quarta-feira, 1 de junho de 2011

Dos “anos dourados” aos “anos insensatos”: relações familiares e códigos de conduta



Celeste (Yara Amaral) e Lurdinha (Malu Mader), mãe e filha em cena de "Anos Dourados"

Não raro, os folhetins de Gilberto Braga propiciam fóruns de amplas e acaloradas discussões sobre diferentes temas em nossa sociedade. Há os que focam mais nas relações de política e ideologia da sociedade como “Vale Tudo”, “O dono do mundo” ou “Pátria Minha”. E há aqueles em que as relações familiares são o foco e servem como ilustração dos códigos de conduta da sociedade da época como nas minisséries “Anos Dourados” e “Anos Rebeldes” e a novela “Insensato Coração”, parceria do autor com Ricardo Linhares.

Em “Anos Dourados”, a maioria dos personagens exala hipocrisia, sobretudo Celeste (Yara Amaral em magistral e inesquecível interpretação). A conservadora mãe de Lurdinha (Malu Mader) se mostrava mais preocupada com que o que os outros vão pensar do que com a felicidade e o bem-estar da própria filha. Reprimida sexualmente, proíbe o namoro de Lurdinha com Marcos (Felipe Camargo) pelo fato da mãe do rapaz, Glória (Betty Faria) ser desquitada e apresentar um comportamento avançado para os padrões da época. Glória era à frente de seu tempo e Celeste já era anacrônica. Talvez as personagens que representassem melhor o senso comum das mulheres da época fossem Marieta (Tânia Scher) e Abigail (Maria Lucia Dahl). Marieta era tão hipócrita a ponto de flagrar o marido assediando a empregada e mandá-la embora depois, aceitando as desculpas do marido em troca de uma enceradeira. Nos anos dourados, podia-se fazer de tudo, desde que por baixo dos panos. O grande vilão da série era justamente o código de conduta ao qual todos tinham que obedecer. Até a moderninha Rosemary (Isabela Garcia), falada por todo o bairro por seu comportamento livre e permissivo, tinha consciência de que precisava manter sua virgindade e não deixava que os namorados avançassem nas carícias. Rosemary, de certa forma, compactuava com a hipocrisia que a rodeava e não quis pagar o preço de sua ousadia, ao contrário de Glória, que pagou um preço alto por fazer o que acredita e não o que esperavam dela.


Claudia Abreu e sua Heloísa em "Anos Rebeldes"

Uma década mais tarde, em “Anos Rebeldes”, temos Heloísa (Claudia Abreu) que, ao contrário de Rosemary, não fazia a menor questão de sua virgindade. Pelo contrário: queria perdê-la a todo custo, não por motivações românticas, mas por afirmação da liberdade feminina. Heloísa fez de sua sexualidade quase um ato político, reflexo dos tempos em que vivia, de liberação sexual e do advento do feminismo.



Já no século XXI, em pleno 2011, a sociedade ainda se choca com o comportamento de Leila (Bruna Linzmeyer), jovem que exerce sua sexualidade de maneira livre, sem motivações românticas ou preocupações com as convenções sociais. Isso nos leva àquela antiga discussão: de Urubu (Taumaturgo Ferreira) em “Anos Dourados” a André (Lázaro Ramos) em “Insensato Coração), é totalmente aceitável (e até esperado) que o homem tenha tantas relações sexuais sem compromisso quanto puder. Quando uma mulher apresenta esse comportamento, sobram reprovações, xingamentos e comentários do tipo “ela não se valoriza” (opinião de cerca de 70% das pessoas que votaram na enquete do blog de Patrícia Kogut), como se a castidade fosse uma espécie de virtude a ser preservada pelo sexo feminino. Outro fator que talvez possa ter contribuído para uma certa rejeição de Leila, foi o fato dela reagir contra a repressão familiar e ter dado um tapa na cara do próprio pai, Julio (Marcelo Valle). Talvez se fosse o contrário, parte do público torceria por ela, já que temos uma enorme vocação para simpatizar com os oprimidos. Mas Leila reagiu e não cedeu às pressões da mãe, Eunice (Deborah Evelyn), espécie de Dona Celeste pós-moderna e tão hipócrita quanto ela. Eunice não hesita em manipular as filhas, inclusive ao permitir que elas tenham vida sexual, em troca de um bom casamento. Ainda em “Insensato Coração”, assim como André, Leila coleciona transas, desta vez não mais como postura política, a exemplo de Heloísa, mas como forma de chamar a atenção de André, por quem se apaixonou. Desta forma, até para Leila, o sexo tem uma função desviante de amor ou prazer e também é usado para se alcançar um objetivo mais prático.

Leila (Bruna Linzmeyer), Eunice (Deborah Evelyn) e Julio (Marcelo Valle) em cena de "Insensato Coração"

Apesar de notarmos um grande avanço e uma quebra de inúmeros paradigmas e preconceitos, dos anos 50 até os dias de hoje, percebemos que ainda há um longo caminho a se percorrer no que diz respeito em muitos temas, como por exemplo, a liberdade sexual da mulher. Nesse sentido, a teledramaturgia, sobretudo as tramas de Gilberto Braga, sempre geram discussões, polêmicas e controvérsias que refletem o comportamento da sociedade em todos os seus avanços e retrocessos.

Vitor de Oliveira
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16 comentários:

Ivan disse...

Não vejo Insensato Coração. mas adorei seu texto e me deu um parecer mais bacana de uma novela q não me atrai!

ja o q é dito sobre os ANOS Douradoes e rebeldes, concordo , e entendo perfeitamente esse ponto de vista.

Seu texto Vitor, foi bem reflexivo pra mim, por mais q me ache liberal e moderno, ainda guardo machismos e ranços ''moralistas' Não aceitando de primeira o prazer feminino e o sexo por prazer a q elas obviamente tem todo o direito e sem ressalvas!

Um dos mais preciosos textos do Melão!

Evana R. disse...

Ler esse texto me fez pensar em como a mentalidade das pessoas, de uma certa forma, evoluiu pouquinho em 60 anos. Conservadorismo [ou donacelestismo, hehe] - liberalismo - donacelestismo de novo. Parte das pessoas ainda não aceita muito bem que as garotas escolham de forma consciente o que vão fazer sem se prender às convicções da família ou da sociedade e arquem com as eventuais consequências, seja no que diz respeito às relações afetivas e/ou sexuais ou em outras áreas. Leila escolheu viver sua vida sexual de forma livre sem consultar ninguém que não ela mesma, leva pedrada por conta disso e encara, porque né, ela escolheu. E toda escolha que Leila faz ao longo de sua trajetória, assim como tantas outras meninas, afronta as pessoas que se julgavam no direito de escolher por elas. O comportamento sexual de Leila e também suas escolhas profissionais incomodaram Eunice [lembram que ela deu um chilique quando Leila decidiu ficar mais tempo em Londres, estudando e trabalhando e, mais tarde, quando viu a menina trabalhando numa loja de sapatos?], que esperava manipulá-la - porque se nasce menina, muitos ainda ficam naquela "é frágil, precisa ser guiada para não errar", mas para amadurecer a gente também precisa tropeçar, cair, fazer umas escolhas meio erradas [que vão desde o "transar com o cara *errado*" até "deixar passar uma oportunidade dita imperdível"].
Me alonguei demais no comentário, espero que não tenha ficado confuso ou redundante :-). É um tema que rende discussão por um bom tempo...

FABIO DIAS disse...

Fico admirado com sua capacidade e sensibilidade de percepção do que os autores querem discutir com cada personagem.

Tudo isto mostra sua maturidade na teledramaturgia!

Sucesso com O Astro, quero e torço muito para ver uma novela sua no ar.

E ver seu nome junto ao dos grandes mestres das telenovelas. Se depender da sua inteligência, todo esse processo que citei não demorará muito a acontecer!

Fábio Dias R.

oabidefala.blogspot.com

FABIO DIAS disse...

Fico admirado com sua capacidade e sensibilidade de percepção do que os autores querem discutir com cada personagem.

Tudo isto mostra sua maturidade na teledramaturgia!

Sucesso com O Astro, quero e torço muito para ver uma novela sua no ar.

E seu nome junto ao dos grandes mestres das telenovelas. Se depender da sua inteligência, todo esse processo que citei não demorará muito a acontecer!

Fábio Dias R.
www.ocabidefala.blogspot.com

Eddy Fernandes disse...

Numa perspectiva pessimista, acho difícil essa mentalidade mudar. Por mais que a sociedade evolua - e convenhamos, que a aprovação da união estável entre homossexuais já foi um grande avanço - sempre vai existir um ranço colonial e preconceituoso, o brasileiro é assim. Vai se fazer o quê?

No entanto, não podemos generalizar. Eu, particularmente, admiro bastante esse tipo de mulher (liberada sexualmente) e acredito que todo ser humano devia levar a vida assim, com honestidade, fazendo o que lhe der na telha... arcando, é claro, com as consequências de seus atos.

Como disse a Evana, é um tema que ultrapassa os limites da ficção e que pode ser discutido por hoooraas...

Nilson Xavier disse...

CLAP CLAP CLAP!

Sem mais.

Wesley disse...

Ótimo texto!!! Adorei!
Você tocou num ponto interessante. Ainda vivemos numa sociedade hipócrita. E eu não sei?

Lara Simeao Romero disse...

Gostei muito de seu texto. Parabéns.

aldeia disse...

poxa, até que enfim alguém que não assiste à novela somente para malhá-la....será que foi preciso reprisar tanta coisa do autor pra se perceber que ele ainda se utiliza das mesmas temáticas no contexto de hoje, que como observou o Vitor ,não mudou muito?
vi no orkut que também acabaram com a personagem da Leila por ela querer viver a sexualidade dela. Botaram dinheiro no meio, obediência aos pais, como se eles fossem dois pilares de ética.Parabéns...aliás, está se criando um tema, depois da literatura comparada, a teledramaturgia comparada. Parabéns, Vitor.

! Marcelo Cândido ! disse...

Gera discussão e cumpre seu papel mostrando que ninguém é mais bobo!!!

Fábio Leonardo disse...

Gosto muito da perspectiva de Gilberto Braga sobre temas polêmicos. Trata com naturalidade de assuntos que assolam nossa cozinha, nossa sala e nosso quarto.

Parabéns pelo texto, Vitão! Sucesso!

Danielle disse...

Oi, Vitor.

Trombei casualmente em seu blog. Estou muito feliz por isso ter acontecido, pois também sou noveleira apaixonada (bem, era - agora tá difícil de se apaixonar por alguma... tô confiando em você pra que isso mude). Gostei muito deste texto - não vi Anos Rebeldes, mas Anos Dourados eu tenho em DVD e adoro. Me diverti também com os pitacos exotéricos do Robério Silva a respeito de "Vale Tudo" e achei ótimo seu artigo a respeito das 7 mulheres daquela telenovela que, desde meu ponto de vista, é a maior da TV brasileira.

Vou começar a segui-lo. Se se animar a visitar meu blog, será muito bem-vindo (lá também há um post sobre Vale Tudo:
http://www.ofilmequeviontem.blogspot.com/

Abraços
Danielle

TH disse...

O Gilberto trata de relações familiares com uma preocupação muito maior com o seio da sociedade - em tocar a ferida na hipocrisia que assola. O próprio autor se mostra indignadissimo em episódios como o famosíssimo da Márcia em "!O Dono do Mundo".
No mais, um dos melhores artigos do Melão. Continue nos brindando com suas opiniões muito bem escritas e sensatas!

Paula Teixeira disse...

Excelente texto Victor!

E ainda dizem que teledramaturgia é puro entretenimento ... ledo engano ... ultrapassa e muito esse âmbito!

Mas repara só: Leila ainda guarda a questão romântica, pois as outras transad que busca é para a atrair um homem ... Mas porque a vida é assim, nunca se é totalmente radical ou totalmente ingênuo ... Essas dualidades não existem. Existe a mescla.

A condição da mulher costuma estar no centro das discussões. Manoel Carlos foi mestre ao discutir isso em sua sequência de novelas (Por amor, Laços de Família e Mulheres Apaixonadas). Fazendo uma pesquisa para um programa que produzo, vi que até 2003, o código civil permitia ao homem anular o casamento caso ele argumentasse que a mulher não era mais virgem ao se casar. E mais: era previsto em lei dar um dote para o marido, como forma de ressarci-lo dos gastos ao sustentá-la. Isso até 2003.

Trabalho no setor juduciário, os homens ainda são maioria nos cargos principais. Mas um dia no estacionamento, só vi mulheres entrando em seus carros, sozinhas, "independentes". E pensar que isso não era possível, comum há 100 anos ...

Liberdade também não é libertinagem, é fazer o que te faz bem. Ser liberta para agradar os mais "modernos" também é um tipo de prisão. Tem que ser o que se é!

RÔ_drigo disse...

Resumindo...A humanidade anda,anda... Pra lugar nenhum??Que triste!
Mas é o que parece,preconceito e machismo ainda predomina no mundo...
Bela comparação Vit!

Walter de Azevedo disse...

Vitinho, fantástica análise. Não tinha parado pra pensar nisso, mas lendo o seu texto, realmente identifiquei tudo o que você apontou. Infelizmente, Insensato Coração perde enquanto teledramaturgia, para Anos Dourados e Anos Rebeldes, mas funciona como parâmetro de comparação para a evolução da mulher na sociedade e para denunciar a hipocrisia que, mesmo disfarçada, ainda existe.

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