sexta-feira, 13 de maio de 2011

Blogueiro convidado: Eduardo Vieira relembra “O pulo do gato”


Como alguns de vocês já sabem, sou nascido no final da década de 70, portanto só fui me tornar espectador de telenovelas a partir do início dos anos 80. Apesar de saber e conhecer muitas tramas anteriores a essa época por ter assistido a cenas de arquivo ou lido e discutido a respeito, não me atrevo muito a falar sobre elas, já que considero o valor da memória e de ser testemunha ocular dos acontecimentos, imprescindível. Por isso, recrutei novamente meu amigo Eduardo Vieira, que vivenciou bastante a década de 70 e propus a ele que falasse sobre a novela que bem quisesse, inclusive sobre as mais obscuras (até preferia). Sempre gentil, Edu atendeu novamente ao meu chamado e escreveu um texto bastante elucidativo sobre a novela “O pulo do gato”, de 1978, pouquíssimo lembrada e que vale a pena conhecermos um pouco. O melão, mais uma vez, agradece a luxuosa contribuição de Edu e apresenta “O pulo do gato”:


De volta aos setenta

por Eduardo Vieira

Como noveleiro que sou, sempre carrego comigo lembranças do tempo que assistia às novelas e as acompanhava mesmo, não perdia capítulo, fingia doença, via duas vezes o final pra me despedir, coisas que só os noveleiros entendem.

Crescemos e viramos bichos críticos. Ainda bem, mas pra ver novela eu pessoalmente acho que se deve aceitar algumas coisas no terreno da ficção: aquele encontro de todos no mesmo restaurante, pessoas que entram na casa de outras sem a chave... é inegável que as próprias novelas encarregaram –se de também quererem ser vida real, às vezes conseguindo chegar quase à perfeição desta, outras vezes beirando a superficialidade que o gênero ainda felizmente permite.

Nos anos 70 e início dos 80, havia um horário para que se pudesse falar sobre temas mais adultos no meio dos “eu te amo, eu te odeio” de todas as novelas. Esse horário, para uma criança da década de 70, era infinitamente tarde (pelo menos pra mim era). Mas ficava eu acordado, disfarçando, pra ver as novelas que não eram permitidas a mim.

Os autores dessa faixa de horário eram sempre escritores mais politizados que defendiam a renda escrevendo pra um gênero que, até há pouco, tinham enorme preconceito. Autores teatrais e jornalistas enveredaram pelos caminhos da telenovela, surgindo nomes como Bráulio Pedroso, Dias Gomes e Jorge Andrade, entre outros. Brincando outro dia com um amigo, disse a ele: “Essa fez novela das dez, merece meu respeito”. Quem era a atriz não me recordo, mas agora me veio essa lembrança da importância que essas novelas tiveram pra mim. Tanto pra entender algumas questões, quanto pra me confundir a respeito de outras.



Entre essas novelas, lembro de uma, a qual tinha a impressão que só eu assistia, tamanho fracasso, comparada a nomes como Gabriela, O Espigão, O Bem Amado. Refiro-me a “ O pulo do gato”, que já me encantava pela literal abertura da música com o seguinte verso: “companheiro dessa minha melancolia” somada a uma melodia maravilhosa da minha ovelha negra Rita Lee.

Havia nessa novela algo estranho que eu não conseguia entender. Não havia uma linha, um casal forte e principal de condução da história, mas um apartamento chique e um prédio decadente em que moravam estranhas pessoas. Havia sim um casal que era um tanto coadjuvante à história central, a de um escroque que vivia sem dinheiro, mas sempre nas altas rodas .

 Bráulio Pedroso escrevia um Beto Rockfeller já na meia idade, Bubby Mariano, vivido pelo ator Jorge Dória, que enganava seus amigos ricos, falsificando quadros junto ao personagem do também grande Milton Gonçalves. Porém algumas pessoas desejavam que ele tivesse uma vida mais real, mais condizente às pessoas normais, como sua namorada Noêmia, Sandra Bréa no auge do talento e histrionismo e sua filha, a tal “mocinha” da história vivida por uma atriz que não seguiu a carreira, Marly Aguiar, que também faria a novela Pecado Rasgado. Mal ela sabe que seu namorado vivido pelo ator João Carlos Barroso também não era flor que se cheirasse, pois ainda era casado, mas tinha vergonha da pobreza de sua esposa e do filho que eles tinham. Nos anos 70 discutir adultério e casais interraciais não era tão comum. A esposa do personagem Nando era feita pela atriz mulata Juciléia Teles.

No prédio, ainda moram o terapeuta de Noêmia, Procópio, um bon vivant, cuja renda nunca ficava muito explícita , pois ele não era muito chegado a trabalhos convencionais; Billy, um surfista que tinha vida dupla fazendo programas com senhoras de mais idade. Aliás, havia até uma “ Stella” da época, antes de Passione, uma mulher que saia às tardes para fazer compras, mas sempre ia se encontrar com jovens rapazes. Era a fogosa Regina, vivida por Lady Francisco, em grande forma física, que era casada com o personagem ciumento de Carlos Kroeber e que tinham um filho jovem e bem rebelde (a censura não permitiria falar a causa da rebeldia), vivido pelo, na época, magrinho Pedro Paulo Rangel.

Como já dito, as histórias nessa novela eram todas um tanto improvisadas, pelo menos era o que parecia ao telespectador. Tanto que sempre que se iniciava um capítulo havia um locutor que enumerava as ações do capítulo anterior ou anteriores. Um locutor a La Lombardi, sobre o qual nunca ficávamos sabendo da identidade. Lembro que as pessoas sempre se perguntavam quem do elenco estaria fazendo essa narração. No final descobre-se que não é ninguém da novela, mas o humorista Paulo Silvino, uma figura inusitada na época em uma novela.

Isso só veio jogar a pá de cal de esculhambação de que a novela já tinha fama. Havia também uma história moderna pra época: a da mãe que compete com as filhas, feita pela elegante modelo Márcia Rodrigues. Os homens gostavam das meninas, mas quando viam a mãe, caíam matando e, pior, ela gostava.

A história toma um ar de aparente normalidade quase pro final quando o casal da novela surge, Mário Gomes e Sandra Bréa, uma espécie de anti-casal. Era uma época em que as mulheres começavam a ter a terapia como prática e os problemas femininos eram levantados, como os complexos da personagem da irmã de Procópio, Sofia, feita visceralmente pela atriz Camila Amado. A atriz tinha cenas de monólogo intermináveis, algo que hoje seria impensável!

Uma das ironias pra mim foi descobrir o porquê do título bem depois: uma alusão aos golpes dos personagens que enganavam homens e mulheres ricas. O tal “pulo do gato” era irmão do jeitinho brasileiro que os autores dessa faixa de horário sempre desejaram criticar; da esperteza, das ações hipócritas de uma sociedade que estava mudando, mas que era retratada de uma forma ainda bem romântica nas ficções dos outros horários. A sorte é que pelo humor podia-se dizer algumas coisas e se tratar de temas mais específicos, algo que ainda hoje é um tanto difícil, pois por vezes alguns desses temas não passam pelo crivo da censura da própria sociedade.

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10 comentários:

Nilson Xavier disse...

Parabéns Edu!
Ótimo resgate de uma trama pouco lembrada.

Apesar de ser contemporânea para mim, nunca assisti a essa novela
fiquei conhecendo apenas depois.
Adoro descobrir os núcleos que unem os personagens.

Quem venham mais memórias de novelas esquecidas de nosso baú televisivo.

Abraço Vitor e Edu!

aldeia disse...

Nilson, poxa, obrigado...fiz com carinho mesmo!! abço

Duh Secco disse...

Ótimo texto sobre uma novela que me desperta muita curiosidade. Parabéns, xará!

Eddy disse...

Que novela interessante. Não dava nada por ela.

O Eduardo deveria virar setorista dessa sessão ''Recordar é Viver'' do Melão, rs.

Parabéns, ótimo texto!!

O Vitor viu... disse...

Eddy, apóio totalmente essa ideia! Edu pode voltar sempre que quiser. Um colunista especialista em novelas setentistas seria um luxo para o melão!

aladimiguel disse...

Amigo Vitor

Eu cheguei a ver alguma coisa dessa novela sim na época e pelo que vi pude constatar que foi a novela mais FRACA que o Braulio escreveu, não gostei nada e também já caiu no esquecimento há muitos anos he he he... No ano seguinte ele se recuperou com a clássica comédia chanchada "Feijão Maravilha", que foi um sucesso ás 19 horas !

Abraços

José Vitor Rack disse...

Lembrar nosso querido Bráulio é sempre bom! Parabens Vitor e Edu.

DEIA SHINE disse...

ME LEMBRO MUITO BEM DESTA NOVELA,GOSTEI MUITO

João Lima Jr. disse...

Obrigado por elogiar os meus desenhos e incluir o meu blog na sua lista de favoritos.

Emerson Felipe disse...

Ótimas lembranças de uma novela praticamente esquecida, da qual sequer cenas soltas no youtube existem, infelizmente. Mais uma novela pela qual morro de curiosidade...e esta aumentou ainda mais com o texto do Eduardo!

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