segunda-feira, 12 de março de 2012

“Barriga de Aluguel” e “Fina Estampa”: mesmo tema, enredos diferentes.





Há mais de duas décadas atrás, Gloria Perez, sempre visionária, apresentou uma sinopse que abordava um assunto novíssimo na época: barriga de aluguel. Devido à modernidade do tema, a novela só iria ao ar há uns anos depois, em 1990, ainda com ares de novidade e o dilema em torno de quem é a verdadeira mãe de Carlinhos/Junior parou o Brasil: a mãe biológica Ana (Cassia Kiss) ou a mãe que gerou a criança Clara (Claudia Abreu)? Na época, Gloria contou com a ajuda de uma juíza de verdade, a Dra. Ana Maria Scartezzini, que deu o veredito em favor de Ana, contrariando a opinião popular.

Mais de vinte anos depois, o mesmo tema volta à tona em uma trama do horário nobre na novela “Fina Estampa” e, coincidentemente, “Barriga de Aluguel” tem sua reprise exibida no Canal Viva. É um tema antiquíssimo, bíblico, diga-se de passagem, e não estou aqui falando do procedimento de barriga de aluguel propriamente dito, que não é o caso da novela das nove, mas de duas mães que reivindicam a maternidade de uma criança. Ao contrário do Rei Salomão, que decidiu cortar a criança em duas partes, nossos intrépidos autores vão mais fundo nessa questão e avaliam a situação de todas as óticas possíveis para chegar ao desfecho.

Em “Fina Estampa”, não se trata de uma barriga de aluguel, mas de uma inseminação artificial feita por Esther (Julia Lemmertz), no consultório da Dra. Danielle Fraser (Renata Sorrah). O que Esther não sabia, no entanto, é que o óvulo fecundado era da cunhada da médica, Beatriz (Monique Alfradique) e o espermatozoide de seu irmão falecido. O segredo foi revelado por Glória (Monica Carvalho), secretária da médica, o que desencadeou todo o dilema.

Muito mais do que reproduzir uma situação de uma novela de 20 anos atrás, Aguinaldo Silva mostrou que o tema não é fechado e pode apresentar novos desdobramentos e situações diferentes. Se na novela de 1990, ficou claro que a mãe biológica era a que tinha direito à guarda da criança, será que o mesmo veredito pode ser aplicado na novela atual, já que não houve nenhum acordo firmado entre Esther e Beatriz e ambas sequer sabiam da existência uma da outra?

Do ponto de vista ético, “Fina Estampa” também revela modificações na sociedade entre uma novela e outra. Se em 1990, Dr. Baroni (Adriano Reys) foi acusado de antiético por simplesmente ser o responsável pelo procedimento de barriga de aluguel com o consentimento de ambas as mulheres, o que dizer de Dra. Daniele, que premeditou toda a situação e escondeu seu ato de todos, movida pelo desejo de ver um sobrinho seu vindo ao mundo? Dessa vez, qual das mães tem direito à criança? Esther ou Beatriz? Como se vê o tema não é tão simples assim e, a exemplo de “Barriga de Aluguel”, não há uma solução fácil e o final sempre pode ficar em aberto.

A sequência final de “Barriga de Aluguel”, (um dos melhores e mais bonitos finais de novela em minha opinião) mostra o encontro das duas mães e Ana, mesmo com a guarda da criança, propõe a Clara que elas entrem em um acordo e busquem uma solução juntas. A cena da criança caminhando de mãos dadas com as duas mães é sublime e antológica.
Não sabemos qual será o desfecho da trama de “Fina Estampa”, que termina esse mês. O fato é que a dramaturgia é tão rica e está sempre de olho nas modificações pelas quais passa nossa sociedade, que um mesmo tema pode ser recontado de diferentes formas com igual frescor e criatividade. Salve nossa teledramaturgia! 



2 comentários:

Lucas disse...

Pertinente o Aguinaldo Silva abordar o tema em "Fina estampa", só acho que essa trama poderia ser o pano de fundo de uma história e não uma trama paralela. E pelo que o autor divulgou, deve seguir a risca a lei brasileira, considerando Esther a mãe da criança. Abraço!
Lucas - www.cascudeando.zip.net

Ivan disse...

Barriga de Aluguel é, até hoje, a novela da Glória que mais gosto.

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