quarta-feira, 6 de junho de 2012

Blogueiro convidado: Lufe Steffen celebra 29 anos de "Guerra dos Sexos"


GUERRA DOS SEXOS: UM MOMENTO INESQUECÍVEL

Por Lufe Stefen

Fernanda Montenegro e Paulo Autran em cena histórica
 Há 29 anos, em 6 de junho de 1983, estreava às 19h na Globo a novela “Guerra dos Sexos”. Para quem acompanhava as produções da época, parecia apenas mais uma atração leve para o horário. Apesar do elenco totalmente estelar e de certo luxo na produção, não dava para adivinhar o que estava por vir.

Mas rapidamente o público percebeu que não se tratava de mais uma novela comum. O primeiro capítulo já terminava com Glória Menezes acertando uma torta na cara de Tarcísio Meira. Era apenas o começo.

Eu tinha oito anos de idade e fiquei viciado nessa novela. Largava tudo para vê-la. Me lembro de uma festa junina na praça em frente à casa da minha avó paterna. Todo mundo na festa comendo pé de moleque, e eu afundado na poltrona da sala, vendo “Guerra dos Sexos”.

Adorava ler a revista “Amiga”, que sempre vinha com alguma matéria de capa sobre a novela. Eu recortava as fotos e fazia minhas próprias revistas, arremedos de “Amiga”. Talvez isso pronunciasse minha futura profissão de jornalista...

Enfim, ao lado de “Dancin’ Days” (1978/79) e “Vale Tudo” (1988/89), “Guerra...” forma a tríade que me marcou. Depois revi “Guerra dos Sexos” na reprise da Sessão Aventura em 1989, e mais recentemente, nos famosos DVDs que pululam por aí.

Nem vou falar da trama da novela, porque já é mais do que conhecida. Vale mais lembrar o pique da novela, que foi conduzido de forma vertiginosa, em uma narrativa pitoresca que empolgava o público, sem cair no tédio e na falta de interesse em nenhum momento. O ritmo era ágil e frenético, prendendo a atenção e cativando até o eleitorado masculino, naquela época um tanto avesso às novelas das 19h.

Me lembro do meu pai chegando em casa mais cedo do trabalho, para acompanhar a trama, numa época pré celular, pré internet, e até mesmo quando pouca gente tinha vídeo cassete. Lembro que ele riu muito com a cena em que Charlô vai à casa da Tia Semíramis (a maravilhosa Leina Krespi, já falecida), e a Frô (Cristina Pereira) desce a escada da casa, enrolada em uma toalha, avisando que a privada explodiu.

O sucesso foi total. O autor Sílvio de Abreu conseguia, enfim, implantar o tipo de comédia que vinha tentando desde sua primeira novela na emissora, “Pecado Rasgado” (1978/79). Se a tentativa foi frustrada nessa primeira experiência, em “Jogo da Vida” (1981/82) ele já conseguia esboçar seu objetivo: o auge do pastelão novelístico.

“Jogo da Vida”, também exibida às 19h, partia de uma sinopse de Janete Clair, o que poderia soar conservador. Mas na direção, como assistentes de Roberto Talma, surgiam Jorge Fernando e Guel Arraes. Os dois jovens diretores compraram a briga proposta por Sílvio e ajudaram a fazer de “Jogo da Vida” uma comédia maluca, com farta inspiração nos maiores clássicos de Hollywood.

O sucesso dessa novela surpreendeu a Globo, que assim decidiu dar mais liberdade ao autor. Na novela seguinte, Sílvio pôde então ousar mais, e refinar seu estilo. E até exigir alguns quesitos para que a proposta funcionasse, como o elenco de peso e a direção de arte inspirada nas décadas de 30 e 40. Sílvio conta mais sobre isso no livro “Autores”, da Globo.

Também dessas décadas, de 30 e 40, principalmente, vinha material para o autor: cinéfilo incurável e ex-cineasta, Sílvio acionou seu conhecimento enciclopédico sobre Hollywood e lançou mão das citações intermináveis. Como um Brian De Palma das novelas, recheou “Guerra dos Sexos” com dezenas de referências aos grandes clássicos.

“Os Homens Preferem as Loiras” (1953), “Levada da Breca” (1938), “Deu a Louca no Mundo” (1964), “A Mulher do Ano” (1941), “Golpe Sujo” (1978), entre muitos outros, foram citados e homenageados na novela. E o clima cinematográfico estava por toda parte: o tema incidental de mistério que permeava as cenas vinha do filme “Alta Ansiedade” (1977, de Mel Brooks); as trilhas instrumentais de “Star Wars” (1977) e “Yellow Submarine” (1968) também apareciam. O tom geral se inspirava nas chamadas “screwball comedies” dos anos 30. Na direção, a novela contava novamente com Jorge e Guel – mas desta vez como titulares.

Uma ideia genial era o fato de os personagens olharem para a câmera, dividindo pensamentos com o público, numa espécie de aparte na linha das comédias de Molière. Como a governanta Olívia (Marilu Bueno), que ao levar um beijo de Zenon (Edson Celulari), olhou para a câmera e disparou: “Francamente... eu não merecia isso!”

Outro grande trunfo era o elenco. Paulo Autran e Fernanda Montenegro – “pela primeira vez juntos”, como dizia o letreiro de abertura –, monstros sagrados do teatro brasileiro, arriscavam-se, entregando-se às maluquices propostas pelo autor. O clímax, como todo mundo sabe, é a famosa cena da guerra no café da manhã.

Tarcísio Meira também se destacou, criando um tipo cômico que parecia uma mistura de Jerry Lewis com Clark Kent. Maria Zilda foi um grande charme, com sua voz rouca, encarnando Vânia, dona das “belas pernas”. Mário Gomes como o motorista bobalhão Nando (com sua tatuagem que mexia com a libido de Roberta; aliás, eu queria ter uma tatuagem igual quando eu crescesse), Maitê Proença como a romântica Juliana e Lucélia Santos vivendo a odiosa, mas engraçada Carolina também foram incríveis. E o que dizer de Yara Amaral como Nieta e Hélio Souto como Nenê Gomalina?

José Mayer e Lucelia Santos: destaques de um elenco estelar
Fica quase impossível listar todos os destaques da novela, já que não havia nenhum ator ruim ou inadequado no elenco. Aliás, acho que naquela época não existiam atores ruins na TV.

Fico pensando em como será o remake de “Guerra dos Sexos”, que estreia neste ano. Naturalmente será uma novela diferente, até porque a vida, o mundo – e o Brasil – mudaram muito nesses 30 anos. As relações afetivas, sexuais, o jogo entre machismo e feminino, tudo isso tem outro contexto hoje.

Mudou também o estilo das interpretações televisivas, assim como dos atores que hoje são os mais populares. Nem sempre é possível ter, hoje, a elegância e a sutileza dos atores do passado.

Também o estilo de comédia rasgada que a versão original consagrou, foi bastante reproduzido e copiado ao longo dos anos, desgastando-se. Talvez esse remake não venha causar uma revolução na dramaturgia e nem mobilizar multidões, como ocorreu em 1983. Mas vale a pena esperar os ingredientes que Sílvio de Abreu vai colocar em suas tortas desta vez. Ele que está sempre pronto para atirá-las na nossa cara. “Touché!”, como diria Charlô.

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LUFE STEFFEN nasceu em 1975, é ator, cantor, cineasta e jornalista. Escreveu o livro "Tragam os Cavalos Dançantes" (lançado em 2008), sobre a casa noturna paulistana A Lôca, e atualmente é repórter de TV & Novelas do portal iG. 
Apaixonou-se por novelas em 1978, ao assistir "Dancin' Days". Seu Top Five é: "Vale Tudo" / "Guerra dos Sexos" / "Dancin' Days" / "Cambalacho" / "A Gata Comeu". 

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LEIA TAMBÉM:

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(25 anos de "Cambalacho)



4 comentários:

DEIA SHINE disse...

AMEI,NÃO VEJO A HORA DE ASSISTIR O REMAKE.A ORIGINAL FOI DEMAIS.

allynne paula disse...

Bons Homens se tornam grandes profissionais !! não conheci o blog ... hj q vi o link no face e achei 10 !! Parabéns

Rafael Barbosa dos Santos disse...

Pena não ter nascido antes, para ver a novela, mais terei o prazer de ver a nova versão, que está prometendo. Isso é o bom do remake, permite jovens como eu que perdemos o melhor a teledramaturgia, há conhecer essa obras primas, adaptadas a nossa época.

http://brincdeescrever.blogspot.com.br/2012/06/um-trio-pra-ninguem-botar-defeito.html

operasdesabao.com disse...

Ahhhh, Lufitos! Bão demais o texto!
Vitor ahazou na escolha.

Bêjos de dona Pepa!

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