domingo, 2 de maio de 2010

Série Memória Afetiva: O sexo dos anjos



Ivani Ribeiro (Santos, 20 de fevereiro de 1922 — 17 de julho de 1995) adorava escrever histórias ingênuas, inocentes, no melhor estilo “água com açúcar”, ainda que dois de seus grandes sucessos na Rede Globo, “Mulheres de areia” (1993) e “A viagem” (1994), fugissem desse estilo. No entanto, escrever histórias ingênuas e simples nunca significou que elas fossem tolas, simplórias. Um dos grandes méritos de Ivani foi o de nunca menosprezar o espectador. Suas tramas, mesmo que fantasiosas, primavam pela coerência e fidelidade ao estilo proposto e eram sempre aliadas a um envolvente texto.

Nessa linha é que em 1989, Ivani nos brindou com a bonitinha O sexo dos anjos, novela do horário das 18 horas, com direção geral de Roberto Talma, remake de um antigo sucesso seu na TV Excelsior chamado “O terceiro pecado”. A história sobrenatural  girava em torno da doce Isabela (Isabela Garcia), jovem que foi escolhida pelo anjo da Morte (Bia Seidl) para morrer. Para isso a Morte envia um de seus emissários, Adriano (Felipe Camargo) para cumprir a tarefa e buscar a jovem. No entanto, Adriano acaba apaixonando-se por Isabela e quer levar a irmã da moça em seu lugar, a rebelde e voluntariosa Ruth (Sílvia Buarque). Depois de muito negociar, Adriano consegue um acordo: ele só levará Isabela quando esta cometer três pecados. A partir daí, o que vemos é uma espécie de disputa entre a Morte e seu emissário. Adriano se materializa e se passa por professor de tênis de Ruth, que se apaixona por ele, para poder freqüentar a casa e proteger Isabela, ao passo que a Morte também se materializa e assume a identidade de Diana, também freqüentando a casa da família, já que faz amizade com Leonor (Miriam Pérsia), mãe das jovens. Enquanto Adriano faz de tudo para evitar que Isabela cometa os pecados, Diana faz exatamente o oposto. Leonor tem outros dois filhos: Tomás (Marcos Frota), surdo-mudo de ótimo coração e melhor amigo de Isabela, que vive às turras com Ruth; e Otávio (Humberto Martins, estreando em novelas), que assumiu os negócios da família após a morte do pai. Tomás descobre que Adriano é anjo e faz de tudo para que ele conquiste Isabela, que odeia Adriano, o maltratando permanentemente.


No entanto, Adriano consegue encontrar Isabela nas noites em que o espírito da moça sai de seu corpo e vai ao encontro dele. Dessa forma, os dois fazem juras de amor, mas Isabela nunca se lembra de nada no dia seguinte. Toda vez que aconteciam esses encontros amorosos, o público era brindado com a belíssima canção “Dedicado a você”, de Dominguinhos e Nando Cordel, interpretada com maestria por Zizi Possi. As cenas eram muito bonitas e líricas. No fim, Adriano consegue impedir  morte de Isabela e torna-se um mortal para poder viver seu grande amor. Diana faz com que eles nunca se lembrem de nada.

A questão da ecologia estava muito em evidência na época. E a autora abordou o tema através da história de Renato (Mario Gomes), missionário e ecologista perseguido na Amazônia, que assume a identidade do cunhado de Leonor, Padre Aurélio (Stenio Garcia), após a morte deste. Renato se faz passar por padre e também se integra à família de Leonor e (pasmem!), acaba se envolvendo com Diana, o anjo da Morte. Por mais fantasiosa que a história pudesse parecer, Ivani tinha a capacidade de fazer com que o espectador gostasse de acreditar naquilo tudo e torcesse para que tudo terminasse bem. Uma fábula moderna, cheia de charme e com estilo único e todo especial que só a autora possuía.


A novela ainda tinha outros personagens carismáticos como a fogosa e irreverente Francisquinha (Eloísa Mafalda, sempre ótima!), parente distante que vem para o Rio participar de um concurso de lambada (sim, a lambada estava com tudo!) e ao som de “Adocica”, de Beto Barbosa, protagonizou cenas hilárias com o atrapalhado detetive Aranha (Tonico Pereira), contratado por Rogê (Otávio Muller), namorado de Isabela, para investigar Adriano. O anjo provocava Aranha, desaparecendo na frente dele, deixando o detetive morrendo de medo. O núcleo jovem ainda contava com o casal Gigi e Zé Paulo (Carla Marins e Irving São Paulo), jovens de classes sociais diferentes, que tiveram que enfrentar a resistência das duas famílias para ficarem juntos. Zé Paulo era superprotegido pela amargurada Vera (Norma Bengell), que disputava com a irmã Leonor o amor do médico da família, Durval, vivido por Paulo Figueiredo. No final da novela, descobria-se que Durval era o verdadeiro pai de Tomás. A irmã de Isabela Garcia na vida real, Rosana Garcia, também esteve no elenco da novela, vivendo a ambiciosa Lucinha, filha do porteiro de um prédio chique em Ipanema, que trabalhava no supermercado com Gigi, mas fingia ser rica para o namorado Cássio (Rodolfo Bottino), que também se fazia de playboy, mas era filho do jardineiro Bastião (Lutero Luís, que faleceu durante a novela). Bianca Byington, como a reprimida Neide, Caíque Ferreira, Cosme dos Santos, Ilva Niño, Stepan Nercessian, Paula Burlamaqui, Inês Galvão e João Camargo também faziam parte do elenco, entre outros.

A abertura da novela simulava uma festa no céu em que os convidados eram flechados por cupidos animados ao som da balada de estilo cinquentista “Matiné no Rian”, interpretada por Paula Toller e João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Rosana (Onde o amor me leva), Yahoo (Anjo), Lulu Santos (A2), Eduardo Dusek (Sou eu) e Marília Pêra (Amendoim Torradinho)  eram algumas dos nomes que compunham a trilha nacional da novela. Já a internacional, tinha grandes sucessos do pop e do rock da época como “Sweet child o’mine” (Guns n’ roses), “If you don’t know me by now” (Simply Red) e “Listen to Your Heart” (Roxette), que foi o tema internacional dos protagonistas, entre outros. Mas a música que mais tocava era a balada “Namorar”, cantada pela desconhecida Claudia Olivetti, presente praticamente em todas as cenas românticas dos núcleos jovens da novela.  

Mesmo que não tenha sido uma novela memorável para o grande público, “O sexo dos anjos” foi uma novela simpática, romântica e envolvente, que possuía a marca inconfundível de Ivani Ribeiro: a capacidade de sonhar e fazer sonhar sem medo de ser feliz.

"Ainda que eu fale a línguagem dos homens e dos anjos. Ainda que tenha o dom de profetizar, se não tiver amor, eu nada serei" (passagem bíblica que Adriano repetia para Isabela e que era a mensagem principal da novela).

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13 comentários:

ALADIM MIGUEL disse...

Essa novela foi o máximo! Pena que fomos enganados recentemente com o boato sobre a sua possivel reprise so VPVN.Uma pena...
P.S.Gostava muito quando as cenas com a Gigi (Carla Marins) eram embaladas pela linda balada romântica "Onde O Amor Me Leva" da Rosana.

Agnaldo Xavier disse...

Saudades dessa época. Guardo lembranças muito gostosas dessa novela.

Parabéns pelo belo texto.

Eddy disse...

Essa novela é a minha cara!

Ivan Marcio disse...

Sexo dos Anjos é um xodó meu! tenho muito carinho por ela!

Parabéns pelo texto Vitinho!

RÔ_drigo disse...

Legal saber+sobre essa novela^^
Foi a ultima inédita da Ivani né??
(Sem contar Quem é você??)

O Vitor viu... disse...

Não, Dog! A última inédita da Ivani foi "Final feliz", de 1982. Essa tb era um remake de "O terceiro pecado", conforme expliquei no início do texto. Abração!

Elaine disse...

Vitor, eu tinha 12 anos quando assisti "O sexo dos Anjos" e me lembro desta novela até hoje com muito carinho. Adorava a trama, os romances, as músicas... É uma pena que quase não falem dela hj em dia. Seria o máximo assistir a reprise. Obrigada por me trazer de volta estas doces lembranças. Bjs

Eu, Wesley disse...

Vitor mais uma vez mostra a força do Melão ao prestigiar a memória da nossa televisão brasileira. E claro, tem o meu apoio.
O Sexo dos Anjos foi uma novela deliciosa e charmosa. Realmente Ivani era uma mestra e temos muito o que aprender com ela.
Lembro-me que quando terminou O Sexo dos Anjos, eu cheguei a chorar... kkkk
Aliás, aquelas novelas de 89/90 são muito marcantes pra mim.

Parabéns Vitor!

Duh Secco disse...

Perfeito! O Sexo dos Anjos é uma trama que me agrada demais! Como o Eddy já disse, é uma novela com a minha cara. rsrs

JOSE disse...

Eu disse lá no Orkut e aora aqui: Nem falaram do Luigi Baricelli na abertura da novela...

Ah ...essa novela era demais!!!

Esqueceram de por na trilha naciopnal o tema instrumental do Tomaz...Percebido a falha deram um jeitinho de encaixá-la na internacional,porém com outros arranjos parecidos...

Estréia de Paula Burlamaqui na tv,q antes era apenas a garota do fantastico.

Daniel Pepe disse...

Gosto quando a novela passa uma mensagem, além da função primordial do entretenimento, marca também de outras novelas da Ivani.

O Sexo dos Anjos cumpriu muito bem os dois papéis.

Adailton Moriarthy disse...

Um destaque que essa novela tem e que talvez alguns não tenham lembrado é sobre as trilhas instrumentais desta novela, eram lindas, maravilhosas, e até teve trilhas importadas, é, do cinema americano, mais precisamente de filmes da série A Hora do Pesadelo para as cenas de suspense ou ação. Me lembro de três delas na novela. Alguém lembra disso?

adriano Heart disse...

Eu choro só de imaginar vendo essa novela novamente ...amo demais !!

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