quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Blogueiro convidado: Raphael Scire e a metalinguagem em “Ti Ti Ti”.

                                                                                                                                                                                                           
                                                                                                                                                                                
Inaugurando o novo banner, o melão recebe mais um blogueiro convidado.



 Jornalista de São Paulo, de 22 anos, Raphael Scire é mais um noveleiro a colaborar com o melão. Fã de Sílvio de Abreu, Gilberto Braga e Maria Adelaide Amaral, Raphael elegeu a atual novela da autora citada como assunto de seu texto: a metalinguagem em “Ti Ti Ti”, que vem divertindo o público, sobretudo, os apaixonados por telenovelas como nós. Além de escrever muito bem, Raphael também é um ótimo papo pelo Twitter (@Raphael_Scire ). Quem seguir o rapaz não vai se arrepender. O melão agradece mais uma excelente colaboração. Como é bom ter amigos inteligentes...



A metalinguagem de Ti ti ti

Por Raphael Scire


A aposta da Rede Globo para recuperar a audiência na faixa das 19h não poderia ter sido mais certeira. O remake de Tititi e Plumas e Paetês, dois clássicos de Cassiano Gabus Mendes dos anos 1980, trouxe uma trama leve, romântica e bem humorada, tudo muito bem dosado por Maria Adelaide Amaral e equipe, que sabem a hora certa de carregar a tinta tanto na comédia como no drama.

É uma delícia ver Malu Mader (Suzana) segurar o riso nas cenas em que Jacques Leclair (Alexandre Borges) e Ari – o melhor papel de Murilo Benício na televisão até agora – disputam sua atenção. A Jacqueline de Claudia Raia é outro ponto de destaque. Surtada e adorável, é dona de frases cortantes, divertidas e alucinadas. Rodrigo Lopez (Chico) começou a novela algo que caricato, com forte sotaque paulistano, a acentuar sua profissão de motoboy. Aos poucos, foi ganhando a simpatia do público e suas cenas com Nicole (Elizângela) são hilárias.

Mas o que torna o remake de “Tititi” ainda mais emblemático do que o próprio original é a liberdade que a autora vem tendo para divertir o público, em especial os aficionados por telenovelas. Há, pelo menos, uma citação a outras novelas de sucesso por dia. Metalinguagem televisiva nunca vista antes.

Logo nos primeiros capítulos, quando Jorge Fernando fez uma participação como ele mesmo, Ari explicou a Chico quem era o diretor: “Jorge Fernando, Chico, aquele que dirigiu A próxima vítima”. A novela em questão, escrita por Silvio de Abreu, contou com a colaboração da própria Maria Adelaide.

Malu Mader em "Fera Radical": uma das mais frequentes citações da novela.

Jacqueline, por exemplo, é uma das que mais solta tais pérolas. Ela alfineta a “rival” Suzana chamando-a de Fera Radical, referência explícita à trama protagonizada por Malu Mader nos anos 1980. Em uma cena, ao comemorar o sucesso de Jacques Leclair, Jacqueline propõe um brinde entre ela e o amado. A empregada Rosário (Rosanna Viegas), animada, pede para participar e ouve da patroa: “Ih, olha a empregada querendo ter fala. Isso aqui não é novela do Manoel Carlos, não!”


Ari, ao explicar a Mabi (Clara Tiezzi) sua relação com Victor Valentim, comparou-a com a de Murilo Benício na novela “O Clone” (foto), em que o ator tinha dois papéis. Isso tudo, é claro, com enorme esforço de Benício para segurar o riso.


E não é só a novelas que são feitas referências. Thaysa (Fernanda Souza), na tentativa de conquistar Adriano (Rafael Zulu), disse ao rapaz que dançaria para ele, a fim de fazer com que ele deixasse de ser gay. Prontamente, ele respondeu que ela só dançaria na “Dança dos Famosos” do programa do Faustão. Explica-se: a atriz Fernanda Souza foi a campeã da última etapa do quadro. A dupla rendeu ainda mais risada aos nostálgicos telemaníacos. Adriano, ao ver que Thaysa chegava ao mesmo local onde ele estava soltou essa: “lá vem essa Chiquitita taradita”. Uma amostra de que a metalinguagem  de Ti ti ti não fica apenas nas produções da emissora.

Fernanda Souza nos tempos de "Chiquitita", novela do SBT.

Ti ti ti é um claro exemplo de que um verdadeiro clássico se faz com base em verdadeiros clássicos. A continuar assim, a trama de Maria Adelaide Amaral reserva inúmeras boas surpresas para nós, loucos por telenovelas.
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Leia também: "Ti Ti Ti: uma novela sem vergonha de ser novela
http://euprefiromelao.blogspot.com/2010/08/ti-ti-ti-uma-novela-sem-vergonha-de-ser.html
                                                                                                                                                                                                                                      

10 comentários:

Eddy Fernandes disse...

Ótimo texto!

Melão sempre trazendo gente inteligente para falar de dramaturgia. Parabéns ao Raphael, que foi muito coeso e coerente.

Gosto bastante das metalinguagens de "Ti Ti Ti". Para os aficcionados do gênero (como eu), é um prato cheio. Mas para o grande público, piadas como a da "Fera Radical" passam batidas, as referências não são captadas.

E até nisso Adelaidão está sendo inteligente. A metalinguagem tem sido usada com parcimônia.

Fábio Leonardo disse...

Desde "Cobras & Lagartos", nenhuma novela me prendia tanto às 19h. "Ti Ti Ti" é, certamente, uma das melhores coisas que já vi no horário, quiçá na emissora, em todos os tempos. Não arrisco dizer que a trama está se tornando mais memorável que a anterior, uma vez que se tratam de momentos diferentes. Mas acho difícil que a novela de Cassiano em 1985 conquistasse um suposto Fábio dos anos 80 da mesma forma que este delicioso remake de Adelaide.

Fábio Leonardo disse...

Outro grande foco de metalinguagem em Ti Ti Ti são os diálogos de Mabi e Lipe. No dia em que Marta foi tirar satisfações com Jacques pela formo como Gabi foi tratada por Pedro, Lipe saiu com uma de "isso parece uma novela de Glória Magadan!".

Duh disse...

Ti Ti Ti é uma das melhores surpresas dos últimos tempos em matéria de novela. E essas referências representam, sem sombra de dúvida, um dos maiores atrativos da trama.

Texto muito bom. Parabéns ao Raphael e ao Vitinho, pelo alto nível do blog.

Daniel Pepe disse...

Realmente esse aspecto da metalinguagem é um dos atrativos para os noveleiros de carteirinha. Parece que em todas as semanas, em mais de um capítulo, achamos algumas tiradas dessas. Algumas são tão sutis que tem que estar bem antenado pra notar. Depois que me falaram, passei a notar na planta que atrapalha a passagem no ateliê do Valentim, uma possível referência a Brega & Chique.

! Marcelo Cândido ! disse...

A novela surpreendeu e essa metalinguagem cresceu e mostra que inovar pode ser em apenas algumas frases e não nos personagens totalmente...
!Show

DAVI VALLERIO disse...

"Mas o que torna o remake de “Tititi” ainda mais emblemático do que o próprio original"...MELHOR QUE A ORIGINAL?!!!LUIS GUSTAVO,MARIETA SEVERO,REGINALDO FARIAS,NATHALIA TIMBERG,LUCIA ALVES...COITADOS DE VCS QUE COMEÇARAM A GOSTAR DE NOVELA A PARTIR DE A INDOMADA SE CONTENTAM COM TÃO POUCO ACHAR QUE ESSA VERSÃO RETARDADA E CAFONA DE TITITI É MELHOR QUE A ORIGINAL,QUE INCLUSIVE,DAVA O DOBRO DE AUDIENCIA DESSA CAFONISSENUMA EPOCA EM QUE SE ESTAVA PASSANDO NADA MAIS NADA MENOS QUE ROQUE SANTEIRO

Celina disse...

Alguém sabe o que aconteceu com a novela? Ela começo ótima, com diálogos inteligentes e engrassadíssimos (provavelmente de Vincent Villar), mas de repente, de uns meses pra ca, perdeu a graça. A personagem de Claudia Raia perdeu seus referenciais paulistanos, da geracao que hoje esta na casa dos 30. Os filhos de Jacques Leclair perderam todo o encanto da discussão intelectual (e bem humorada!) entre apocalíticos e integrados. Deixei de ver a novela... Não a reconheço mais. Alguém sabe se houve mudanças no time de roteiristas, ou alguma outra coisa??? Bjs

TH disse...

Eu concordo totalmente com o texto do Raphael. Ti ti ti não abre mão do humor inteligente e faz referencia a inumeras metáforas do mundo das novelas e isso faz com que a obra seja assoviável, além do excelente texto de Adelaidão.
Sobre o comentário acima, Celina, não sei se houve uma queda. Acho TI TI TI e PASSIONE boas novelas e que conseguem me prender, nessa epoca de tão pouca criatividade e onde os "mais-do-mesmos" reinam..

Gosto. Ponto final!

Rodrigo disse...

Essa metalinguagem e esse clima "Festa Ploc" babaca de "Ti-Ti-Ti" é coisa desses novos roteiristas que entram na TV e acham que a década de 80 foi a única coisa produtiva no mundo ou a única que já existiu na vida de qualquer pessoa. Alienação pouca é bobagem!

Pra mim, não acrescenta nada à novela. É assim que a Rede Globo quer conquistar públicos mais jovens: falando de velharias?

Os autores não querem mais inovar, só querem fazer 'remakes' e, principalmente, não acompanham a cabeça e as tendências das novas gerações. Por tudo isso, a telenovela está acabando!

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