sexta-feira, 18 de junho de 2010

Série Memória Afetiva: 10 divas televisivas.

                                                                                                               

MEUS AMORES DA TELEVISÃO – Cresci com elas...

Chegou a hora do melão revirar seu baú e revelar mais lembranças televisivas que se confundem com a própria vida. Claro que a lista a seguir não pretende representar o senso comum, embora muito se tenha dele, afinal, todo mundo da minha geração cresceu assistindo e convivendo com essas e outras maravilhosas mulheres. Impossível alguém que não admire pelo menos uma delas. Por isso, o melão estende seu tapete vermelho e apresenta as atrizes que povoaram o imaginário deste que vos fala desde à mais tenra infância. São mais do que atrizes (afinal atriz boa é o que não falta em nosso país e a lista seria enorme): são divas, deusas, mitos que povoam nosso imaginário.

Ver um bom ator em cena é sempre gratificante, mas atrizes pra mim serão sempre imbatíveis.

Eis as minhas:

1) Betty Faria



Não é segredo pra ninguém que é minha favorita desde sempre. É muito difícil transpor em palavras o amor e a admiração que sentimos por alguém, por isso não sei dizer com exatidão por que gosto tanto dela. Talvez porque lembre minha mãe? Talvez por ser mais que atriz, na verdade, uma estrela de primeira grandeza? Talvez por ser superlativa, linda, rebelde, talentosa, sensual? Talvez por interpretar seus papéis com tanta força e entrega? Talvez por ter o biótipo que represente a síntese da mulher brasileira? Talvez por representar um certo protótipo de feminilidade? Sim, gosto de Betty faria por todos esses motivos e por mais alguns que não consigo expressar. O fato é que, a partir dos anos 70, marcou a teledramaturgia interpretando mulheres fortes, marcantes, como Lucinha, a cinderela de subúrbio de “Pecado capital” (1975) ou a estonteante e intensa protagonista de “Tieta” (1989). Na contramão dos tipos sensuais, também é capaz de encarnar tipos submissos como Antônia de “De corpo e alma” (1992) ou rainhas do lar com Amélia de “Uma rosa com amor”(2010). Enfim, Betty é minha favorita e não é a primeira vez que digo isso aqui. Mas não custa repetir sempre...


2) Glória Menezes



Um verdadeiro patrimônio de nosso país. Junto com Tarcísio Meira, forma o casal mais famoso da história da teledramaturgia. Seu rosto é tão conhecido e sua presença nas novelas tão constante que é quase impossível que algum brasileiro não a conheça. Glória é uma atriz talentosa, claro, como tantas em nosso país. Mas tem um tipo de carisma único, que faz com que se torne especial, única. Minha primeira lembrança dela é da novela “Guerra dos sexos” (1983), onde não deixava dúvidas por quem deveríamos torcer. Sempre nos dá a impressão de que interpretar é tão simples como respirar. Sua galeria de heroínas é extensa e marcante, mas quem achava que Glória se limitava a elas, teve suas duvidas totalmente dizimadas com a célebre vilã Laurinha Figueiroa, de “Rainha da Sucata” (1990) considerada por muitos como o seu melhor trabalho. Ainda hoje em uma idade em que muitas atrizes ganham papéis secundários, Glória ainda rouba a atenção do público e muitas vezes centraliza as ações como no caso de Dona Irene, de “A favorita”. Uma estrela de verdade como ela sempre estará no olho do furacão.


3) Yoná Magalhães



Dividiu com Glória Menezes nos anos 60 o posto de atriz mais popular do país e revezava com ela no papel das heroínas televisivas, fazendo par com o saudoso Carlos Alberto. De lá pra cá, manteve sua beleza. Sempre foi sinônimo de mulherão e, de certa forma, ficou aprisionada nesse estereótipo. Lembro bem dela em “Amor com amor se paga” (1984), mas foi com “Roque Santeiro” (1985), vivendo Matilde, a dona da pousada e da boate “Sexus” que tive a real noção de que se tratava de uma grande estrela. Hoje em dia vive muitos papéis de mãe, avó, vários deles aquém de sua capacidade. Mas sempre que tem chance mostra que pode centralizar as atenções como a Carmela de “A próxima vítima” (1995), a Valentina de “Meu bem, meu mal” (1990) ou como a submissa Tonha de “Tieta” (1989), papel que foi um divisor de águas em sua carreira, já que teve a chance de fugir do estereótipo de mulherão (pelo menos no início da novela), como uma mulher maltratada e sofrida, que dá volta por cima e retorna linda e poderosa ao Agreste. Ali, Yoná provou que além de estrela, é também uma grande atriz, capaz de tipos únicos e antológicos.


4) Regina Duarte

 


 O que dizer? Ela é o rosto mais conhecido da TV. A mais representativa e emblemática das atrizes. Seu título de namoradinha do Brasil passa de mão em mão por jovens atrizes de tempos em tempos, mas nenhuma com tanto brilho e expressão. O Brasil namorou carinhosa e apaixonadamente Regina durante todos esses anos e namora até hoje. Das românticas mocinhas dos anos 70, La Duarte deu uma guinada no início dos 80 com a divorciada e independente personagem título de “Malu Mulher”. Outra guinada veio com “Roque Santeiro” (1985), quando mostrou que podia fugir dos tipos sofridos e interpretar a fogosa, engraçadíssima e incorretíssima Viúva Porcina, que marcou época e até hoje povoa o imaginário de muita gente. Regina tem o poder de polarizar atenções e mobilizar o país em torno dos dilema das mulheres que interpreta. O Brasil sempre chorou, sofreu e torceu por ela. Quando Raquel rasgou o vestido de noiva da filha ingrata em “Vale Tudo” (1988), o Brasil rasgou e vibrou junto. Há quem não goste de seu estilo de representar, mas com uma coisa todos concordam: nenhuma atriz alcançou tamanha popularidade na TV como ela. Regina rainha da sucata, Regina Simone, Regina Luana, Regina Helena. São muitas em uma só.



5) Dina Sfat



Fazia um interessante contraponto com Regina Duarte em diversas novelas. Enquanto Regina representava a delicadeza e a fragilidade, ela era a força, a intensidade. Uma das batalhas mais memoráveis da TV foi em “Selva de Pedra” (1972) em que sua personagem Fernanda infernizava a vida da Simone de Regina Duarte. Pena eu não ser nascido pra presenciar tal momento. Falecida precocemente em 1989,  dois meses depois do fim de "Bebê a Bordo", em que vivia a personagem Laura. Minha primeira referência sobre a atriz veio com a Paloma de “Os gigantes” (1979). Não cheguei a assistir à novela, era pequeno demais, mas sempre ouvi minha família comentando o quão ela esteve bem na novela. Conheci Dina pra valer na minissérie “Rabo de saia” (1984) como uma das mulheres de Quequé (Ney Latorraca). De uma beleza madura, intensa, ao mesmo tempo comum e única. Seus olhos são, sem dúvida, os mais expressivos da TV. A impressão que ela passava era a que seria capaz de fazer qualquer papel. E de fato em sua carreira ela interpretou de tudo. Os mais de vinte anos em que não aparece mais na Tv não lhe tirou o título der estrela marcante e inesquecível. Todos queríamos que ela tivesse ficado um pouco mais com a gente. Mas diva é diva e permanece.


6) Lucélia Santos



Uma das mais versáteis atrizes que conheço. Suas carreiras em cinema e teatro são um caso à parte. Arrebatou o país com “A escrava Isaura” em 1976, novela responsável por apresentar ao mundo nossa teledramaturgia. Até hoje o verso “lerê lerê” da canção de Dorival Caymmi nos remete à escrava branca que sofria nas mãos de seu senhor. Mas a interpretação de Lucélia não se resume a apenas isso. Uma das qualidades que mais admiro nela é sua imensa e supreendente versatilidade: ela vai das mocinhas mais puras e ingênuas às mais lascivas e despudoradas mulheres, com muitas camadas de gradação entre estes extremos. Minha lembrança mais antiga dela em TV foi em “Guerra dos Sexos” (1983), em que interpretava a dissimulada Carolina. Ali já tive a prova de seu talento, pois não é nada fácil fazer uma diabinha que se faz de santa de maneira crível. Lucélia protagonizou durante muito tempo diversos personagens na Tv diferentes entre si. Logo após a ingênua “Sinhá Moça” (1986) deu vida á exuberante e sensual Carmem em 87. Inexplicável sua ausência da TV nesses anos todos. Em uma entrevista recente, fiquei impressionado, não só com sua seriedade e seu profissionalismo, mas também com sua capacidade de realização e a assertividade de suas opiniões. Sem dúvida, uma mulher forte e admirável e uma das mais camaleônicas de nossas atrizes. Que seu retorno à Tv (em grande estilo) seja breve.


7) Glória Pires


Seu nome é sinônimo de qualidade desde sempre. A mais sucedida de todas as atrizes mirins. Cresceu diante dos olhos do público e se agigantou a cada trabalho até se tornar a melhor atriz de sua geração. Disputada por todos os autores, Glória Pires nunca teve a delicadeza de uma Regina Duarte, a sensualidade de uma Sonia Braga, nem a expressividade de uma Dina Sfat. Ao contrário, fisicamente é um tipo bem comum. Por isso mesmo consegue transitar por todos os tipos e personalidades com uma facilidade única. Meu “apaixonamento” por ela foi com a sofrida Ana Terra em “O tempo e o vento” (1984). Mesmo aos sete anos, ficava vidrado diante da tela porque sabia que ali estava uma atriz especial. Ana Terra quase não tinha texto. Falava pouco. A atriz se garantia muitas vezes no olhar, no gestual, na expressão. E o que dizer de Maria de Fátima de “Vale Tudo” (1988)? Hoje em dia em que vilãs estereotipadas e maniqueístas caem nas graças do público, Gloria soube, na época, interpretar com maestria essa vilã controversa e humana e, por isso, mesmo, muito mais difícil. Aliás, não há desafio que Glória não vença. Em “Mulheres de areia” conseguia interpretar quatro tipos diferentes: Ruth, Raquel, Ruth fingindo ser Raquel e Raquel fingindo ser Ruth. Sabe ser vulgar como Sarita em “Mico Preto” (1990), retraída como Julia em “Belíssima” (2006), guerreira e rude como Maria Moura (1994)... Dona de imensas potencialidades, nunca apresenta um trabalho menos do que magistral.


8) Maitê Proença


Essa não poderia faltar em minha lista porque foi minha primeira referência de beleza. Quando a vi em “Guerra dos sexos” imaginava que não existia mulher mais linda no mundo inteiro. Até hoje, essa dúvida paira sobre mim. Sua presença na tela é sempre luminosa. Atualmente é destaque em “Passione” como Stela, espécie de belle de jour devoradora de ninfetos que, ao mesmo tempo é devotada à família e aos filhos. Muitos torcem o nariz para suas qualidades interpretativas. Nunca foi o meu caso. Sempre acho que atrizes muito bonitas sofrem um pouco de preconceito, até mesmo porque seu tipo físico já limita muito a variedade de personagens. Por isso destaco dois momentos: a sofrida e apagada Clara de “Torre de Babel” (1998), em que a beleza da atriz esteve em segundo plano e ela teve a oportunidade de protagonizar cenas fortes e intensas com Tony Ramos com extrema competência; outro momento foi os episódios de “A vida como ela é” (1996), em que Maitê pôde interpretar todo tipo de papel, incluindo feias e putas. Atualmente, tem arrancado elogios sua produção literária e autoral em teatro. Seja da maneira que for, Maitê sempre será, pra mim, um ótimo motivo pra ficar diante da telinha.



9) Claudia Raia



Estrelíssima! Principal herdeira das vedetes do teatro rebolado, é a mais hollywoodiana de nossas estrelas. Dona de pernas que fizeram (e fazem) o Brasil parar, La Raia é o que chamamos de “mulher-gay”: esfuziante, expansiva, um furacão por onde passa. A primeira novela da qual participou, “Roque Santeiro” (1985), explorou ao máximo sua sensualidade. Mais tarde, em “Sassaricando” (1987), mostrou inegável talento cômico como a analfabeta Tancinha e seu bordões “eu me tô tão divididinha” e (que orgulho!) “me olha os melão” (adoooro...rs!). Esse dom pra fazer rir decolou de vez com a TV Pirata (1988), em que interpretou a presidiária Tonhão, que nem de longe lembrava as mulheres sensuais que viveu. Fera na comédia, no musical, no drama, no romance, é talento pra mais de metro.


10) Malu Mader


Malu Mader talvez seja o rosto mais popular entre os jovens nos anos 80. Seus traços não-convencionais constroem uma mulher linda, que sabe ser sexy e sabe ser doce. Malu tem aquela qualidade de grandes estrelas, o chamado carisma, que faz com que todo mundo torça por ela e compre suas brigas, por isso, é quase impossível vê-la como vilã. Conheci a atriz melhor como a patricinha Wal de “Ti-Ti-Ti” (1985) e mais tarde como a ingênua Lurdinha, de “Anos dourados” (1986), minha minissérie favorita até hoje. Quase uma pivete em “O outro” (1987) como Glorinha da Abolição, sensual e vingativa como Claudia em “Fera Radical” (1988), linda mocinha clássica como a modelo Duda em “Top Model”, só tem graça em ver Malu se ela for a estrela. Gilberto Braga que o diga: nenhuma atriz ganhou tantas protagonistas em suas obras quanto ela, sempre bela e luminosa. Charmosíssima, talvez o que a faça ter empatia com o público é uma certa naturalidade com a qual interpreta, que nos faz pensar que ela poderia ser nossa vizinha, nossa amiga. Como diz meu amigo Ivan, Malooosho. E ponto final!
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E vocês? Quais os seus amores da televisão?
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Série Memória Afetiva: grandes damas da televisão

domingo, 13 de junho de 2010

Série Memória Afetiva: minhas cidades fictícias favoritas



Cidade cenográfica de "Ribeirão do Tempo"

Sempre gostei de novelas com cidades fictícias. Elas são sempre motivo pra se mostrar algo diferente, especial. Ultimamente, elas não têm aparecido nas novelas com muita freqüência, mas uma atual novela, “Ribeirão do tempo”, de Marcílio Moraes, está reeditando esse costume. A novela ainda está muito no comecinho, mas sua cidade já nos desperta uma certa nostalgia. Ribeirão do tempo é cheia de tipos pitorescos, situações inusitadas e um quê de ironia e deboche. Mesmo não sabendo ainda quais surpresas a novela nos reserva, mas já entrando no clima, vou falar um pouco de MINHAS cidades fictícias favoritas:


10) Já deixo esse espaço reservado para as lembranças de vocês das cidades que, porventura, esqueci de mencionar. Com quem fui terrivelmente injusto? Aqui vão algumas sugestões: Resplendor (PEDRA SOBRE PEDRA), Remanso (DESPEDIDA DE SOLTEIRO), Porto dos Milagres (PORTO DOS MILAGRES), Guará (CIDADÃO BRASILEIRO), TABACÓPOLIS (O fim do mundo), VENTURA (Chocolate com Pimenta), TANGARÁ (O salvador da pátria), ROSEIRAL (Alma gêmea), RIO NOVO (Fera Radical), DEUS ME LIVRE (Pé na Jaca), PONTAL D'AREIA (Mulheres de Areia), ESPLENDOR (Esplendor), SANTANA DE BOCAIÚVAS (Agora é que são elas), SÃO TOMÁS DE TRÁS (Meu bem querer).

9) Passaperto (DESEJO PROIBIDO - 2007)

Confesso que a trama central dessa novela de Walther Negrão não me interessava muito. Mas acompanhar as paripécias dos coadjuvantes moradores da deliciosa cidadezinha do interior de Minas era tão saboroso e singelo quanto um pãozinho de queijo saído do forno: a fofoqueira Guará (Jandira Martini), a sonhadora Florinha (Grazy Massafera), o verborrágco Viriato (Lima Duarte) e sua impaciente esposa Magnólia (Nívea Maria), que sempre “ataiava” seus discursos, o irreverente soldado Brasil (Nando Cunha) são apenas alguns dos tipos que faziam de Passaperto um lugar curioso e diferente.

8) Greenvile (A INDOMADA- 1997)


Uma cidade nordestina colonizada por ingleses em que todos os moradores misturavam os idiomas português e inglês só podia mesmo ter saído de uma mente inventiva como a de Aguinaldo Silva. Dessa mistura surgiram bordões impagáveis como “Oxente my god”. Não há como esquecer a diabólica Altiva (Eva Wilma), a sensual Scarlett (Luíza Thomé), os românticos Emanuel e Grampola (Selton Mello e Karla Muga), as “camélias” de Zenilda (Renata Sorrah ou os rigores da lei da Juíza Mirandinha (Betty Faria). O realismo fantástico também bateu ponto por lá quando o Delegado Motinha (José de Abreu) caiu no buraco feito na praça pelo prefeito Ipiranga Patiguari (Paulo Betti) e foi parar no Japão. Enfim, humor, ironia, deboche e crítica política, marcas registradas de Aguinaldo com sabor de um bom Five o’clock tea.

7) Saramandaia (SARAMANDAIA- 1976)

Essa não faz parte propriamente de minha memória afetiva, já que nem era nascido na época da novela, mas não há como não deixar de citar essa fantástica cidade criada por Dias Gomes em que uma mulher explode de tanto comer, um homem ganha asas e voa e outros acontecimentos inusitados. Só me resta dizer que gostaria muito de ter nascido alguns aninhos antes para ter acompanhado essa novela, que ainda povoa o imaginário de muita gente.

6) Sucupira (O BEM AMADO- 1973)


Confesso que minhas remotas lembranças são mais do seriado dos anos 80 do que da primeira novela em cores da TV brasileira. Mas seria quase impossível encontrar um brasileiro com mais de 25 anos que nunca tenha ouvido falar do prefeito Odorico Paraguaçu, vivido pelo inesquecível Paulo Gracindo; do matador Zeca Diabo, genial criação de Lima Duarte; do atrapalhado Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz) e das maravilhosas Irmãs Cajazeira (Ida Gomes, Dirce Migliaccio e Dorinha Duval). Personagens carismáticos e uma deliciosa sátira política: combinação de sucesso.

5) Albuquerque (Estúpido Cupido - 1976)


Ainda que exista de fato uma cidade com esse nome, a que ambientava a trama de Mário Prata deu o que falar. O irresistível clima do início dos anos 60 com todas aquelas canções inesquecíveis, aquele clima de namorinho no portão, amassos e picardias em geral com gostinho de coisa proibida, já que a sociedade daquela época era ainda mais conservadora. Mocinhas sapecas, velhinhas fofoqueiras e rebeldes sem causa fizeram Albuquerque cair nas graças do público.

4) Armação dos Anjos (VAMP - 1991)

Armação dos Anjos seria mais uma pacata e bucólica cidade litorânea se não fosse o fato de ter sido enfestada de vampiros que fizeram a alegria de muita gente e transformou a trama de Antonio Calmon em mania nacional. Tipos inesquecíveis como a sensual vampira Natasha (Claudia Ohana), o terrível e debochado Vlad (Ney Latorraca), a engraçadíssima família Matoso, liderada por Mary e Matoso (Patricia Travassos e Otávio Augusto), sem contar que tinha um falso padre garotão, um circo e dois adoráveis protagonistas, vividos por Reginaldo Faria e Joana Fomm, que juntaram suas já extensas famílias, aludindo a clássicos como “A noviça rebelde” e “Família Do-ré-mi”. O resultado desse “terrir” com comédia e romance foi uma das novelas mais bem sucedidas do horário das sete.


3) Tubiacanga (FERA FERIDA - 1993)

É uma de minhas cidades fictícias favoritas, pois desta vez Aguinaldo Silva acrescentou o lirismo e poesia da obra de Lima Barreto à sátira política e humor sempre presente nas cidades de suas novelas. Só em Tubiacanga, por exemplo, as lágrimas de uma sofrida mulher como Margarida Weber (Arlete Salles) inundavam a casa ou uma jovem como Camila (Claudia Ohana) dormia por meses a fio. E mais: transformação de ossos humanos em ouro em pó, casal (Demóstenes de José Wilker e Rubra Rosa de Susana Vieira), cuja transa era tão quente que pegava fogo no quarto, enfim... maravilhosas loucuras pra uma só novela.

2) Santana do Agreste (TIETA – 1989)


Além das belíssima paisagens de Mangue Seco, o público também se deleitava com os moradores pra lá de carismáticos de uma cidade nordestina parada no tempo, mas às portas do progresso trazido por uma de suas cabritas desgarradas. Impossível se esquecer das adoráveis beatas Cinira a Amorzinho (Rosane Goffman e Lília Cabral) fiéis escudeiras da terrível e engraçadíssima Perpétua (Joana Fomm), da sonhadora Carmosina (Arlete Salles) e sua esperta mãe Dona Milú (Miriam Pires), da hipocondríaca Dona Juraci (Ana Lúcia Torre), do lascivo Modesto Pires (Armando Bógus) e sua teúda e manteúda Carol (Luíza Thomé), só pra citar alguns. A galeria de tipos é extensa e marcante. Poucas cidades fictícias divertiram tanto quanto esta.


1) Asa Branca (ROQUE SANTEIRO – 1985)


Essa ganha de lavada. A trama de Dias Gomes escrita por Aguinaldo Silva, com colaboração de Marcílio Moraes e Joaquim Assis fez com que o Brasil voltasse suas atenções diariamente para a divertida e polêmica Asa Branca, que funcionava como uma espécie de metáfora e metonímia de nosso país. O Brasil parou por alguns meses para assistir a si mesmo através dessa antológica novela. Todas as nossas características estavam retratadas em Asa Branca: gaiatice, deboche, corrupção, sensualidade, hipocrisia, fanatismo, ambição.... mais humana e mais brasileira, impossível. Como esquecer da beata Pombinha (Eloísa Mafalda) às turras com as meninas da Boate Sexus? Da viúva que foi sem nunca ter sido, Porcina (Regina Duarte), a mais politicamente incorreta heroína de nossas novelas? Do poderoso Sinhozinho Malta (Lima Duarte), que mandava e desmandava, mas se transformava num dócil cãozinho diante de sua amada? Enfim, nunca uma cidade representou tão bem nosso povo como Asa Branca.
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E vocês? Concordam com minha lista? Quais as suas cidades fictícias inesquecíveis?

sexta-feira, 4 de junho de 2010

“A vida alheia”: humor inteligente e ousado na TV.


O autor Miguel Falabella (abaixo à esquerda), com o elenco principal da série.


"É mais fácil elogiar a mediocridade. Essa não ameaça.", dispara Alberta Peçanha (Claudia Jimenez) se justificando por não elogiar com freqüência os feitos de Manoela (Danielle Winits) em “A vida alheia”. Frases inquietantes como essa são ditas por personagens nada óbvios o tempo todo na série de Miguel Falabella.

O slogan da fictícia revista “A vida alheia – mais interessante que a sua” já é uma provocação ao público e já mostra que seu criador não está disposto a fazer concessões para agradar. Ao contrário: em tempos em que o nível do humor na TV busca cada vez mais atingir o fundo do poço qualitativo com piadas físicas, fáceis, gratuitas e apelativas, a série vai na contramão disso tudo e brinda o público com o que há de melhor no gênero: comédia dramática inteligente, de humor ácido, reflexivo, aparentemente fútil, mas muito denso e irônico.

O mote de uma revista especializada em celebridades disposta a tudo para conseguir o furo jornalístico e, por conseguinte, o sucesso de vendas, acaba funcionando como ponto de partida para discutir uma série de outras questões como ética, hipocrisia e o valor do afeto e do respeito nas cada vez mais confusas relações amorosas, profissionais e familiares dos dias atuais, cada vez mais marcadas pelo vazio e pelo efêmero. Já no primeiro episódio, mostrou que veio mesmo pra incomodar, já que uma famosa colunista de fofocas se sentiu ofendida com a abordagem da série. Mas talvez a trama contínua que faz o arco da temporada seja ainda mais interessante que as tramas que são apresentadas a cada episódio. E a tensão construída em torno dos personagens fixos é cada vez mais crescente e interessante.

Mas o texto (genial e cheio de subtextos o tempo todo) tão instigante de Falabella e equipe não seria nada se não fosse acompanhada por uma direção competente e ágil e, principalmente, por ótimas atuações, a começar pelo trio de atrizes que comanda a atração: Marília Pêra, emprestando cinismo e classe na dose certa à Catarina, a dona da revista; Cláudia Jimenez, deliciosamente cruel e debochada como a editora-chefe Alberta Peçanha (aliás, o trocadilho com peçonha também é genial); e Danielle Winits, como Manoela, a ambiciosa repórter, que nos remete ao melhor estilo das alpinistas sociais gilbertianas. Porém, justiça seja feita: todo o elenco está afiadíssimo e ligadíssimo na proposta da série. E as implacáveis Alberta e Catarina são humanizadas a cada episódio, o que mostra que as personagens foram construídas com profundidade.

Enfim, “A vida alheia” é um sopro de criatividade, ousadia e competência nas noites de quinta-feira da Rede Globo, que merece ser assistida e comentada. Humor que não leva às gargalhadas, mas que oferece algo mais duradouro e rico: a reflexão sobre o chamado “mundo cão”.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Banner do mês: Selva de Pedra

Você votou, você escolheu.  Eis o resultado:

Que novela você quer que seja a próxima homenageada no banner do melão?

Selva de Pedra 53%
Anjo Mau 47%

Entonces, eis o banner com as duas versões de Selva de Pedra, grande sucesso de Janete Clair. . Obrigado a todos que votaram!

sábado, 29 de maio de 2010

Melão Express: Rapidinhas, mas saborosas! – Edição 7


Antes tarde do que nunca

Como esqueci de avisar antes, informo depois. Nessa segunda, participei do X Seminário Salínguas, do Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Faculdade de Letras da UFRJ, do qual faço parte e apresentei o trabalho "NOVELAS E ORKUT: NOVAS PERSPECTIVAS DE LETRAMENTO E HIBRIDIZAÇÃO".

Ainda é um reconhecimento de terreno, uma apresentação do cenário e dos personagens de minha futura dissertação de Mestrado. Apesar de nervoso, acho que a apresentação foi satisfatória e me deu a boa sensação de finalmente unir minha carreira acadêmica à minha grande paixão, a telenovela. Vamos ver no que dá. Desde já agradeço aos compenheiros da comunidade "Teledramaturgia" pela colaboração e peço que continuem me ajudando.

Prometo divulgar as cenas dos próximos capítulos dessa minha árdua jornada. Até mais!
Mais informações sobre o X Seminário Salínguas em: http://salinguasufrj2010.blogspot.com/
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- VIVA O VIVA!

 Tudo bem que não é aquele canal só com reprises de novelas, sonho de 11 entre 10 telemaníacos. Mas há duas boas novelas sendo reprisadas. Tudo bem também que essas novelas não são lá tão antigas assim: são da década de 90, aliás, década da maioria da programação do canal. Mas mesmo assim, é mais que bem vindo esse novo canal da Globosat. Confesso que não estava sentindo a menor saudade de rever as intermináveis idas e vindas de Raí e Babalú em “Quatro por quatro”. Mas a novela de Carlos Lombardi foi sucesso indiscutível e tem seu retorno merecido. Além disso, o novo canal proporciona outras sessões nostalgia como os ótimos seriados “Mulher”, “Sexo Frágil”, “Comédia da Vida Privada” e “Sai de baixo”. Mas meu grande deleite mesmo é poder rever a excelente “Por amor”, dos bons tempos de Manoel Carlos. Só na primeira semana de exibição a novela teve mais acontecimentos do que “Viver a Vida” inteira. Estou amando odiar Eduarda (Gabriela Duarte) novamente. Bem que o “Viva” podia abrir mais horários de exibição para as novelas, afinal de contas, à tarde é só pra quem não trabalha fora ou pra quem possui gravador. De qualquer forma, estamos em festa e torcendo para que o “Viva” nos traga muitas outras velhas novidades.


- “PASSIONE”: A VOLTA DO NOVELÃO.


Em sua segunda semana de exibição e com índices de audiência nada animadores (será o trauma pela novela anterior?), “Passione”, de Sílvio de Abreu tem o grande desafio de recuperar índices de audiência cada vez mais distantes de outros tempos e de outras novelas do horário nobre. Ainda que não traga grandes novidades com relação à trama e aos personagens, Sílvio tem seus trunfos: excelente elenco  e um novelão típico, com direito a ganchos, filhos desconhecidos, triângulos amorosos e conflitos familiares.  Dizem que o sotaque italiano não está agradando. A mim, não incomoda em nada. Confesso que elegi minha própria heroína: Stela, a bela da tarde (e da noite também) da cada vez mais linda Maitê Proença (foto). Torço para que a trama da personagem possa ser desenvolvida a contento, uma vez que foge do lugar comum. A novela ainda não está imperdível, mas altamente assistível. E trouxe de volta um ingrediente indispensável ao gênero: ganchos. Só no capítulo de hoje foram três. Já é um bom começo.


- RIBEIRÃO DO TEMPO: NOVOS TEMPOS NA RECORD.

Ainda falando de estreias, uma nova novela de Marcílio Moraes é sempre aguardada com ansiedade e otimismo. E sempre podemos esperar ótimo texto e personagens nada óbvios. Valorizado na Record por suas tramas que abordam violência urbana, Marcílio estreou na emissora com a primorosa “Essas Mulheres” e agora sabiamente promove uma nova guinada com uma trama política, irônica e bem humorada, que mescla bem mistério e romance, mas parecendo brincar com os gêneros. Tais características podem trazer para a emissora parte dos públicos A e B que ainda transitam pouco por lá. “Ribeirão do Tempo”, em seu início, já apresenta uma identidade própria e se mostra diferente de tudo que a Record produziu até então. Como ex-aluno de Mestre Marcílio e privilegiado por comprovar seu talento de perto, torço para que colha bons frutos com sua nova empreitada.


- "MOTHERN" ESTÁ NO AR.

Como já disse, sempre que posso acompanho a reprise de “Por amor” às 16:30 no Viva. Mas assim que a novela termina, corro pra GNT pra conferir a reprise dos episódios de “Mothern”, excelente série que, infelizmente, as pessoas pouco conhecem. A série é uma delícia: leve, inteligente, engraçada, bem escrita, bem dirigida, enfim, tudo de bom. Vale também pelo elenco: as quatro mães do título são ótimas, com destaque para Fernanda D’umbra e Melissa Vettore (desperdiçadíssima como a acompanhante de Lolita Rodrigues em “Viver a Vida). Melissa é ótima e garante, não só momentos engraçados, como os mais intensos da série. Também podemos ver Klara Castanho, cujo talento e profissionalismo já saltava os olhos aos 6 anos, arrasando como e esperta Bel, e Rafinha Bastos do CQC como um dos maridos da série. Portanto, pra quem ainda não viu, eis uma excelente oportunidade.

- LIGANDO O NOME À PESSOA.

 Com certeza, você já viu esse rosto muitas vezes na TV, mas talvez nunca tenha ligado o nome à pessoa. Figura simpática e marcante em tudo o que faz, Nica Bomfim tem agora uma oportunidade melhor pra mostrar seu talento e seu carisma com um ótimo personagem em “Escrito nas estrelas” na pele da adorável mãezona Magali. A primeira vez que prestei atenção na atriz foi em “História de amor” (1995), como a prestimosa auxiliar da Helena da vez, vivida por Regina Duarte. Desde então foram muitas participações em produções como “Eterna Magia” e “Zorra Total”, mas é Magali quem está proporcionando a Nica vôos teledramatúrgicos maiores. Não há como não cair de amores pela personagem fãzoca de Fábio Júnior e dona da macarronada mais cobiçada da novela. Pelo andar da carruagem, promete muita emoção por aí. Magali ainda nos fará rir e chorar muito, aposto, pois é daquele tipo de personagem alto astral e do bem que todos nós gostaríamos de ter por perto. Parabéns pra Nica e que muitos outros personagens como esse possam surgir daqui pra frente.

Beijos, abraços e até a próxima!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Blogueiro convidado: Ivan Gomes fala de "Guerra dos Sexos"


 Mais um queridão no melão. E esse é especialíssimo. Dono de um conhecimento raro sobre novelas que ele nem sempre faz questão de exibir, bem como sua capacidade crítica em falar delas com inteligência e estilo. Esse é Ivan Gomes, telemaníaco apaixonado que deixa transcender toda sua paixão naquilo que escreve. E o foco de sua escrita não poderia ser mais especial: a inesquecível “Guerra dos Sexos”, marco indiscutível da teledramaturgia brasileira, que conseguiu unir popularidade e ousadia. Uma das novelas mais cultuadas de todos os tempos e que, segundo seu autor, o genial Silvio de Abreu, promete voltar em 2012. Só nos resta ficar na torcida. Enquanto isso, vamos apreciar e telembrar, através do ótimo texto de Ivan, esse grande sucesso de 1983, coincidentemente publicado no dia do aniversário de uma das estrelas da novela, Lucélia Santos! Então, fica também como singelo presente do melão para a atriz. Vamos ao texto:

Série Memória Afetiva: Guerra dos Sexos

Por Ivan Gomes


Acabei de rever essa novela, uma versão editada de Portugal, que meu irmãozinho Vitor emprestou para mim.
Foram meses deliciosos , relembrando essa comédia que tive o privilégio de acompanhar na exibição original em 83 e na reprise de 89. Gostaria de dividir minhas impressões com vocês: Acredito que hoje a comédia de Guerra dos Sexos foi tão reutilizada, tanto pro bem qto pro mal, que para o pessoal mais novo a novela não teria nada demais. Mas em 83 foi um choque! Substituiu a convencional, mas deliciosa Final Feliz, da craque Ivani Ribeiro, e de repente a tela era invadida por um bando de malucos deliciosos.

Criança, eu não tinha noção da importância de uma Fernanda Montenegro e de um Paulo Autran, mas achava bacana na abertura o “e pela primeira vez juntos’’ que antecedia os nomes deles, me despertando a atenção para o trabalho desses maravilhosos artistas. Esses dois estavam muito bem acompanhados por um elencaço e é deles que eu queria comentar: Glória Menezes era minha heroína, talvez uma das personagens que mais gosto até hoje. Torcia muito pela sua Roberta Leone, sofria e ria junto com ela. Roberta tinha um amor, uma generosidade, uma alegria de viver que me encantavam, seu amor verdadeiro, honesto e sincero pelo Nando (Mario Gomes) me comovia e talvez o meu lado romantico tenha surgido da identificação com os sentimentos da Roberta, minha personagem favorita da trama. Tarcisão também esteve muito bem num tipo infantilóide que todos aqui na minha casa adoravam! Amava quando o chamavam de “pipinho”. Foi o primeiro trabalho desse ícone que acompanhei de fato!

 Lucélia Santos interpretava Carolina, uma vilã em que ela pode mostrar todo seu potencial, principalmente quando ela vai deixando a vilania por seu amor por Felipe (Tarcisio Meira). Muitas cenas dela me impressionaram muito. Não era uma vilã gratuita, mas que, de certa forma, debochava um pouco desse tipo de personagem, hoje tão idolatrado. Lucélia tem uma força, uma entrega ao personagem indiscutível, e mostrou muito mais de seu talento ainda na mudança de comportamento da personagem. Quando Carolina muda de atitude e se arrepende dos seus atos, ficou crível, não ficou forçado.

Fernanda e Paulo sem comentários, eu torcia mais pra Charlô, achava-a genial, amiga, inteligente e muito, muito engraçada! Na época acabei vendo o Otavio do Paulo, como uma espécie de vilão. Nas cenas finais quando Otavio revela toda sua solidão entendi o porquê de tantas malandragens contra a Charlô: era um amor encubado que ele não acreditava que fosse se realizar, ao ver a amada casando-se tantas vezes com outros homens.

O casal Tarcísio e Glória entre Maitê Proença

Cristina Pereira e sua Frô eram demais, talvez a personagem que mais me fez rir na novela, com sua auto-estima lá em cima e sua cara de pau! Maitê Proença e Maria Zilda lindas e divertidas também, destacando a Zilda com uma personagem ousada pra época, mais liberal, livre. Acredito que muitas mulheres tenham se sentido ‘’defendidas’’ por essa personagem (Vânia), tirando a mulher da condição de capacho sexual , presa a convenções matrimoniais e podendo viver a vida (eheheheheh) como bem entendessem. A Juliana de Maitê era o grande toque romântico da novela, única personagem que carregou consigo um tema musical marcante: "ANJO", do grupo Roupa Nova. Doce, medrosa num amor proibido no inicio, acabou revelando-se uma mulher que evita se envolver com seu amor por puro preconceito, sem conseguir aceitá-lo como é (daí meu favoritismo pro casal Nando e Roberta) tornando-se mais tarde uma mulher insegura e ciumenta, o q acaba custando seu grande amor.Um outro grande destaque pra mim e um ator bastante discutido foi Mario Gomes, com um Nando perfeito, acredito até que um ator bom, com mais recursos, não teria feito tão bem. Nando tinha uma humanidade que eu achei genial, integridade, valores, e uma característica que me chamou a atenção agora que revi a trama: ele não olhava no interlocutor quando precisava ‘’se abrir’’, falar dos seus sentimentos, apenas algumas vezes. Isso mostra uma interpretação pensada para o personagem, criando um tipo, estudando o papel. Parabéns para ele!



Não dá pra falar de todos porque senão esse texto não termina nunca! Mas deixei pro final a maravilhosa Yara Amaral, uma das maiores perdas das nossas artes. Que atriz é essa, meu Deus! Faz comédia e drama como ninguém, que dona Nieta real, humana, divertida, contraditória! Fez um casal maravilhoso com o grande Ari Fontoura (o tímido Dinorah). Saudades eternas!

Pra encerrar, falo um pouco do texto de Silvio de Abreu que escreveu uma historia onde assumiu a comédia rasgada sem deixar  de lado uma certa sofisticação, em meio a tortas voando, perseguições de diamante e calores sexuais muitas referências sutis a filmes e músicas. Silvio uniu o pastelão a um humor mais fino, principalmente em alguns momentos de Charlô e Otávio, agradando ao povão e a quem tem uma certa cultura geral! Valeu mesmo! Também é importante destacar que todos os personagens, mesmo estando em uma comédia, tinham alma, nada era gratuito. É só vê-los com mais atenção que a gente se reconhecia, percebia atitudes e sentimentos parecidos com os nossos, entendia as razões os motivos de seus atos e, ainda por cima, se divertia muito!!! Uma pena que os textos estão se empobrecendo e humor hoje em telenovela anda beirando a debilidade mental e, de certa forma, contribuindo pra manter o gosto popular (que deveria ser mais estimulado) no mesmo patamar pouco exigente!


Valeu, Silvio de Abreu, Jorge Fernando, Guel Arraes, TV Globo e toda turma que criou esse clássico da TV!



Mansão de Otávio e Charlô. A trama se passava em Sampa, mas a casa fica em Petrópolis - RJ

FIM

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Flor de Lótus


Certa vez, em um exercício de curso de roteiro, criei uma protagonista que tinha por volta de 40 anos, bem casada e estabilizada. Algo acontece e ela é obrigada a dar uma virada em sua vida. Mas ao apresentá-la, a professora nem quis ler e foi taxativa: “mocinha de 40 não rola!”. Surpreso e chocado com tal declaração, nem quis gastar energia citando Tieta, Viúva Porcina, Charlô, Raquel, Helenas do Maneco e outros exemplos bem sucedidos. Como queria agradar, desisti da ideia momentaneamente e fiz a vontade da mestra, voltando para as mocinhas puras de 18 anos.

Mas essa mulher ficou na minha cabeça e um belo dia sua história começou a se delinear melhor em minha mente, vários personagens foram sendo criados à sua volta e uma sinopse completa com primeiro capítulo surgiram. Resolvo agora publicar a primeira cena desse primeiro capítulo, que é a apresentação da personagem, o que é sempre muito difícil, pois a gente precisa começar a contar a história pro espectador sendo o menos didático possível. Criei dois momentos: ela, jovem aos 23 anos às portas de se casar e 15 anos depois, com uma aparente frustração. Não sei se faria diferente hoje, mas foi assim que comecei...


FLOR DE LÓTUS Capítulo 1 Pag.: 1


CENA 01. MANSÃO DOS TREBIANI. JARDIM. EXTERIOR. DIA.



CAM PASSEIA POR ENTRE AS FLORES DO BELO JARDIM DA MANSÃO, COM GRANDE VARIEDADE DE FLORES, DE TODOS OS TIPOS, FORMATOS, CORES E TAMANHOS DIFERENTES, FORMANDO UM CONJUNTO MUITO BONITO. CAM PERCORRE TODO O JARDIM ATÉ UM PEQUENO LAGO ONDE HÁ UMA BELA FLOR DE LÓTUS. A ÁGUA EM TORNO DA FLOR SE AGITA. CAM VAI ATÉ A UMA MÃO JOVEM E FEMININA. É LUÍSA COM 23 ANOS. DUAS MÃOS TAPAM O ROSTO DE LUÍSA. É ARNALDO. LUÍSA COLOCA AS MÃOS SOBRE AS MÃOS DELE.

LUÍSA — Como se eu não fosse adivinhar que é você, meu amor.


LUÍSA SE VIRA PRA ARNALDO E ELES SE BEIJAM


ARNALDO — Amanhã a gente casa. Tá feliz, Luísa?


LUÍSA — Feliz? Eu estou nas nuvens! Arnaldo, eu te amo!


ARNALDO — Eu também, minha flor. E eu prometo te fazer feliz por todos os dias da sua vida.


NOVO BEIJO. LUÍSA COM EXPRESSÃO PREOCUPADA.


ARNALDO — O que foi, amor? Tô te achando um pouco tensa. Vai me dizer que já tá se arrependendo?


LUÍSA — Bobo! Não é isso, não Arnaldo! É muita coisa acontecendo. De uma hora pra outra, a minha vida vai dar um giro completo. Largar o trabalho, casar com você, e principalmente /


ARNALDO — E principalmente...


LUÍSA — (T) Mudar pra essa casa. Cê sabe que a tua mãe não vai com a minha cara.


ARNALDO — É o jeito dela, Luísa. Cê ainda não notou? E eu não posso sair de casa nesse momento que eu vou assumir a presidência da empresa.


LUÍSA — (DEBOCHADA) Quem diria que Arnaldo Trebiani se tornaria o rei do papel higiênico Sedoso, o mais amado do Brasil.


ARNALDO — Isso, vai debochando. E se eu vou ser o rei do papel higiênico, adivinha quem vai ser a rainha?


LUÍSA — Fazer o quê? São as ciladas do amor.


LUÍSA E ARNALDO SE BEIJAM. CAM VOLTA PARA O LAGO LENTAMENTE E DÁ CLOSE NA FLOR DE LÓTUS.
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 CENA 02. MANSÃO DOS TREBIANI. JARDIM. EXTERIOR. DIA.



MESMA IMAGEM DO LAGO DA CENA ANTERIOR. INICIANDO NA FLOR DE LÓTUS SOBRE A ÁGUA. AS MESMAS MÃOS, AGORA COM UMA ALIANÇA, BRINCAM COM A ÁGUA. É LUÍSA, 15 ANOS DEPOIS, COM EXPRESSÃO PENSATIVA, OLHAR DISTANTE, PERDIDO, LEVEMENTE TRISTE. DUAS MÃOS TAPAM SEU ROSTO.

LUÍSA — Arnaldo?


RITA, NUM ROMPANTE, TIRA AS MÃOS DOS OLHOS DE LUÍSA.


RITA — Que é isso, garota? Vai dizer que as mãos do Arnaldo são delicadas desse jeito?


LUÍSA — Rita! Não acredito. Você veio, prima! Dá um abraço!


AS DUAS SE ABRAÇAM CALOROSAMENTE.


RITA — Diretamente do Rio de Janeiro, meu amor! E você achou que eu fosse perder o evento mais importante dos últimos anos da cidade de Recanto?


CORTA PARA:
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Cena 3?
Quem sabe um dia não possamos vê-la no ar! O que terá acontecido a Luísa? E o que vai acontecer na tal festa? Sim, a novela ainda vai começar, mas a personagem foi apresentada.


Para relembrar outra cena postada aqui no melão, um animado chá de senhoras nos anos 50, clique em:
http://euprefiromelao.blogspot.com/2010/01/elegante-cha-de-senhoras-nos-anos-50.html

sábado, 8 de maio de 2010

Feliz aniversário, Betty Faria!


Musa do melão em qualquer estação (o muso é Alcides Nogueira, nosso querido Tide!) e minha atriz favorita desde sempre, Betty Faria completa mais um ano de vida. Seria redundante citar seus grandes momentos da carreira. Apesar de bissexta no teatro, quando está no palco é sempre marcante: sua “Shirley Valentine” a levou a uma indicação ao Shell desse ano. Um dos grandes ícones de nosso cinema, além de ser uma das nossas principais musas. Em se tratando de TV então, sua carreira se confunde com a própria história da televisão.

No ano passado, tive o privilégio e a grande honra de conhecê-la pessoalmente. Nesse dia, apesar de ter ficado em estado quase catatônico, pude confirmar a impressão que tive quando li sua biografia da coleção Aplauso “Rebelde por natureza”: Betty é uma estrela na vida e na arte. Simpática, alegre, esfuziante, e muito, muito calorosa, nos recebeu com um carinho genuíno e emocionado. Aliás, graças à sua simpatia, criou em torno de si a "Família Betty", composta por seus fãs que se juntaram na comu do orkut e no blog.  Agora, aos 69 (hummm) enfrenta um novo desafio na carreira e vive em “Uma rosa com amor” a “amélia” Amália, indo na contramão da maioria dos tipos sensuais que interpretou na TV. Faz uma dona de casa devotada e sofrida, abrindo mão de sua vaidade e, de cara limpa, nos emociona diariamente com uma interpretação tocante, e como sempre, visceral. Nada mais tenho a dizer, senão desejar um feliz aniversário com votos de saúde, sorte e sucesso sempre. Abaixo, segue um banner que meu amigo Douglas (www.twitter.com/DougieTwittie ) criou e me presenteou com tanto carinho. Guardei durante meses para postá-lo nesse dia.

Enfim, Feliz aniversário, Betty, e tudo de bom que a vida possa lhe oferecer!!! Sempre!

(clique na imagem para ampliá-la)

E quem quiser conhecer ou relembrar a carreira da diva, seguem abaixo alguns quizzes a ela relacionados:


Link para comunidade da Betty no orkut, cujo dono e moderador é este que vos fala: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=391826

Link para o blog da Betty (que anda meio desatualizado, mas vale a visita): http://www.bloglog.globo.com/bettyfaria/

Homenagem à Betty de um de meus queridões favoritos, Walter de Azevedo:
http://historiasdetatu.blogspot.com/2010/05/estrela-permanece.html

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Entrevista especial - Do blogão para o melão, Aguinaldo Silva!



Aguinaldo Silva: "o mais amplo e abrangente retrato da vida brasileira nos últimos quarenta anos está nas telenovelas".


Mais um presente para os leitores do melão!
Aguinaldo Silva, um dos mais bem sucedidos autores de nossa teledramaturgia, em exclusivíssima entrevista, fala sobre vários assuntos de maneira direta, mas sempre muito simpática, dentre os quais sobre o papel da telenovela da vida do brasileiro, dos frutos obtidos com sua Master Class, da enorme repercussão de seu blogão, e, claro, das lembranças de grandes novelas como “Tieta” e “Vale Tudo”, entre muitos outros. E revela ter mudado de ideia sobre o fim do realismo fantástico nas novelas após ter feito uma viagem à Carpina, sua cidade natal, revelando surpreendentemente: “não se espante se muito em breve eu voltar ao gênero”.
E como em toda entrevista de Aguinaldo, não pode faltar uma boa dose de polêmica, o autor fala do desdém da Academia, da imprensa e da crítica especializada à telenovela. Sobre a polêmica em "Duas Caras" envolvendo a pole dance, sem a menor cerimônia, diz na lata:"Não há perseguição à novela, há perseguição à Rede Globo. E a questão não é moral, e sim política". Também revela que sempre quando falam que a telenovela está em decadência, responde sem pestanejar:"o que está em decadência é o gosto do público".


Agradeço demais ao autor por dispor de um pouco de seu tempo para nós. Com vocês, o mestre, o realista, o fantástico, o sempre necessário, Aguinaldo Silva!


Eu prefiro melão - Em Senhora do Destino, você homenageou sua mãe batizando a protagonista com o nome dela. O que o motivou a isso? Sua mãe, de certa forma, também foi uma senhora do destino?

Aguinaldo Silva – Minha mãe não foi uma senhora do destino, mas era uma personalidade forte, e que exerceu grande influência em minha vida. Batizar com seu nome uma personagem tão positiva foi o modo que encontrei para homenageá-la. Ela foi muito bem casada a vida inteira, e nunca se viu numa situação tão extrema quanto a Maria do Carmo da novela. Mas se isso acontecesse, tenho certeza de que ela estaria apta a mostrar sua fortaleza.


Eu prefiro melão - Mesmo se atendo em fatos totalmente ficcionais, você diria que toda obra é autobiográfica? Se sim, até que ponto?


Aguinaldo Silva - Toda obra de ficção é também autobiográfica, porque tem muito da vivência (ou da falta de) do autor. Quanto mais ele viveu, mais tem histórias para escrever. Do contrário, se ele é um ficcionista, está apto a inventá-las, mas na minha opinião o produto final nunca é tão autêntico quanto aquele que é fruto de experiências pessoais. Eu vi e vivi muito, e acho que isso influi decisivamente em tudo o que escrevo.


Eu prefiro melão - Em recente bate-papo na FNAC do Barra Shopping, você declarou que “Tieta” foi sua grande alegria como autor. Confesso que é a minha novela favorita de todos os tempos. Uma feliz junção de história, texto, elenco, direção, parte técnica, etc. Que lembranças você tem da novela e da época em que a escreveu?


Aguinaldo Silva - Eu tinha saído de “Roque Santeiro” com um certo trauma, por conta de ocorrências que já não vale mais a pena relembrar. E achava que precisava provar o fato de que havia escrito aquela novela e influído decisivamente nos seus rumos. Isso foi possível quando me chamaram para escrever “Tieta”, e eu dei a ela o mesmo tom de “Roque Santeiro”. Mas importante mesmo é que “Tieta” foi a primeira novela das oito escrita após o fim da censura e eu a transformei numa metáfora: a volta da filha pródiga à cidade que a expulsou e a humilhou é também a volta da liberdade de expressão após anos de censura na tevê. “Tieta” é tudo isso, mas principalmente, é uma grande novela.


Eu prefiro melão - Você também escreveu “Vale Tudo” em co-autoria com Gilberto Braga, um verdadeiro marco da televisão brasileira, novela mítica para os mais jovens e emblemática para quem assistiu. Mesmo sendo uma novela concebida por Gilberto Braga e você afirmou ter respeitado o estilo dele, o que você apontaria na novela como tendo sua marca pessoal? Como era a divisão de trabalho entre vocês dois e Leonor Basséres?


Aguinaldo Silva - “Vale Tudo” tinha um tom bem mais popular que as outras novelas do Gilberto. Tinha mais a cara do povo e o seu dia-a-dia, e acho que isso aconteceu por influência minha. Acho que foi uma reunião feliz de dois autores de estilos diferentes que se juntaram e resultaram num terceiro, entre os quais Leonor Basséres, com sua sabedoria, figurava como fiel da balança. A divisão de trabalho era simples: Gilberto fazia o resumo do bloco, eu fazia as escaletas e distribuía as cenas que nós três escrevíamos. Gilberto escrevia menos, mas quando o fazia era arrasador.


Eu prefiro melão - Ricardo Linhares e Ana Maria Moretsohn, dois de seus co-autores mais famosos, sempre reafirmam sua generosidade no trabalho em equipe e na liberdade de criação que você sempre deu a eles em suas novelas. O que mudou do tempo deles para os dias de hoje com equipes mais numerosas? Como é a divisão do trabalho entre os seus colaboradores atuais?


Aguinaldo Silva - Nada mudou. Trabalhar com Ricardo e Ana, claro, foi um luxo em minha vida, e foi por isso que eu, mesmo enfrentando algumas resistências, dei aos dois status de co-autores. Mas hoje em dia tenho dois colaboradores tão competentes quanto eles a trabalhar comigo: Maria Elisa Berredo e Nelson Nadotti. Quando digo que nada mudou é porque escrever novela continua a ser a mesma estiva: mesmo que a equipe de colaboradores seja maior, todos nos esfalfamos. O que mudou foi trabalhar com computador e internet, que nos permite caprichar ainda mais no trabalho. Há quem diga, vendo as novelas que estão no ar, que não se nota isso, que as novelas estão em decadência, mas eu discordo. O que está em decadência é o gosto do público.


Eu prefiro melão - Você afirmou na entrevista para o livro “A seguir cenas do próximo capítulo” que o gênero realismo fantástico foi definitivamente suplantado e que não tem mais intenção de escrever nada nesse estilo. Será mesmo que o pragmatismo e o desejo pelo realismo exacerbado de nossos dias não deixaram nem uma brechinha para que o gênero possa voltar reformulado? Pergunto isso porque achei que o realismo fantástico de “Fera Ferida” já era muito diferente de tudo o que foi criado anteriormente, uma vez que era mais lírico, mais poético. Diante disso, não seria possível uma nova reinvenção desse tipo de narrativa?


Aguinaldo Silva - Depois de vinte anos sem ir a Carpina, Pernambuco, a cidade onde nasci e que serviu de fonte para todas as minhas novelas do gênero “realismo mágico”, estive lá no mês de fevereiro, e essa visita, ainda que rápida, fez com que eu mudasse de opinião sobre o gênero. Tudo bem, qualquer cidadezinha hoje em dia tem telefone celular e internet, mas a modernidade pára por aí, porque a mentalidade das pessoas continua a mesma. Ou seja: as pessoas andam de Pajero, mas pensam como se estivessem numa charrete. Ouvi, durante essa visita, histórias do arco da velha, suficientes para escrever a mais enlouquecida de todas as novelas: puro realismo mágico. Por isso, não se espante se muito em breve eu voltar ao gênero.


Eu prefiro melão - A Master Class, que está em sua segunda edição atualmente, foi uma grata surpresa e representa uma oportunidade única para quem quer ingressar no mercado. O que o motivou a empreender esse tipo de projeto? Além de ensinar, você também tem aprendido algo com a experiência?


Aguinaldo e o alunos da Master Class II

Aguinaldo Silva - Eu disse no meu blog recentemente que ensino para aprender. Isso não é nenhuma novidade, todo bom professor faz isso. Mas também ensino porque me preocupa a falta de novos autores de novela. Minha experiência no ramo é puramente prática, e é isso que eu procuro passar para os meus alunos: como se faz para escrever uma novela. A essa altura já tenho bastante experiência sobre o assunto, e é isso que eu ensino. O curso é grátis porque seria imoral que eu cobrasse o preço justo. E já me deu muitas alegrias, não apenas pela belíssima sinopse de “Marido de Aluguel”, que saiu da primeira “master class”, mas também pela evidência de que existem muitos autores prontos para deslanchar se tiverem a oportunidade.


Eu prefiro melão - O que podemos esperar de “Marido de aluguel”, fruto da primeira Master Class? Já escolheu os alunos que vão escrever a novela com você? Que critérios utilizou para essa escolha?


Aguinaldo Silva - Ainda estou a meio do processo de escolha. O processo foi o da competência, o mesmo que me levou a selecionar, dentre 1134, os 30 que fizeram os dois cursos. Não houve nenhum tipo de apadrinhamento, e eu me orgulho disso. Claro que, além desses 30, muitos outros estavam perfeitamente aptos a fazer o curso, e eu sofri muito quando tive que eliminar a maioria deles. Mas é como eu disse na resposta anterior: há muita gente boa pronta para escrever novelas por aí, é tudo uma questão de chance.


Eu prefiro melão - Você alcançou uma popularidade e comunicabilidade maior com o público através de seu blog. Como freqüentador assíduo, percebo que muitas vezes você fala dos mais variados assuntos com genial sarcasmo e bom humor, mas é frequentemente mal interpretado, característica da linguagem escrita que, em tom coloquial, às vezes é prejudicada por não revelar de forma clara aspectos da linguagem oral como entonação, por exemplo. Enfim, percebo que em muitas ocasiões você brinca, ironiza, mas é levado a sério demais e acaba despertando polêmica com isso. Até que ponto você gosta de alimentar tais polêmicas e manter, de certa forma, sua “fama de mau”? Isso acaba contribuindo para que o blog obtenha um maior alcance?



Aguinaldo Silva - Tudo o que eu queria, quando me chamaram pra fazer um blog, era evitar o tom pessoal, do tipo “acordei, tomei café e fui no banheiro”, e ser mais opinativo e jornalístico. Claro, o blog me dá liberdade total, porque nele eu sou o que escreve e sou também o dono. Posso dizer coisas que não diria nas minhas novelas ou nos artigos que de vez em quando me são encomendados. Com o tempo eu descobri e aprimorei um tom muito pessoal de escrever que se tornou a cara do blog. Sou sempre sincero e direto, mesmo quando parece que estou apenas brincando. E sou polêmico. Isso, além do fato de que o blog fez muito sucesso, provoca uma certa ira em outros comunicadores, que fazem tudo pra me derrubar, mas imagina se eles conseguem...


Eu prefiro melão - Você é um dos autores que mais escrevem para mulheres. Suas personagens femininas são inesquecíveis e proporcionaram grandes momentos para grandes atrizes como Betty Faria, Renata Sorrah e Suzana Vieira, só pra citar três de suas “musas” mais presentes em suas novelas. O universo feminino é mais interessante? Que fascínio o feminino exerce em você?

Tieta (Betty Faria), Pilar Batista (Renata Sorrah) e Maria do Carmo (Suzana Vieira): grandes heroínas.

Aguinaldo Silva - Eu sempre digo, talvez simplificando demais o assunto, que “homem é muito chato”. O que eu quero dizer é que os homens continuam presos na camisa de força do machismo, sem conseguir entender o fato consumado de que as mulheres estão mudando. Esse processo de mutação das mulheres é que as torna mais interessantes. O universo feminino não para de se expandir, as mulheres ainda estão se descobrindo, é isso o que as torna, para um ficcionista como eu, mais fascinantes.


Eu prefiro melão - Como fã de seriados americanos, você já declarou inclusive que estudou a fundo alguns deles para escrever “Cinquentinha”. Quais são os seus favoritos e que elementos deles conseguiu transpor para a minissérie que, a princípio, seria um seriado?


Aguinaldo Silva - O número 1, e creio que ele não vai perder nunca esse posto, é “Os Sopranos”. Mas há outros seriados inesquecíveis. A primeira parte de “Deadwood”, “The Closer”, “Donas de Casas Desesperadas”, a primeira temporada de “The Riches”. “House” é um personagem e mais nada, “Anatomia de Grey” e “Brothers and Sisters” dois novelões mais caprichados, mas todos eles, juntos, são o que de melhor se faz atualmente, em matéria de audiovisual, no mundo, incluindo o cinema hollywoodiano. Vejo todos, nem seja pra dizer: “não gosto”. São verdadeiras aulas de roteiro. Pena que no Brasil ainda não se produza nada parecido.



Eu prefiro melão - Em “Duas Caras”, novela das nove destinada ao público adulto, a personagem Alzira, vivida por Flávia Alessandra, gerou polêmica por ser dançarina de pole dance, chegando inclusive a ter cenas cortadas em função disso. No entanto, basta assistirmos a alguns programas dominicais vespertinos, cuja classificação é livre e são assistidos por toda a família, para vermos que dançarinas de pole dance executam suas performances sem maiores problemas. Diante disso, você acredita que há uma perseguição à telenovela? Se sim, por que?



Aguinaldo Silva - Não há perseguição à novela, há perseguição à Rede Globo. E a questão não é moral, e sim política. A enorme audiência da Globo lhe dá um “poder” que não é visto com bons olhos. É preciso, como alguns dizem abertamente lá no Planalto Central, “destruí-la”. Isso já teria acontecido, por exemplo, se vivêssemos, como a Venezuela, numa “revolução bolivariana” (seja lá o que isso significa). O autor prejudicado, como eu fui, tem que ter uma visão mais ampla da história e perceber que seu trabalho é só um dado e ele é apenas um joguete no meio disso tudo.


Eu prefiro melão - Você é noveleiro? Quem são suas maiores referências no gênero? Quais novelas (não valem as suas) você julga serem memoráveis?


Aguinaldo Silva -. Vou lhe contar um segredo: vi pouquíssimas novelas. Antes de ir para a televisão, e isso aconteceu por puro acaso, eu era jornalista e trabalhava de quatro da tarde às onze da noite. Por isso as novelas estavam fora do meu universo. Escrever novelas nunca foi pra mim nem mesmo um objetivo remoto. Por isso só posso falar de novelas que vi, ou entrevi, a partir do instante em que, levado pelas mãos de Boni, aderi ao gênero. Sem contar as minhas não tenho referências no gênero.


Eu prefiro melão - Até que ponto o público interfere na criação do autor? Teria algum exemplo de novela sua que foi modificada pela interferência do público?


Aguinaldo Silva - O público, e não o produtor ou o autor, é o verdadeiro senhor da novela. É para ele que escrevemos e produzimos. Ele interfere na criação o tempo todo. Não tive nenhuma novela cujos rumos fossem totalmente mudados por causa da interfência do público, mas tive que mudar muitas situações por causa dele.


Eu prefiro melão - Inegavelmente, a novela é o grande fórum de discussão de nossa sociedade. Muitos assuntos polêmicos considerados tabus já foram apresentados em diversas tramas. E você, sem dúvida, é um dos autores mais ousados e transgressores, sempre contestando valores, desestabilizando noções cristalizadas e retrógradas do que seja moral, o que sempre incomoda os mais conservadores. Quais as maiores contribuições que você acredita ter dado através de suas novelas para o avanço da discussão de temas socialmente relevantes?


Aguinaldo Silva - Quando escrevo uma novela não penso em temas, mas sim nas minhas histórias. Sou um ficcionista desvairado. O problema é que sou também um cidadão, tenho gostos, preferências e posição política, e isso se reflete constantemente no meu trabalho. Se eu fosse falar de alguma contribuição que eu tenha dado em minhas novelas para o avanço da discussão de temas socialmente relevantes, eu citaria a minha obsessão em denunciar todas as formas de preconceito. O preconceito, como a inveja, é uma merda que nos tolhe a todos, vítimas e algozes. Gosto de pensar que em minhas novelas ajudei, de forma sempre cáustica e bem humorada, a denunciá-lo e a combatê-lo.


Eu prefiro melão - Você acha que o gênero telenovela é tratado com o devido respeito que merece por parte das instituições, tendo em vista que as primeiras iniciativas para se preservar a memória do gênero partiram de verdadeiros abnegados sem apoio institucional algum como o Nilson Xavier, criador do site Teledramaturgia, que contém informações de simplesmente TODAS as novelas produzidas no Brasil até hoje, José Marques Neto, criador do canal Mofo Tv, que divulga vídeos de novela e programas antigos, ou Guilherme Stauch, dono do famoso blog “Memória da TV”? O que acha de iniciativas como essas? Acredita que elas estão aumentando? Esse tipo de trabalho não deveria ser feito também pelo Ministério da Cultura?


Aguinaldo Silva - A telenovela é desdenhada pela universidade, que a ignora totalmente em seus cursos de roteiro. É desdenhada pela crítica que se diz especializada em televisão, que a considera o pior dos gêneros. É desdenhada até pelos jornalistas que cobrem o assunto, e o fazem de nariz torcido. Até os atores, quando querem brincar de ser sérios, dizem que vão dar um tempo nas novelas e que o cinema é o sonho de consumo deles... Pobre cinema brasileiro. As novelas são a preferência nacional, mas a importância do gênero nunca é reconhecida. Por isso iniciativas do gênero das que você citou são bem vindas. Não se iludam: o mais amplo e abrangente retrato da vida brasileira nos últimos quarenta anos não está no cinema, nem mesmo na literatura ou no teatro, está nas telenovelas.


Eu prefiro melão - Que conselho daria a um jovem roteirista que aspira a trabalhar na TV?


Aguinaldo Silva - Estude, viva, veja tudo que puder – filmes, seriados, novelas -, cole em alguém que já chegou lá e, quando sua hora vir, porque, se você for bom ela virá, esteja no lugar certo.


Eu prefiro melão - Por fim, gostaria de te agradecer muitíssimo pela generosidade em ceder a entrevista. Como autor, nem tenho o que comentar, afinal minha novela-xodó foi escrita por você. Mas nunca vou me cansar de elogiar sua coragem e sua postura admirável com a criação da Master Class e, principalmente, com o cumprimento das propostas e com os frutos que ela rendeu e ainda está rendendo. Como já disse em texto publicado aqui mesmo no melão, você provou ser “sujeito-homi”. Que bom que estou tendo a oportunidade de te dizer isso. Mesmo não fazendo parte diretamente do projeto, gostaria de te agradecer em nome de todos que buscam uma oportunidade em um mercado tão restrito e desejo mais sucesso ainda em tudo o que você realizar.

Aguinaldo Silva - Obrigado por ser tão generoso comigo. E não esqueça que outras “master classes” virão, e que, nelas como nas duas que já fiz, o que sempre valerá na escolha de alunos será o critério que mais prezo: o da competência.


Já responderam ao quiz sobre Aguinaldo Silva? Teste seus conhecimentos sobre as novelas do autor em:
http://www.quizyourfriends.com/take-quiz.php?id=1002200109044641&a=1  
Por Vitor Santos de Oliveira.
Agradecimento especial: Jackeline Barroso Pires
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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Promoção “Guia Ilustrado TV Globo” no melão!



 Como agradecimento a todos vocês, leitores que contribuem diariamente para o sucesso deste blog, o melão resolveu agraciar um de vocês com um "Guia Ilustrado TV Globo - novelas e minisséries", que traz informações sobre todas as 252 novelas e 66 minisséries produzidas pela emissora até hoje. Vale a pena se ter em casa!





O vencedor do exemplar será o primeiro a gabaritar o seguinte quiz:


http://www.quizyourfriends.com/take-quiz.php?id=1005051953154731&a=1&


MAS ATENÇÃO ÀS REGRAS DO CONCURSO:


1) Para ser considerado vencedor, o leitor deverá concorrer utilizando NOME E SOBRENOME ou ENDEREÇO DO TWITTER para facilitar a identificação. (Ex: Vitor Santos ou @vitorolive)


2) NÃO SERÃO CONSIDERADOS VENCEDORES AQUELES QUE CONCORREREM COM APELIDOS, FRASES OU OUTROS NOMES QUE DIFICULTEM A CORRETA IDENTIFICAÇÃO.

O vencedor será anunciado nesse post a qualquer momento. Obrigado a todos pela participação, boa sorte e divirtam-se!
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Parabéns, FÁBIO COSTA, você foi o vencedor da promoção (por que será que não estou surpreso? rs...)!!! Envie um e-mail para vitor77@gmail.com informando seu endereço completo para que o envio do seu prêmio possa ser providenciado.

A todos que participaram o meu muito obrigado. Aceito sugestões para um próximo concurso. Super abraço e até a próxima!

Ah, mesmo com a promoção encerrada, quem quiser testar seus conhecimentos, vale a pena responder o quiz.

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