segunda-feira, 18 de junho de 2012

TEMAS E TRILHAS – MARIA BETHÂNIA





A aniversariante do dia dispensa qualquer apresentação. Há muitas décadas reina absoluta como nossa intérprete mais emocionante e emocionada. Coleciona adjetivos como rainha, diva, poderosa, soberana, deusa e muitos outros sempre superlativos. Desde sempre, minha cantora favorita. Graças à minha mãe, cresci ouvindo Maria Bethânia. Aos 4 anos, pra mim era muito comum ouvir discos como “Álibi”, “Mel” ou “Pássaro da Manhã”, ou seja, a presença de Bethânia em minha vida sempre foi constante, ainda mais pelo fato dela ser uma das recordistas de canções em trilhas sonoras de novelas. São tantas e tão boas que dobramos o eventual TOP 10 e muitas outras ainda ficaram de fora. Mas Bethânia merece e elegi abaixo meus 20 temas de novelas favoritos na voz da cantora:

20) PRECONCEITO (Por amor – 1997)
A sofrida gravação dos anos 60 caiu como uma luva para Márcia (Maria Ceiça), que sofria preconceito racial por parte do próprio marido Wilson (Paulo Cesar Grande), que era completamente apaixonado por ela, mas se recusava a ter um filho com medo que este nascesse negro como a mãe. Como muitos espectadores da novela de Manoel Carlos, morri de raiva de Wilson e fui solidário à dor de Márcia, que acabou perdoando-o no final e, por ironia, tiveram uma filha loira: Ritinha. A cada dramática de Márcia, surgia a voz e a interpretação intensa de Bethânia para embalar o sofrimento da personagem.

19) ALÉM DA ÚLTIMA ESTRELA (Renascer – 1993)
Depois de se decepcionar com Mariana (Adriana Esteves) por quem sentia uma paixão avassaladora, João Pedro (Marcos Palmeira) viveu um romance mais sereno e tranquilo com a delicada Sandra (Luciana Braga). E para embalar esse amor, nada como a voz de Bethânia, aqui doce e suave, combinando perfeitamente com o casal da novela de Benedito Rui Barbosa.

18) ONDE ESTARÁ O MEU AMOR? (A Indomada – 1997)
Uma das interpretações mais belas e emocionantes de Bethânia. A bonita canção de Chico César embalava o amor maduro e clandestino da cafetina Zenilda (Renata Sorrah) e do submisso Pedro Afonso (Claudio Marzo), personagens da trama de Aguinaldo Silva. Sinceramente, nunca achei que a canção, que exala pureza, combinasse muito com o casal, mas só pelo fato de ter Bethânia na trilha, vale a pena ouvir sempre.

17) CHEIRO DE AMOR (Pé na Jaca – 2006)
Foi uma grata surpresa ouvir essa música setentista do célebre álbum “Mel” de volta às paradas em pleno 2006, ainda mais pra embalar o romance da moderninha e temperamental Maria Bo e do descamisado Lance (Marcos Pasquim) da trama de Carlos Lombardi. A interpretação de Bethânia é sensualíssima descrevendo a sensação de “apaixonamento” e a canção mostrou que não envelheceu.

16) DEPOIS DE TER VOCÊ (Desejos de Mulher – 2002)
Nessa mesma linha apaixonada, Bethânia arrebata corações ao interpretar a bela canção de Adriana Calcanhotto, que serviu de trilha para o romance de Andrea Vargas (Regina Duarte) e Diogo (Herson Capri). Confesso que a novela de Euclydes Marinho não me empolgava muito, mas torcia para chegar as cenas de amor do casal só pra ouvir a canção.

15) PRIMAVERA (As Filhas da Mãe – 2001)
Acho essa canção uma das mais lindas de toda a MPB. A composição de Vinícius de Moraes e Carlinhos Lyra é poesia pura. E na voz de Bethânia, a canção atinge um patamar ainda mais poético e triste e embalou o amor maduro de Lulu de Luxemburgo e Artur Brandão (Fernanda Montenegro e Raul Cortez) na divertida trama de Sílvio de Abreu. A novela era anarquia pura e cada vez que o casal aparecia na voz de Bethânia era um respiro poético.

14) A MAIS BONITA (Rainha da Sucata – 1990)

Uma canção pouco conhecida de Chico Buarque e que não teve muita repercussão na época por conta da contagiante trilha sonora da novela, cheia de lambadas, músicas pop e até um revival da jovem guarda na voz de Wanderléia. Mas com o passar do tempo, aprendi a valorizar a canção, sensível, delicada e teatral que combinava muitíssimo bem com a vilã cheia de classe Laurinha Figueiroa, vivida magistralmente por Gloria Menezes na trama de Sílvio de Abreu. Prestem atenção na letra: é uma delícia!



13) FALA BAIXINHO (Mulher – 1998/1999)
Essa canção não era tema de nenhum personagem específico e fez parte, principalmente da primeira temporada da série, e sempre era o tema dramático de algum personagem a cada episódio. Não conhecia a bela canção de Pixinguinha e simplesmente adorei e como não faz parte da discografia da cantora, comprei o CD da trilha só por causa dela. Mais uma interpretação arrebatadora e marcante de Bethânia.

12) LUA BRANCA (Sangue do meu sangue – 1995)
Outra pérola de nosso cancioneiro que foi uma grata surpresa na voz de Bethânia, que gravou ao vivo a canção de Chiquinha Gonzaga em seu álbum de 1995. Infelizmente o SBT não lançou a trilha sonora da novela, que utilizou a canção como tema da bela Pola Renon, interpretada por Bia Seidl. A interpretação emocionante e intensa de Bethânia nessa música é de arrepiar e casava perfeitamente com o clima da novela.

11) CORAÇÃO ATEU (Gabriela – 1975)


Outra canção que não faz parte da discografia da cantora, pois foi gravada especialmente para a novela. Era tema de Sinhazinha e Dr. Osmundo (Maria Fernanda e João Paulo Adour). Confesso que, apesar de adorar a canção, não tenho lembranças dela na novela, já que nem era nascido, mas só de ouví-la nas chamadas do remake que estreia hoje, já a incluo na lista por antecedência, pois amei o fato de voltarem a utilizar a música na trilha.

10) O LADO QUENTE DO SER (Baila Comigo -1981)
Também foi tema da série “Retrato de Mulher” (1993), mas ficou marcada mesmo por fazer parte da trilha da novela de Manoel Carlos. Era o tema da batalhadora Lucia (Natalia do Vale) e seu romance com Quinzinho (Tony Ramos), mas pela letra que sugere que a personagem quis ser bailarina e pelo estilo mais sensual sempre achei que combinava mais com outra personagem, Joana (Betty Faria), a professora da academia da novela.

9) VOCÊ (Pátria Minha – 1994)
A belíssima composição de Roberto e Erasmo Carlos ganhou em emoção e intensidade na interpretação de Bethânia. A canção narra as saudades e a tristeza com o fim de um grande amor e embalou as desventuras amorosas de Alice e Rodrigo (Claudia Abreu e Fabio Assunção) na novela de Gilberto Braga. “Você” dava a dimensão exata do amor e da saudade que os casal sentia um pelo outro e também fez parte da trilha sonora do romance de muita gente.

8) PRECISO APRENDER A SER SÓ (Mulheres Apaixonadas – 2003)
Integrante do songbook de Marcos Valle, essa gravação na voz de Bethânia tem um dos arranjos mais bonitos que conheço e era o tema da protagonista da novela de Manoel Carlos, Helena, vivida por Christiane Torloni, que vivia uma crise em seu casamento com Téo (Tony Ramos), enquanto se envolvia com um amor do passado vivido por José Mayer. Helena refletia sobre a vida ao som dessa canção. Confesso que torcia para que Helena pensasse na vida caminhando pela sala, pois era quase certeza que a música tocaria.

7) VERDADES E MENTIRAS (Fera Radical – 1988)
Um belo arranjo e uma interpretação amorosa e apaixonada de Bethânia, que serviu para embalar o romance da fera radical Claudia (Malu Mader) com o peão Fernando, filho dos inimigos da moça. De nada adiantou os personagens da novela de Walther Negrão lutarem contra esse amor. Eles terminaram juntos e nós ouvimos essa canção muitas vezes durante a trama.

6) EXPLODE CORAÇÃO (Pai Heroi – 1979 e Explode Coração – 1995)
Na novela de Gloria Perez que leva o mesmo nome da música, ela quase não tocou, mesmo sendo o tema da protagonista Dara (Tereza Seiblitz). Apesar de eu lembrar muito mais da canção através da vitrola de casa, vale destacar que era o tema de um dos casais mais marcantes da história da teledramaturgia, André (Tony Ramos) e Carina (Elizabeth Savalla) da novela de Janete Clair. Essa é uma das novelas que tenho mais curiosidade e com esse tema romântico então...

5) TENHA CALMA (Tieta – 1989)


Essa toca fundo em minha memória afetiva: era o tema do amor proibido de Tieta (Betty Faria) e seu sobrinho seminarista Ricardo (Cassio Gabus Mendes). A canção de Djavan na voz de Bethânia carrega esse misto de paixão e angústia que permeava a relação da sensual cabrona com seu cabritinho. E só mesmo uma intérprete à altura de Bethânia para saber combinar sentimentos como paixão e desespero na medida certa. As cenas do casal eram pra lá de calientes e, mesmo a letra não tendo nada a ver com a trama, a canção combinava perfeitamente com o romance.

4) TÁ COMBINADO (Vale Tudo – 1988)
Essa pérola de Caetano que Bethânia interpreta de maneira doce e apaixonada, mas fingindo não estar nem aí, é uma das preferidas dos noveleiros de plantão, afinal embalou o romance de Raquel e Ivan (Regina Duarte e Antonio Fagundes) da aclamada novela, recentemente reprisada pelo Canal Viva. Tocava praticamente em todos os capítulos, fazendo a alegria dos twitteiros que assistiam à novela. Fez sucesso em 88 e voltou a agradar na reprise. Assim como a novela, um clássico!


3) FERA FERIDA (Fera Ferida – 1993)

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Há canções que só passamos a sentir o vigor e a força quando ganha uma releitura e foi isso o que aconteceu com “Fera Ferida”, tamanha força, vigor e paixão que Bethânia emprestou à música, que caiu como uma luva para ser tema de abertura da novela do mesmo nome. Confesso que já me identifiquei várias vezes com a letra (quem nunca?) e não canso de cantá-la alto até hoje.

2) SÁBADO EM COPACABANA (Paraíso Tropical – 2007)

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Um sobrevôo a uma bela paisagem verde por trás de uma montanha que aos poucos vai revelando a praia de Copacabana, cenário de “Paraíso Tropical”, novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares. Essa era a abertura: simples, sem efeitos especiais, já que a paisagem do Rio de Janeiro dispensa qualquer artifício e a majestosa voz de Bethânia, deslumbrada com Copacabana e todos os seus encantos. Uma de minhas aberturas favoritas que eu esperava ansiosamente todos os dias.  

1)           GRITO DE ALERTA (Água Viva – 1980)
O primeiro lugar não podia ser outro, já que esse tema uniu minhas duas estrelas favoritas: Maria Bethânia e Betty Faria, que vivia a protagonista Lígia, da novela de Gilberto Braga e tinha a canção como seu tema. Além disso, a própria Bethânia fez uma participação especial na novela como ela mesma cantando a música durante um show. Nesse momento, Lígia vê seu ex-marido Heitor (Carlos Eduardo Dolabella) nos braços da amiga Selma (Tamara Taxman), que vai culminar na famosa cena da surra no banheiro. Mas antes temos essa deliciosa cena em que Lígia curte sua fossa ao som de Bethânia, ao vivo e a cores. Uma pérola!

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Melão deseja à rainha Maria Bethânia um feliz aniversário e pergunta aos seus leitores: quais são seus temas de novelas favoritos na voz da cantora?


 LEIA TAMBÉM:

Temas e Trilhas: Elis Regina





terça-feira, 12 de junho de 2012

RESULTADO DA PROMOÇÃO “SOPRO DE VIDA”:





Os vencedores são:

Edison Eduardo Costa
Das duas atrizes, entre várias personagens magistrais escolho a divertida e engraçada Céci de "Cambalacho" de 1986 e a forte vilã Idalina de "Força de Um Desejo", 1999. 

A Céci e seus caprichos era quem dava o tom cômico, ao lado do marido Wanderley, ao núcleo sério da irmã Amanda. Situações divertidíssimas! Peça de teatro com a Rosa é sinônimo de bom entretenimento.

Dona Idalina, vilã que nunca deve ser esquecida, chegou ao ápice de cortar a própria mão com uma faca!
Brilhante e inesquecível trabalho desta atriz que é uma das maiores do teatro.
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Thávolo Romulo Pereira Henrique
Da Nathalia Timberg, a inesquecível "Tia Emília", da exitosa "Éramos Seis", de Silvio de Abreu e Rubens Edwald Filho, regravada em 1994 pelo SBT. Uma tia rica rancorosa, que se negava a ajudar financeiramente a família de sua sobrinha pobre, por conta de uma grande mágoa do passado. Uma mãe capaz de tudo para defender seus filhos. Mais uma belíssima interpretação da grande dama do teatro.

De Rosamaria Murtinho, a "Romana Ferreto", de "A Próxima Vítima". Dopada, foi jogada por Bruno na piscina da mansão onde morava. Essa morte tornou-se um clássico, e a interpretação de Rosamaria foi genial! Ela estava exuberante. Ímpar.
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Parabéns aos ganhadores!!!

Peço que enviem o número de suas identidades para o e-mail: vitor77@gmail.com e o dia em que querem assistir:
Dia 13/06 – Quarta-Feira, às 20 horas
Ou
Dia 14/06 – Quinta-Feira, às 17 horas.

Melão agradece os comentários e participações e conta com vocês nas próximas promoções!


sábado, 9 de junho de 2012

Melão leva você ao teatro: PROMOÇÃO "SOPRO DE VIDA"





Quer ir ao recém-inaugurado, mas já badaladíssimo THEATRO NET RIO conferir “Sopro de Vida”, espetáculo de David Hare, dirigido por Naum Alves de Souza e estrelado por duas de nossas maiores atrizes?

Basta deixar um comentário respondendo à seguinte pergunta:

QUAIS SÃO SEUS PERSONAGENS TELEVISIVOS FAVORITOS DE NATHALIA TIMBERG E ROSAMARIA MURTINHO E POR QUÊ?

Os autores das duas melhores respostas ganharão um par de ingressos para os dias 13 e 14 de junho.


O espetáculo está em cartaz às quartas às 20 horas e às quintas às 17 horas. Corra que é a última semana!

O resultado sairá nessa segunda, dia 11/06 após as 14 horas!
PARTICIPE!



REGULAMENTO:
1)    Ao postar o comentário, deixe seu nome completo;
2)    Os participantes só poderão concorrer com um comentário;
3)    O Theatro Net Rio se localiza no Shopping Cidade Copacabana, na Rua Siqueira Campos, 143 – 2º piso, no Rio de Janeiro. Portanto, o blog e o teatro não se responsabilizam por despesas de locomoção dos ganhadores.

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Série Memória Afetiva: grandes damas da televisão




quarta-feira, 6 de junho de 2012

Blogueiro convidado: Lufe Steffen celebra 29 anos de "Guerra dos Sexos"


GUERRA DOS SEXOS: UM MOMENTO INESQUECÍVEL

Por Lufe Stefen

Fernanda Montenegro e Paulo Autran em cena histórica
 Há 29 anos, em 6 de junho de 1983, estreava às 19h na Globo a novela “Guerra dos Sexos”. Para quem acompanhava as produções da época, parecia apenas mais uma atração leve para o horário. Apesar do elenco totalmente estelar e de certo luxo na produção, não dava para adivinhar o que estava por vir.

Mas rapidamente o público percebeu que não se tratava de mais uma novela comum. O primeiro capítulo já terminava com Glória Menezes acertando uma torta na cara de Tarcísio Meira. Era apenas o começo.

Eu tinha oito anos de idade e fiquei viciado nessa novela. Largava tudo para vê-la. Me lembro de uma festa junina na praça em frente à casa da minha avó paterna. Todo mundo na festa comendo pé de moleque, e eu afundado na poltrona da sala, vendo “Guerra dos Sexos”.

Adorava ler a revista “Amiga”, que sempre vinha com alguma matéria de capa sobre a novela. Eu recortava as fotos e fazia minhas próprias revistas, arremedos de “Amiga”. Talvez isso pronunciasse minha futura profissão de jornalista...

Enfim, ao lado de “Dancin’ Days” (1978/79) e “Vale Tudo” (1988/89), “Guerra...” forma a tríade que me marcou. Depois revi “Guerra dos Sexos” na reprise da Sessão Aventura em 1989, e mais recentemente, nos famosos DVDs que pululam por aí.

Nem vou falar da trama da novela, porque já é mais do que conhecida. Vale mais lembrar o pique da novela, que foi conduzido de forma vertiginosa, em uma narrativa pitoresca que empolgava o público, sem cair no tédio e na falta de interesse em nenhum momento. O ritmo era ágil e frenético, prendendo a atenção e cativando até o eleitorado masculino, naquela época um tanto avesso às novelas das 19h.

Me lembro do meu pai chegando em casa mais cedo do trabalho, para acompanhar a trama, numa época pré celular, pré internet, e até mesmo quando pouca gente tinha vídeo cassete. Lembro que ele riu muito com a cena em que Charlô vai à casa da Tia Semíramis (a maravilhosa Leina Krespi, já falecida), e a Frô (Cristina Pereira) desce a escada da casa, enrolada em uma toalha, avisando que a privada explodiu.

O sucesso foi total. O autor Sílvio de Abreu conseguia, enfim, implantar o tipo de comédia que vinha tentando desde sua primeira novela na emissora, “Pecado Rasgado” (1978/79). Se a tentativa foi frustrada nessa primeira experiência, em “Jogo da Vida” (1981/82) ele já conseguia esboçar seu objetivo: o auge do pastelão novelístico.

“Jogo da Vida”, também exibida às 19h, partia de uma sinopse de Janete Clair, o que poderia soar conservador. Mas na direção, como assistentes de Roberto Talma, surgiam Jorge Fernando e Guel Arraes. Os dois jovens diretores compraram a briga proposta por Sílvio e ajudaram a fazer de “Jogo da Vida” uma comédia maluca, com farta inspiração nos maiores clássicos de Hollywood.

O sucesso dessa novela surpreendeu a Globo, que assim decidiu dar mais liberdade ao autor. Na novela seguinte, Sílvio pôde então ousar mais, e refinar seu estilo. E até exigir alguns quesitos para que a proposta funcionasse, como o elenco de peso e a direção de arte inspirada nas décadas de 30 e 40. Sílvio conta mais sobre isso no livro “Autores”, da Globo.

Também dessas décadas, de 30 e 40, principalmente, vinha material para o autor: cinéfilo incurável e ex-cineasta, Sílvio acionou seu conhecimento enciclopédico sobre Hollywood e lançou mão das citações intermináveis. Como um Brian De Palma das novelas, recheou “Guerra dos Sexos” com dezenas de referências aos grandes clássicos.

“Os Homens Preferem as Loiras” (1953), “Levada da Breca” (1938), “Deu a Louca no Mundo” (1964), “A Mulher do Ano” (1941), “Golpe Sujo” (1978), entre muitos outros, foram citados e homenageados na novela. E o clima cinematográfico estava por toda parte: o tema incidental de mistério que permeava as cenas vinha do filme “Alta Ansiedade” (1977, de Mel Brooks); as trilhas instrumentais de “Star Wars” (1977) e “Yellow Submarine” (1968) também apareciam. O tom geral se inspirava nas chamadas “screwball comedies” dos anos 30. Na direção, a novela contava novamente com Jorge e Guel – mas desta vez como titulares.

Uma ideia genial era o fato de os personagens olharem para a câmera, dividindo pensamentos com o público, numa espécie de aparte na linha das comédias de Molière. Como a governanta Olívia (Marilu Bueno), que ao levar um beijo de Zenon (Edson Celulari), olhou para a câmera e disparou: “Francamente... eu não merecia isso!”

Outro grande trunfo era o elenco. Paulo Autran e Fernanda Montenegro – “pela primeira vez juntos”, como dizia o letreiro de abertura –, monstros sagrados do teatro brasileiro, arriscavam-se, entregando-se às maluquices propostas pelo autor. O clímax, como todo mundo sabe, é a famosa cena da guerra no café da manhã.

Tarcísio Meira também se destacou, criando um tipo cômico que parecia uma mistura de Jerry Lewis com Clark Kent. Maria Zilda foi um grande charme, com sua voz rouca, encarnando Vânia, dona das “belas pernas”. Mário Gomes como o motorista bobalhão Nando (com sua tatuagem que mexia com a libido de Roberta; aliás, eu queria ter uma tatuagem igual quando eu crescesse), Maitê Proença como a romântica Juliana e Lucélia Santos vivendo a odiosa, mas engraçada Carolina também foram incríveis. E o que dizer de Yara Amaral como Nieta e Hélio Souto como Nenê Gomalina?

José Mayer e Lucelia Santos: destaques de um elenco estelar
Fica quase impossível listar todos os destaques da novela, já que não havia nenhum ator ruim ou inadequado no elenco. Aliás, acho que naquela época não existiam atores ruins na TV.

Fico pensando em como será o remake de “Guerra dos Sexos”, que estreia neste ano. Naturalmente será uma novela diferente, até porque a vida, o mundo – e o Brasil – mudaram muito nesses 30 anos. As relações afetivas, sexuais, o jogo entre machismo e feminino, tudo isso tem outro contexto hoje.

Mudou também o estilo das interpretações televisivas, assim como dos atores que hoje são os mais populares. Nem sempre é possível ter, hoje, a elegância e a sutileza dos atores do passado.

Também o estilo de comédia rasgada que a versão original consagrou, foi bastante reproduzido e copiado ao longo dos anos, desgastando-se. Talvez esse remake não venha causar uma revolução na dramaturgia e nem mobilizar multidões, como ocorreu em 1983. Mas vale a pena esperar os ingredientes que Sílvio de Abreu vai colocar em suas tortas desta vez. Ele que está sempre pronto para atirá-las na nossa cara. “Touché!”, como diria Charlô.

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LUFE STEFFEN nasceu em 1975, é ator, cantor, cineasta e jornalista. Escreveu o livro "Tragam os Cavalos Dançantes" (lançado em 2008), sobre a casa noturna paulistana A Lôca, e atualmente é repórter de TV & Novelas do portal iG. 
Apaixonou-se por novelas em 1978, ao assistir "Dancin' Days". Seu Top Five é: "Vale Tudo" / "Guerra dos Sexos" / "Dancin' Days" / "Cambalacho" / "A Gata Comeu". 

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Blogueiro convidado: Ivan Gomes fala de "Guerra dos Sexos"


(25 anos de "Cambalacho)



sábado, 2 de junho de 2012

Blogueiro convidado: Raphael Ramos “livre para voar” e contar uma bela história.




 Nunca o termo “memória afetiva” fez tanto sentido no melão. Meu querido Raphael Ramos, a quem chamo carinhosamente de Rapholho, é dos meus! Noveleiro de mão cheia e memória “elefantesca”, temos em comum o fato de sempre relacionarmos fatos e memórias de nossas vidas à lembranças televisivas. Rapholho nos brinda com um belo texto, cheio de emoção e pleno das mais doces lembranças ao lado de sua querida mãe, com quem assistia a “Livre para voar”, novela que bate fundo em sua memória afetiva. Confesso que me emocionei com as imagens e lembranças evocadas pelo texto e tenho certeza de que vocês também vão gostar. Muito obrigado, amigo, pelo belo texto e parabéns pela sensibilidade!




Memória Afetiva – Livre para Voar (1984/1985)

Por Raphael Ramos



  Acordar para vida é quando uma criança se dá conta que ela existe no mundo e precisa falar, comer, andar, pensar... . O meu despertar foi em frente à TV e, mais especificamente, numa teledramaturgia. Eu amo as novelas porque eu amava minha mãe e uma coisa sempre foi ligada a outra. Os poucos dez anos que eu tive ao lado da dona Aparecida foram tão intensos e marcantes que eu resgatei da minha “elefantesca” memória a novela “Livre para Voar” (1984/1985) de Walther Negrão e colaboração de Alcides Nogueira. A obra foi a primeira de muitas ao lado da matriarca da família. Ela me acompanhou até “Felicidade” (1991/1992) e de lá pra cá, eu tive que continuar mantendo esse meu vício sozinho. “Felicidade” de Manoel Carlos é outra felicidade à parte, que cabe em outra passagem afetiva.

  Eu tentei me enganar por não conseguir acreditar na minha memória, mas me recordo que o horário era vespertino, hora de lanchar com a mamãe. Apesar de ter apenas quatro anos, não pude esquecer isso:
- Mãe, que horas são?
- São 18h00min, hora de lanchar com a mamãe e ver o Pardal (personagem protagonista de Tony Ramos).

  Pardal era da minha família, foi meu primeiro herói e me iludiu com meu primeiro final feliz. Ele me mostrou que pode ser bom morar num vagão de trem. Eu queria ser o Gibi (Fernando Almeida) para estar ali naquela situação. Eu quis ser feliz pra sempre pela primeira vez e fiz a minha mãe me levar em Poços de Caldas (Minas Gerais) a fim de me sentir dentro da história.

   Walther Negrão e Alcides Nogueira foram os responsáveis pelo meu primeiro sonho que me faz admirá-los até os dias de hoje, eles me fizeram torcer até o final pela Vitória de Bebel/Cristina (Carla Camuratti) e Pardal contra as maldades ardilosas de Helena (Dora Pelegrino) e Danilo (Carlos Augusto Strazzer).

   A trama era despretensiosa e deu certo sem ter a ousadia de ser um sucesso retumbante, foi apenas um sucesso que me deixa lindas recordações e me faz ouvir até hoje a faixa “Chico” de Renato Teixeira na trilha nacional e “Drive” da banda The Cars na trilha internacional. É só ouvi-las que todo saudosismo volta ao coração.

   Discordo com alguns críticos que analisam a trama como boa, porém inconsistente. Construiu na minha vida e na vida de todos que viram e reviram a novela. Eu sempre digo que tenho várias novelas na minha vida, mas “Livre para Voar” foi o primeiro passo, foi “a mais bela flor que alguém já viu nascer e não esqueceu de trazer força e magia, o sonho, a fantasia e a alegria de viver...”


Obrigado, Rapha! Textos como o seu me fazem acreditar no poder e na importância da telenovela em nossas vidas! 
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LEIA TAMBÉM:

A Urca de “A gata comeu”.






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