarem alto e ao mesmo tempo, algo que aprendemos que não se deve fazer em nossas primeiras lições de dramaturgia. Aqui, sob a batuta de Amora Mautner e José Luiz Villamarin, esse “ruído” soava como música aos nossos ouvidos, afinal que família reunida não fala alto e ao mesmo tempo? Elenco brilhante e texto inspirado, de olho nas tendências e neologismos, sobretudo os nascidos na internet, são outros aspectos que podem ser somados às inúmeras qualidades da novela.

Como nem tudo são flores, também houve quem apontasse muitas falhas na novela (afinal somos 190 milhões de autores), como, por exemplo, o já tão falado fato de Nina (Débora Falabella) não ter salvado em formato digital as fotos que serviriam pra desmascarar sua inimiga e todos os desdobramentos pouco críveis que sucederam a esse fato e fizeram com que Max e Carminha (Marcelo Novaes e Adriana Esteves) recuperassem todas as cópias das fotos. O fato de Nina não estar presente durante a desmoralização de Carminha perante Tufão (Murilo Benício) e sua família também gerou frustração em muita gente, uma vez que toda a trama de vingança fora planejada por ela e era o mote central da novela. Falando na vingança, também foi quase imperdoável toda a hesitação de Nina em mostrar as tais fotos para Tufão. Ora, se o desejo de vingança da moça foi maior até do que o amor que ela sentia por Jorginho (Cauã Reymond) não poderia ser menor do que a compaixão por Tufão. Mas o público (que não é bobo) entende que tudo isso faz parte do jogo e era essencial para o desenrolar da trama e continuou a percorrer essa avenida até o fim.

O fato é que “Avenida Brasil” foi uma verdadeira fábrica de catarses. Em praticamente todos os capítulos, havia uma discussão em tom maior, mantendo a tensão e prendendo o espectador durante toda a novela, fazendo com que todos os capítulos fossem imperdíveis, já que sempre tinha alguma coisa acontecendo. A novela não deu folga para o espectador, que ficou sem fôlego durante todos esses meses e não vê a hora de conferir o seu desfecho.

“Avenida Brasil” se junta a “Selva de Pedra”, “Roque Santeiro”, “Vale Tudo” e algumas outras na galeria das grandes telenovelas. Cada uma dessas novelas se destacou por um aspecto específico. A trama de João Emanuel Carneiro será lembrada principalmente pelo tom catártico que permeou toda a estória. Como já apontei na primeira semana da novela, a história nada mais é do que um conto de fadas, uma recriação da fábula da Branca de Neve que, no original, perdia tudo para a madrasta e se resignava. Mas a Branca de Neve pós-moderna não quer só justiça. Quer revanche. E tudo isso com muita tensão e agilidade. A catarse, que sempre foi guardada para os momentos-chave de uma novela, em “Avenida Brasil” foi permanente e não nos deixou respirar. Durante todos esses meses fez o Brasil parar. “Agora que 'O Astro' acabou vamos cuidar da vida, que o Brasil está lá fora esperando”. Essa frase de Drummond em relação à trama de Janete Clair em 1978 pode ser perfeitamente reproduzida em 2012 para “Avenida Brasil”.

Vitor de Oliveira

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A catarse





sábado, 15 de setembro de 2012

O sexo, a cidade e nenhum glamour



As quatro protagonistas de "Girls", série sensação do momento.

Nem só de teledramaturgia nacional vive este melão que vos fala. Não posso dizer que sou tão seriemaníaco quanto noveleiro, mas também adoro uma boa série. As atuais estão utilizando cada vez mais os ingredientes das telenovelas como o bom melodrama (“Revenge” e “Brothers and Sisters”), bons ganchos (“Desperate Housewives”) e uma trama que não se encerra com o fim do episódio, indo até o final da temporada ou até mesmo ao final da série. Pelo fato de elas, geralmente, ficarem mais tempo no ar do que as novelas (“A Grande Família” e “Friends” que o digam), a gente acaba se apegando demais aos personagens e, de tempos em tempos, vamos substituindo nossas paixões e dando lugar a novos universos, novas tramas e novos “amigos”. Minha paixão maior continua sendo “Sex and the city”, mas desde o fim das aventuras de Carrie Bradshaw e suas amigas, tenho acompanhado um bocado de séries, dentre as quais cito minhas favoritas “Damages” e “Mad Men”, absolutamente sensacionais. Minha mais nova descoberta (não por acaso citei “Sex and the city”) é a já badaladíssima “Girls”, exibida atualmente na HBO que também narra a saga de quatro mulheres e suas aventuras em Nova Iorque, só que bem mais jovens, também com muito sexo, mas com muito menos glamour.

Hannah e Adam: é tudo somente sexo e amizade
A série é escrita, dirigida e interpretada por Lena Dunham, a mais nova queridinha do showbizz americano. Ela é a protagonista Hannah, jovem que vive o conflito da transição para a vida adulta. Recém-formada, ela agora precisa sobreviver na Big Apple sem a mesada dos pais e ainda lidar com os dilemas de um relacionamento complicado. Apesar de contornos bem mais dramáticos e realistas do que “Sex and the city”, a série explora os mesmos arquétipos femininos de sua antecessora, ainda que de modo menos óbvio. Mesmo assim, é possível fazer a correlação entre as personagens das duas séries. Assim como Carrie (Sarah Jessica Parker), Hannah também é escritora (pelo menos uma aspirante) e também tem o seu Mr. Big, o homem sentimentalmente inatingível do qual ela é dependente afetivamente. Nesse caso é o bizarro Adam (Adam Driver), que mantém com Hannah um relacionamento sem compromissos e com muito sexo. Isso é um diferencial na série: as cenas de sexo são pra lá de cruas, pouco românticas, muito mais realistas e (por que não dizer?) bem mais chocantes do que as da lendária série estrelada por Sarah Jessica Parker.

As lendárias e inesquecíveis protagonistas de "Sex and the city"

As outras garotas também guardam semelhanças com as novaiorquinas anteriores: a bela Marnie (Allison Williams), a exemplo de Miranda Hobbes (Cynthia Nixon) é prática, controladora e busca um relacionamento sem maiores sobressaltos; Jessa (Jemima Kirke) a sensual garota europeia, liberada sexualmente poderia perfeitamente ser uma sobrinha do furacão Samantha Jones (Kim Catrall); e completando o quarteto, a inocente e virgem Shooshanna (Zosia Mamet), tão romântica quanto a doce Charlotte York (Kristin Davis) e, na história, é justamente Shooshanna a fã inveretada de “Sex and the City”. Ainda que a referência soe como uma alfinetada, é inegável que o universo de “Sex and the city” serviu como inspiração para Lena, só que com bem menos açúcar, menos afeto e doses cavalares de realismo nu e cru.



Apesar de carregar altas doses de humor irônico e sarcástico, “Girls” é, essencialmente, uma série dramática que, em alguns momentos, chega a nos angustiar com situações, muitas vezes humilhantes, pelas quais passam as garotas, sobretudo a protagonista Hannah. Mesmo não sendo tão palatável e divertida como “Sex and the city”, vale muito a pena dar uma conferida no texto inteligente e nas interpretações corajosas de “Girls”, um retrato bastante realista e desglamourizado dos dilemas sofridos pela geração nascida na segunda metade dos anos 80. Garotas imperfeitas que já não sonham com o homem perfeito e que buscam afirmação afetiva e profissional em tempos de crise em ambos os aspectos.

Lena Dunham: autora, diretora e protagonista da série
“Girls” é exibida pelo canal HBO toda segunda às 22 horas com várias reprises durante a semana. Ainda dá tempo de conferir.
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Séries de Tribunal que vão além do veredito do júri.






sábado, 8 de setembro de 2012

Blogueiro convidado: Robério Silva discute o preconceito contra a telenovela



Duas ou mais coisas sobre telenovelas

por Robério Oliveira Silva

(Este texto é dedicado a Vitor de Oliveira)



Nasci em 1972, ano de “Selva de Pedra”, a tal novela dos cem por cento de audiência no capítulo-clímax. Segundo minha mãe, fui para a escola já semi-alfabetizado porque assistia à “Vila Sésamo”, aquele “programinha” infantil com Armando Bógus, Aracy Balabanian e Sônia Braga – a mulher primordial da minha infância. Faço parte da segunda, senão primeira (devido ao fato de ser nordestino, podem me corrigir caso eu caia em preconceito com minha própria origem geohistórica), geração de pessoas criadas pela televisão no Brasil. Como boa parte desse grupo, foi com as telenovelas que tive meu primeiro contato com a narrativa de ficção, muito embora tenha sido alfabetizado bem cedo, tornando-me, desde então, um ávido leitor mirim. Imaginem como foi gostoso, em tenra infância, ter meus olhos e ouvidos invadidos por obras como “Estúpido Cúpido”, “Gabriela” (talvez a mais remota lembrança, devido aos serões na casa dos meus avós paternos em Salvador, onde a novela, por motivos mais do que óbvios, bombava), “Escrava Isaura”, “Saramandaia” (uma delícia para uma criança, imaginem, mesmo com medo do lobisomem de Ary Fontoura e da música-tema, que eu não ouvia sozinho), “A Sucessora” (achava linda, e ela era, a Suzana Vieira), entre outras obras marcantes do período. Nada disso me impediu de ler Monteiro Lobato,  Lygia Bojunga Nunes, Maria José Dupré, ainda antes dos 10 anos. Aos 11, eu descobriria Agatha Christie; aos 14, José de Alencar (“O Tronco do Ipê”); e antes dos 18 já estava às voltas com Graciliano, García Marquez e Lygia Fagundes Telles (sim, Clarice e Machado viriam mais tarde, rs). Também antes dos 18, acho que eu já era um cinéfilo, igualmente “criado” pela televisão, já que, morando no interior, e nem sempre podendo ver filmes adultos no cinema, depois que me mudei para Vitória, acompanhava as saborosas sessões de cinema, ainda que dublado, que compunham a programação noturna das emissoras. Estavam ali nas madrugadas das minhas férias e dos finais de semana Hitchcock, David Lean, Samuel Fuller entre outros grandes. Mas esta é outra conversa.

Acostumado no convívio com as narrativas televisivas, reforçadas ainda com o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, os casos especiais, a Série Aplauso (“Vestido de Noiva” [!!!] com Suzana Vieira como Alaíde, Joana Fomm como Lúcia, e Tônia Carrero como Madame Clessi – que trio!!!), as séries e as minisséries surgidas nos anos 80, nunca entendi direito a implicância de determinados setores da classe teatral-artística e da recusa dos segmentos acadêmicos, sobretudo no campo das ciências sociais de viés esquerdista, em reconhecer o valor e a importância de nosso melhor produto cultural tipo exportação. Com a óbvia figuração questionadora de nossa sociedade de novelas como “Roque Santeiro”, “Que Rei Sou Eu?” e “Vale Tudo”, além do sucesso retumbante de nossas telenovelas ao redor do planeta, tais discursos entraram em declínio, e os intelectuais, acadêmicos e artistas tiveram que rever suas posições (como se, por exemplo, a inatacável, e já séria e positivamente reputada à época, Fernanda Montenegro não tivesse estreado em novelas no hoje distante ano de 1966...) e se render ao encanto e qualidade das ficções televisivas tupiniquins. Também ao redor do planeta, a televisão deixara de ser algo intocável pelos estudiosos e acadêmicos da arte e da cultura, e passara a ser objeto de pesquisa de teóricos importantes – fiquemos simplesmente com Umberto Eco, para não parecermos pedantes. E já nas nossas melhoes universidades (USP, Unisinos, entre outras) são consolidados os núcleos de estudos de telenovela.

Sintomaticamente, porém, no contexto latino-americano e doméstico, parece que retornamos, ou nunca saímos, a essa difícil aceitação de que fazemos boas telenovelas, com muitas demonstrando irrefutável valor artístico, seja pela pertinência, relevância e/ou engenhosidade de seus enredos, pelos recorrentes belos trabalhos dos atores, por trilhas sonoras que se tornaram históricas e (sobretudo nos anos 70) constituem verdadeiros álbuns da melhor MPB, ou ainda por alguns triunfos de direção. É certo que talvez 75% das telenovelas sejam obra de evasão e cumpram, consciente e voluntariamente ou não, uma função alienante e alienatória. E daí? Também o foram e fizeram o cinema hollywoodiano, boa parte da literatura do século XIX, alguma ópera romântica e o melodrama burguês, o que não impediu que grandes obras viessem a existir e alcançar êxito no bojo mesmo desses gêneros, continuando até hoje na história ou no cânon das artes.

É sempre difícil propor que a telenovela seja uma obra de arte, dados os seus compromissos mercadológicos, institucionais e ideológicos para que possa existir, e que interferem na estrutura mesmo da narrativa, da escolha dos atores, e da direção. Mas devemos aceitar que é, sem sombra de dúvida, um produto cultural que utiliza elementos artísticos, ainda que possamos localizar uma certa crise de criatividade no gênero, ali depois da segunda metade da década de 90 e virada do século-milênio (talvez a pior fase em termos de inventividade) sobretudo no que diz respeito à dramaturgia, recentemente inovada a partir do advento de “A Favorita”.

De todo modo, o que me fez escrever este texto foi o fato de sentir em momentos do cotidiano e nos debates das redes sociais a permanência do preconceito contra as telenovelas, seja como narrativas ficcionais, seja como algo representante de nossa cultura. Lembro com certo humor da expressão dos amigos argentinos quando me viam acompanhando a novela das 9 da noite através do youtube, quando estive em Córdoba, em 2010. O ar de incredulidade diante de um doutor em literatura que se dispunha a ficar uma hora diária acompanhando uma telenovela era flagrante – e olha que era uma novela que eu nem gostava tanto, mas cuja assistência me fazia matar um pouco as saudades de casa.

Outro fato mais recente foi uma brincadeira, ou bronca – até hoje estou em dúvida – que levei de um amigo alemão que veio aqui em casa e me pegou acompanhando “Gabriela”, ali logo pela primeira ou segunda semana. Como homem inteligente que é, e irônico, escreveu de uma forma que até agora não sei se era um chiste irônico ou um puxão de orelhas de fato, novamente diante do professor doutor em literatura comparada (bla-bla-blá) que se prestava à pachorra de ver ficção televisiva. No fundinho, brazuquinha que sou, tenho até meio vergonha, hihihihihihh, de perguntar ao nativo da terra dos grandes filósofos modernos o que ele estava de fato querendo me dizer.

Pelo Facebook, poucas semanas atrás, houve um vislumbre de polêmica entre os que assistem novelas brasileiras e os que se entopem de séries americanas nos canais a cabo (é Fox, é Sony, é Warner, é A&E, é Universal, é HBO, é Multishow, é TnT, FX, AXN, eita!!!). Mas a galera não quis aprofundar, e eu não quis dar uma de chato de plantão – porque eu sou, e muito. E aí, amigos? Que me dizem?

Semana passada, foi uma amiga amada, do fundo de dentro do coração, artista, linda, sensível, brilhante, mas que me proibiu de ver novela na casa dela... kkkkkk. Dá pra rir agora, mas na hora fiquei fulo. Como era aniversário da dita cuja... E olha que era Carminha. Mas não rolou. Te amo, Criola, mas tu vês série norte-americana. É tudo televisão, é teleficção ao fim e ao cabo, ora pois.

Penso que já ultrapassamos há pelo menos uns vinte anos as dúvidas que tínhamos a respeito da relevância e qualidade das telenovelas brasileiras, e do arraigamento (ok, recente) do hábito de assisti-las entre nós. Muitos criticaram o Harry Potter e as Spice Girls na abertura da recente Olimpíada de Londres. Eu achei ótimo. Os ingleses mostraram o que é ter noção do que o país exporta para o mundo, vendendo e perpetuando uma tradição cultural quase milenar. Se J. K Rowling não é Bram Stoker, e as garotas apimentadas não chegam aos suvacos dos rapazes de Liverpool é uma outra discussão. Mas era o que a Grã-Bretanha tinha para aquele “hoje”. 

Está na hora de deixarmos de ser este bando de tabaréus e caipiras e passarmos a assumir que gostamos de novela, sim senhores, porque é uma das coisas que melhor sabemos fazer. E talvez até – por que não? – com um certo orgulho.

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ROBÉRIO SILVA é professor universitário, Doutor em Literatura Comparada, astrólogo (dos bons), tarólogo (dos melhores), cinéfilo (dos mais entendidos) e noveleiro (dos mais inveterados), além de um grande amigo (dos mais fiéis). Este melão se orgulha muito em publicar seu texto e agradece, ruborescido como uma melancia, a carinhosa dedicatória.




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sábado, 18 de agosto de 2012

A indomada Carminha e a consagração definitiva de uma grande atriz.




Há alguns dias atrás ao assistir a mais um eletrizante capítulo de “Avenida Brasil”, comentei no twitter que as caras e bocas de Carminha eram impagáveis, uma melhor que a outra e completei afirmando que sua intérprete, Adriana Esteves, tinha tomado aulas com Regina Duarte. Algumas horas depois, uma seguidora me perguntou se aquilo tinha sido um elogio, já que ela adorava as duas atrizes. Respondi apenas mandando a ela o link de meu texto “O dia em que conheci Clô Hayalla”, respondendo de forma indireta à sua pergunta.

Mas o que, a princípio, parecia apenas mais uma frase imediatista de efeito, a exemplo de 99% do que é publicado na referida rede social, tinha mais fundamento do que eu imaginara. De fato, a trajetória das duas atrizes é bastante semelhante, bem como seus estilos de interpretação. Regina Duarte, no início da carreira, exalava ternura e reinou absoluta durante muito tempo como a “Namoradinha do Brasil”, até provar que era muito mais do que isso em “Malu Mulher” (1979) e logo depois deu um giro de 180 graus em sua carreira como a mítica e espalhafatosa Viúva Porcina, de “Roque Santeiro” (1985), tornando-se a atriz mais importante e representativa da televisão brasileira.

Adriana Esteves também começou fazendo um papel fofo como a gata de praia Tininha em “Top Model” (1989) e confirmou essa vocação de namoradinha nas novelas seguintes, “Meu bem, meu mal” (1990) e “Pedra sobre Pedra” (1991). A enxurrada de críticas (injustas, na minha opinião, já que o problema era mais com a personagem do que com a atriz) quase a fez desistir da carreira em “Renascer” (1993). Mas ela voltou em uma passagem rápida pelo SBT na lacrimogênea “Razão de Viver” (1996) e logo depois retornou à Globo em grande estilo como a protagonista de “A indomada” (1997), em que Eva Wilma deitou e rolou como a endiabrada vilã Altiva, mas Adriana não fez feio e defendeu com dignidade a personagem com os recursos que tinha. A grande virada em sua carreira veio com a “piriguete” (naquela época esse termo ainda nem era usado) Sandrinha em “Torre de Babel” (1998), na qual Adriana pôde mostrar sua faceta cômica e sensual. Como prêmio, acabou sendo a grande assassina da trama, responsável por explodir o Tropical Tower Shopping, que acabou com a vida de vários personagens da novela. Mais tarde, em “O cravo e a rosa” (2000), mostrou que também é ótima no humor escrachado. Sua folha de bons serviços prestados também inclui a Celinha de “Toma lá dá cá” (2007/09) e a visceral Dalva de Oliveira em “Dalva e Herivelto” (2010). A carreira de Adriana já estava mais que consolidada e ela não precisava mais provar pra ninguém a grande atriz que é. Até que veio o furacão Carminha de “Avenida Brasil” (2012), que a colocou definitivamente na galeria das grandes atrizes televisivas de todos os tempos.

Adriana Esteves em um momento catártico de Carminha

Na pele de Carminha, Adriana Esteves nos brinda não somente com uma brilhante interpretação, o que já seria louvável, mas não um fato único, já que muitos e muitos atores brilham com grandes interpretações em praticamente todas as novelas todos os anos (felizmente somos riquíssimos em talento). Adriana vai além: ela nos oferece a coragem, o risco de se aventurar na corda bamba, no limite do ridículo e do caricato. E é nesse ponto que me lembro de Regina Duarte e sua genial Clô Hayalla, que chegava às raias do exagero e ditava o tom adequado do delicioso melodrama de “O astro” (2011) se fazendo antológica. Adriana também é dessas “atrizes trapezistas”, que não estão nem aí para o risco e fazem piruetas interpretativas sem rede de proteção. O resultado pode ser uma tragédia ou a consagração. Felizmente, a segunda opção já está garantida, já que as caretas, os gritos, as expressões de euforia e fúria de Carminha já conquistaram definitivamente o público. Portanto, querida seguidora, quando comparei Adriana com Regina estava fazendo um grande elogio. E acredite. Ser comparada com Regina Duarte é um elogio para poucas.

Regina Duarte na pele de Clô Hayalla em "O astro"

Melão quer saber: qual seu personagem favorito de Adriana Esteves?
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O dia em que conheci Clô Hayalla

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Blogueiro convidado: Pedro Silva reverencia Lauro Cesar Muniz


Louros pra Lauro    

  

Por Pedro Silva

Todo mundo tem seu novelista preferido, aquele que admira mais e que numa discussão ferrenha com amigos noveleiros é objeto de discussão apaixonada.
Sou assim com o Lauro. Chamo-o assim, só pelo primeiro nome. É uma proximidade que sua obra foi me trazendo. A leitura deliciosa de Lauro Cesar Muniz solta o verbo, publicado pela Imprensa Oficial aumentou mais minha admiração e essa sensação de proximidade.
Falar que Lauro Cesar Muniz está entre nossos maiores autores é falar o óbvio. Mas como dizia aquele outro, “o óbvio também é filho de Deus”. Lauro é dos nossos autores mais ousados. Se um dia houvesse uma história da ousadia na nossa telenovela, suas obras estariam entre as principais a serem analisadas.
Lauro sempre foi o contraponto de muitos outros autores. Na década de 1970 revezou no horário das oito com a “nossa senhora” Janete Clair. Tentou de todos os modos renovar elementos da telenovela, por vezes subvertendo alguns dos pilares do gênero. Alguns dos aspectos que me chamam mais a atenção: a reflexão sobre tecnologia (em Transas e Caretas e Zazá, por exemplo), a relação entre a política e a trajetória do herói (como no clássico O Salvador da Pátria), a ordenação do tempo, a noção de moral do protagonista...
Sobre esses últimos, na questão da ordenação do tempo, surgem não só as sagas como Escalada, mas também modernidades como o tempo da ficção dentro da ficção em Espelho Mágico e o tempo do sentimento em O Casarão. Muito antes da simultaneidade à la Woolf  de As Horas, por exemplo, Lauro experimentou em horário nobre contar uma história em três épocas, simultaneamente. A história do amor que se realiza na maturidade deu origem a uma das cenas mais bonitas da história da nossa televisão:



Quanto à moralidade dos heróis, me encanta a forma como nas obras de Lauro existe um questionamento da moral como algo que não é dado, mas construído. Seus heróis não seguem uma moral formatada. Antes, se deparam com as definições dadas, questionando-as. Nessa trajetória, quem ganha é o público. Em Os Gigantes, por exemplo, havia uma Paloma perdida entre conceitos como amor e morte, necessitando se reinventar.


Eu ia escrever que jamais tivemos outro protagonista tão enredado em coisas como o poder do destino, do curso da história, quando me lembrei do Renato Villar de Roda de Fogo, trabalho de Marcílio Moraes que Lauro também escreveu.
Fico cultivando no imaginário flashes e cenas clássicas dessas novelas. Muitas delas, só conheci pelo quadro “Túnel do Tempo” do Vídeo Show.  
Como noveleiro, sofro às vezes pensando que é uma pena que não possamos ter acesso ainda a produções tão importantes como Escalada, Espelho Mágico, Os Gigantes, Transas e Caretas. Como noveleiro, e dramático que sou, elaboro meu sofrimento, mas intercalo a esperança de que com o Viva e os lançamentos da Globo Marcas, alguma coisa seja ressuscitada. Vou sonhando com a possibilidade de um dia poder ver essas novelas que povoaram o imaginário de uma época.
Desde que foi pra Record, Lauro tem tentado ser fiel á linha que lançou, fugindo da obviedade e apostando nos bons diálogos, nas tramas que mexem com o espectador, levando-o a repensar a trajetória que se vai desenhando em sua frente. Na nova emissora, Lauro contornou problemas e propôs caminhos. Sua crença é que forçou a Record a investir mais e mais na dramaturgia.



Com Máscaras, atualmente em exibição, Lauro toca de novo em polêmica. Numa estrutura diferente, vai mostrando pedaços de seus personagens, fragmentos de emoções que só farão sentido mais adiante. Nela, os universos de outras novelas suas vão surgindo aos poucos – aqui e ali é possível lembrar da angústia de Os Gigantes, dos cenários de O Casarão, das trajetórias que se cruzam de Roda de Fogo. O telespectador acostumado com o didatismo que impera atualmente na TV se sente incomodado. E como incomoda um intertexto e referências políticas numa novela, especialmente numa época marcada pela falta de opinião nos produtos culturais.
Há críticas e mais críticas a respeito (afinal, de telenovela e futebol, todo brasileiro entende), mas a verdade é que, a despeito de toda essas referências ao passado, com Máscaras, Lauro dá prova mais uma vez de seu fôlego e faculdade de criar.


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Pedro Silva, com milhões de homônimos neste Brasil, é só mais um dos 786 mil a falar por aí sobre telenovela e tv. Estudou letras e história, já foi babá, operário por um mês, entregador de panfleto, professor de português e hoje trabalha como editor de livros. Gosta de melão(!), café, literatura, vinil, novelas da Manchete, cinema nacional da década de 70. Dizem que cozinha bem. É pai da Velma e da Frida, duas gatas loucas e amorosas. Costuma se levar a sério só algumas vezes ao mês, que é quando se põe a escrever no blog Óperas de Sabão. Mas nunca se leva a sério no tumblr Coisas de Pepa. No tuírer é so chamar pelo @pedrrrinho.
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Com a palavra, Mestre Lauro!



Blogueiro convidado: Ronaly Júnior relembra “Chiquinha Gonzaga"




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