sexta-feira, 4 de junho de 2010

“A vida alheia”: humor inteligente e ousado na TV.


O autor Miguel Falabella (abaixo à esquerda), com o elenco principal da série.


"É mais fácil elogiar a mediocridade. Essa não ameaça.", dispara Alberta Peçanha (Claudia Jimenez) se justificando por não elogiar com freqüência os feitos de Manoela (Danielle Winits) em “A vida alheia”. Frases inquietantes como essa são ditas por personagens nada óbvios o tempo todo na série de Miguel Falabella.

O slogan da fictícia revista “A vida alheia – mais interessante que a sua” já é uma provocação ao público e já mostra que seu criador não está disposto a fazer concessões para agradar. Ao contrário: em tempos em que o nível do humor na TV busca cada vez mais atingir o fundo do poço qualitativo com piadas físicas, fáceis, gratuitas e apelativas, a série vai na contramão disso tudo e brinda o público com o que há de melhor no gênero: comédia dramática inteligente, de humor ácido, reflexivo, aparentemente fútil, mas muito denso e irônico.

O mote de uma revista especializada em celebridades disposta a tudo para conseguir o furo jornalístico e, por conseguinte, o sucesso de vendas, acaba funcionando como ponto de partida para discutir uma série de outras questões como ética, hipocrisia e o valor do afeto e do respeito nas cada vez mais confusas relações amorosas, profissionais e familiares dos dias atuais, cada vez mais marcadas pelo vazio e pelo efêmero. Já no primeiro episódio, mostrou que veio mesmo pra incomodar, já que uma famosa colunista de fofocas se sentiu ofendida com a abordagem da série. Mas talvez a trama contínua que faz o arco da temporada seja ainda mais interessante que as tramas que são apresentadas a cada episódio. E a tensão construída em torno dos personagens fixos é cada vez mais crescente e interessante.

Mas o texto (genial e cheio de subtextos o tempo todo) tão instigante de Falabella e equipe não seria nada se não fosse acompanhada por uma direção competente e ágil e, principalmente, por ótimas atuações, a começar pelo trio de atrizes que comanda a atração: Marília Pêra, emprestando cinismo e classe na dose certa à Catarina, a dona da revista; Cláudia Jimenez, deliciosamente cruel e debochada como a editora-chefe Alberta Peçanha (aliás, o trocadilho com peçonha também é genial); e Danielle Winits, como Manoela, a ambiciosa repórter, que nos remete ao melhor estilo das alpinistas sociais gilbertianas. Porém, justiça seja feita: todo o elenco está afiadíssimo e ligadíssimo na proposta da série. E as implacáveis Alberta e Catarina são humanizadas a cada episódio, o que mostra que as personagens foram construídas com profundidade.

Enfim, “A vida alheia” é um sopro de criatividade, ousadia e competência nas noites de quinta-feira da Rede Globo, que merece ser assistida e comentada. Humor que não leva às gargalhadas, mas que oferece algo mais duradouro e rico: a reflexão sobre o chamado “mundo cão”.

14 comentários:

Paulinho Apolonio disse...

Adoro assistir este série. Mas confesso que ela deveria ser mais cedo.

Ivan Marcio disse...

Vitor querido, assisti poucos episódios de ''Vida Alheia'', mas é realmente um tipo de programa mais q necessário em nossa televisão, um programa q convida o telespectador a pensar, entender as referencias, as ironias. Parabéns a toda a equipe do programa!!
E Parabéns pelo alto nível do MELÃO, ta virando refêrencia, leitura obrigatória pra quem curte e até p quem trabalha em televisão!!
sucesso sempre!

claudia disse...

Vim aqui através de um twitter do Miguel Falabella,te elogiando,rs.Troca de elogios!
Concordo com vc,realmente o Falabella sabe o que faz(e o que diz tb,rs).

("@cjimenezreal olha que legal, Claudinha. http://www.euprefiromelao.blogspot.com/
about 3 hours ago via web
Reply Retweet" )

Walter disse...

Vitin,
Comentar o que depois deste texto completo?! A Vida Alheia é tudo isso que consta em seu texto. Em tempos de pseudohumores e pseudohumoristas mais preocupados em aparecer humilhando os outros, Falabella, elenco e direção da trama nos dizem nas quintas a noite que nem tudo está perdido.
Abraços,
Walter C.

claudia disse...

Putz! agora que reparei na possibilidade de que alguem possa confundir as coisas,rs.
Eu sou Cláudia Santos,não a Cláudia Gimenez.
Lendo o post diz:"Cláudia disse...(eu)

O twitter que copiei do Falabella:"...Claudinha.....".
Cláudia e Claudinha,rs,são duas,tá?

O Vitor viu... disse...

kkkkkkkkk... OK, Claudia Santos! Obrigado pelo comentário e seja sempre bem-vinda ao melão!!! Abração.

TH disse...

Vida Alheia, das apostas da Globo de Abril desse ano, curiosamente era a q menos tinha me empolgado. Conseguiu me conquistar até mais do que o festejado "Separação", que é ótimo, mas ainda prefiro esse bem sucedido projeto de Falabella, totalmente diferente de tudo o que ele fez até hj. E Claudia Jimenez tem a oportunidade de mostrar que realmente é uma boa atriz, e não mera comediante como a tv injustmamente tinha lhe estigmatizado...
Minha diversão preferida na tv hoje (não, não tenho VIVA :()...
Parabéns pelo texto, Vitinho!

Carlos Fernando disse...

Ainda bem que a semana tem quinta-feira, dia de séries diferentes, renovadoras e inteligentes. Tem sido assim a algum tempo e atualmente não é diferente. "A vida alheia" é inteligente e ácida na medida certa. Vi seu texto, está ótimo e tenho que dizer que """adoro""" os personagens principais.

Eddy disse...

Tio postiço, tio querido, amigo! Mais uma prova da tua grande sensibilidade. Esse texto conseguiu captar a verdadeira essência da Vida Alheia. Coisa que os mais céticos, dificilmente conseguiriam fazer. À primeira vista, a série soa fútil, vazia e por que não dizer... descartável? Justamente pela temática. Mas é preciso um olhar cuidadoso, quase clínico (que você possui) pra conseguir entender realmente o que é A Vida Alheia. Parabéns, parabéns!

Concordo com absolutamente tudo que você escreveu. Especialmente com relação á Claudia Jimenez, absolutamente irrepreensível na pele de Alberta Peçanha e ao texto de Miguel Falabella (inspiradíssimo). É muito bacana ligar a TV toda quinta-feira e assistir um produto tão bem escrito, tão inteligente quanto esse.

Sucesso!

Leonardo Távora disse...

O Falabella disse uma vez que o brasileiro tem uma idade mental de uma criança de 9 anos. Isso dificulta a percepção dele pra textos tão inteligentes quanto este do "A vida alheia". Quando terminou o "Toma lá, dá cá" eu fiquei louco pra ver o novo seriado do Falabella, e me assustei com a sutileza do "A vida alheia". Foi um susto positivo. Na TV brasileira é dificil ver algo com tanta qualidade como esse seriado. Texto, direção e elenco mto afinados.

Bom, é isso q eu penso, bem sintéticamente. Falar do Falabella merece um papo longo, com um bom vinho e alguns queijos à mesa.

Duh Secco disse...

De todas as apostas da Globo esse ano, A Vida Alheia, certamente, é mais acertada. Tanto pelo elenco afiado como pela direção extremamente competente, mas principalmente pelo texto perfeito do Falabella.

Tão perfeito quanto esse excelente post do Melão. Concordo com quem disse nos comentários, que depois deste texto, já não se tem o que comentar. Apenas elogiar a competência do meu querido Vitinho. :D

José Marques Neto disse...

Pois tenho certeza que para as griffes Miguel Falabella e Vitor 'Melão' Santos qq comentário torna-se redundante e desnecessário.

Satisfação garantida.

esdras b disse...

Estava pensando em escrever um post sobre esse seriado que pra mim é genial, mas nada de inspirador me surgia pra definir toda a dor e delícia que é acompanhá-lo semanalmente. Chego aqui e encontro tudo o que gostaria de dizer e mais um pouco, seu texto aqui, assim como o de Miguel lá, está impecável. A série é realmente viciante, sempre que acaba um epsódio fico com gosto de quero mais, pena que pelo jeito essa temporada já está quase no fim, gostaria que durasse até o fim do ano. Espero que coisas de qualidade como esta proliferem na programação pelos próximos meses, os telespectadores sedentos por textos e histórias com conteúdo de verdade agradecem. E que venha NA FORMA DA LEI, que com um elenco de encher os olhos promete!!!
Aguardo seu post sobre este novo seriado.

Abços!!!

Amanda Aouad disse...

Ainda não tive a oportunidade de acompanhar A vida Alheia, mas o pouco que vi me pareceu exatamente isso que você falou: um teto inteligente e ágil que tem faltado na televisão. Vou tentar ver alguns.

Parabéns pelo blog, crítica televisiva boa ainda é algo raro na internet. Já está lá no meu blogroll.

abraços

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