terça-feira, 19 de outubro de 2010

Teledramaturgia atual: crise de criatividade ou motivação comercial?



Vitor Santos de Oliveira - A.R

Já em pleno século XXI, as novelas continuam sendo nosso principal produto de exportação e maior entretenimento da população. Mesmo com o advento de novas mídias e a chegada de novas gerações, ela permanece reinando absoluta em nossos lares e ainda é o programa mais assistido de nossa TV, ainda que venha perdendo, gradativamente, boa parte de seu público. Por isso mesmo a pergunta: até quando? Será que a novela, ao lado do futebol e da música, sempre terá lugar cativo no coração dos brasileiros?



Acredito que sim, mas sinceramente, o alerta vermelho já foi acionado. Sem dúvida, há algo de podre no reino da Dinamarca. Tá certo que reclamar de novela também é um dos esportes favoritos do brasileiro, mas é impossível quando nos lembramos de novelas do passado como “Vale Tudo” ou “O casarão”, com textos tão primorosos, situações que fugiam do clichê e, principalmente, com uma trama totalmente imprevisível, para vermos que há um abismo qualitativo separando as produções de outrora das produções de hoje.

Antes que me chamem de saudosista, não pretendo levantar essa bandeira. Não acho que um “Vale Tudo” funcionaria nos dias de hoje. Esta e outras novelas antológicas como “Roque Santeiro”, Pecado Capital”, “Guerra dos Sexos”, “Saramandaia”, “Pantanal”, “Tieta”, “Beto Rockfeller”, “O bem amado”, entre outras, deram certo, exatamente por terem sido revolucionárias em seu tempo, por romperem com a “cartilha” estabelecida e, assim, conquistarem um avanço na linguagem televisiva. Mocinhas sem caráter, heróis sem ética ou protagonistas cinqüentões jogando torta na cara um do outro foram na completa contramão da fórmula manjada do folhetim e conquistaram público e crítica, claro que, por um bom texto e boas atuações, mas também pela ousadia e inovação. O público não é bobo e não agüenta mais assistir à mesma novela. Os ganchos que funcionavam ontem já não funcionam hoje. É preciso se reinventar sempre. Se não houvesse transgressão, até hoje estaríamos assistindo a Glória Magadan. E é esse o problema das novelas atuais: as emissoras, com medo do fracasso e da falta de retorno financeiro, não apostam em renovação, tampouco permitem que os autores, já calejados, ousem em alguma coisa. Por isso, nossas novelas estacionaram e há muito não temos uma trama realmente memorável que marcasse época na TV. Qual foi mesmo o último grande sucesso? As últimas novelas memoráveis talvez datem dos anos 80. E não estou falando do antigo horário das dez, que a Globo utilizava para novas experimentações. As novelas realmente revolucionárias e memoráveis habitavam os horários ditos “comerciais”, como foram os casos de Beto Rockfeller", que trouxe a modernidade e a coloquialidade, "Pantanal", que pegou emprestada a linguagem cinematográfica e imprimiu um ritmo único em sua narrativa. No horário das sete, tivemos "Que rei sou eu?" e "Guerra dos Sexos", que inovaram ao seu modo: a primeira por ser uma crítica mordaz e bem humorada, além de trazer a época para o horário das sete; e a segunda pela anarquia total, que ia desde a atores se dirigindo diretamente para a câmera, até citações e alusões a clássicos do cinema. Enfim, uma novela que transitava na corda bamba e soube ser genial. “Bebê a Bordo”, de Carlos Lombardi, também surpreendeu pelo ritmo ágil, texto anárquico e debochado e não deixa de ser um marco.

Mais exemplos: "Roque Santeiro", que universalizou o regionalismo, fazendo de sua Asa Branca, metáfora e metonímia de um Brasil debochado e corrupto. Fugiu totalmente à fórmula do folhetim ao apresentar um trio de protagonistas de caráter mais que duvidoso. Inovou e foi sucesso. Isso sem contar "Saramandaia", que inaugurou o realismo fantástico; "Irmãos Coragem", que trouxe o gênero aventura para o folhetim; "Tieta", que mostrava a relação incestuosa entre tia e sobrinho na maior leveza.

Não sei se entendem onde quero chegar, mas nenhuma dessas tramas que citei tinha uma proposta experimental. Elas inovaram e venceram por elas mesmas, mas acho que não teriam lugar nos dias de hoje, já que tudo o que foge à cartilha do folhetim e dos arquétipos já consagrados, não vem tendo lugar nas emissoras.
Ou seja, a televisão vem produzindo as mesmas novelas há anos. Têm audiência, rendem lucro, etc. e tal, mas não inovam uma linha e com isso, saturam o gênero. Os autores de hoje são quase os mesmos de outrora, mas o público é outro e está ávido por novidade. A TV não está perdendo audiência para a Internet, mas para sua própria falta de ousadia.

Portanto, ainda que a novela seja um produto que representa grande parte da fatia comercial de uma emissora, é preciso abrir os olhos e ver que precisamos inovar. “Os mutantes” da Record, ainda que gere alguma controvérsia, ganha o público pelo inusitado. Ao invés de mocinhas sofredoras e tramas folhetinescas, o público se diverte com as lutas diárias entre mutantes do bem e do mal. De uma forma ou de outra, amada ou odiada, não passa incólume. Na mesma Record, “Vidas Opostas” também apostou na criatividade e na ousadia ao trazer para seu horário nobre a favela mais realista de nossa TV. A Globo, em contrapartida, apostou em “A Favorita” que, se não inovou na estrutura, inovou na narrativa, ao embaralhar a cabeça do público ao não revelar de cara quem era a heroína. Quem sabe se esses três últimos casos não representem uma (tímida) reação do inusitado? Acertando ou errando, precisamos muito dele. Se o inusitado tivesse mais espaço e as emissoras deixassem o medo de lado e permitissem que os autores apostassem na ousadia, o gênero se reinventaria e a novela estaria a salvo. Pelo menos pelos próximos anos...

(Texto escrito em 28/08/2008 e publicado no site da AR - Associação dos Roteiristas : http://www.artv.art.br/informateca/escritos/televisao/teledrama.htm )

9 comentários:

Alcides Nogueira disse...

querido,
belo texto! lúcido, centrado, com argumentos imbatíveis. e atualíssimo. essa é a grande discussão que as emissoras deveriam promover: onde foi parar a ousadia????
só discordo de uma afirmação: a novela está perdendo, sim, espaço e público para a internet. se vc entrar na rede em qualquer dos horários em que são exibidos os folhetins, verá um bando de gente nos chats e blogs... e discutindo o quê? a TELENOVELA!!! isso é o mais louco.
mas, na verdade, essa minha colocação não vai contra o que vc escreveu. se as novelas fossem instigantes, como antes, as pessoas não sairiam da frente do aparelho.
dá-lhe, vituxo!!!!!
bjs,
tide

O Vitor viu... disse...

Querido Tide, muito obrigado pelos elogios e pela acertada observação. Vc tem razão.
Relendo o texto hoje, eu o modificaria, mas quis publicar a versão de 2008, porque é esta que ainda está no site da AR, mas eu já discordo de mim mesmo em algumas afirmações...rs!

Por exemplo, quando disse que as últimas grandes novelas datam da década de 80, fiz uma grande injustiça com "A próxima vítima", que além de fazer parar o Brasil como há muito tempo uma novela não fazia, inovou por apresentar, além do mistério do "quem matou", também instituir o "quem morrerá". Isso foi fantástico. Também citaria "As filhas da mãe" que, embora não tenha rendido o retorno esperado à emissora, foi hiper-transgressora e trouxe um sopro de criatividade e ousadia. Talvez "O clone" tb incluiria, mas aí já é assunto pra outro texto. Ou então para um adendo no final do post.

No mais, obrigadíssimo pela apreciação crítica de loooosho...kkkk!

Alcides Nogueira disse...

vitor, querido,
tbém senti falta de "próxima vítima", "o clone" e umas outras... mas entendi, perfeitamente, que era o texto original. é é BOM, muito BOM!
bjssssssssssssssssss, com toda a minha admiração por seu olhar crítico,
tide

Denis . disse...

Eu acho que essa padronização e tentativa de interpretar e antever o comportamento do público tem sido muito prejudicial às novelas.

Apesar de ser um produto comercial, eu acredito que as novelas de maior sucesso são aquelas escritas com "o coração". Acho que tem faltado a alguns autores acreditarem, sentirem o que estão escrevendo. Existe um excesso de recursos e possibilidades que a meu ver, matam a criatividade e faz com que em uma única novela, mil assuntos sejam abordados e mil sejam mal desenvolvidos.

Novela a meu ver, pode ser "séria" ou não, mas independente do gênero, as pessoas envolvidas no projeto tem que acreditar nele, e não presumir qual classe vai gostar do quê. O público que assistiu A Favorita já não é o mesmo que assiste Viver a Vida. As pessoas mudam com o passar do tempo, então, creio que em novela, certas fórmulas não se aplicam.

Creio que tem faltado levar a opinião do público um pouco mais à sério. Pessoas simples, donas de casa, até mesmo pessoas incultas gostam de trabalhos de boa qualidade tanto quanto o maior intelectual do mundo. Acho injusto dizer "se colocarmos uma trama mais complexa, tal classe não vai compreender". Daí, todos perdem a oportunidade de assistir uma boa história porque alguém subestimou seu público. Ou seja, mais uma novela para ser assistida, e esquecida.

As novelas estão didáticas, chatas, entediantes. Estão ficando tempo demais no ar (as das 21h), não dão mais aquele gosto de "quero mais", e sim, de "estômago cheio" ao fim de um capítulo.

Mas é mta coisa pra falar, então paro por aqui.

Vítor, gosto mto do seu blog!

Anônimo disse...

Só acompanhando... com interesse. Bjs. Robério.

Eddy disse...

Queridão, muito bom o texto. Lamento muito ter ido ao eixo RJ-SP e não ter te visto. Fica para uma bem próxima.

Acredito na força da Internet. Eu mesmo, noveleiro á beça, troco TV pelo micro diversas vezes. Exceto, claro, quando algo me prende diante da TV. O que desde ''A Favorita'' - isso só para ficar no horário das oito - não acontece. Enfim, eu vou apontar um argumento ainda não citado aqui: o comodismo.

O telespectador está acomodado! A teledramaturgia pede inovação, mas esbarra num público conservador, excessivamente classe média. A novela do Bosco Brasil, atualmente no ar, é um ex. disso. Propõe-se inovadora, moderna. Mas não arrebata, ao contrário, afugenta. OK, talvez o ex. não seja dos melhores. Por que embora bem escrita, a novela não estrutura de novela. Vou apontar As Filhas da Mãe, então. Grande e sensível trabalho de Sílvio de Abreu, que tinha todos os chavões folhetinescos - quer coisa mais DE NOVELA que uma mãe que volta para reconquistar as filhas? - mas que vinha numa embalagem prafrentex. Esse público, absurdamente classe média, á época ''não entendeu'' os raps ligando as tramas, ''não entendeu'' o romance da transexual e do machão. E eu pergunto: será?

Vou me ao povão mesmo. Classes C e D. Esse povão que - evidente! - conhece rappers, afinal, é uma linguagem muito próx. deles, o movimento rapper nasceu nas comunidades carentes. Como esse povo não se identifica? E outra: como esse povo não sabe o que é transexual?! Se a maioria assiste o sensacionalismo barato da REDE TV, de grande apelo, e principalmente os Superpops da vida, onde abundam, sub-celebridades recém-operadas, atrizes pornô, drag queens, traficantes.

Honestamente, eu acho que as rejeições ás tentativas de mudanças, ao uso de uma linguagem mais sofisticada partem desse público acomodado, que não ESTÁ DISPOSTO a pensar. Eles querem tudo mastigadinho, querem tortadas na cara, vilãs caricatas planejando maldades á beira da piscina. A Internet está aí - basta ir em qualquer lan-house de bairro para ver um sem-número de moleques nos Orkuts e Papéis Pop da vida - a informação chega até eles. Eles sabem o que é. Só não querem se dar ao luxo de pensar, prestar atenção.

Saudade dos anos 60, 70, 80, onde haviam produtos inteligentes... para um público inteligente.

Desculpa o desabafo.

O Vitor viu... disse...

Imagina, Eddy, vc está certíssimo. Seu comentário daria um novo post...rs!

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Continue preferindo melão, Robério! Com esse calor é uma delícia...rs!
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Denis, adorei o comentário! Janete e Ivani eram sucesso porque gostavam e acreditavam no que faziam! Abração!

RÔ_drigo disse...

Vou ser curto e grosso,rs...Novela um mal necessário!!

eve_junkera@yahoo.com.br disse...

Oi, Vitor!
Vc visitou o meu Blog e eu vim aqui ver o seu! Parabéns pelo trabalho e pelos textos. Nesse último sobre a falta de ousadia na telenovela brasileira vc trouxe à tona a "pedra no sapato" de quem acompanha a teledramaturgia no Brasil. Espero q essa crise passe e q a Internet seja incorporada às telenovelas. Abraços e muito sucesso pra vc tbm!

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